Gaiden - O amor de Atena

4 Capítulo 4 - Os motivos dos deuses


Capítulo 4 – Os motivos dos deuses

– Seiya...

Finalmente abriu os olhos ao terceiro chamado de Saori, que permanecia confortavelmente deitada olhando para ele com um sorriso.

– Que horas são? – Perguntou com um bocejo.

– Oito da manhã.

O cavaleiro sentou-se no sofá ainda um pouco zonzo, percebendo que nem havia tirado o robe que vestira apressadamente por cima do pijama ao sair do quarto de madrugada. Os acontecimentos de horas atrás voltaram a sua mente, mas antes de revela-los à Saori, levantou-se e caminhou até ela.

– Bom dia, querida – disse lhe dando um selinho e sentando-se na poltrona ao lado da cama.

– Bom dia.

– Se sente bem?

– Bem melhor do que ontem, embora ainda me sinta um pouco fraca. Estou ansiosa pra levarmos Aimi pra casa amanhã cedo.

– Eu também – falou com um enorme sorriso – Eu achei que ela estaria aqui quando eu acordasse.

– A enfermeira disse há poucos minutos que quer me ver andando. Que você deveria ir comigo encontra-la a meio caminho do berçário quando estiverem trazendo nossa princesinha pra cá depois do café. Estava mesmo exausto, nem se mexeu quando ela entrou – a deusa emitiu um risinho – E que história é essa de passear pelo hospital de madrugada? – Ela questionou arqueando uma sobrancelha e depois rindo.

– Sobre isso... Estou preocupado.

O semblante feliz de Saori mudou completamente para um rosto sério e apreensivo.

– Seiya... O que aconteceu? Aimi...

– Ela está bem – tranquilizou-a, vendo-a soltar um suspiro de alívio – De madrugada eu senti dois cosmos estranhos.

– O QUE?! – Foi tudo que saiu dos lábios dela.

– Eu não tenho ideia de quem eram. Quando eu acordei não havia ninguém aqui além de nós. Os dois cosmos eram ariscos, mas um deles era bem mais suave. Eu fiquei com medo. Te deixei trancada aqui por alguns minutos e corri até o berçário, mas Aimi estava bem, dormindo. Eu voltei pra cá e só fui conseguir dormir quase de manhã.

Saori ficou muda por alguns instantes, por isso Seiya estava tão cansado. Não sabia o que pensar, aquilo a assustava, principalmente pela filha. Os dois caíram num silêncio perturbador por vários segundos, até se lembrarem que logo a enfermeira estaria ali. Seiya foi tomar banho e trocar de roupa, ajudando Saori a arrumar-se em seguida. Logo foram interrompidos por batidas na porta. Uma enfermeira entrou trazendo comida.

– Bom dia – cumprimentou sorridente.

Após Saori ter se alimentado e Seiya ter dado um pulo no restaurante do hospital, a enfermeira acompanhou ambos a caminho do berçário. Saori andava sendo apoiada por Seiya, sem dificuldades ou dor, mas devagar por instruções médicas.

– Você parece muito bem para quem deu à luz da primeira vez. Não sente nada errado mesmo?

– Não.

– Isso é ótimo. Amanhã cedinho poderão ir os três pra casa.

Antes que virassem no próximo corredor, ouviram uma voz familiar conversando com outra enfermeira. Logo ela apareceu empurrando um carrinho com um berço transparente e a bebê acomodada nele. Tatsumi estava ao seu lado, surpreendendo ambos com o encontro.

– Minhas saudações – ele disse para o casal – Como se sente? – Perguntou com real preocupação, pois era praticamente como um pai adotivo para Saori.

– Eu estou ótima, Tatsumi – lhe disse sorrindo – Obrigada.

– É uma garotinha muito bonita e adorável. O senhor Mistumasa ficaria tão feliz em estar aqui pra ver isso – ele cobriu os olhos por um instante, segurando as lágrimas de felicidade.

– Eu tenho certeza que meu avô está muito feliz, de onde ele estiver...

Logo perceberam movimentos no berço móvel e murmúrios alegres vindos dele. Aimi agitava-se e olhava para a mãe, derretendo o coração de todos ali, e fazendo as enfermeiras rirem com suas gracinhas.

– Ela deve estar com fome – a que carregava o berço falou – Vamos deixá-la com vocês agora.

Após levarem Saori de volta ao quarto, Tatsumi conversou rapidamente com o casal e se retirou para que cuidassem do bebê, deixando os três sozinhos. Saori abriu um grande sorriso ao ter a filha nos braços mais uma vez e a levou até seu ombro num doce abraço, beijando e acariciando sua cabecinha.

