Gaiden - O amor de Atena
3 Capítulo 3 - Os deuses gêmeos
Capítulo 3 – Os deuses gêmeos
– Saori...
O sussurro chegou distante aos seus ouvidos. Sentiu alguém beijar delicadamente seu rosto. E então lembrou-se. Ela havia perdido a consciência quando a estavam levando para o quarto. A última coisa de que se lembrava era o aperto firme de Seiya em sua mão durante todo o caminho até ali.
– Saori...
Os olhos azuis abriram-se devagar. Ela piscou algumas vezes, percebendo o ambiente em volta. Seus longos cabelos estavam soltos de novo, sua cabeça repousava num travesseiro branco e fofinho, bem como o colchão, e um lençol a protegia do frio. Uma de suas camisolas substituía o vestido que usava antes.
– Querida... Você está bem?
Ela finalmente deixou de lado a reconstituição mental dos fatos e se virou bem devagar para o outro lado. A primeira coisa que seus olhos focaram foi o bercinho transparente com mantas cor-de-rosa e brancas a sua frente e sentado na beirada da cama, um Seiya muito feliz e satisfeito, segurando um pequeno embrulho de cobertores infantis nos braços. A deusa chorou de emoção ao ver aquilo, recebendo uma carícia de Seiya em seus cabelos.
– Não chore, assim vai ficar difícil ver nossa princesa. Ela é tão linda quanto você – disse secando suas lágrimas com os dedos – Fique deitada. Eu vou colocar ela aí com você. Aimi, veja como sua mãe é linda, igual a você.
Seiya levantou-se com a filha nos braços e cuidadosamente a deitou junto com Saori. Ela olhou com atenção para cada detalhe da pequena, vendo-a mexer os bracinhos e pés, sua pele era bem clarinha como a da mãe. Ela vestia uma roupinha rosa claro e branca. Olhou atentamente seu rostinho. Se parecia com ela, mas seus poucos fios de cabelo eram castanhos como os de Seiya. Levou a mão até a barriguinha da bebê e a afagou. A menina riu e quando abriu os olhos, Saori pode ver que eram tão azuis quanto os seus. A bebê olhou para o lado, encarando Saori, e emitindo uma exclamação de alegria. O olhar dela se parecia tanto com o de Seiya, mas seu sorriso a deixava ainda mais parecida com Saori.
– Olá, Aimi – ela sorriu e segurou as lágrimas, que insistiam em vir aos seus olhos – Mamãe ama muito você, meu amor.
Beijou a bochecha fofinha da criança e acariciou a pele macia de seu rosto com o polegar. A abraçou com cuidado e viu Seiya se aproximar, beijando suavemente a testa da filha e em seguida selando seus lábios com os de Saori apaixonadamente. Ele também tinha os olhos marejados e se segurava para não chorar mais do que já havia feito quando sentiu seu coração invadido de felicidade ao ouvir a filha chorando em seu nascimento e ao segurá-la pela primeira vez junto com Saori, que estando exausta e enfraquecida, não teve muita chance de prestar atenção à bebê no momento.
– Minha família está toda aqui agora. E é tão linda... A coisa mais linda que já vi. Acho que meu cosmo vai explodir de felicidade – Seiya lhe falou ao se afastar.
– Posso dizer o mesmo.
– Será que ela não está com fome?
– Ela mamou antes de me trazerem pra cá. Disso eu me lembro, embora vagamente. Ela vai chorar quando tiver fome de novo. A enfermeira não disse nada?
– Ela me instruiu de como cuidar dela e falou pra chama-la quando você acordasse. É melhor fazer isso logo.
Seiya chamou a enfermeira responsável por Saori, e ela logo chegou ao quarto, analisando o estado da mãe e da criança e lhes dando mais algumas instruções. Ela as considerou saudáveis e bem para receber visitas, ergueu a parte de cima do colchão para Saori ficar sentada com Aimi nos braços, e se retirou.
