G.P.A.
1 Pequenas coincidências
Notas iniciais
Alex Santana está voltando para casa, após um longo dia de aula. Ele é um rapaz bem cuidado, com cabelos pretos curtos, vestindo um uniforme escolar passado e limpo. Ele tem olhos muito pretos, que exibem uma feição cansada. Como ele estuda em tempo integral, mal tem tempo para si mesmo. Seus poucos amigos, que o chamam apenas de Santana, costumam dizer que Alex (ou Santana) é uma pessoa ocupada demais para se divertir.
Seus pais sempre esperaram muito dele. Desde pequeno, ele sempre tirou as melhores notas da classe. Quando estava na 2ª série, ofereceram uma proposta aos pais dele para ele avançar direto para a 3ª. Eles ficaram radiantes com a ideia, para eles apenas o dinheiro importava, quanto mais cedo Alex começasse a ganhar dinheiro, melhor seria para todos. Mas Alex não quis mudar de sala.
— Eu já tenho meus amigos aqui! Não quero!
Seus pais ficaram decepcionados, mas como a diretora ouviu isso, ela não obrigaria o menino a avançar um ano. Ele ficou de castigo por 2 semanas, pela sua teimosia.
Eles sempre moraram na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Brasil. Uma cidade que se tornou muito violenta nos últimos anos. Mas que, quando Alex era pequeno, era um ótimo lugar para se morar.
Hoje, Alex já é mais velho. Ele tem 18 anos e mora sozinho, no bairro Vila Ipiranga. Está no último ano do Ensino Técnico e em Dezembro irá se formar como Técnico de Informática, mas ainda faltam 8 meses para isso. E hoje é só mais um dia, de tantos que ele ainda irá viver.
Todo dia, ele repete a mesma rotina.
Pela manhã, mais precisamente às 6 horas, Alex se levanta e toma banho. Escova os dentes. Arruma seu material e se veste. Toma café da manhã. Sai de casa exatamente às 6:30 para pegar o primeiro o primeiro ônibus, que passa 6:35 na parada ao lado da casa dele. Ele chega no colégio às 6:55 em média, logo antes da primeira aula começar. Ele tem aulas normais de Ensino Médio pela manhã e, após o almoço, durante a tarde ele tem aulas de informática avançada. É uma rotina cansativa e ele só chega em casa as 19:30. Mas ainda são 18:55 e ele está esperando o ônibus, que deve passar até as 19 horas.
Alex pensa no que vai comer no jantar, despreocupado. Há uma outra pessoa esperando no ponto de ônibus, um homem branco, alto e magro, com aparência cansada. Mas Alex nem repara nele. Além de se preocupar com o jantar, ele ainda tem que estudar a sua hora diária. Só depois ele terá algum descanso, quando poderá ver televisão até dormir.
— Com licença, garoto, que ônibus eu pego para ir até o Passo D’Areia?
O homem perguntou tão de repente que Alex se assustou.
— Eu não sei, desculpe. – Ele sabia, mas não estava com paciência para explicar.
— Você tem certeza que não sabe? – O homem perguntou, o encarando nos olhos.
Algo naquele olhar despertou arrepios nele. O homem sabia que ele estava mentindo. Mas como?
— Err... na verdade, eu não me lembro. – Alex respondeu.
— Obrigado. – O homem se levantou de supetão e saiu, sem dizer mais nenhuma palavra.
— Minha nossa, que cara estranho... – Pensou Alex, olhando para a silhueta do homem, que já estava distante.
Começava a anoitecer, pois já passava das 19 horas. Alex estava estranhando a demora do ônibus, mas continuou ali. Ele poderia ir a pé até a casa dele, mas chegaria tarde e ainda mais cansado. Então, resolveu esperar.
Eram tempos de violência e, por isso, Alex olhava para todos os lados da rua em que estava. Mas não havia ninguém ali além dele. Era uma rua atrás da escola dele, que possuía apenas uma empresa de despaches e um terminal de ônibus.
Alex sentiu um arrepio na nuca, subitamente. Ele olhou para trás, mas havia apenas um arbusto ali, sem sinal de vida humana. Ele coçou a cabeça, achando tudo aquilo muito estranho. Ele pensou em chamar um táxi e sair logo dali. E até hoje se arrepende de não ter feito isso.
