Garin - O Filho das Cinzas
1 Capítulo 1 - Garin, O Cinzento
Notas iniciais
Garin rezava sob a copa da santareira, uma prece tão morosa que facilmente poderia ser confundida com um sussurro inarticulado.
— Precisa rezar um pouco mais alto se quer ser ouvido pelo Senhor da Alvorada — disse Mãe Gálata aos seus ouvidos.
Já não sou ouvido de toda maneira, pensou.
Além das alvas paredes, o sol despertava iluminando as planícies e dando fim a sua velada penitência cotidiana. Os vitrais ao seu redor filtravam a luz, irradiando sobre Garin uma profusão de matizes que o abraçavam com um fulgor reconfortante. Acima de sua cabeça os pássaros abandonavam seus ninhos e voavam a esmo, e no interior da Casa Alva, abafados pela distância e pelas paredes, os sons de passos e vozes faziam-se ouvir.
Mãe Gálata espetou uma adaga no delicado tronco da árvore e com a seiva que escorrera pela lâmina, ungiu sua testa.
— Que o Senhor da Alvorada guie seus caminhos, purifique sua carne e te aqueça com seu benevolente sol — ela disse, como dizia continuamente todos os dias.
— Que assim seja — respondeu cabisbaixo.
Ela limpou o excesso de seiva viscosa nas vestes brancas e voltou a guardar a lâmina em um dos bolsos.
— Já é de manhã, é hora de irmos — ela disse.
Ajoelhar sobre aquelas protuberantes raízes nunca fora tarefa fácil, muito menos agradável, mesmo depois de tantos anos ainda se acostumara a dor — não importava o que Mãe Gálata dissesse, a dor nunca se tornava mais tolerável —, as raízes lhe mordiam os joelhos e as canelas, deixando para trás a marca de seu toque áspero. Ergueu-se com dificuldade, lutando contra as pernas bambas e sem sensibilidade. Escorou-se na árvore e ali permaneceu por um tempo enquanto recuperava as forças.
A santareira era quente ao toque. Seu tronco liso e vermelho como sangue parecia mais vivo do que ele próprio, e isso lhe trazia profundo conforto. As folhas eram como vestidos de seda pendurados no varal, balançando a mais sutil ação do vento. E os frutos, eram doces, diversos e contínuos, diferentes das árvores sazonais. Goiabas, maçãs, figos, ameixas, castanhas e pinhas dividiam espaço nos galhos. Não era sem motivos que tantos pássaros faziam daquela árvore sua estalagem. Mãe Gálata chamava-lhe de a "árvore sagrada", e não era difícil saber o porquê, a árvore de frente à entrada, elevando-se através do telhado, era tudo, exceto apenas uma árvore.
De repente uma mão firme o agarrou pelas vestes, tirando-o de seu torpor e o arrastando pelo chão terroso, fazendo-o bambolear.
Ao seu redor os Padroeiros fitavam-no com um olhar de profundo pesar. Não sabia dizer como, mas algo na forma com que foram esculpidos os vitrais fazia-os parecer que estavam em uma eterna e infelizes vigília, observando um céu desolado onde uma única estrela cintilava acima de cada um. Garin conhecia a todos os doze como se conhece a um amigo. Havia Garel, o Gigante e sua enorme espada de pedra; Araliv, a Abençoada; Tezlael do Fogo Celeste; Raqqar, o Trilhador; Barrit da Língua de Prata; Leohard, o Genioso; Elzard e Mandriel; Aleanara, a Justa; Judaqe Brado de Boi; Howko, o Monge; e a besta, Keseive, o Fiel. Com o tempo muitos haviam esquecido seus nomes e seus feitos; mas a Casa Alva ainda se lembrava, e Garin igualmente.
Lá fora uma neblina densa cobria os campos, as plantações e o vilarejo no sopé do monte. Tudo que se via eram telhados e copas de árvores simplórias. Se se atentasse, poderia com sorte ter o vislumbre de um cavalo, ou quem sabe, uma pessoa. Mas Mãe Gálata não lhe dava trégua, e tão logo saíram para a luz do dia, ela o arrastou de volta para dentro das sebes contiguas à entrada, onde um balde e um sabão o esperavam.
Vestido era um menino amuado e simplório, nú, era um menino magricela e pesaroso. Mãe Gálata o despiu e jogou-lhe uma cuia de água da cabeça aos pés, fazendo seus cabelos lânguidos escorrerem pelos olhos como uma máscara e seus ossos se contraírem com a gelidez da água.
— Está fria? — ela questionou, medindo a temperatura com uma mão. — Não, está quente.
Para ela talvez, mas para Garin estava sempre fria.
— Po... posso tomar ba...nho mais tarde2 — disse hesitante.
— Sabe que a hora da manhã é a hora abençoada em que o Senhor da Alvorada nos observa — ela respondeu, jogando-o mais um bocado de água.
Com uma expressão obstinada, ela esfolou-o com um sabão duro que guardava as espumas só para si. Esfregou, esfregou, esfregou. Com a costumeira dedicação de uma lavadeira que se esforça para tirar a sujeira de um pano velho. Por fim, com uma expressão de contrariada, a mãe o enxaguou e o deixou ao sol para se secar. Nú, Garin se vestiu com a luz da manhã, sentindo o toque tênue do sol a esquentá-lo, mesmo que em uma pequena dose. Sentia-se dolorido pela força com que ela o esfregara, mas estava lavado afinal, mas a praga continuava a lamber sua pele cinza como os restos de uma fogueira apagada.
— Nunca ficarei limpo, isso nunca sair — disse, enquanto ela o vestia.
Mãe Gálata fitou-lhe com um olhar consolador.
— Não diga isso Garin, um dia será curado, estou certa que sim. Não gostaria disso?
E como gostaria. Poderia enfim viver dentro da Casa Alva, teria uma cama quente e tomaria leite quente todos os dias; e teria amigos, gente que o quereria por perto.
Garin assentiu sem demonstrar nenhum sorriso. Mãe Gálata, como toda mãe, mesmo que postiça, sabia lê-lo como um livro aberto, sabia que há muito ele perdera as esperanças. Até mesmo seus olhos não acreditam mais que eu possa ser curado, pensou o menino com tristeza.
— Tem que acreditar Garin, a fé é o alicerce de todas as curas. Quando o Senhor da Alvorada se comprazer da obra de suas mãos, você terá a benção que busca.
Garin a ignorou, desviando os olhos para a balbúrdia que acontecia do outro lado de uma janela voltada para a cozinha. Se depender de minhas mãos, serei sempre o que sou, concluiu.
Ela envolveu as mãos em seu rosto, eram calejadas e enrugadas, mas gentis, quentes e afáveis. Por um momento pensou que poderia acreditar em suas palavras, mas tinha consciência que não passavam de versos ao vento, águas correntes de um rio caudaloso que nunca levava à lugar algum. E mesmo no calor de suas mãos, sentia o frio que tão teimosamente gelava seu peito. Ela parecia ver esse frio com nitidez, mesmo com aqueles olhos já cansados pelo labor de uma vida de devoção.
— Seus cabelos estão tão compridos, eu poderia corta-los, se quiser — ela disse de repente, mudando de assunto. Tomou uma mecha de sua franja com dois dedos em forma de tenazes e avaliava a altura do corte.
Garin balançou a cabeça em negação, soltando-se de suas mãos. Ela não poderia tirar-lhe a única coisa que possuía, seus cabelos eram a máscara que o escondia dos olhares que o desprezavam.
— Seria uma ovelha sem lã — respondeu, arrancando dela um sorriso.
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