Gabbiani e seus Fantasmas
1 Capítulo Único - O Espetáculo
Notas iniciais
O Circo Gabbiani ainda estava em luto. O senhor Gabbiani, dono e alma do circo, acabou por falecer de desgosto. Anos atrás, quando ainda era um homem de posses, havia escancarado um esquema contra a Coroa. Com isso, limpou sua consciência. E com isso, sujaram seu nome.
A honestidade um dia fora melhor valorizada.
Vendo num circo à beira da falência sua única opção, o senhor Gabbiani e sua filha, Liriel, conseguiram se reerguer. O Circo Gabbiani era um sucesso. E, se dependesse da garota, iria continuar sendo.
Aos quinze anos, assumia o comando do espetáculo. Era a dona do trapézio. Fazia acrobacias e movimentos antes dados como impossíveis com a maior facilidade. E como era flexível. O trapézio parecia fazer parte do seu corpo, um corpo de tamanha elasticidade e coordenação que parecia não ter ossos. Para o público, essa era uma de duas explicações para o fenômeno circense.
A outra dizia Liriel havia sido tocada.
O espetáculo da noite seria diferente. “O primeiro sem meu pai”, pensava enquanto vestia a meia calça. Era a primeira vez que se apresentaria em Arzalum. O Rei Branford e sua rainha Terra estariam na plateia. Uma noite como pessoas da plebe. E tudo isso por solidariedade à garota.
Olhou-se no espelho enquanto vestia o collant, que, assim como seus cabelos, tinha uma coloração avermelhada. A pele branca estava ainda mais pálida. Nada que um pó não desse jeito.
— Belo collant – disse uma voz grave no fundo do camarim.
Liriel virou-se, assustada. Um adolescente, não muito mais velho que ela, estava apoiado na arara de fantasias. Era alto, tinha olhos escuros e cabelo raspado. Se o rosto não fosse tão marcado por cicatrizes, seria bonito.
— O que você quer? – A pergunta era pertinente. Perguntar “quem é você?” era algo desnecessário. Pessoas daquela laia eram classificadas por intenções, não por um nome.
— Gaspar – Ele disse, olhando-a de cima abaixo. Liriel sentiu o rosto esquentar. – Fique tranquila, não estou aqui a muito tempo. O collant já estava te cobrindo.
— O espetáculo vai começar. Virão me procurar se eu me atrasar.
— Estou aqui em paz. – Disse, se afastando. – Vim dar meus pêsames...
— Ah, conta outra.
— ... e fazer uma proposta. Decente.
Liriel cruzou os braços. Ouviria, por curiosidade.
— Prossiga.
Ele sorriu. A proposta seria verdadeira, então.
— Um amigo meu vem te vigiando desde que chegou. A maioria dos nossos vem de outras cidades.
Um segundo de silêncio. Dois. Cinco.
— Somos órfãos da sociedade. A vida não foi boa conosco, mas soubemos nos virar.
Começou a se aproximar, lentamente.
— Todos já estamos mortos, não é? Vivemos fazendo de tudo para sobreviver.
Liriel mordeu o lábio. Ele estava em sua frente.
— Você é talentosa. É hábil. Inteligente. Bonita.
Ele afastou uma mecha do cabelo ruivo de sua testa.
— É forte.
— O que eu ganho? – A vida no circo, para ela, tinha somente uma desvantagem. O dinheiro era curto.
— Uma identidade... – Disse, em seu ouvido. O trabalho não era pago, então.
— Eu sou uma Gabbiani.
— ... E uma nova família.
Ela o afastou, sem saber o que dizer. Ele sorriu.
— Você dará uma boa Fantasma. – Disse, se afastando. Parou. – Eu te procuro amanhã. – Saiu do camarim.
Liriel suspirou. Era a melhor proposta que havia recebido. Mas aquela não era a hora.
O espetáculo ia começar.
De cima do trapézio, Liriel pensava nas palavras de Gaspar, esperando a música tocar. Olhou para a plateia, procurando o Rei e a rainha. Lá estavam eles, dando seu apoio para pagar a fidelidade de seu pai. Uma garotinha estava ao lado deles. Uma plebeia.
Os olhos dela brilhavam. Estava suja e muito magra. Seus cabelos loiros e encaracolados estavam embolados e quase não brilhavam de tanta sujeira. E, mesmo assim, estava ali, ao lado do Rei e da rainha, assistindo a um espetáculo pago. Liriel sorriu. O Rei Branford era, com certeza, o maior de todos os Reis.
A banda começou a tocar. Liriel respirou fundo e pulou, agarrando as barras e girando. Parou e puxou seu corpo para cima até por os pés no balanço. E ficar de pé.
A multidão ovacionou.
Liriel começou a balançar para frente e para trás. Quando percebeu que, se balançasse mais forte, iria se bater no topo da tenda circense, sorriu. E esperou que o impulso a levasse para frente. E pulou.
