Galactica
2 Capitulo 2 - Estrela-Nascente
Notas iniciais
ESTAÇÃO ESPACIAL PALAS,
LOCALIZAÇÃO: CONFIDENCIAL
Ludi acorda com um brilho fraco em seu rosto, a luz vinha do teto, mas não havia sinal de lâmpadas; depois de observar o local onde se encontrava, estava em uma cama no canto de uma sala branca, o lugar não aparentava ser uma cela de segurança máxima, pois existiam barras para impedir que ele saísse, não havia nada ali só a enorme sala e no fim dele uma porta; a porta por onde o tinham levado. Vestia branco, exatamente e estranhamente tudo era branco; desde o sapato sem cadarço até uma jaqueta de zíper prata quase branco. Ele ainda lembrava-se das últimas perguntas que teve de responder; não importava que já houvesse servido um ano inteiro na orgulhosa Federação Galáctica. Todas às vezes lhe perguntavam o motivo de sua irmã ter se desligado da Federação e passado a viver em van Gogh, e todas as respostas que dava pareciam insuficientes ou indesejáveis; pareciam que queriam alguém para culpar ou incriminar. Levantando lentamente, perdido nos pensamentos, ele tenta caminhar em direção da sala a sua frente, de repente seu nariz topa com uma barreira invisível e, por causa da inércia seu corpo continua com a rota de colisão acertando em cheio a parede invisível. Esfregando o nariz para se recuperar do acidente, Ludi apóia a mão na parede xingando e resmungando, de repente sente que seu apoio desaparecera o fazendo cair no chão fora de sua cela branca.
—Soldado. -Uma voz feminina eclode dentro da sala, ela era firme e extremamente autoritária. Assim que o escuta se levanta de imediato e envergonhado, a dona da poderosa voz era ninguém mais, ninguém menos que Comandante Lisher, a militar cuja voz comandava toda a estação espacial bélica. Ela era dona de um rosto retangular, apesar das rugas seu queixo se mantinha firme, seus olhos eram escuros, profundos e ameaçadores, seu cabelo sempre estava trançado assim como uma coroa sobre sua cabeça. Seu uniforme preto, divinamente alinhado e impecavelmente limpo, exibia três medalhas que cintilam em seu peito; uma por bravura, outra por destreza e a última era uma nomenclatura, Ordem Mor. Ela esperou que Ludi ficasse em posição de sentido, assim que ele o fez ela bate com a bengala que carregava consigo, criando um som metálico no ar.
—Senhora… Deve haver um engano, não sou espião… — A voz dele estava tão carregada de desespero que as palavras desapareciam de sua mente. Ele tinha medo que caso pensassem que ele estivesse vendendo informações para Júpiter, se isso acontecesse seu destino seria vergonhoso e, possivelmente seria morto ou enviado para a prisão da Federação, Death Star.
—Não dei permissão para falar. -Ignorando todo o desespero na forma que Ludi tentava elaborar sua defesa, a Comandante apenas ergue a mão, um sinal claro para ele calar a boca, era uma tradição na Federação os militares de patente alta não utilizarem um linguajar sujo, uma tradição quase esquecida pela nova geração de militares que eram promovidos, mas muito prezada pela velha guarda.
—Desculpe. -Ludi não consegue esconder a vergonha por ter interrompido sua oficial em comando, ainda mais por ser ela a superior de toda a instalação. Mas tudo o que queria era se livrar daquele empecilho, nem ligava mais em ir para a comemoração em Marte, ficaria de serviço se isso; como sua irmã dizia, “limpasse sua barra”.
—Sabe, senhor Royalfield. Em todos esses anos aqui na Palas. Nunca esperamos muito para enviar os suspeitos para o Death Star… -Ela vê que ele irei dizer outra coisas como, “ sou inocente”, ou algo tipo “vocês estão cometendo um erro”. — Não ainda não terminei… — Após uma pausa seus pensamentos se organizam novamente; uma pausa que pareceu eterna para Ludi. — O senhor, tem sorte. Nós entramos em contato com sua irmã, parece que ela está trabalhando no Hospital Willem em van Gogh e é responsável pelo tratamento de recuperação de um dos “macacos de laboratório” da Federação. –Ela pareceu forçar um sorriso no rosto sério e frio.
