“Eu não vou te ajudar dessa vez, você quase estragou o meu jogo, assassina.” — Ana virava as costas para Bia, irritada. Não estava feliz com como a jovem tentava controlar seu jogo, se sentia usada ao ver que as conversas que tiveram facilitava o jogo para algumas pessoas. Beatriz agora olhava para o cenário, sabia que estava em um circo, estava fantasiada de pirata, o tapa-olho cobrindo a cicatriz que permanecia em seu olho, as feridas da partida anterior continuavam lá.

Era uma tenda grande, muito grande. Mal se podia ver o ponto mais alto da lona, e a plateia fazia barulho enquanto o espetáculo parecia não começar. Milhares de seres sem identidade gritavam, comiam pipoca e aplaudiam enquanto as luzes se apagavam.

No centro, um grande palco circular se erguia. Palhaços com rostos coloridos faziam malabarismos com fogo, enquanto holofotes giravam até se encontrar em um único ponto no alto de uma torre de malabaristas. No topo estava Ana com um microfone, em uma pose que parecia uma estátua de morcego. Sentadas na primeira fileira da arquibancada estavam Maria e Leila, que se encontravam aplaudindo quando finalmente percebiam onde estavam. Olhavam para o espetáculo, assustadas. “Respeitável público!” — Gritava Ana, quebrando a pose estática na qual se encontrava. — “Boas vindas ao ter… Adorável, ao adorável circo dos sonhos!”. Um calafrio percorria a espinha de Beatriz. A jovem tentava se equilibrar quando percebia que estava no alto, de pé em uma corda bamba. Sentia estar a dezenas de metros de altura, segurando uma longa barra para se equilibrar. Olhava ao redor, confusa, não era aquele o cenário que esperava encontrar. Em cada ponta da porta havia uma base com uma prancha de madeira, nas quais se encontravam Paulo e Gabriel, um em cada lado, ambos com as mãos algemadas e à beira de uma terrível queda, enquanto palhaços dançavam atrás deles. Os rapazes olhavam para Bia, e todos sabiam que ela precisaria andar até um deles. “No espetáculo de hoje…” — continuava Ana, extremamente animada. — “Vejam nossa incrível malabarista enfrentar seus medos para salvar seus amigos! Ela é esperta, ela é forte, ela é doooooo maaaaaal! Vejam a incrível Beatriz!” — a plateia aplaudia extremamente alto, e a música sombria tocava em um tom ensurdecedor no ambiente. — “Oh, eu disse ‘seus amigos’? Hoho, eu quis dizer SEU amigo! Beatriz terá que escolher um para salvar, isso é, se ela conseguir se salvar, é claro!”. A menina ria sadicamente enquanto o ambiente entrava em euforia. “Mas primeiro, temos uma fantástica apresentação para vocês. Subam no palco!” — gritava para as moças no palco.

Leila e Maria eram empurradas por diversas mãos de palhaços sem identidade, retiradas de seus lugares e levadas ao centro do show. A plateia tremia enquanto as meninas percorriam o caminho, observando os enfeites do palco. Um terrário flamejante exibia uma única árvore com uma pequena garota sentada perto dela, em lágrimas. Próximo dali, havia um globo pendurado por uma corrente, flutuando no ar, exibindo muitas plantas e o que parecia um boneco dando voltas. Uma casa de bonecas, com uma boneca de cabelos rosas sentada em uma poltrona. As meninas sabiam que aquelas eram pessoas reais, mas não conseguiam pensar a respeito. Quando finalmente chegavam no palco, percebiam as roupas que usavam. Leila estava vestida como um detetive inglês de histórias antigas, e Maria estava com orelhas de gato e maquiagem. Eram levadas para o que parecia um ringue de luta. Beatriz e os rapazes estavam estáticos observando a cena.

“Ora ora, então temos nossas voluntárias?” — Ria ana olhando para as garotas que se encaravam no ringue. — “Bem vindas ao nosso combaaaaaate inevitável da inimizade!”. Leila ouvia as palavras, confusa. Por um lado, achava aquela encenação muito forçada, mas por outro, a atmosfera do ambiente estava tão animada que ela mesma se animava também. Era um sonho, todos estavam aplaudindo por ela, e ela não conseguia segurar a vontade de participar do show. Maria estava puramente assustada, sabia que algo muito ruim iria acontecer. Os palhaços colocavam luvas de boxe nas garotas. “De um lado, a aspirante a detetive que se acha capaz de desvendar o próprio assassinato, mas não sabe nem mesmo as próprias origens… A não-tão-inteligente Sherrr… Leila! Não-tão-inteligente Leila! É isso aí!”. Os aplausos ecoavam na cabeça da menina.