A multidão segurou a respiração. Liriel também.
E sua mão direita encontrou a barra.
Gritos e suspiros vinham da plateia.
Jogou seu corpo para trás. Com a barra entre as coxas e as panturrilhas, Liriel ficou de cabeça para baixo, olhando para a plataforma da direita. Edgar, o homem forte, estava lá, com a outra barra nas mãos. Ela olhou para a plateia e apontou para ele com uma das pernas, pendurada com a outra. Uma tocha foi acesa atrás dele, chamando atenção da plateia.
Dobrando o corpo, Liriel colocou novamente a perna livre junta a outra e deu um impulso para agarrar as cordas e subir. Já sentada, se pôs de pé na barra, de frente para Edgar. Ela assentiu e ele concentrou sua força para jogar a barra. Só havia uma chance.
Quando a plateia entendeu, todos ficaram de pé.
A barra se aproximava e Liriel percebeu onde era seu ponto máximo de proximidade dela. E levantou a perna direita, pulando.
E o calcanhar direito prendeu a barra direita. E o pé esquerdo, a esquerda.
Todos gritaram diante da cena. A garota acabara de escalar entre as barras, segurando-as com o pé traseiro e as mãos, agarradas à barra estendida em sua frente, onde apoiava o pé direito.
Em meio a palmas, Liriel fechava as pernas e entendia.
O circo era de seu pai, mas carregava seu nome.
Mais tarde, depois de um banho, Liriel foi checar os lucros da noite na entrada do circo. A trupe havia saído para comemorar a noite de estreia. Enquanto contava as notas com Edgar, ouviu um grito.
De uma garota.
Após o espetáculo, Lara foi agradecer ao Rei e à rainha por pagarem sua entrada, mas quando perguntada por seus pais, fugiu e se escondeu no que julgava ser um depósito, coberto por uma lona. No chão coberto de palha, em cima de um caixote, três vasilhas com algo quente e cheiroso chamaram sua atenção. E abalaram seu estômago. Com os dedos, levou a mistura das três a boca, gostando do sabor.
Aquilo tinha sabor de mingau.
Após terminar de comer como um bicho da tigela menor, Lara ouviu uma voz masculina e se escondeu do lado das caixas.
— Parabéns, meus amigos. Vocês brilharam hoje. Merecem um descanso.
O depósito foi aberto. Passos de um homem e de algo que Lara não soube o que era a assustaram. Ela prendeu a respiração.
— Boa noite.
O homem saiu e trancou o depósito, por fora.
Lara saiu do esconderijo e olhou o que havia ficado no depósito com ela.
Ela não sabia, mas aqueles três bichos quadrúpedes de pelo marrom e olhos negros eram ursos.
Eles cheiraram o ar e rosnaram. Cheiro de comida vinha dela. Eis o que o instinto entendeu:
Aquele ser era desconhecido.
Invadira o seu lar.
E roubara a sua comida.
Ela olhou seus dentes. Eis o que fez no instinto:
Gritou. Repetidamente.
Enquanto Edgar foi pegar uma espada, Liriel seguiu os gritos. Chegou perto do depósito e parou quando ouviu mais um grito, vindo do espaço dos ursos. Ela agradeceu ao Criador por saber que Henry, o adestrador, sempre deixava as chaves na roda da carroça que puxa as jaulas.
Tirou a lona de jaula e viu.
A garota loira do circo estava deitada, com os três ursos rosnando. O menor estava em cima dela, com os dentes perto de seu rosto. Os outros pareciam estar ensinando-o a caçar.
Liriel tentou abrir o cadeado, mas a chave emperrou.
O menor, então, mostrou as garras e arranhou o braço da garota. Ela gritou e chutou-o na barriga. Ele se encolheu.
Liriel tentou tirar a chave, mas não conseguiu. Então ela gritou. E sentiu uma pontada na testa.
A chave voou, junto com o cadeado quebrado, para sua mão.
Sem parar para pensar no que havia acontecido, ela abriu a grade e assoviou. O menor urso, prestes a atacar a garota, parou.
— Garotos! Parem agora! — Disse, batendo o cadeado em uma das barras da grade.
Os ursos se encolheram, com dor. Ela correu para o lado da garota.
— Tá tudo bem. Vai passar.
A garota a abraçou e continuou gritando e chorando, o sangue escorrendo dos quatro rasgos no braço esquerdo.
— Qual é o seu nome?
A menina parou de gritar, mas não respondeu.
— Tudo bem, você não quer dizer seu nome. Vamos criar uma...
E ela sentiu como doía.
Uma identidade.
E decidiu.
... e uma nova família.
— Posso te chamar de Cachinhos?
A garota assentiu.
— Um amigo meu vai cuidar de você. Vai cuidar de nós duas.
E a garota voltou a chorar.
— Como você fez aquilo? – Perguntou, entre soluços, apontando para o cadeado no chão.
— Eu não sei.
O espetáculo ia começar.
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