—Era o que eu estava tentando dizer…-Ludi diz, odiava aquela situação, pois quase não foi aceito na Federação por ter duas prisões em seu histórico, e tinha medo de que esse incidente fosse causar mais problemas em sua vida.
—Não, ainda não terminei… -Lisher fez novamente o sinal para que ele ficasse quieto. -Infelizmente, você não poderá ir para Marte.
—O que!? Porque… -Ludi não era como os outros marcianos, não queria ir para a comemoração; de certo a comemoração só lhe serviria como uma desculpa, já que seu verdadeiro objetivo era ver os pais que haviam se mudado de Remo para Rômulo e que já faziam dois anos/Marte que não se viam pessoalmente.
—Você será incorporado em um novo esquadrão. –Lisher diz sem rodeios ou outras explicações. –Essa é a única informação que sei. –Ela dá as costas para ele e caminha até a porta na esperança de que ele a estivesse seguindo, mas não estava parado, encarando o chão com certa relutância.
—... –Ludi se lembrava dos últimos momentos que esteve com seus pais, eles lhe disseram que as coisas seriam difíceis, ele estaria que estar disposto a sacrificar coisas importantes para se quisesse manter a paz e a ordem; apesar daquele se jeito rebelde e provocativo, eles sempre tiveram orgulho dele; tudo o que ele queria agora era mostrar pra eles que ele não era um desperdício, um fardo. Mas estava ali, e jurou servir com todo corpo e mente.
—Royalfield, venha comigo. -Ludi se põe a seguir os passos da mulher que, apesar do uso de bengala era até que rápida. Enquanto caminhavam pelos corredores, passando por militares, oficiais e recrutas, a Comandante Lisher manteve um silêncio tão sigiloso que Ludi pensou que ela o estaria levando para ser morto, o que faria se livrar dos comentários que ouvia sobre ter sido “aprisionado”… Morte. Ao pensar nesse assunto se lembrou sobre o caso que a irmã lhe escrevera, ela havia sido designada para cuidar de um paciente no lugar de um colega que sairia de férias. O paciente era um dos cientistas da Federação Galáctica que trabalhava em van Gogh quando, segundo o governo de Júpiter, o prédio sofreu um ataque terrorista de um grupo de separatista independentes. Sua irmã, a mais sensata dos dois… A linha de raciocínio dele é interrompida por urros.
—Mais forte! -Ludi olha para a origem dos gritos e vê uma mulher desferindo socos em uma espécie de saco de pancadas, ao lado de um militar que era conhecido de Ludi, o sargento Ricardo, responsável pelo preparo físico. -Bata mais forte, Montgomery. Minha avó é mais forte do que isso! –A garota vestia uma legging preta e um top esportivo, seu cabelo chocolate estava amarrado em um rabo de cavalo, apesar de magra, possuía um corpo curvilíneo com coxas torneadas, uma cintura fina e seios fartos. Atrás dela estava outra garota também vestida para o treino, foi ela que fez Ludi perder o fôlego; era muito atraente, a pele era um pouco mais clara do que a da primeira, o nariz levemente arrebitado, seus lábios tinham formato de coração, os cabelos castanhos lhe caiam sobre os ombros. Na boca tinha um palito de pirulito.
—Oficial no local. –Foi ela quem anunciou a presença da Comandante no ginásio, o que fez a lutadora cessar com seus socos.
—Descansar. –Lisher diz impávida e firme -Sargento, pode ir. Senhor, Royalfield, se junte as ela. –A mulher aguarda para que suas ordens sejam cumpridas, assim que o tenente sai do local ela aperta um botão escondido em sua bengala, as portas se trancam e as câmeras se desligam, seja lá o que fosse ocorrer ali, seria extremamente sigiloso.- Montgomery e Dayne, eu as chamei aqui para que saibam que assim como Royalfield, vocês foram selecionadas pela própria Presidente, para compor um esquadrão de missão extra-oficiais. Sendo assim, fui autorizada pela Presidente Striker, a responder uma pergunta de cada; apenas uma. Fui clara?
