Game Time
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Quem sabe, um dia, eu não posto algo decente? :P
— Qual é o problema com ela?
O homem desviou seu olhar do vidro unilateral para a nova funcionária. A garota de lá dentro era ciente dos olhares, embora não pudesse senti-los.
— É o que vamos descobrir — ele respondeu.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele destrancou a porta, e entrou na sala. Era fácil sentir-se intimidado pelos olhos fascinantes da garota, eles eram completamente pretos, uma raridade no mundo.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou, ajeitando-se na cadeira à sua frente.
— Vocês sabem qual é o meu nome — ela disse, sem emoção.
— Eu quero que você diga — ele estimulou.
Ela olhou ao redor, como se procurando algo mais interessante para distrair-se.
— Podemos ficar aqui quanto tempo quiser — ele deu de ombros, demonstrando desinteresse.
— Narelle — ela suspirou, entediada.
— Narelle de quê? — ele insistiu.
Dessa vez, ela não parecia disposta a responder. O homem decidiu que era melhor mudar o foco da conversa, ou não avançariam.
— Sabe por que te trouxeram aqui? — ele perguntou.
— Por que não tinham nada melhor para fazer?
Do outro lado do vidro, a estagiária observava, estranhada, como a garota não parecia preocupada por estar sendo investigada.
— Violet, o que está fazendo parada aí? — sua observação foi interrompida, quando um de seus superiores chamou-a — Vamos! Tem trabalho burocrático a fazer...
— Estou esperando por Ry... — ela tentou explicar.
— Não importa! Faça o seu serviço, depois você volta.
Ela virou-se contrariada, indo em direção ao bebedouro, na esquina do corredor. Tomando um gole do copo de plástico, ela escutou como a porta da sala bateu com força, e Ryan passou pelo corredor, irritado.
Aproximando-se da porta, viu como a porta estava aberta, e apressou-se em direção à ela.
— Entre — ela ouviu a garota dizer — Temos muito o que conversar.
Era inconsequente, mas ela fechou a porta atrás de si.
— O que eu teria a conversar com você? — perguntou — Não nos conhecemos.
— Você sabe quem eu sou, eu sei quem você é. Acho que isso pode ser classificado como conhecimento — disse Narelle, olhando-a tranquila — Você tem os olhos iguais aos meus.
— Não, eu não tenho — ela retrucou, engolindo em seco.
— Lentes de contato são realmente úteis — a garota riu — Inteligente de sua parte, infiltrar-se na Comanda dessa forma...
— Eu não estou infiltrando-me. Este é o meu trabalho, fui transferida.
— Jamais teriam aceitado-a, se soubessem sobre você.
Violet olhou para o vidro unilateral, como se esperando poder ver quem estava por trás dele, já que a outra garota parecia conseguir.
— Como foi descoberta? — perguntou, voltando-se para ela.
— Eu não fui — e acrescentou, ao ver seu olhar descrente — A cor dos olhos é autoexplicativo, creio. Você foi inteligente...
— Você podia ter saído daqui, antes de eu entrar... — observou Violet.
— É claro, mas queria saber a sua história. Somos muito procuradas, nos dias de hoje — disse Narelle, apoiando-se na mesa — Eu te conto a minha.
Observar para aqueles olhos inteiramente pretos era como olhar-se no espelho, com a clara diferença da cor de cabelo e pele.
— Eu não conheço os meus pais. Suponho que nenhuma de nós tenha conhecido — disse Violet, dando de ombros — Eu não sei como isso funciona direito... Eu só sei que, um dia, eu estava saindo do colégio, e as coisas aconteceram.
— O que aconteceu? — ela perguntou, olhando-a fixamente.
Ela negou com a cabeça, e Narelle encostou-se na cadeira.
— Se entregar a mim, jamais desconfiarão de você — ela disse — É só me dizer a sua história.
— Começou com um prato caindo, e eu conseguindo pega-lo a tempo. No começo, pensei que se tratasse de sorte... — disse Violet, olhando para as suas unhas perfeitamente circulares — Então, eu entrei na Comanda, e houve um caso. Tiros... Eu consegui desviar com facilidade. Aí eu entendi que podia mexer com o tempo.