Finalmente, o ônibus virou a esquina e entrou na rua. Assim que o viu, Alex levantou e acenou para ele. O ônibus parou e ele entrou.
— Boa noite. – Ele disse ao motorista, que não respondeu nada.
“Mal educado”, pensou Alex. Ás vezes ele ficava farto do modo como as pessoas tendem a ser rudes e grossas, sem agir com gentileza ou educação. Na verdade, o motorista apenas não ouviu, por causa do barulho do motor.
Alex encostou o bilhete no sensor e passou pela catraca. O ônibus estava vazio como sempre. Havia apenas um velho sentado próximo a catraca e uma moça bonita no fundo. Aquela linha não era muito utilizada, pois não passava pelas principais avenidas da cidade.
Ele escolheu um lugar próximo ao fundo e sentou.
O ônibus parou logo no ponto mais a frente. Alguém deve ter feito sinal.
Dois homens subiram, vestindo moletons pretos. Eles se sentaram na frente, sem passar a catraca. Por algum motivo, Alex ficou preocupado. Ele voltou a sentir aquele arrepio de antes. Devia ser cansaço, só isso.
O ônibus percorria uma longa rua residencial quando um dos dois homens se levantou e andou até o motorista. O outro pulou a catraca e tirou do bolso do moletom um revólver prateado, que apontou para os três passsageiros.
A mulher gritou. O ônibus continuava andando, pois o outro devia estar apontando uma arma para o motorista também.
— Cala a boca, vagabunda! Se falar mais uma coisa você morre! – Gritou o homem. Ele era branco e careca, aparentava ter uns 20 anos, nem isso.
A mulher calou a boca na hora. Alex sentia o seu coração estourando no peito. Ele tinha o rosto tomado pelo choque e medo, e estava paralisado pela visão da arma.
— Vai passando tudo, velhinho e vocês dois aí também, viu!
Enquanto o homem recolhia o celular e a carteira do velho (que na verdade tinha 52 anos), a moça mexia na bolsa, nervosa.
— Levanta a mão vagabunda! Não mexe na bolsa! – Ela obedeceu.
Ele apontou a arma pra ela e se aproximou lentamente. Ele pegou a bolsa dela e jogou para o comparsa, que começou a mexer na bolsa.
O ônibus virou bruscamente e os dois perderam o equilíbrio e caíram.
O velho aproveitou a chance e se jogou no assaltante que estava próximo a catraca. A arma caiu. A mulher gritou.
— Vai, ajuda ele!
“Como assim, e quanto a você, vai ficar aí parada?”, Alex pensou. Paralisado, ele não respondeu nada.
— Ajuda ele!
Um tiro foi disparado e o ônibus deu mais um solavanco, dessa vez até Alex caiu para o lado. O motorista tinha freado bruscamente, vendo a oportunidade, e se jogado no assaltante que estava com a arma apontada para ele.
— Filho da puta! – Gritou o assaltante, atirando duas vezes a queima roupa nele.
O motorista gritou e foi empurrado pro lado, enquanto o velho e o outro ainda brigavam pela arma.
— Atira nesse filho da puta!
O comparsa obedeceu e deu um tiro na cabeça do velho, que morreu instantaneamente. A mulher se abaixou e começou a gritar freneticamente, aparentemente em estado de choque.
— Cala boca, sua vadia! Quer morrer também? – Berrou um dos dois assaltantes, Alex nem conseguia distinguir mais. Ele continua observando a cena, paralisado e confuso.
Isso não acalmou a moça, que gritou mais alto. Alex pensou, pela primeira vez na vida, que ia morrer.
— CALA A BOCA, PORRA!
O homem havia se aproximado e puxado a mulher pelos cabelos, que continuava gritando. Ele apontou a arma pra cabeça dela.
— NÃO! POR FAVOR, NÃO! ME AJUDA! ALGUÉM ME AJUDA!
Ele disparou o revólver. A moça foi jogada pro lado com o impacto, também morrendo na mesma hora.
Gritos de “TIRO! É TIRO!” foram ouvidos nas casas da rua em que o ônibus havia parado.
— Caralho, pega as coisa e vamo embora daqui logo! – Mandou o primeiro, um negro alto e gordo.
Alex se abaixou, torcendo pra que os dois esquecessem dele.
Ele notou o sangue escorrendo pelo chão, entre os assentos.