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A pequena Leila tinha 7 anos de idade quando seus pais lhe contaram que ela era adotada. Para eles, parecia algo difícil de uma criança entender, o que significava aquilo? Mas para Leila simples como preto no branco: aqueles não eram seus pais verdadeiros. Passou os dias seguintes os acusando de ter sido roubada de sua família, até perceber que estava agindo errado, perceber que foram eles que sempre cuidaram dela. Talvez fosse muita informação para uma garotinha absorver, mas Leila estava fascinada com aquilo e queria saber mais. Perguntava sobre sua antiga família, mas ninguém lhe dizia nada. Pouco tempo depois sua mãe morreu, deixando Leila apenas com seu pai. Aos 12 anos, era obrigada a aceitar sua madrasta morando com ela, e ficava cada vez mais obcecada com sua família original, acreditava que poderia encontrar sua mãe de verdade e abandonar a moça que agora fazia parte de sua família, mas seu pai não dizia nada. Leila passou vários meses tentando descobrir alguma coisa, qualquer coisa, mas nunca conseguia.

Tinha 19 anos quando resolveu tomar uma atitude drástica. Não queria recorrer a justiça e prejudicar seu pai, mas sabia que algum de seus colegas tinha contato com pessoas que poderiam descobrir sobre sua família, e logo soube de um “detetive” que faria o serviço em segredo para ela. Estava animada em fazer uma investigação como as que sempre via nas histórias, entrar em um mundo cheio de segredos e ser uma espiã, mesmo sabendo que estava prestes a entrar em um mundo de tráficos, crimes e insegurança. Marcava em uma festa de faculdade, e o rapaz aparecia, aceitava o dinheiro e dizia que conseguiria a informação em alguns dias. Leila queria saber, mas estava mais interessada no mundo alternativo que podia entrar, fora da lei e das pessoas “normais” do que na sua família em si.

Duas semanas depois, Leila não tinha sua resposta. Sentindo-se enganada, foi atrás do rapaz, encontrando-o em uma outra festa na qual vendia drogas. Era o cenário clichê que ela imaginava, se sentia segura na festa, afinal, se fizessem algo com ela ali, todos veriam. Cobrava o serviço do rapaz, e ele dizia que estava trabalhando naquilo.

Na semana seguinte, um grupo aparecia na frente de sua casa enquanto Leila chegava, a arrastavam para dentro do carro, dopada, e ela acordava no galpão, acorrentada no último cenário que veria em sua vida.

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Maria sentia medo do que estava para acontecer. Sabia lutar, mas Leila era a única pessoa que parecia ajudá-la naquele lugar, não queria fazer aquilo. “Do outro lado…” — continuava Ana. — “Ela não é muito boa de palavras, não é muito boa com as pessoas, e definitivamente não é boa com enigmas, mas ela sabe como quebrar uma cabeça! Maaaaaaaaria!”.

As duas garotas se encaravam em silêncio. Leila sabia que perderia aquela luta, e estava pensando em uma forma de não fazer aquilo, enquanto Maria esperava a reação da colega. Leila tentava sair do ringue, mas os palhaços a jogavam para dentro de volta, e o público vaiava enquanto ela se levantava. Elas não tinham escolha. Leila estava com medo, pela primeira vez sentia que não tinha absolutamente nada que poderia fazer, e andava em direção a Maria quase implorando para que a menina não lutasse, mas suas luvas pareciam controlar suas mãos, e se dirigiam na direção da garota, que agora reagia para se defender. As duas não demoraram muito para começar a rolar pelo ringue, e a plateia gritava.

Ana aplaudia animando a plateia, enquanto olhava para Beatriz que agora voltava a se mover. Bia precisava escolher para qual lado ir, podia ir na direção de Gabriel e ajudar o rapaz que julgava ser mais fácil de vencer na partida seguinte, mas sabia que havia prometido a Paulo ajudar no desafio. Não se importava com a promessa, mas sabia que se não o ajudasse e ele não morresse ali, ela perderia a confiança do rapaz e ele com certeza se viraria contra ela. Era uma escolha arriscada, e os dois pareciam estar gritando por ajuda. A jovem achava que sabia do desafio, mas Ana havia mudado as regras, qualquer coisa poderia acontecer ali, e sabia que o jogo havia saído de seu controle. Respirava o mais fundo que conseguia sem perder o equilíbrio, e começava a andar na direção de Paulo. Gabriel começava a protestar, mas a moça ignorava o rapaz e seguia com sua decisão.

