Gakkou Carnival!
1 Capítulo 1.1 - Nichijou Suzuyama
Notas iniciais
Capítulo 1
— Nichijou Suzuyama —
— Ninjin Gakuen — Dormitório Masculino —
Existe uma certa pergunta que vaga pelo universo desde o Big Bang, sobrevivendo à extinção dos dinossauros e a era glacial. Uma pergunta tão difícil que nem mesmo os maiores filósofos do mundo reunidos seriam capazes de respondê-la.
Com o passar dos milênios, incontáveis cientistas tentaram desvendar esse mistério, porém, também não obtiveram sucesso. Essa pergunta já causou a queda de diversos impérios, o massacre de incontáveis civilizações e, provavelmente, será o estopim para o fim de toda a humanidade.
Tudo que pensamos conhecer sobre divindades, nascimento, morte e ressurreição, podem não passar de uma grande equívoco.
Nesta noite silenciosa, eu, Nichijou Suzuyama, encontro-me refletindo sobre ‘a pergunta’.
Talvez com meu QI de 185 — que me possibilitou tirar nota máxima em todas as matérias durante o primeiro ano — eu seja capaz de respondê-la. Para falar a verdade, estou com medo. Acredito que se eu passar tempo demais pensando na ‘pergunta’, acabarei insano, como tantos outros pensadores que vieram antes de mim.
— Pro inferno a sanidade! Eu sou o único que pode livrar o mundo desse enigma maligno!
Estou no meu santuário particular, sentado sobre a tampa da privada com a calça arriada. Apoiada no meu colo está uma revista especial, que ganhei de presente do meu pai graças às minhas notas excelentes. Na capa, uma jovem loira de cabelos compridos sorri inocentemente para mim.
Após ajeitar os meu óculos, faço a ‘pergunta’ em voz alta.
— Qual mão propicia mais prazer? A direita ou a esquerda?
Antes que eu pudesse tomar a decisão que mudaria para sempre o curso da humanidade, um frio repentino envolveu o meu corpo. Sabe aquela sensação de estar sendo observado? Pois é. Tenho certeza de que há alguém oculto neste pequeno banheiro.
Revirei o local com meu olhar e, rapidamente, encontrei um estranho objeto cromado. Era uma pequena câmera, cuidadosamente instalada atrás do chuveiro.
— Hyaaa~
Gritei e lancei inconscientemente o meu precioso tesouro. Em câmera lenta pude ver a expressão daquela linda loira desmoronar. Ela estava chorando.
Não sei se estava mais desesperado com o fato de ter alguém me espionando, ou por presenciar a morte daquela delicada revista importada, que ficou completamente amassada após destruir a câmera.
— O seu sacrifício não terá sido em vão... Juro que irei vingá-la... Com certeza matarei o responsável por isso!
Furioso, subi a minha calça e saí do meu apartamento, avançando apressado pelo corredor do velho prédio.
Atualmente estou morando no dormitório masculino da Ninjin Gakuen, uma escola centenária, listada entre as melhores do Japão. Após o meu pai polígamo dizer que levaria uma terceira esposa para dentro de casa, resolvi deixar aquele lugar. Pense bem, aquela casa possui apenas dois cômodos. Se eu tivesse ficado, provavelmente agora, estaria dormindo entre o meu pai e as três prostitutas que ele deve ter coletado em algum bordel. Cá entre nós, não é uma boa influência para uma mente inocente como a minha.
Finalmente, cheguei ao quarto ocupado pelo diretor da escola. Sim, estranhamente ele também mora no dormitório. Motivo? Bem... Alguns boatos dizem que a esposa dele tomou a casa após descobrir que ele havia engravidado uma universitária de 19 anos. Fiquei sabendo que ela teve oito filhos! Eh... Me pergunto como ele conseguiu essa façanha com uma ‘arma’ tão pequena...