— Por favor, não... Por favor... – Ele começou a orar, sussurrando e tremendo.
O mundo lá fora parecia o mais puro caos. Ele ouvia gritos distantes. Não só das casas, mas também dos assaltantes, que estavam muito nervosos. Triplo homicídio qualificado? Isso deixaria qualquer um nervoso. Mas a ganância não os permitiu fugir ainda. Eles estavam revistando os corpos e a bolsa da mulher e colocando tudo que tinha valor numa sacola. Mas Alex nem percebia isso. Ele estava agachado com as mãos nos ouvidos, tremendo e se balançando, mas agora em silêncio. Os gritos pareciam ecos distantes da água batendo na sua cabeça quando você tapa os ouvidos e coloca o corpo debaixo do chuveiro. Mas por que ele estava pensando nisso?
“Eu vou morrer”, era o que ele deveria estar pensando. Mas não é isso que os humanos pensam nesses momentos. O coração se inunda de esperança. E Alex tinha certeza que eles não eram espertos o suficiente pra pensar “Droga, deixamos testemunhas”. Ele ouviu as portas do ônibus se abrirem e respirou aliviado.
— Espera, tem aquele cara! – Ele ouviu um deles dizer, da rua.
Alex só pensou em fugir. Ele não ouviu o outro responder “Cala boca, vamo logo porra!”. Ele se levantou e desceu correndo pela porta traseira, em fuga.
Porra, sair correndo assim na frente de dois caras armados, logo após presenciar um triplo homicídio? É pedir pros caras correrem atrás de você. E foi o que eles fizeram.
— Para aí porra, para aí moleque!
Alex virou a esquina e continuou correndo. Ele só pensava em fugir do perigo. Na mente dele, era fugir ou morrer. Pena que esses instintos primitivos não costumam acertar sempre.
Ele nem sentiu o primeiro tiro, apesar de ter caído de cara no chão com o impacto. Rapidamente, ele sentiu seu próprio sangue o molhar.
“Eu vou morrer, não tem jeito...” foi a única coisa que ele teve tempo de pensar.
Um dos assaltantes se aproximou e atirou na cabeça dele.
E então, escuridão.
A vida é cheia de pequenas coincidências. Várias delas podem nos levar diretamente para a nossa própria morte. Ainda mais em uma cidade violenta. Se ao menos os outros não tivessem reagido. Talvez até se a moça não tivesse gritado, eles só teriam matado os outros dois. Bom, uma certeza era que se Alex tivesse apenas ficado parado, ele não teria morrido. São essas variáveis infinitas que regem a nossa vida sem que nos demos conta.
A vida realmente é cheia de pequenas coincidências. O mesmo homem que havia pedido informação para Alex mais cedo passava agora de ônibus por essa mesma rua. Ele nem notou Alex caído no chão, morto. Mas quando o motorista virou e viu o ônibus parado lá, ele parou também. Os assaltantes já haviam fugido, claro. E nunca seriam pegos. A polícia já havia sido chamada por moradores, mas quando o motorista desceu e viu aqueles três corpos pela janela do ônibus, ele ligou para o 190 imediatamente.
O homem que pediu informação para Alex ficou no ônibus, enquanto os curiosos já iam descendo para ver a cena. Ele lia um livro despreocupadamente. Algumas pessoas gritavam. Moradores já haviam saído das casas para ver o que havia acontecido. Isso tudo seria publicado no jornal local no dia seguinte, com a manchete “QUATRO MORTES NO PASSO D’AREIA, ZERO TESTEMUNHAS”, pois apesar de muitos terem ouvido os acontecimentos, ninguém havia visto nada.
Ninguém, exceto Alex, que viu tudo.
Ele abriu os olhos de repente.
— Eu estou vivo? Mas como? – Pensou ele.
A luz estava muito clara e ele não conseguia enxergar. Ele estava deitado no chão de algum quarto, aparentemente vazio, exceto pela luz no teto. Ele esfregou os olhos. E conseguiu ver.
O encarando ali neste momento estavam o velho, o motorista e a mulher do ônibus.
— Mas o quê? – Ele tentou falar isso. Mas não saía som nenhum da sua boca.
O velho balançou a cabeça tristemente, como se dissesse que não adiantava tentar falar. Em seguida, apontou para o lado.
Alex reparou pela primeira vez na imensa bola preta que ocupava um terço do quarto.
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