– Mamãe te ama muito – sussurrou para a pequena.

Seiya as olhava com um sorriso bobo, mas logo sua expressão mudou ao lembrar-se mais uma vez da madrugada conturbada.

– Aimi não parece assustada. Creio que não tentaram nada, mas ainda estiveram ali.

– Sejam quem forem, a enfermeira os teria visto... E nem sabemos de nada ainda. Fico tranquila por Tatsumi e Seika estarem de olho na casa e não ter acontecido nada estranho.

– Eu liguei pra os outros quando estava no restaurante. Eles disseram que irão lá em casa ver como estão as coisas nos arredores.

– Seiya... Estou com medo.

Surpreendeu-se quando o marido sentou-se ao seu lado e abraçou as duas, afagando seus longos cabelos e beijando sua testa.

– Não tenha. Aconteça o que acontecer, eu estou aqui. Eu vou proteger você vocês duas. Eu prometi isso e eu vou cumprir. Eu te amo, Saori... Eu amo a nossa princesa, e não vou deixar que ninguém faça nada a vocês, mesmo que seja um deus.

Relaxou nos braços dele, sentindo-se mais confortável com aquelas palavras, mas ainda triste.

– Não é justo que só você se machuque. Por que os deuses nos perseguem tanto...? Todas essas batalhas... Só estávamos nos defendendo. Ela só tem um dia de vida e já aconteceram coisas estranhas antes mesmo do fim dele. Nunca poderemos ser felizes?

– Eu prometo que nós vamos ser. E está tudo bem agora, não vamos deixar essas coisas se colocarem entre nós e os momentos que nós três podemos ter juntos.

– Você está certo.

Aimi murmurou, insinuando que começaria a chorar, o que de fato ela fez no segundo seguinte.

– Não chore, meu amor – Saori pediu quando Seiya a soltou para que ela pudesse amamentar a bebê, que logo silenciou enquanto saciava a fome.

– Ela é tão pequenininha que dá até medo de pensar que amanhã nós estaremos cuidando dela sozinhos. Imagina deixa-la escorregar quando tentarmos lhe dar banho.

– Isso não vai acontecer, eu vou te ensinar depois. E Seika e Tatsumi vão nos ajudar por enquanto.

A enfermeira os havia ensinado tudo que precisavam saber sobre a pequena no dia anterior, mas ainda se sentiam um tanto inseguros com algumas coisas, especialmente Seiya.

******

– É incrível a devoção que ele tem a ela – até mesmo o arrogante deus mais velho se impressionava do seu posto de observação no alto de uma árvore.

– A devoção digna de uma deusa, mas o que me deixa irritada e confusa é o motivo dele.

– É... Não faz sentido algum. Não precisa dessa coisa chamada amor pra ser leal a uma deusa.

– Se fosse só isso... Ele nem precisava ter se casado com ela e gerado uma filha.

– E por que essa criança é tão importante pra eles? O que Atena pretende abrindo mão de seu dever como deusa virgem para prolongar sua vida em uma criança metade humana?

– Lembre-se que não é filha de um humano qualquer.

– Mesmo assim, não faz sentido.

– Eu sei.

Voltaram a ficar em silêncio observando o interior do quarto pela janela. Já eram três da tarde. A família havia chegado de manhã bem cedo, junto com o motorista e outra mulher parecida com Pegasu, deviam ter algum laço de sangue, talvez irmãos. Imaginavam que Seiya, mesmo sendo pai de primeira viagem, não seria uma grande decepção, mas estava simplesmente os deixando estarrecidos. Fazia tudo para Atena, e declarou que assim seria até a esposa estar perfeitamente recuperada, por mais que ela insistisse que estava bem e podia se virar em muitas coisas. Pegasu a carregava para cima e para baixo nas escadas, dera banho na bebê sozinho após ser instruído por Atena, que apenas observou muito feliz. O cavaleiro também buscava a filha no berço quando chorava, não tinha problemas em trocar suas fraldas quase sem ajuda de Atena, e rapidamente aprendera a lidar com as mamadeiras da criança.

– Bom... Isso irá garantir que a criança estará bem como nosso pai quer – Ignis comentou – Mas que situação ridícula! Atena é uma deusa! Como pode se deixar ser servida por um reles cavaleiro de bronze até para coisas tão simples? E como uma deusa tão poderosa, irá se recuperar muito mais rápido do que humanas comuns.

– Patético! – O irmão concordou – Pegasu está acostumando muito mal nossa irmanzinha... Talvez essa imagem medíocre que Atena tem hoje seja inteiramente culpa dele. E o pior é que pra tudo isso eles usam uma desculpa sem lógica alguma chamada amor! – Disse irritado batendo no tronco da árvore.

