Garantias
1 Capítulo único
Notas iniciais
Emily nem ao menos sabia o nome da antiga comédia romântica que estava passando naquele momento – ela e Alison haviam ligado a tv provavelmente na metade do filme –, mas isso não a incomodava nem um pouco. Afinal, as luzes estavam baixas e ela sentia-se confortável em seu pijama, rindo de vez em quando. Ela podia fingir que Alison havia lhe enviado uma mensagem mais cedo, dizendo simplesmente “ei, que tal vir aqui em casa e assistir àqueles filmes ruins da sessão da meia-noite comigo?”. Ela podia até mesmo fingir que ela e Alison eram jovens com vidas normais, que passavam a noite juntas como qualquer outro par de melhores amigas no mundo. E tal tranquilidade momentânea era de um valor inestimável.
Porém, Emily desceu das nuvens assim que notou Alison movendo as mãos por baixo do cobertor; e então, o que a loira confessara mais cedo voltou a ela como um, ainda doloroso, choque de realidade.
Em um primeiro momento, pareceu que Alison estava apenas acariciando sua própria barriga, mas em sua expressão estavam estampados angústia e desconforto. Não eram carícias. A garota, aparentemente, desejava poder arrancar o que havia começado a crescer ali dentro.
— Ei – Emily chamou-a suavemente. Alison virou o rosto para ela e o rastro de uma lágrima que percorria sua bochecha brilhava no ambiente pouco iluminado. Emily ergueu o controle remoto por um segundo e silenciou a tv, enxugando do rosto de Alison a lagrimazinha solitária em seguida. – Fale comigo.
Alison olhou para baixo, permanecendo em silêncio.
— Ei – Emily repetiu, um tanto mais incisivamente, trazendo o rosto da loira para si com uma das mãos. – Eu falei sério antes. Muito sério. Estou aqui e sempre estarei aqui. Quero saber exatamente o que está te afligindo.
Alison engoliu em seco, colocando novamente uma mão sobre a barriga.
— Você acha que eu devo ficar com ele?
Ele. Emily sentiu seu coração errar algumas batidas. Era com certeza uma palavrinha intensa.
— Ali, isso é... – ela gaguejou. Droga. Emily simplesmente odiava soar incerta como seu eu de uma década atrás. – isso é uma pergunta tão delicada. Cabe a você decidir isso e somente a você.
— Você acha que eu devo ficar com ele? – Alison impacientemente enfatizou, como se a resposta da morena fosse extremamente crucial.
— Sim – Emily disparou simplesmente, surpreendendo-se. – Sim, eu acho.
Uma mistura de desapontamento e medo fez o rosto de Alison empalidecer.
— Meu bem, por favor, me escute – Emily pediu, calma e cuidadosamente, na esperança de que Alison fosse atentar-se a cada palavra. – Quando sua mãe morreu, seu mundo desmoronou, não foi?
Alison assentiu com os olhos pregados nos de Emily.
— E quando Charlotte morreu, ele desmoronou um pouquinho mais, certo? – Emily prosseguiu; outro leve aceno de cabeça seguiu sua pergunta. Ela sorriu e pôs uma das mãos sobre a de Alison, que ainda estava em sua barriga. – Meu bem, você provavelmente não faz a mínima ideia disso agora, mas essa criança vai reconstruir o seu mundo por conta própria e em um tempo muito menor do que você imagina. Na verdade, assim que você ouvi-la chorar pela primeira vez, vai sentir algo que nunca sentiu antes. E nada jamais será tão gratificante.
Alison com certeza aparentava estar um tanto impressionada com a confiança no tom de Emily – quer dizer, ao menos Emily estava impressionada consigo mesma; afinal, a morena nunca havia sido mãe. Independentemente de tal fato, Emily sentia que nunca havia dado um discurso motivacional para alguém com tanta segurança antes.