Abri a porta sem bater antes. O cheiro de charuto e a grande quantidade de poeira irritou o meu nariz. Há tanto lixo espalhado que é impossível enxergar o piso do apartamento. Sua grande maioria é composta por pacotes de alimentos industrializados, mangás e jogos/simuladores de encontros. Uma vida mais saudável que essa é impossível...
No momento em que fitei a tela do computador no outro lado do quarto, meus olhos se arregalaram de espanto.
— Que merda é essa...?
Assim que a minha voz ecoou, a ‘coisa’ sentada na frente do computador moveu sua mão com a velocidade de um raio e apertou um botão no teclado. Imediatamente, uma certa janela que estava visível no monitor, desapareceu. O que era aquilo?! Um homem velho se travestindo?! Com direito a uma peruca e vestido rosa choque!
Corando como uma garotinha, a ‘coisa’ voltou-se na minha direção.
Como eu posso descrever ‘aquilo’? Seu rosto é completamente desfigurado como o de alguém que apanhou por horas. Na sua boca há uma enorme cenoura. Espera, o que significa aquela grande quantidade de fumaça saindo da folhagem da cenoura?!
Bem, até que poderíamos considerar essa situação normal se ‘aquilo’ não fosse um maldito coelho! Sabe, grandes orelhas pontudas e rabinho felpudo.
— Nichijou Suzuyama! O que diabos você quer invadindo o quarto do diretor?! — Coelho falou com aquele tom de voz que só posso descrever como ridículo.
— Não fale o meu nome completo, maldito coelho hikikomori!
— Então você prefere ser chamado de Suzu? Não entre no meu quarto sem bater na porta antes, Suzu-chan!
— Também não me chame de Suzu-chan! Eu sou homem! Entendeu?! Homem!
— Ora, por acaso é minha culpa que você tenha sido registrado com esse nome?!
— Na verdade, é tudo culpa daquele velho raparigueiro! O cérebro dele devia estar banhando na privada de algum boteco no momento em que escolheu o meu nome.
— Para de enrolar! Desembucha logo e cai fora do meu quarto.
Argh! Você não tem ideia do quanto eu odeio essa voz de loli.
— Estou aqui para fazer uma reclamação. Mais cedo encontrei uma câmera escondida no meu banheiro! Você é o responsável pelo dormitório masculino, não é?! Então levanta a bunda peluda daí e salte atrás do culpado!
O diretor coçou seu queixo mal barbeado. Sim, aquilo no rosto dele não são pelos e sim uma legítima barba escura.
— Ah! As misteriosas câmeras escondidas! Suzu-kun, você não é o primeiro a fazer essa reclamação, te he~. — o diretor tentou fazer um gesto fofo, mas falhou miseravelmente.
— E mesmo sabendo disso você não toma uma providência?
— Mas é claro que investiguei o caso! Até mesmo tenho uma suspeita!
— Suspeita? Uma aluna?!
— Sim! Se não estou enganado o nome dela é Tsumugi Sato!
— O quê?! A garota que foi representante da minha turma no ano passado?! A terceira mais linda do colégio, que só perdia para mim no ranking dos mais inteligentes?! Impossibrus!
— É claro que é possível! Pense bem. Ela praticamente nasceu em um berço de ouro. Neste colégio, a única pessoa que teria dinheiro suficiente comprar todos esses equipamentos caros, seria ela! — Coelho levantou em um pulo e bateu continência, como um soldado. — Agora Suzu-kun, ordeno que você investigue Tsumugi Sato! Invada o dormitório feminino e descubra o que ela pretende fazer com essas filmagens!
— O quê?! Não posso fazer isso! É impossível entrar naquela fortaleza durante a noite!
— Não me importo. Se não obedecer, te expulsarei imediatamente deste colégio! Você quer tanto assim voltar para a sua antiga vida? Um passarinho me contou que a terceira mulher do seu pai é bem gostosa... He he he he...