– Os outros estão lá fora com Seika. Tatsume foi cuidar da casa por um tempo antes de voltar pra cá. Você sente mesmo bem pra receber visitas?
– Sim, eu quero vê-los.
Seiya saiu por alguns segundos e voltou com Seika, os cinco cavaleiros, Shunrei e os dois filhos, Shoryu e Hyuho. Todos encantaram-se com a bebê e enquanto conversavam com Saori, Seiya olhou pela janela do quarto. O céu azul e sereno parecia anunciar um futuro de paz, mas interiormente Seiya ainda receava pela paz da família. Há anos não eram perturbados, mas não duvidava que com o nascimento de Aimi, algum parente de Saori decidisse incomodá-los. Porém, se acontecesse, ele estaria preparado. Agora tinha ainda mais motivos e mais força para lutar. Protegeria as pessoas que mais amava e tudo que queria no momento era viver aquela felicidade com elas. Virou-se para o grupo que conversava baixinho, mas animadamente com a deusa, e deixou um sorriso sincero surgir em seus lábios.
******
Pés absolutamente silenciosos invadiram o quarto pela madrugada. A mãe encolhida debaixo dos lençóis e o cavaleiro para o qual o gêmeo mais velho olhava com implicância, estava dormindo no sofá. O quarto estava escuro, mas podiam ver que o bercinho estava vazio, iriam verificar o berçário depois.
– Eles estão mesmo acabados – Ignis cochichou ao notar que não vinha nenhuma reação do casal – Esse é o grande cavaleiro de Pegasu?
– É um fraco. Não consigo acreditar que foi capaz de superar os deuses.
– Não o subestime só porque somos deuses. Está sentindo o cosmo monstruoso que há nele? É quase tão poderoso quanto o cosmo de Atena.
– Verifique como Atena está. Ouvi os humanos lá fora falarem que não é incomum ter febre depois de passar por isso.
A deusa loura foi à cama onde estava sua irmã, com a qual nunca convivera de verdade, e estendeu as mãos para tocar sua testa e o local onde deveria estar o ventre da deusa sob os lençóis, com todo o cuidado, a fim de não despertá-la. Emitiu uma luz dourada de suas mãos e a extinguiu após alguns segundos.
– Ela está muito esgotada e o corpo ainda está machucado por dentro, mas vai ficar bem logo. Não é necessário nos preocuparmos com a vida dela. Enquanto nosso pai decidir mantê-la viva, não é algo assim que vai arriscá-la. E não tem nenhuma febre, até parece que Pegasu não ia se preocupar com todos os detalhes. Cuida melhor dela do que de si mesmo. Se nosso pai a quer viva só pela criança ou para castiga-la depois... Não temos que nos preocupar, ela estará aqui quando a hora chegar.
– O cosmo de Pegasu está se elevando. Deve ter nos percebido. É melhor irmos embora antes que acorde.
– Não me surpreende. Segundo nosso pai, este idiota chegou a despertar de um coma quando sentiu o cosmo de Tetis perto de Atena.
– Ele nos servirá nesses dois anos, mas pode nos dar trabalho quando viermos... O melhor seria fazer algo agora. Creio que nosso pai está sendo imprudente.
– Pensa em acabar com a vida dele enquanto dorme? — Ela abafou o riso – Pense nos antecedentes dele, lembre das ordens que recebemos e não conte com essa possibilidade. Uma luta aqui poderia pôr tudo a perder. Vamos logo embora – ela disse já de pé, caminhando em passos cautelosos para longe do casal e desaparecendo ali.
Astrapih deu um último olhar ao casal, conseguindo perceber semelhanças do rosto de Atena com o de sua irmã gêmea, não podendo negar que, mesmo sendo uma inimiga, a deusa de Terra era tão bonita quanto Ignis. Olhou com desprezo para Seiya e seguiu a irmã, sumindo no mesmo lugar.