— E quando você segurar esse bebezinho nos braços pela primeira vez – Emily emendou, sentindo as lágrimas já agrupando-se no fundo de seus olhos –, confie em mim: a última coisa em que você vai pensar será se ele herdou ou não os olhos do desgraçado.
Alison riu, fechando brevemente os olhos para livrar-se de duas lágrimas, uma em cada olho. Emily não as enxugou desta vez porque tais pareciam ser lágrimas de felicidade.
— Você vai estar lá comigo? – perguntou Alison, soando inocentemente esperançosa – Para me ver segurá-lo pela primeira vez?
Emily levou um momento para responder, não porque ela não sabia a coisa certa a dizer desta vez, mas porque ela quis parar e contemplar o olhar de Alison e o som daquelas palavras, que eram convites, precisamente.
— Eu não perderia isso por nada no mundo.
Alison não sorriu, apenas alternou seu olhar entre os olhos de Emily e os lábios dela algumas vezes, antes de inclinar-se para beijá-la.
Emily acolheu Alison em seus braços prontamente, correndo os dedos por entre os cabelos dela, e foi impossível para a morena não viajar instantaneamente de volta no tempo, para a primeira e única noite que as duas haviam passado juntas, há seis anos. Emily entregara-se tanto àquele momento, infinitamente mais que Alison; porém, agora, era Alison quem jogava tudo para o alto e agarrava Emily com força, beijando-a ardente e desesperadamente.
— Você será uma mãe maravilhosa – Emily afirmou, ofegante, uma vez que Alison já estava por cima dela no sofá.
Alison delicadamente empurrou uma mecha do cabelo de Emily para trás da orelha da morena e começou a desabotoar a parte de cima do pijama dela.
— Você também.
Ao ouvir tal afirmação, Emily decidiu ajudar Alison no processo fazendo a parte de cima de seu pijama voar pela sala da loira. Em seguida, puxou a camisola de Alison por cima de sua cabeça e a peça também alçou voo, aterrissando no tapete do outro lado do cômodo.
Emily inverteu as posições, ficando por cima de Alison e trilhando beijos do pescoço da loira até seu umbigo.
— Eu já amo tanto você – Emily murmurou contra a pele da barriga de Alison. – E, uma vez que você já estiver aqui fora, vou amar ainda mais.
Alison soltou um risinho emocionado, enterrando seus dedos nos cabelos de Emily.
— Linda... – ela sussurrou entre um suspiro denso.
Emily ergueu-se até o nível dos lábios de Alison outra vez e beijou-a brevemente.
— Você é linda – Emily enfatizou, enquanto uma de suas mãos encaixava-se entre as pernas de Alison e começava a acariciar o local já úmido.
A face da loira contorceu-se em prazer no mesmo instante e ela arqueou as costas minimamente, soltando um gemido abafado.
Alison estava tão ansiosa, tão carente, tão sedenta por tal contato, que cedeu ao orgasmo logo nos primeiros toques. Seu último gemido assemelhou-se quase a um pedido de desculpas por não ter conseguido conter-se por mais tempo. Mal sabia ela que tal descontrole seria o responsável por levar Emily a seu próprio clímax, segundos depois.
Emily relaxou parcialmente sobre o corpo de Ali; sua intimidade rente à dela, ambas ainda quentes, latejantes.
— Não foi assim da primeira vez, foi? – Alison sorriu, manhosamente enlaçando o pescoço de Emily com os braços.
Um sorriso bobo alargou-se no rosto de Emily.
— Assim como?
Alison pareceu pensar nas palavras com cuidado.
— Tão... cheio de amor.
A voz aveludada de Alison chegou aos ouvidos de Emily e enterneceu ainda mais aquele coração já derretido. As bochechas da morena esquentaram de tal forma que ela precisou de um segundo para se recompor.
— Não, não foi – Emily concordou, refletindo novamente sobre aquela primeira noite.