– Pare de se alterar! Quer que aconteça como ontem?! Por pouco ele não nos pegou!

– Isso está ficando um tédio...! Tudo que estamos vendo agora é um casal de traidores sorrindo permanentemente como dois loucos idiotas e um bebê fazendo um reconhecimento de seu novo quarto e dando muito trabalho a eles.

Ela ignorou o comentário, apesar de concordar com Astrapih, e continuou sua observação tentando de todas as formas entender o que acontecia ali e por quê. Passados alguns minutos, sentia Astrapih dar leves socos em seu braço, e pensou no que o tédio era capaz de fazer com as pessoas, fossem humanos ou deuses. Continuou a ignorá-lo até seu sangue começar a ferver por o irmão perturbar sua calma observação.

– Deixe esses três... Vamos fazer alguma coisa. Podíamos treinar ou voltar e relatar as informações – dizia ainda socando a irmã – O que é, Ignis? – Perguntou em tom de deboche – Está com medo de lutar por que é mulher e sabe que pode perder pra mim? – Disse com um sorriso convencido, mas somente até ela realmente perder a cabeça e agarrá-lo pelo pescoço com um rosnado de raiva.

O arrastou à toda velocidade para bem longe da casa, do outro lado do lago, onde iniciaram uma verdadeira pancadaria, que horas mais tarde fez o gêmeo se arrepender de ter provocado a irmã. No cair da noite estavam novamente sentados no alto da mesma árvore. Astrapih agora calado, por mais tédio que sentisse, e Ignis olhando concentrada como sempre para o alvo.

– Não tem tanta diferença da situação deles pra nossa...

– O QUE?! Está ficando louca?!

– Nada que vem deles faz sentido pra nós, mas... O nosso pai nos criou somente para crescer rapidamente, monitorar uma família, roubar seu bebê e convencer a mãe a vir para nosso lado? E depois o que fazemos com o pai? Matá-lo? Mesmo que esteja cuidando tão bem da criança que nosso pai tanto deseja ver bem? Não há nada mais para fazermos com nossa existência?

– Está ficando doida?!! São inimigos, traíram nosso pai e os outros deuses! Essa criança nem deveria existir! Nosso pai foi muito benevolente lhes dando uma alternativa, permitindo que a criança viva, e ainda esperando dois anos para Pegasu se despedir, sem saber, delas duas. O que poderíamos fazer de mais importante do que servir nosso pai? Eu sei que você é mais tranquila, pensante, que esse clima calmo e essa paisagem bonitinha daqui te contagiam, mas em que é diferente do Olimpo? Não se deixe enlouquecer por coisas tão idiotas, Ignis!

– Cale a boca! Vamos aproveitar que Pegasu não está no quarto e as duas estão em sono profundo. Quero ver essa menina bem de perto. E dessa vez eu não quero nenhum rastro de cosmo depois que sairmos!

Transportaram-se para o quarto o mais silenciosamente possível e caminharam até o berço ao lado da cama do casal, onde Saori adormecera. A garotinha dormia bem aconchegada entre cobertores infantis e pequenos travesseiros. Um pônei branco de pelúcia lhe fazia companhia.

– Vai tirá-la daí? – Astrapih cochichou para a irmã.

– Não... Seria interessante saber o quanto um ser tão pequeno pesa, embora eu duvide muito que tenha mais que três quilos e alguns gramas, mas se eu fizer isso, por mais cuidado que eu tenha, com certeza ela sentirá e ao perceber que não sou sua mãe ela vai nos denunciar. Mesmo sendo um bebê, já tem um cosmo impressionante. Uma mínima variação nele trará Pegasu até aqui e fará Atena acordar. Ainda não sei explicar a forte ligação que ela diz ter com a filha, mas posso sentir que mesmo dormindo os cosmos das duas estão conectados o tempo todo.

Ainda se mantiveram algum tempo ali, no qual a gêmea pode notar mais uma vez o quanto a bebê se parecia com Atena, inclusive em seu cosmo amável e quentinho, mas podia sentir ali também a mesma impulsividade de Pegasu. Não disse ao irmão, mas achou a criança realmente linda, e pode entender ao menos uma coisa, porque os bebês seduziam tanto os humanos. Mas ainda não conseguia processar como eram capazes de fazer isso antes de nascerem, mesmo sendo crianças comuns.

– Vamos logo embora.

******

– Faz muito tempo que ele está parado aí olhando a Terra... – Aeris falou para os outras, enquanto observava Zeus obcecado por uma espécie de portal onde podia ver o que se passava.