– Saori! – Seiya levantou assustado, olhando em volta a procura de intrusos ou quem sabe, enfermeiras, mas não havia ninguém.
Correu para a cama onde estava a esposa e a encontrou dormindo sem nenhum sinal de perturbação.
– Mas... Que cosmos foram esses que acabei de sentir? Um era tão agressivo... E o outro tão calmo, mas amedrontador... Eu tenho certeza que tranquei a porta. Não pode ter sido um sonho.
Não queria deixar Saori nem por um segundo, prometera isso a ela, mas encarou a porta com uma pontada de desconfiança. Verificou as janelas e pegou a chave da porta, aproximando-se de Saori e beijando demoradamente sua testa.
– Eu juro que eu vou voltar voando – lhe sussurrou acariciando seu rosto.
Caminhou em silêncio até a porta e a abriu, constatando que estava trancada, o que tornava as coisas ainda mais estranhas. Já do lado de fora tornou a trancá-la e correu o mais silenciosamente que podia na direção em que ficava o berçário.
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– Aquela ali – a irmã apontou para uma criança de roupinha rosa na fileira do outo lado.
– É igualzinha à Atena. Mas que cor estranha de cabelo.
– É de Pegasu. E essa cor é muito comum entre os humanos. Se te deixa menos decepcionado saber, os olhos dela são iguaizinhos aos nossos.
– Todas essas crianças são deixadas sozinhas aqui à noite?
– Não. Todos esses nasceram nos últimos dois dias. As mães estão debilitadas como Atena e não convém deixar durante a noite criaturas tão frágeis nas mãos de pais sem habilidade. Por isso são todos trazidos pra cá. Se algum deles chorar ou tiver algum problema, com certeza uma enfermeira que está em algum lugar aí dentro virá cuidar dele.
– Como sabe tudo isso? Pra que estudar tanto os humanos?
– Nosso pai exigiu uma missão perfeita e me deu os meios para executá-la, estudar um pouco sobre os humanos era um deles.
Se detiveram por mais algum tempo observando a menina e os outros bebês.
– Não sente algo estranho olhando pra eles?
– Sim, mas certamente é porque apesar de termos a mesma aparência que os humanos, nunca fomos desse tamanho. É muito mais proveitoso não nascer tão pequeno, frágil e totalmente dependente.
Ignis olhou novamente para as crianças, sem encontrar explicação alguma para a estranha sensação, e em seguida deixaram o lugar antes que alguém aparecesse ali.
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Seiya finalmente chegou ao corredor do berçário, rapidamente se pondo a frente do vidro e se tranquilizando ao ver que Aimi estava bem. A enfermeira apareceu e acenou para ele, devia ter ouvido seus passos. Em segundos a mulher estava do lado de fora.
– Algum problema? Você... É o pai daquela adorável garotinha de olhos azuis.
– Sim, sou eu. Não aconteceu nada demais. Eu só... Estava sem sono.
– Ficou preocupado com a pequena durante a noite? – Ela sorriu – Fique tranquilo. Nós cuidamos muito bem de todos os bebês aqui.
– Não apareceu mais ninguém pra ver eles agora à noite?
– Não... Talvez porque já seja três horas da manhã – ela riu baixinho – Você é o único pai coruja que apareceu aqui. Diga-me... Sua esposa está sozinha? Ela está bem?
– Sim, ela está ótima, ficou dormindo. Eu só corri até aqui rapidamente, vou voltar agora.
– Volte mesmo, mesmo que ela esteja bem não deve deixa-la só nesses dias. Vá logo – ela acenou sorridente enquanto via Seiya se afastar.
O cavaleiro adentrou o quarto, trancando a porta novamente e indo sentar-se ao lado de Saori, que ainda dormia. Não conseguiu mais pregar o olho, ficou a madrugada quase inteira observando a esposa e torcendo para que estivesse mesmo tudo bem e talvez aquilo tivesse sido apenas um sonho. Às quatro e meia da manhã foi vencido pelo sono.
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