É escuro, uma sala distinta que nunca havia visto, o que será que me aguarda depois de alguns passos?

Sei que sonho, sei que é uma ilusão. Quero abrir meus olhos, porém não sei o que me impede dentro dessa imensidão. Caminho devagar, não me assusta. Sinto uma brisa de vento passar por meus dedos, o que significa que a saída está atrás de mim, corro ligeiro. Eu estou dentro de uma casa... é a casa dos Todoroki, tudo ficou claro.

Gritos decorrentes, a mulher pede socorro, ela grita, minha mãe. Sinto o coração bater na garganta pronto para saltar. Abro uma porta, os lábios secos da mulher exclamam por ajuda, mas não ouço, o que eu posso fazer? Eu estou paralizada, o que eu faço? Os fleshes de quando eu era criança apareciam diante de mim, neste horrível sonho.

Era verão e estávamos na nossa antiga casa, era maior e podíamos andar por cada centímetro que quiséssemos se não fosse por ele. Ambição, perseguição, minha mente em combustão. Shoto se encontrava caído no assoalho em madeira, já cansado, gritava. Endeavor berrava firme, chamas densas, eram muitas as informações. A porta se arreganhou, quando mamãe entrou correndo entrelaçando seus braços em volta do meio a meio, pedindo para que seu marido parasse com todas aquelas maldades. Aquilo era muito, por um instante eu fechei meus olhos, e meus ouvidos se calaram também, não ouvia nada. Ao voltar a ver, ainda sem ouvir, em lágrimas mamãe estava, e eu podia ler seus finos lábios implorarem: "ajuda, ajuda". Eu fui fraca, minha mente forçava minhas pernas, mas ainda assim não se moviam. O homem se voltou a mim, me agarrando pelo braço. Com um suspiro assustada, a audição retorna, mas algo mudou, não posso me expressar, eu não consigo mais falar.

— [Seu nome] acorde! — minha visão estava turva e embaçada, vejo a cabeleira de meu irmão.

Me sento rápido, eu estava chorando enquanto dormia, odeio esta sensação. Meus batimentos tentam voltar a bater regularmente, sinto o corpo gelar e meus cabelos tomarem cor azul-claro intenso, a preocupação com o que vem além do tempo ainda vai me sufocar, sinto isso, sei disso. As lágrimas derramam devagar, será que alguém pode me escutar?

— O que aconteceu? Você está bem [Seu nome]? — Shoto segura meus braços firme.

“Não é nada, um sonho ruim”, fazia gestos.

— E o que era? Sabe que eu fico preocupado, não sabe?

“Já disse que não é nada para se preocupar”, não o olhava diretamente.

Se eu quiser me descobrir, preciso deixá-lo por um tempo, os sentimentos além da minha própria compreensão não poderiam ser desvendados por Shoto, o mesmo que acabara por sair irritado. Levemente, com meus finos dedos, coloco delicadamente os fios de cabelo que cobriam meu rosto atrás das orelhas.

Me descobrir... é isso o que eu preciso saber. O meu destino... o que o define?

[...]

Me vejo avoada, tanto que ao sair esqueci de me alimentar. Com os olhos fitados ao chão, não consigo sequer admirar a paisagem que tanto amo, o céu. Seguro a barra da saia firme enquanto tento esquecer as sombras ruins que tem me perseguido por todos esses dias, as memórias do tempo que já não há de retornar. Relutante, me sento atrás do loiro irritante que resmunga coisas inaudíveis.

— Ohayo turma. — Aizawa-sensei cruza a porta acompanhado de seu belo saco de dormir — Assim como a senhorita [Seu nome] Todoroki, teremos mais um aluno entrando em hora indevida, recebam seu novo companheiro, entre.

Subindo dos pés a cabeça, meu olhar era entregue por cada detalhe da roupa do garoto que entrara, apesar de ser somente o uniforme costumeiro de todos neste estabelecimento. Sua postura desleixada me encaminha até seus largos ombros, chegando assim em seu rosto totalmente familiar, reconheço a cabeleira roxa. Hitoshi Shinsou somente suspirou ao fixar seus olhos nos meus.