— Não mexemos com o tempo — ela negou com a cabeça — Não tem como voltar ou acelerar... Tem como pararmos, moldarmos a nosso favor.
— Por que isso é tão perigoso? — perguntou.
Narelle negou com a cabeça, como se não acreditasse na pergunta feita.
— Já pensou se todos pudessem fazer isso? Parar o tempo à vontade? — ela retrucou — Todos poderiam fazer o que quisessem, sem punições... É claro que a Comanda não quer isso.
Violet sentiu o seu estômago embrulhar-se, quando Narelle inclinou-se, olhando para o vidro, cautelosa.
— Você pensou que a Comanda era como uma... Polícia — a palavra soava estranha aos seus ouvidos — Mas eles existem para nos caçar. Eles não podem provar que eu sou uma paralisadora.
— Mas os olhos... — tentou argumentar.
— Não são uma prova concreta. Há pessoas que herdam isso, eles já comprovaram.
Um silêncio permaneceu entre elas, como um compreendimento mútuo.
— Eu não vou te entregar — disse Violet.
— Deveria — retrucou a outra — Não estará segura para sempre.
— Tecnicamente, eu não deveria estar aqui.
— Mas está.
Agora dava para entender a raiva que Ryan sentiu. Narelle era difícil de lidar, talvez fosse por isso que foi levada até ali.
— Sua vez — disse Violet, de repente.
— Eu moro em uma casa com vários paralisadores. Fui criada por duas — disse, ignorando o desconcerto da outra garota — Com o passar do tempo... As coisas foram ficando feias. Você sabe, a Comanda tem seus contatos.
Um barulho foi escutado do lado de fora, embora abafado pela distância.
— Eu preciso ir — disse Violet, levantando-se, apurada.
Não recebeu resposta, e virou-se, pronta para ver a garota encostada, como se estivesse em sua sala de estar. No entanto, o seu dedo sustentava um pedaço de vidro negro.
Lentes de contato.
— Você... — ela murmurou, chocada.
Olhando para os olhos dela, viu que eram perfeitamente verdes.
— Uma vez, disseram-me que “Narelle” significa “vinda do norte” — a garota sorriu para ela, cínica.
O norte era onde ficava a sede principal da Comanda.
— Acho que não vai conseguir escapar desta vez — disse, olhando-a com pena.
A porta abriu-se, Ryan entrou, apontando a arma para ela, anormalmente sério.
— Ela é iniciante ainda — informou Narelle, levantando-se, despreocupada.
— Não teremos problema, então. Não é mesmo? — Ryan cutucou seu braço com a arma, rindo debochado.
— Talvez não seja apenas eu a mentir — Violet disse, dando de ombros.
No mesmo instante, os sorrisos sumiram. Ela caminhou tranquilamente até a porta, enquanto suas expressões congelavam.
— Nós poderíamos salvar a humanidade, se nos dessem a chance — murmurou, olhando triste para a nuca de Ryan.
Sabendo que não seria entendida (estaria falando rápido demais para os ouvidos deles), caminhou até a porta, trancando-a do lado de fora, e saindo do prédio.
Era estranho ver como todos estavam parados, como estátuas, ou mesmo movimentando-se, lentamente, como lesmas. Contudo, com o tempo, ela já tinha se acostumado, esperava apenas não precisar passar por aquilo novamente.
Infelizmente, a Comanda era muito poderosa.
— Vamos — ela ouviu uma voz masculina chama-la.
Olhando para trás, viu a Paul indo em seu caminho, enquanto que as pessoas permaneciam paradas.
— Se todos fossem como nós, o mundo seria normal — murmurou Violet, dando de ombros.
— Aí não teria graça — ele deu um sorriso de lado, escutando o que ela disse — Vamos!
— Aonde? — ela perguntou, confusa.
— Vi um garotinho fugindo da Comanda, acho que ele é um paralisador também.
E era isso o que ela fazia: protegia aos seus.
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