Game Night

3 Royal Straight Flush


"Cross my heart and lick my scars
Play with me get ripped apart"

("I'm about to break you", New Years Day)

♥ ♦ ♣ ♠

Hisoka estava dominado. Pelo menos era assim que Machi o encarava. Tinha os braços presos, firmes e puxados para trás. Tinha os olhos vendados, pelo emaranhado de fios que ela criara a partir da própria aura. Eles comprimiam suas têmporas, apertavam seus olhos, se amarravam com força na parte de trás da cabeça.

Estava de joelhos no chão. Machi o forçara para baixo e agora o encarava de cima, puxando seu queixo em sua direção.

— Foi tudo um jogo, não foi? — ela perguntou, a mão firme em seu queixo — Você me trouxe não para lutar com Chrollo. Você queria lutar comigo.

Hisoka riu. Estava sorrindo desde que tivera os braços atados. Não oferecia — e nem pretendia oferecer — nenhuma resistência.

— E você também não queria? — ele falou — Não foi por isso que me esperou?

Ela não respondeu. Apenas continuou o contemplando do alto. Passou o dedo pelo machucado nos lábios do mágico, que ela fizera com a mordida. Tocou a mancha escura de sangue, estancado durante o beijo. Ela quase podia sentir o gosto novamente.

Subiu a mão pelo seu rosto. Puxou seus cabelos para trás, expondo o pescoço. A marca feita pelo quase estrangulamento também estava lá, funda na pele pálida de Hisoka. Uma onda súbita de calor a atingiu e Machi se sentiu poderosa ao tê-lo a seus pés daquele jeito, controlado. Um animal, que ela dominara. Que ela marcara. E que marcaria ainda mais.

— Você tem razão — ela disse, o acertando com um soco inesperado que jogou seu rosto para o lado.

O sorriso sádico do mágico ficou ainda maior.

O acertou de novo, dessa vez manchando os punhos com o sangue que escapava pelo nariz de Hisoka e escorria lentamente pela boca. Ele levou a língua aos lábios, tentando sentir aquele gosto novamente.

— Você está me deixando excitado, Machi...

Ela sabia. Não apenas pela ereção evidente, mas por que compartilhava daquela sensação. Era a mesma que sentira antes, quando o fez promessas de morte, de dor, de destruição.

Maldito!

Maldito, por a fazer se sentir assim. Por continuar sorrindo. Por a desejar. Por a fazer desejá-lo.

Pagaria por isso.

E com um último soco, o fez cair de costas. Mais sangue espirrou. Os braços em suas costas certamente estariam sendo um incômodo, mas isso não a importava. Não o deixaria levantar.

Deu alguns passos até se aproximar até ele, a respiração ofegante, ansiosa. Se agachou, deixando que ele sentisse sua aproximação.

— Vai continuar me deixando no escuro?

— Cale a boca — ela ordenou — antes que eu mude de ideia.

Machi se acomodou sobre seu peito, seu rosto voltado para as pernas musculosas do mágico. Se debruçou. Empurrou o quadril para trás, deixando os joelhos escorregarem pelos ombros de Hisoka e aproximando a cintura de seu rosto. Jogou o tronco para frente. Lembrou que ainda estava suja com os fluídos dele, mas novamente, não se importou. E duvidou que ele se importasse também.

A certeza veio quando o sentiu na parte interna da coxa. Uma mordida, que a fez fechar os olhos e arfar exasperada enquanto o calor a consumia de novo. Subia pelas pernas, cintura, seios. Se traduziam em gemidos, em suspiros que não cabiam mais dentro de si e que precisavam ser liberados. Precisavam ser ouvidos.

Uma nova mordida, e Machi cravou suas unhas nas coxas que tinha a sua frente, reflexo primal do desejo que a possuía. Arrastou as unhas com força pelos músculos rígidos de suas pernas, criando linhas avermelhadas e ouvindo que ele também ofegava, que ele também esperava por aquele prazer que inundava aos dois.

A língua de Hisoka a invadiu. Fundo, como só ele conseguia. Instintivamente, Machi empurrou ainda mais o quadril para a direção dele, uma ordem velada para que dessa vez não ousasse interromper. Não enquanto não estivesse plenamente satisfeita.

O membro de Hisoka pulsava em sua frente, convidativo e à sua disposição. Ela primeiro o envolveu com as mãos, percorrendo toda a extensão, sentindo com os dedos cada veia, cada detalhe desde a base até o topo. Começou com movimentos simples, sentindo como isso afetava Hisoka, como isso se refletia no prazer que ele também a proporcionava.

E então, o engoliu.

O levou ao fundo da garganta, reprimindo seus suspiros. Se permitiu inebriar com aquele volume que mal lhe cabia na boca, que a fazia transbordar de luxúria. Que a fazia desejá-lo tão fortemente que não podia se conter, não podia parar. O queria experimentar, como ele a experimentava.

Não era assim que Machi tinha planejado. Detestava deixar tão evidente suas emoções, tão transparente seus desejos. Mas de alguma maneira, era como se não conseguisse mais esconder. Era como se ele a tivesse virado do avesso, bagunçado sua cabeça, indo a fundo nas fantasias que Machi ocultava até de si mesma. Era quase como se fosse de propósito.