— Oh, é o garoto que veio tirar uma com a nossa cara no festival! — Kirishima apontou.

— Eu vou explodir a sua cara se não sair daqui. — os punhos do zangado a minha frente emanavam fumaça.

— Ohayo perdedores. — seus lábios sorriam estranhamente — Me chamo Hitoshi Shinsou, e me transferi para o curso dos heróis.

— QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE PERDEDOR SEU MERDINHA? EU JURO QUE ACABO COM VOCÊ!

— Silêncio! Espero que se dêem bem, entenderam? — seus olhos vermelhos me causam arrepios na espinha — Bem, vamos a aula, hoje aprenderemos os métodos de intensidade de individualidades, qualquer que seja ela. Tendo isso em vista trabalharemos em duplas, o panfleto atrás da porta mostrará isso a vocês. E sem escândalo, isso serve para você principalmente Bakugou. Coloquem seus uniformes, nos encontramos na área beta.

— Você é um inútil em tudo mesmo Bakugou. — riu Hitoshi — E eu pensando que teria a possibilidade de você ser bom em algo.

— Você deveria manerar nesse seu linguajar. — Todoroki cortou o breve ataque de raiva do garoto bomba a sua esquerda — Estamos nessa a mais tempo que você, o mínimo que você pode fazer é ter respeito.

— Eu estou com a Tsuyu! — Uraraka saltitou alegre.

— Shoto é meu parceiro, será um prazer trabalhar com você. — Tokoyami saiu satisfeito.

— COMO ASSIM EU VOU TRABALHAR COM O DEKU DE MERDA?! DEVE TER ALGUM ERRO DE DIGITAÇÃO NESSA PORCARIA! — berrou Katsuki em pura indignação.

— Ca-calma Kacchan.

— Oe, garota do cabelo colorido, somos eu e você, boa sorte. — um sorriso de canto se formou no rosto de Hitoshi.

Sinto o rosto quente de repente, os fios de cabelo tomam cor rosa novamente. Seu sorriso, tão caloroso e afetuoso, não tem preconceito em seu olhar, poderei o ver sem sequer notar?

Os devaneios me são tomados pela corrente de vento vindo da janela logo atrás de mim, me retiro calmamente.

Os corredores com cores apagadas me lembram a antiga casa que tivemos, era grande, totalmente diferente da que temos hoje, tão pequena e cheia de coisas, e ao mesmo tempo vazia e sem absolutamente nada.

Suspiro um pouco tensa, os fios azuis esvoassam preocupados pelo ar. Penso na mamãe, se ela quer me ver não poderia ser algo ruim, ou poderia?

[...]

O vestiário abafado pelo vapor dos chuveiros é deixado por mim e pelas garotas que se dirigiam a área beta com determinação. Tento esticar o máximo que consigo do uniforme para criar elasticidade e maciez, mas aparentemente o material é realmente forte o suficiente para ficar colado ao meu corpo, Nemuri-sensei realmente se superou, creio que nem ao menos o seu próprio uniforme seja tão agarrado como este. Neste meio tempo acabo por ficar para trás.

Saltitante, corro depressa. Ao cruzar o corredor me deparo com um sujeito desprezível. Endeavor... o que faz aqui?

Somente respirar não irá adiantar, os fios amarelos do cabelo que antes era vermelho se deixam ser levados pelo ar com o vento atrás de mim. Deposito a mão esquerda em meus lábios, que em seguida era coberta pelas lágrimas derramadas. O homem me encara, mas evito seu semblante a todo custo, a visão está embaçada. Com um puxão repentino, me deparo com o peitoral de Shinsou que morde seu lábio inferior. Meu corpo treme por inteiro, o que me impede de sinalizar para o mesmo, que me leva até um lugar vazio.

— Por que está chorando? — usou o próprio uniforme para secar minhas lágrimas — Não me diz que é só uma garotinha medrosa, é? Vamos, respire, Aizawa-sensei deve estar nos esperando.

