Game Over
1 Capítulo Único
Até aí estava tudo bem. Cheguei no supermercado. Estacionei meu carro. Entrei no supermercado. Mas e agora? O zumbido de conversas penetrava meus ouvidos como aqueles pequenos mosquitos que nos rodeiam durante o sono. Eu tentava limpar minha mente. Pensar. As cores ofuscantes dos milhares de produtos da loja me cegavam. Pense. O barulho das centenas de rodas das centenas de carrinhos do supermercado estavam me deixando louco. Pense. O quadril da mulher que andava em minha direção movia-se alucinadamente de um lado para o outro. Pense. De um lado. Pense. Para o outro. Pense!
— Posso ajudá-lo?
Por um momento não pude responder. Ainda segurava as chaves do carro, percebi, e não tinha pego um carrinho. Talvez eu estivesse parado na entrada do supermercado por mais tempo do que tinha notado. Percebi que algumas pessoas olhavam em minha direção, entre elas um alto segurança que segurava seu rádio como seguraria uma arma.
— Senhor? — sua boca pintada de vermelho apertava-se inquieta, como se ela não quisesse estar ao meu lado. Sua saia descia colada até os joelhos, mas o que esta revelava de suas pernas já me fazia ficar ansioso.
— Perdão? Está falando comigo? — perguntei depois de alguns longos segundos. A mulher olhou para os lados e ajustou seu pequeno casaco.
— Sim. Perguntei se poderia ajudá-lo com alguma coisa.
— Oh — o barulho de uma lâmpada piscando em algum lugar perto de mim me distraiu, por isso demorei alguns bons segundos para continuar — Não, obrigado. Estou bem.
Comecei a caminhar para longe dela, ainda segurando minha chave como se minha vida dependesse disso. Peguei um carrinho e entrei na área de compras, encarando de volta quem me encarava, como que em desafio. Meus passos se tornaram mais um dos que ecoavam nos imensos corredores da loja.
O carrinho fazia um barulho ensurdecedor, e eu senti nascer em mim uma dor de cabeça aguda, daquelas que não passa até que se tenha uma boa noite de sono — o que eu nunca tenho. Eu empurrava o carrinho com uma mão e segurava a chave com a outra. Sequer olhava para as prateleiras. Me sentia dentro de um jogo. Eu desviava das pessoas com seus carrinhos como se elas fossem obstáculos. Minha dor de cabeça aumentava e aumentava. Virei à direita. E à esquerda. E à direita novamente. Tudo não passava de um jogo. Estávamos todos jogando, presos naquele labirinto infinito de estantes e mais estantes e mais estantes e mais...
Meu relógio começou a apitar. Parei. Eram 17h54. Minha testa ficou úmida de suor. Minha cabeça latejava.
— Tudo bem, tudo bem, tudo bem, tudo...
— O senhor está bem? — um garoto com metade de minha altura estava parado ao meu lado, segurando um pequeno carrinho de brinquedo. Ele parecia preocupado, não por si mesmo, mas com meu estado. Era estranho perceber o contraste entre o modo de pensar de uma criança e de um adulto: aquela mulher que se aproximara de mim mais cedo havia feito uma pergunta semelhante, com intenções completamente distintas. Minha mente vagava e vagava, e o menino ainda esperava uma resposta. Enxuguei a testa.
— Claro, claro — num impulso, decidi continuar — Só estou um pouco nervoso.
Suas pequenas sobrancelhas franziram.
— Por quê?
— Preciso... Preciso escolher um presente.
Um bonito sorriso iluminou-lhe o rostinho.
— Posso te ajudar?
Comecei a me empolgar com a direção que meu pequeno jogo estava tomando. Sorri um pouco.
— Claro — começamos a caminhar um pouco e logo me ocorreu perguntar-lhe — Onde estão seus pais?
— Estamos brincando de esconde-esconde. Eles ainda não conseguiram me encontrar.
Sorri ainda mais. Tudo não passava mesmo de um jogo. Ele também sorriu. Andamos lado a lado pelo imenso corredor, e meu relógio apitou novamente. Eram 17h58. De repente, não conseguia respirar. O desespero tomou conta de meu corpo, e tive que me segurar no carrinho para não cair. Minha cabeça latejava e latejava e latejava e...
— O que foi? — perguntou o garoto, parecendo um pouco preocupado. E então, tão repentinamente quanto veio, o desespero se foi. Minha expressão mudou em um segundo de aflição para total deleite. Notei que agora nada mais importava. Nada além da chave que eu segurava. Ela e o relógio. Dois minutos. Pra quê toda essa dúvida? Tudo não passava de um jogo.
— Eu já pensei em um presente perfeito.
Percebi que estávamos parados no corredor, e o menino segurava seu carrinho de brinquedo com força, parecendo estar assustado.
— Q-Qual?
— Você vai ver.
17h59. Segurei a chave com força, posicionando de leve meu dedo no botão de acionar o alarme do carro.
— Mas... Para quem afinal é o presente?
Percebi que ele se afastava devagar de mim, e minha careta de felicidade aumentava e aumentava, enquanto todos os sons ao redor diminuíam. Cinco segundos.
— Para todos nós.
18h00.
Apertei o botão com força.
Meu carro foi para os ares, levando com ele boa parte da entrada do supermercado. Várias pessoas foram mortas na explosão, outras queimadas, outras esmagadas pelos escombros, enquanto eu e o garoto fomos jogados longe, quebrando boa parte dos ossos. Restaram-me alguns segundos de vida, o bastante para olhar em volta e me deliciar com todo aquele desespero. Percebi que o garoto sangrava até a morte ao meu lado, chamando baixinho por sua mãe.
— Game Over — sussurrei, e então meus olhos se fecharam por uma última vez.
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