Abaixo deles, as meninas agora brigavam e sabiam que era um duelo de vida ou morte. Maria jogava Leila para longe, mas parecia segurar suas investidas para não machucar a outra. Leila não tentava nem mesmo revidar, mas suas mãos estavam fora de controle. Tentava pensar rápido, analisava o ringue, analisava a plateia, a menina que gritava para o público e os três malabares no topo do circo. E parecia entender algo que fazia sentido em sua mente: só um jogador perde cada rodada.

Bia estava cada vez mais próxima do rapaz, que agora era cutucado pelos palhaços que encaravam a moça. Tinha medo de palhaços, mas se concentrava na corda abaixo dela, tentava ao máximo se equilibrar, até que chegava na plataforma ouvindo o rapaz comemorando, e sem pensar muito usava a barra para derrubar os palhaços. “Eu quase duvidei que fosse cumprir com sua palavra”, dizia Paulo ofegante. “Não cumpri”, ria Bia enquanto usava toda sua força para empurrar o rapaz da prancha. Era uma longa queda, a platéia gritava, e os holofotes saíam do ringue e se viravam para Bia. Gabriel olhava de longe, assustado, enquanto os palhaços que estavam atrás dele começavam a andar hostilmente na corda bamba na direção da jovem. As luvas de Leila paravam de se mover, e as meninas observavam enquanto Paulo despencava até o chão, em uma explosão de confetes e fogos de artifício. “Menos um!” — Gritava Ana, eufórica.

Leila finalmente chegava a uma conclusão em um fração de segundo, virava novamente para Maria. “Você confia em mim?”, perguntava para a garota, que olhava confusa, sem resposta. “Não dá tempo de explicar, mas eu preciso te matar”. Maria se assustava, e Leila tirava de si uma força que nem ao menos sabia ter, dava uma investida na colega que caía no chão, tonta, e pedia desculpas enquanto disparava diversos socos nela. Era como se suas luvas fossem bombas, cada soco era a mais forte sensação de poder que Leila já teve, e Maria tentava se defender, mas estava tão assustada com a situação que mal conseguia ver o que estava acontecendo. Os holofotes voltavam para o palco enquanto os punhos de Leila explodiam na garota, que estourava como um balão e saía voando bizarramente pelo circo antes de estourar em um espetáculo tão grandioso quanto o do rapaz que havia acabado de cair da plataforma. “Menos dois!”, a plateia vibrava, e Leila agora corria em direção a corda bamba.

No alto, Beatriz assistia a luta e estava impressionada ao ver que Maria simplesmente explodiu no ar, mas se preocupava em como sairia dali enquanto os palhaços cambaleavam bobamente na corda. Um caía e se desfazia em pano na queda, chegando no chão apenas como um monte de lenços.

Gabriel dava um passo para trás, livre dos palhaços que o cutucavam, e via a escada que levava para a base de sua plataforma. Chegava na beira e percebia Leila subindo em sua direção. Pensava em descer, mas não conseguiria com as mãos algemadas. Olhava para Beatriz que pedia ajuda, e sentia que deveria ajudar a garota, mas não sabia como.

Leila subia cada degrau como se escalasse uma montanha, a altura parecia muito pior vista daquele ângulo, mas se concentrava apenas em seu objetivo. Diversos aviões de papel voavam pelo local, desequilibrando a todos. Leila caía alguns degraus, mas continuava a subir, enquanto Gabriel tentava bater com um pé na corda bamba para derrubar os palhaços. Beatriz segurava a barra tentando cutucar os seres que andavam em sua direção, estava assustada, mas sua fantasia a fazia parecer confiante para a plateia.

A jovem detetive finalmente chegava no topo da plataforma, e Gabriel se virava para ela. Ela sentia que estava tomando a decisão certa, mas se arriscava. Ana se divertia ao ver o que a menina fazia. Era uma aposta. Leila via os palhaços cercando Bia e sabia que não tinha tempo para pensar a respeito, então empurrava o já desequilibrado gabriel da plataforma, e pulava logo em seguida. Ana deixava escapar uma risada maléfica muito alta enquanto encarava Beatriz. “Menos quatro.” — dizia séria. — “Obrigada pelo show!”, e então sumia, enquanto os outros dois voavam pelo ar se desfazendo em confetes. A platéia ria, e os palhaços paravam o que faziam para rir também. a corda sumia no ar e então Bia se via presa no alto da plataforma, no centro do espetáculo, enquanto todos os jogadores sumiam e deixavam apenas ela e o publico sádico que ria da garota, que só então percebia que havia cometido um erro, só então percebia o que Leila havia notado muito antes, e percebia também que agora estava presa ali, para sempre.