Sem ter outra opção além de aceitar o ultimato do diretor, saí daquele lixão.
— Maldito Coelho pervertido!! Merda!!
Para começo de conversa, tenho certeza absoluta de que a Tsumugi não é a responsável por essa onda de espionagens. Quer dizer, nós cursamos todo o primeiro ano juntos, apesar de quase nunca termos trocado nenhuma palavra. Aos meus olhos, ela sempre foi doce e carinhosa com todos à sua volta. Um exemplo de garota.
— Gyaaaa~
Acho que foi amor à primeira vista. Só de pensar nela o meu coração dispara!
Enfim, minha missão é salvar a minha amada dessa calúnia infundada. Entrarei no quarto da Tsumugi e provarei para o diretor que ela não possui uma central de monitoramento entre os seus pertences.
***
— Ninjin Gakuen — Dormitório Feminino —
A área onde fica o dormitório feminino é realmente sombria durante a noite. Existem diversas pichações assustadoras espalhadas por todos os lados, onde a sua grande maioria difama o sexo masculino. Tem até mesmo uma que diz assim: Um dia o yuri dominará o mundo!
— E as pessoas ainda se perguntam por que a taxa de natalidade dos japoneses está em declínio...
Fui capaz de invadir o dormitório com sucesso, rastejando como uma cobra traiçoeira. Acho que isso só foi possível por que todas as garotas estavam reunidas no refeitório, jantando. Continuei rastejando por mais alguns minutos até alcançar o meu objetivo. O quarto de Tsumugi Sato! A garota que mais amo nesse planeta.
Como eu sabia a localização do quarto dela? Bem, como dizia um grande poeta latino: quem ama, aprende a stalkear.
Por sorte, a porta estava destrancada. Assim que entrei, me deparei com um ambiente perfeitamente feminino. Havia uma beliche delicada, uma escrivaninha e muitos ursinhos de pelúcia. Ah, também havia aquele perfume... Ah... O cheiro da Tsumugi...
— Viu diretor?! É impossível que a minha paixão 3D seja a culpada. Ela nem ao menos possui um computador!
Bem, é melhor ir embora antes que alguém apareça.
— Nichijou-kun? O que você está fazendo no meu quarto?
Merda, ferrou!
Parada na porta estava a minha paixonite em sua mais perfeita glória. O mais belo anjo, vestindo um pijama cor de rosa com aquela feição doce e inocente no rosto que faz meu coração palpitar.
— Eh... Tsumugi-san, não é nada disso que você está pensando! — comecei a gaguejar miseravelmente enquanto me desculpava.
Ela colocou a mão em frente à sua pequena boca, demonstrando uma surpresa repentina.
— Nichijou-kun... Não me diga que você invadiu o meu quarto com a intenção de enchê-lo de sêmen para depois fugir?!
— É claro que não!
Espera... Ahn?!
— Eu entendo que a puberdade é um momento delicado na vida dos garotos, mas não justifica essa invasão. — ela levantou o seu dedo indicador e sorriu inocentemente. — Você tem que aprender a controlar os seus desejos. Sua mão direita existe com este propósito, sabia?
Minha imagem da garota perfeita foi desfeita em pedaços...
— Pare de falar essas coisas com um sorriso inocente no rosto!
Mas, espera aí, mão direita? Seria essa a solução para aquela pergunta milenar? Não! Não é hora de pensar nisso!
Tsumugi cruzou os braços, dando ainda mais volume aos seus seios e prosseguiu alegremente.
— Ah, já sei! Você é um daqueles famosos ladrões de calcinhas, não é? Ou por acaso está aqui para cheirar o lixo da minha lixeira?
ALGUÉM DEVOLVA A MINHA DOCE E AMÁVEL REPRESENTANTE DE CLASSE!
De repente, passos apressados ecoaram, e, poucos segundos depois, uma nova garota surgiu na entrada do quarto.