-Foi sim, senhora! –Os três dizem em uníssono.
—Ótimo. Dayne, alguma pergunta? –Lisher questiona a garota que a poucos dava socos no saco de pancadas, ela pareceu surpresa, não por ser a primeira, mas pela mulher saber seu nome.
—Sim, senhora. –Após tomar fôlego para perguntar a superior que parecia ter uma áurea que preenchia o ginásio com uma energia séria e cheia de nervos. — Existe um motivo para a formação deste esquadrão?
—Infelizmente, não possuo essa informação. –Lisher desabafa, desfazendo a pose de militar dominante, estava fazendo um favor a uma antiga amiga, a Presidente e, como o de costume, Katherine nunca contava os planos para ela, apenas pequenas partes que não faziam sentido na cabeça dela.
—Esse esquadrão será composto por apenas nós três? –A garota que Ludi mirou pergunta inflando o peito, Ludi mal ouviu sua pergunta, ficou imaginando como seria se aos dois se casassem no futuro. Ele sempre teve esse problema, imaginar coisas que pareciam impossíveis e quando via uma garota que lhe despertava interesse ficava com um sorriso besta na cara e usava de provocações para chamar a atenção, esse seu jeito de ser o fez conquistar sua única ex-namorada, Harley, que terminou o romance por ter conseguido uma bolsa de estudos na Terra e por não querer um romance a distancia. Porém a garota que fez a pergunta parecia ignorar a cara de; como os mais velhos dizem, “cara de pastel”.
—Não, -Lisher suspira novamente, o que trouxe Ludi de volta para a realidade. -como disse a própria Presidente analisou e selecionou vocês, pelo eu fui informada o esquadrão Estrela-Nascente será composto por seis indivíduos. –“Esquadrão Estrela-Nascente”, não houve como não lembrar do famoso Esquadrão-Estrela-que-cai, formado por dez grandes militares que a serviço da ordem e da manutenção da paz realizaram manobras e operações tão secretas que a Federação os incorporou por completo no alto escalão, diziam as más línguas que a Presidente Katherine fazia parte desse esquadrão, para os três ali, serem selecionados por um membro da presidência e que fez parte de um esquadrão com calibre da Estrela-que-cai era não só um prazer, mas uma honra. Porém enquanto as duas tentavam esconder o sorriso de satisfação e ansiedade, Ludi sente que era menor do que aquilo, não merecia estar ali, havia sido preso duas vezes e isso sempre atormentava seus sonos.
—Porque estou aqui, a pouco a Federação havia me afastado por suspeitar que eu fosse um espião. – O medo de Ludi vence e ele acaba cedendo, Erika o olha pela primeira vez, estava tão atenta ao treino com o saco de pancadas que só notou o garoto de pele típica de Remo quando ele deixou um comentário passar, ela tinha acessado os arquivos de requerimentos dos demais marcianos e quando viu que um deles fora apreendido quis pesquisar a fundo, mas se fosse esse o motivo dele estar tão apreensivo, teria de dar um jeito para que ele tivesse uma estima melhor do que aquela.
—Não ouvi sua pergunta, Royalfield. –Lisher anuncia batendo a ponta de sua bengala na canela do garoto. O grito de dor de Ludi arranca o sorriso de Lisher, mas assusta Calliope, que imaginava quem seriam os demais membros do esquadrão e o porquê o rapaz estava com medo de fazer parte do esquadrão.
—Baseado em que fomos selecionados? –Ele pergunta depois de pensar bem para formular a pergunta certa.
—Com base no histórico de vocês; ensino fundamental, médio, histórico de saúde, resultados dos exames militares e a vida social de vocês. –A resposta não foi muito satisfatória, nem para ele, nem para elas, mas era o que Lisher sabia. — Assim que vocês assinaram o documento se alistando, concordaram com o fim da particularidade da vida de vocês. –A ultima parte causou um certo rebuliço em todos, Lisher sabia que aquilo era mentira, mas quis assustar os três, infelizmente acabou dando errado.