E então ela entendeu.

Era ele quem estava no comando, desde o começo. Mesmo com os braços atados. Mesmo vendado, mesmo imobilizado. Mesmo quando ela pressionara seu pescoço, o ameaçara, o agredira e quase o matara.

"Foi tudo um jogo, não foi?"

"Deveria ter ido embora, Machi"

Machi sentiu o ódio a consumindo de novo. Ódio por tê-lo esperado, por ter cedido ao seu orgulho, por ter liberado seus desejos — como ele queria. Exatamente como ele queria.

Ódio por não conseguir mais parar.

E, de novo, não conseguiu se conter. A sensação era forte demais, como um choque de milhões de volts percorrendo seu corpo.

Machi queria gritar, mas não conseguia. Em parte, por que preferia manter a garganta ocupada com a felação, mas também porque os gritos já eclodiam dentro dela, estouravam na sua mente a deixando atordoada. Tão intensos que, mesmo inaudíveis, a ensurdeciam.

Sentiu de repente as unhas finas dele em sua carne. Ele estava solto. Machi não conseguia mais se concentrar o suficiente para manter o Nen ativado com tanta força, mas isso não a aborreceu. O toque agressivo que sentia vindo dele compensava qualquer coisa.

Eram seus dedos agora que a invadiam. Primeiro um, mas logo eram dois, três. Uma fricção bruta, obscena, que quase a rasgava. Que a fazia arder ao mesmo tempo em que a fazia delirar.

E, pela segunda vez, deixou o orgasmo preencher seu corpo.

Reagiu o agarrando ainda mais. Mãos, lábios e língua atuando juntos, o pressionando, exigindo que, assim como ela, ele também se liberasse em sua boca.

E ele veio. Machi sentiu o jato acertando a garganta, ao mesmo tempo em que Hisoka finalmente interrompia seus movimentos para dar vazão a um urro, alto e estrondoso, cujo eco do túnel amplificou ainda mais, dando a dimensão daquele momento.

O formigamento em suas partes íntimas, o gosto de Hisoka, seu grito; tudo contribuía para o prazer de Machi. Era um prazer visceral, grotesco, ela sabia. Mas ainda assim, o melhor que havia sentido.

E como o odiava por isso!

Terminou ofegante, estatelada no chão. Levantar-se seria como abandonar aqueles últimos resquícios do deleite que ainda sentia e ela optou por esperar.

— Você foi uma oponente e tanto, Machi. E tem um gosto delicioso... — Ela ouviu ele dizer antes de fechar os olhos, exausta.

Acordou sozinha momentos depois, com as roupas cuidadosamente dobradas ao seu lado. Em cima das peças, uma única carta de baralho.

Um coringa, sorridente. Manchado de sangue.

(...)

Machi nunca mais falaria sobre aquele dia. Nem mesmo para si própria. Nem mesmo quando as cenas insistiam em revisitar seus pensamentos e a faziam quase entrar em combustão, tamanho o desejo que invadia o seu corpo.

Ela as ignorava, naturalmente.

Os machucados que ainda guardava daquele dia pareciam querer se inflamar quando as lembranças chegavam, suplicantes por sentir novamente o contato grosseiro das mãos de Hisoka. Mas ela relutava. Poderia até mesmo tentar sutilmente simular aquelas carícias selvagens com o toque dos próprios dedos, mas Machi não cederia. Não daria vazão àquele desejo incontrolável, como fizera com ele.

O que deveria ter feito era tê-lo matado quando teve a chance.

"Você não consegue"

A voz de Hisoka soava em seu ouvido todas as vezes que pensava na ideia e a enchia de raiva. O que ele sabia sobre ela? Pois Machi o mataria com prazer. O sufocaria com facilidade. O enforcaria, arrancaria sua cabeça fora e deixaria seu sangue manchar suas mãos. O faria sofrer, o faria gritar.

Machi estremeceu. Quem estava tentando enganar?

Quantas horas tinham passado juntos naquele túnel? Machi não sabia. Sabia apenas que tinham sido muitas — mais do que o necessário, e, ao mesmo tempo, nem o suficiente. Se suficiente fossem, seu corpo não mais ansiaria por repeti-las, e ela não precisaria continuar reprimindo aquela volúpia que a acometia de tempos em tempos.

O desejo a invadiu de novo. As memórias inundavam seus pensamentos, e pareciam mais fortes a cada vez, inevitáveis quase. Pareciam querer a afogar, a deixar completamente sem ar.

Ela ainda tentou resistir. Tentou varrer aquelas lembranças da cabeça e se focar em qualquer outra coisa menos odiosa.

"Amor, ódio... não é tudo a mesma coisa?", a voz dele falou novamente em seu interior.

Machi bufou. Detestava lhe dar razão.

E como ele tinha razão! Como parecia saber exatamente o que a estimulava! O local certo, a intensidade certa. Preciso demais, quase como se pudesse enxergá-la por dentro.

Maldito seja!

Suspirou, começando a se cansar daquela luta inútil com os próprios sentimentos. E os dedos, sempre tão firmes, estavam trêmulos ao se esgueirarem finalmente por debaixo do short.

Fechou os olhos ao sentir o próprio toque.

Se deixaria consumir mais essa vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!