– Vejam! – Ele apontou – Venham, minhas fiéis ninfas, em breve se erguerá aos céus um belo ser! Embora filha daquele, daquele... Mortal... – disse com desprezo – Mas um dia ela será uma deusa poderosa e me trará muito orgulho! E se tudo der certo, arrebatarei minha filha Atena de volta para onde ela nunca deveria ter saído!! HAHAHAHAHAHAHAHAHA! – Ria enlouquecido, fazendo as ninfas o olharem assustadas.

– Senhor... – Káfsi começou – Acha mesmo que há chances disso acontecer tão facilmente...? Não estamos falando de qualquer um. É Pegasu.

Zeus interrompeu sua gargalhada, assumiu um semblante de raiva e deu um soco no braço de seu trono dourado, que poderia facilmente ter quebrado se fosse mais frágil.

– COMO OUSA DUVIDAR DE MIM, KÁFSI??!!! Pegasu aprenderá por bem ou por mal se colocar em seu lugar!!! EU SOU ZEUS!! O deus dos deuses!!! Nenhuma de minhas ideias jamais me frustrariam!!! Essa não será a primeira!!! – Gritava com raiva.

– Não estou duvidando senhor... Apenas sendo cautelosa – Káfsi respondeu, encolhida junto às outras.

– Saiam daqui!! Estão me tirando a atenção dos fatos que estão ocorrendo lá embaixo!!

Nenhuma delas precisou ouvir duas vezes para se retirar prontamente para bem longe da sala de Zeus.

– Nunca vi alguém ficar tão nervoso com algo dessa natureza – Kýma falou.

– Sem falar que a atenção que ele dá a isso é absurda – Tháyma disse.

– Já vi algo parecido na Terra... – Arashi tentava se lembrar – Os humanos se sentam ao redor de uma coisa que parece um cubo luminoso onde podem ver tais coisas... Acho que o chamam de TV e se não me engano assistem uma coisa chamada novela onde vez ou outra tem gente tão irritada quanto nosso senhor Zeus.

Elas se olharam e riram, discretamente para não atrair os olhares de quem pudesse aparecer.

******

Seiya voltou ao quarto, encontrando Saori sentada na cama, observando satisfeita a bebê dormir.

– Já é tarde. Nós devíamos dormir também.

– Os outros disseram que não encontraram nada de anormal por aqui. Mas ainda estou apreensiva. Não sabemos o que aconteceu ontem.

– Eu não sei... Está tudo bem até agora. Nós dois estávamos exaustos, podemos ter tido sonhos estranhos apenas.

– Eu espero que sim.

– Saori, por favor, durma um pouco. Eu prometo que vai ficar tudo bem. Vamos trazer Aimi para mais perto. Isso também vai me deixar mais tranquilo.

Saori tirou a menina do berço com todo o cuidado do mundo para não despertá-la e Seiya empurrou o berço devagar até ele estar colado na cama, de forma que poderiam facilmente passar as mãos pelas grades para terem acesso à Aimi durante a noite. A deusa sentou na cama com a menina nos braços e a balançou e ninou suavemente por alguns minutos, finalmente sorrindo outra vez.

– Ela é tão linda que simplesmente é difícil soltá-la.

– Igual a você até nisso – Seiya comentou com um sorriso bobo para as duas, quando sentou-se ao lado de Saori e a envolveu com um braço.

A deusa riu baixinho e virou-se para dar um beijo no rosto no cavaleiro. Ele levou a mão livre à cabecinha da pequena e a acarinhou de leve, beijando-a em seguida.

– Papai e mamãe precisam dormir também, princesa, pra conseguirmos acordar daqui a pouco quando você ficar com fome de novo.

Saori riu mais uma vez e também afagou os cabelos da filha, beijando sua testa e se erguendo para coloca-la de volta no berço, a arrumando entre os cobertores e acomodando o pônei de pelúcia ao seu lado.

– Nós te amamos muito. Obrigada por estar aqui, Aimi – ela disse.

Deitou-se de frente para o berço, sentindo Seiya puxar o cobertor sobre eles e abraça-la pelas costas.

– Boa noite – ele sussurrou ao beijá-la no rosto.

– Boa noite, Seiya – falou sorridente, encolhendo-se e se acomodando melhor a ele.

Pousou uma das mãos sobre a de Seiya em sua cintura e a outra estendeu por entre as grades do berço, segurando a mãozinha de Aimi por baixo do cobertor. Todos os pequenos dedos se fecharam em um único de sua mão, fazendo-a sorrir ao notar o quanto ela era pequena perto deles dois e sentindo crescer seu instinto e vontade para amá-la e protege-la. Acabou fechando os olhos e adormecendo com os afagos de Seiya em seu cabelo.