Era uma pequena garota, com talvez seus onze. As orbes gélidas e negras, refletindo todas as faces em um púrpura efervescente que abria caminho entre a escuridão de suas íris, fitavam a face daqueles a quem chamava de "família" e pouco se importava com ela. Jogada nos cantos, a jovenzinha fora esquecida há muito por tudo e por todos, jogada sozinha abaixo da fachada politicamente correta e social do mundo.

Ninguém mais a reconhecia, exceto por "ele".

Ele, com suas galhadas em terminação espiral e pelo albino, apoiando os olhos negros. O antílope bizarro e sem gênero definido arrastava-se até o tapete, as manchas na macia pelagem cintilando assim como o olhar apático da crianças. Finalmente com um sorriso no rosto, a menina sentava-se e com ele brincava de tudo por horas e horas, a criatura tornando-se cada dia mais vívida e humanoide.

Ser fitada pela imponente criatura causava à garotinha calafrios, os olhos de ambos fixos um no outro. E o animal rebelava-se e magoava-se, mostrando-se mandão e, uma vez que não obedecido em suas brincadeiras, por vezes realmente divertidas mas por vezes bizarramente mórbidas, cobria a pálida e esquelética pequena com cinismos. Sem dó alguma, ameaçava-a; Ameaçava largá-la, sendo aquele ser a única criatura na qual a menininha poderia apoiar-se, divertir-se e em seu "ombro" afogar rancores.

Mas, embora com toda elegância e teatral afeto, aquela bizarrice genética via-a apenas como objeto de diversão, nada mais do que um brinquedo para passar o tempo, e a pequenina, apesar da pouca idade, tinha plena consciência que ele pouco se importava com ela, assim como todos os outros.

Quando pela primeira vez em tempos a criança ouviu o estalar súbito da porta abrindo-se e o flash de luz abatendo-se sobre a escuridão quase completa do quarto. O antílope nada fez, apenas recuou um pouco, observando a mulher crescida contra a inocente jovenzinha, em meio a berros e palavras que para ela não repercutiam de forma alguma, não faziam-lhe sentido algum. Apenas o fato da adulta repreendê-la rancorosa e freneticamente já a fazia encolher-se e simplesmente chorar.

Seu parceiro apenas levantou-se e enfiou as galhadas contra o crânio da alta senhora.

Horrorizada mas ainda silenciosa, ela jogou-se no chão, fitando a criatura de face humanoide com seus olhos apáticos. Ali ficou jogada por dias, observando-se ser amarrada, enrolada, asfixiada nos próprios pensamentos que afogavam seu consciente e matavam-na psicologicamente.

Ela não entendia porque todos a ignoravam e muito menos porque homens de branco a imobilizavam e a tratavam como uma espécie de monstro, transportando-a de um canto para outro em seus cômodos brancos ambulantes e assustadores, sempre em companhia do ser.

A menininha apenas gostaria de ser esquecida novamente.

Corajosamente, pôs as mãos sobre o pescoço e apertou-o rancorosamente, descontando toda a tristeza e loucura que acumulara no mundo em seu quarto de manicômio, finalmente com as mãos libertas por anos e anos sendo mordidas e rasgadas lentamente pelo próprio mármore podre que soltava-se do resto do chão.

Afinal, ela era Emilly, a garota paranoide que, em uma de suas alucinações, matara a própria mãe.

E, logo abaixo de seu peito, galhadas espirais marcadas por uma faca.

Notas finais
Tenho plena consciência que não foi um pingo assustador, apenas quis criar algo "ao estilo" mórbido, assim como Sicária.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!