—Silêncio! –Ela bate com a bengala no chão, liberando as portas e acionando as câmeras. -Irei levá-los para o novo alojamento, vocês irão treinar dentro de duas horas e meia e, precisarão ver isso. -A comandante estende a mão para mostrar uma esfera do tamanho de um globo ocular repleto de pequenos furos. Eles a seguem pelos corredores e lanças de escadas até o quinto andar, setor 30-A, o setor onde os militares em missões ficavam.-Lembrem-se vocês só devem responde a Presidente. Daqui duas horas e meia estarei aqui para iniciar o treinamento. –Assim que eles passam pela porta a Comandante vê a necessidade de informar. O local maior do que os demais dormitórios, haviam três armários e camas de cada lado, duas portas que davam acesso aos chuveiros e vestiários.
—Comandante. –Ludi diz envergonhado, chamando Lisher de canto para conversar.
—O que foi senhor Royalfield? –A mulher parecia confortável ali, como se soubesse que tudo estaria bem no fim.
—Eu… eu não mereço estar aqui… como posso proteger a paz, quando não consigo me defender perante falsas acusações. –Ludi diz em sussurro para não ser escutado pelas garotas que exploravam o lugar. -Eu não possuo grandes vitórias ou recordes... –Ele olha para Calliope e para Erika, as duas pareciam ser mais habilidosas do que ele.
—Ludi, posso te dar um conselho. –Lisher nunca foi de mostrar piedade para com os amigos, muito menos com os inimigos, mas era Katherine que havia selecionado o rapaz e não queria falhar com ela. -Esse conselho me foi dado pela mulher que selecionou você hoje.”Manobras militares perfeitamente executadas, vencem guerras; manobras militares realizadas com compaixão, evitam guerras”, vocês estão aqui, não pelo que sabem; acha que se fosse por mim vocês estariam aqui? Não, conheço muitos homens e mulheres melhores do que vocês. Kath os escolheu pelo que podem se tornar, não pelo o que são. Pense bem, os três primeiros vieram de planetas, costumes e culturas completamente diferentes. –Ela joga a esfera holográfica na mão dele e se afasta-Lembrem daqui duas horas e meia.
—O que devemos fazer? –Ludi caminha até as duas que estavam sentadas em camas já escolhidas, Callipe tinha um pirulito de canela na boca e Erika mexia as mechas de cabelo com os dedos, a velhota já havia deixado o recinto estava a sós.
—Acho que… -Antes da resposta a esfera brilha e lança um raio no rosto de Ludi, como se o scaneasse, e fazendo o mesmo depois com o rosto das garotas.
—”Essa é uma mensagem para o Esquadrão Estrela-nova. –O busto da Presidente Katherine é criado em holograma acima da esfera. -Senhores, sei que devem ter muitas perguntas sobre a razão de estarem aqui, mas gostaria que soubessem que, assim como eu no passado, hoje, vocês serão a esperança da paz, vocês estão aqui para me ajudar a manter as coisas em ordem. –Em segundos ela muda, sua expressão, penteado e roupa, como se a gravação tivesse sido realizada em um dia diferente da anterior. -Nosso objetivo?-Ela parecia estressada, como se tivesse saído de um reunião irritante.-Existe um grupo na Orla de Saturno, eles são uma ameaça ao povo da colônia de Cibele, acredito que eles estão envolvidos com o atentado de seis anos atrás em Marte. –A cena muda, o holograma transmite o planeta Saturno e a localização em que eles seriam enviados, logo depois a Presidente surge com outra roupa. -Hoje vocês se tornam a Nova Esperança para o futuro. –Novamente ela muda de roupa, mas agora parecia que estava encostada na cabeceira da cama, tentava se manter desperta esfregando com uma das mãos o olho e com a outra segurando os óculos. -Não vou mentir, existirão momentos em que todos dirão sim, caberá a vocês a coragem para se erguerem e dizer NÃO”. –Ela parecia cansada, como se todo o peso do universo estivesse em suas costas, e pelo o que parecia estava, e eles eram a única válvula de escape que ela tinha.
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