Nos reunimos em um grande círculo fechado prestando atenção nas palavras em um sonido tedioso de Aizawa, que alisava sua barba falhada com os dedos ásperos. Tento ajustar o uniforme, está um pouco colado e justo demais, sinto olhos maliciosos me encararem. As garotas resmungam a minha frente enquanto me encaram, é desconfortavelmente incômodo, quero desaparecer. Hitoshi surge surpreendente ao meu lado, colocando sua mão em meu ombro esquerdo.

— Espero que todos estejam presentes. Bem, cada aluno irá praticar com sua dupla a própria individualidade, porém, será avaliado os seus limites, quero que vão além independente de sua peculiaridade, — olhou diretamente para Shinsou — este treinamento só irá terminar, quando todos estiverem de acordo com os meus pontos. Já que estão tão animados, vamos, se separem e comecem.

— Aizawa, sabe que isso não é justo comigo. — o roxo ao meu lado disse.

— Aizawa-sensei você quis dizer, certo? — se virou com os olhos vermelhos — O que você não acha justo?

— Ela é muda, como quer que eu use meus poderes em alguém que não fala?

— É exatamente por isso, vamos testar o quão forte você é. — o encarou sério —Shinsou, lembre-se do que conversamos... consiga isso e eu o treinarei como desejar.

— Sim senhor. — suspirou profundamente — Eu quero começar garota, então se prepare.

Segurou ele os meus punhos com sua própria fita, enquanto eu me desvencilhei delas sem precisar do uso de minhas chamas. Esperei o mesmo avançar outra vez, porém o mesmo parecia mais dependente de suas próprias ideias de como conseguir me controlar, do que avançar e vencer. Afinal, este é o objetivo.

— Então, por que estava chorando? — parou ele por um instante.

“Não tem porquê uma garotinha medrosa como eu te dizer”, lancei chamas em seus pés.

— Ficou brava é? Peço desculpas. — arqueou suas sombrancelhas de repente — Não funciona, mas que droga!

[...]

Se passou um bom período de tempo que começamos a treinar, extremamente esgotados. Caio sentada sobre o chão, o estômago ronca mais alto desta vez. O pôr-do-sol, em mescaldos de laranja e amarelo se desfazem em meio a escuridão que começa a se formar acima de nós, um punhado de estrelas. Com o meu próprio braço, retiro o suor da testa rápido, admirando a paisagem.

— O que está olhando? Se levante, ainda não acabamos com o treinamento, eu vou conseguir dessa vez! — Hitoshi estendeu a mão para mim.

— Acabamos sim rapaz, vão para os seus dormitórios, continuamos amanhã de manhã. — Aizawa-sensei se retirou calmo.

Ninguém ousara se mexer do lugar que estava, se encontravam cansado demais até mesmo para se deslocarem de seu ponto fixo, inclusive eu. Shinsou desmonta ao meu lado, olhando para a mesma direção que minhas orbes brilhantes encaram. Percebo que o mesmo tenta compreender o que tanto admiro, o que tanto venero no momento.

— O que há de tão interessante no que vê? — o mesmo me pergunta.

“É lindo”, fiz em sinais mesmo, na esperança de que compreendesse.

— Sim, até que é sim.

“Não sabia que entendia a linguagem de sinais”, o olhei.

— Eu sei um pouco. — suspirou — Se parece muito com você.

“O que se parece comigo?”, lhe perguntei.

— O céu sabe, como você disse... É lindo.

“Você acha mesmo que sou linda?”, com o rosto quente, comecei a corar.

— Ah, dá pro gasto né. — lhe dei um soco — Ei, é brincadeira, calma.

“Idiota”.

Ele começou a rir como se estivesse se divertindo. Apesar do rosto sujo, ainda é lindo e talvez... inocente, sim. Meus cabelos tomam a cor laranja de repente, ainda encaro quando o mesmo me contagia com sua própria risada. Colocamos nossas mãos, nada propositais, uma em cima da outra causando faíscas estranhas pelo meu corpo, tenho a impressão de que ele sentiu o mesmo. Sinto uma sensação boa e calorosa, que não sentia em muitos dias de tensões.

— Então [Seu nome], — tossiu para disfarçar — o que essa nova cor significa?

“Isso significa... que pela primeira vez em muito tempo... alguém me fez feliz”...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.