O quarto de Alison estivera quase que completamente escuro; somente a singela luz da lua ajudara Emily na hora de movimentar-se junto com a loira. Ela tivera apenas vislumbres do corpo de Alison naquela noite, não pudera vê-la por inteiro. Não pudera nem ao menos guardar na memória a expressão de Alison no momento em que o orgasmo a atingira. E para piorar, as duas não trocaram uma só palavra sobre o que acontecera na manhã seguinte. Elas nem ao menos acordaram juntas; Alison já havia se vestido para a escola quando Emily abrira os olhos. No final das contas, a coisa toda havia se tornado uma lembrança amarga na mente de Emily.
— Você esteve nua diante de mim naquela noite – a morena emendou, ainda imersa em pensamentos, e deslizou para o lado direito de Alison no sofá, ficando com as costas rentes ao encosto deste –, mas agora é a primeira vez que eu estou te vendo totalmente despida. De seus medos, de suas inseguranças, de suas máscaras – ela acariciou um lado do rosto de Alison e beijou-a na testa. – E eu nunca pensei que pudesse te amar tanto.
Os olhos azuis de Alison agora estavam caídos devido ao arrependimento. Emily podia lê-los perfeitamente; estavam recheados de “eu sinto muito”, que obviamente não precisavam ser verbalizados.
— Eu também te amo – Alison optou por dizer, aninhando-se nos braços de Emily. – Sei disso há bastante tempo. Mas estou medo, e só descobri isso hoje.
Emily baixou o olhar para a figura de Alison agarrada a ela como se ela fosse um ursinho de pelúcia em tamanho real e franziu as sobrancelhas.
— O que quer dizer?
— Paige – Alison respondeu dois segundos depois. – Quando eu vi você com ela hoje mais cedo, Deus, eu me senti tão mal. E tão suja. Porque eu sei que não tenho direito algum de sentir ciúmes de você com outra pessoa.
Emily já ria internamente antes mesmo de Alison terminar a confissão. Beijou a testa da loira outra vez.
— Meu amor, devagar.
Alison pregou o olhar parcialmente espantando em Emily; era como se ela não acreditasse que aquelas duas palavras haviam antecedido aquele conselho. Respirou fundo.
— Você estaria aqui me dizendo todas essas coisas se eu não tivesse te contado que estou grávida? – Alison cuspiu a pergunta de uma só vez em um tom arredio, quase magoado. Ela com certeza ainda não estava totalmente despida de suas inseguranças.
Emily também respirou fundo. Aquela era mais uma pergunta delicada e ela teve que esperar por um momento até que a resposta adequada surgisse em sua mente.
— Lembra de como Spencer costumava dizer que todos os caminhos nos levavam de volta ao Radley, não importava o quão distante nós estávamos de encontrar novas pistas a respeito de A? – Alison assentiu brevemente, deixando que Emily prosseguisse – Bem, todos os caminhos que eu percorro me levam de volta a você. Não importa o quão longo certo caminho seja, sempre há um cruzamento onde eu dou de cara com você. E de repente tudo o que eu sentia por você aos treze anos volta, só que ainda mais forte. Agora, eu com certeza estaria mentindo se dissesse que o fato de você estar grávida não fez diferença nenhuma. Ora, é claro que fez. O último dos caminhos desse labirinto de desencontros foi encurtado.
Os olhos de Alison estavam marejados outra vez, mas Emily sentia que ela precisava de apenas mais uma garantia para, então, poder relaxar.
— Como sabe que esse é o último dos caminhos?
— Porque eu sempre desejei que você estivesse no fim de algum deles, disposta a construir uma família junto comigo. E aqui está você – Emily beijou a ponta do nariz de Alison, que riu como se sentisse cócegas –, me garantindo que eu serei uma boa mamãe. Isso quer dizer que é oficial. Eu não preciso mais caminhar em busca do meu maior sonho, apenas junto com ele, para o resto da vida.
Fale com o autor