— Sato-san, ouvi a voz de um garoto! — finalmente os olhos dela pararam sobre mim. — Ahn?! O que um h-o-m-e-m está fazendo aqui?!
De todas as pessoas, eu tinha que ser encontrado logo pela presidente do comitê disciplinar, Amakusa Itsuki!
Cabelos cor de fogo, olhos azuis, estatura e seios medianos — que são compensados por suas nádegas avantajadas —, trajando um pijama com estampa de cachorrinhos que serve apenas para realçar o seu lado infantil.

Acredito que nesse exato momento, você esteja imaginando a mais linda garota. Aquela best girl tradicional de animes e mangás, a mais pura essência do Moe. De fato, se você nunca se envolveu com ela antes, é bem provável que se apaixone instantaneamente pelo seu corpo atraente e sua determinação forte. Por isso, como alguém que já caiu nessa armadilha uma vez, eu imploro com todas as minhas forças, não se deixe enganar!
Esta garota é o pior dos demônios.
Não no sentido de que, após tirar a maquiagem, ela virará algum tipo de criatura sobrenatural que comerá as suas tripas na primeira oportunidade que tiver. Sendo realista, compara-la com um demônio é uma ofensa aos coitados. Enfim, estou falando da alma dela, meus caros. Aquela aura obscura capaz de matar vagarosamente todas as criaturas vivas que se aproximarem demais do seu corpo bonitinho.
Ouça bem o meu conselho. Nem sempre o Moe é sinônimo de uma personagem amável que sai gritando, Kyah!, pervertido!, sempre que você fizer alguma coisa minimamente indecente com ela. Muitas vezes, escondido dentro de uma bela floresta, encontra-se um maldito e fedorento pântano, que puxará o seu pé e te engolirá por inteiro sem sequer pedir a sua autorização. Morrerá miseravelmente e, posteriormente, terá a sua carne devorada pelas bactérias decompositoras até sobrarem apenas ossos.
Mas veja pelo lado bom, pelo menos você poderá se gabar para os anjinhos no Além, ou quem sabe os diabinhos no Inferno, que foi brutalmente assassinado por alguém com o rosto de uma protagonista de anime.
Acha que estou exagerando? Bem, acredito que você irá entender o que estou dizendo ao ver as ações da herdeira do rei demônio com os próprios olhos.
Com um olhar furioso no seu rosto, Amakusa sacou uma longa katana de madeira. Não me pergunte de onde ela tirou isso.
— Espera! Não estou fazendo nada de errado! Isso foi uma ordem do diretor! — continuei a minha explicação da forma mais falha possível. — Estou aqui por causa das câmeras escondidas!
— Câ-Câmeras escondidas?!
O rosto da Amakusa corou imediatamente. É obvio que ela interpretou o que eu disse da forma errada. Enquanto a presidente do comitê partia para cima de mim, Tsumugi continuava sorrindo delicadamente, inabalada.
— Morra, pervertido!
A escuridão total veio após uma única pancada na minha cabeça.
***
Assim que despertei, notei que estava apenas de cueca, deitado sobre a mesa do refeitório com os pulsos e pés amarrados. Meu corpo estava completamente pichado com maquiagem e purpurina. O que é isto dentro da minha boca? Uma maçã?! Eu virei um porco?!
Um genuíno exército de garotas riem e fazem piadas enquanto me encaram. No meu estômago há uma grande mensagem escrita com batom vermelho, onde diz: acerte-o até torná-lo infértil.
Isso não pode ser bom...
Assim que olhei para a frente, encontrei a presidente do comitê disciplinar. Na sua mão direita há um taco de baseball e, atrás dela, uma enorme fila de garotas prontas para me espancar até a morte.
E foi dessa forma agitada que começou o meu segundo ano do ensino médio. Não descobri quem foi o responsável pelas câmeras escondidas, mas com certeza eu tinha um grande suspeito.
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