GOD - O Jogo dos Sonhos II

4 Capítulo 3 - A Casa dos Sonhos


Não estava sentindo frio, mas aquela lareira acesa na sala deixava o ambiente aconchegante. Ao redor haviam mobílias rústicas, madeira e pano, o piso de tábuas e a iluminação amarelada de velas. Parecia o final da tarde pela luz que entrava pela janela, mas não havia um cenário do lado de fora, apenas uma janela. No tapete do qual levantava sentia os pequenos pêlos brancos acariciarem sua pele. Podia continuar deitada ali para sempre, mas sabia que tinha um objetivo a alcançar. Se levantava olhando para o espelho na outra parede. Brincava com suas mechas rosadas ajeitava o vestido florido que vestia. Havia passado a tarde toda deitada ali, mesmo que acabasse de chegar ao local. Sabia que o desafio havia começado naquele momento, mas ter passado tanto tempo naquela casa era uma sensação tão real quanto a própria existência. E conhecia muito bem a casa, mesmo nunca nem sequer tendo visto aquele lugar. Sabia onde ficava cada banheiro, sabia quantas janelas haviam na casa, sabia de cada quarto e de cada degrau das escadas. Era como sua própria casa, e se incomodava em saber que precisaria sair dali. Camila se recompunha e se preparava para andar, avistando Ana que estava sentada em uma poltrona ao seu lado lendo um livro. Não era um livro de terror, de romance, de ação, não tinha nem sequer palavras ou imagens, não tinha capa nem folhas definidas, era apenas um livro, o conceito de um livro, e isso parecia bastar para a jovem.

No jardim da casa, Leila e Maria caminhavam juntas. Não precisaram se encontrar em algum momento, simplesmente estavam juntas, enquanto Leila falava sobre suas deduções fantásticas e Maria a escutava com toda a atenção que tinha dentro de si. Sentiam juntas que estava na hora de fazer alguma coisa, mas não tinham certeza do que, então resolveram caminhar para a casa — o que sentiam que era apenas uma caminhada de volta, porém nunca estiveram em tal lugar. Maria pensava silenciosa, com medo de não conseguir concluir o desafio, alguma coisa não a deixava confortável naquele lugar. Leila, por outro lado, já estava confiante de que aquele seria um jogo fácil, apenas sentia isso, apenas sentia que não teriam muito com o que se preocupar.

Já na sala de jantar, Beatriz tentava convencer Paulo a formar uma aliança, mas o rapaz se recusava a aceitar qualquer tipo de cooperação, não confiava na moça e acreditava que estaria melhor sozinho.

— Você pode virar as costas e me deixar aqui. — Dizia Beatriz em um tom audaz — Mas você sabe que seria muito mais fácil vencer os desafios se a gente se unir para tirar os outros jogadores do caminho.

— E depois você tentaria se livrar de mim para seguir em frente, certo? Não quero entrar no seu jogo. Eu não confio em você.

— Você não precisa confiar em mim. É claro que em algum momento nossa aliança iria acabar, só um de nós pode vencer. Mas suas chances vão aumentar se você tiver menos inimigos até lá.

— Inimigos. Engraçado você dizer isso, achei que todos estivéssemos na mesma situação. Há um assassino entre nós, ele deveria ser o inimigo.

— Bem, ele é, todos somos.

— E você espera que eu te ajude a matar os outros?

— Ei, eu não vou matar ninguém, já estamos mortos, lembra? Mas eu quero vencer esse jogo tanto quanto você, e sei que vai ser muito mais fácil sem concorrência.

— Você é horrível. — Paulo parava perto da porta da sala, pensando na situação. Não gostava daquela garota, mas sabia que ela estava certa, se trabalhassem juntos conseguiriam vencer os desafios com mais facilidade.

— Talvez eu seja, mas isso sempre me ajudou. Bem, talvez você deva saber que Gabriel escolheu me ajudar, mas ele é meio burro, sabe? Não parece ser realmente muito útil, mas três é um bom número, nós poderíamos jogar contra qualquer um dos outros jogadores e estaríamos em maioria.

— É, eliminamos os outros três e depois brigamos entre nós. Seria um bom plano, mas o que você faria contra mim, Beatriz? — O rapaz olhava para a garota com um sorriso enojado — Sabe, eu sei que você vai me dizer que no final seria só nos unirmos contra Gabriel e se tornaria uma disputa entre nós dois, e nós sabemos que eu ganharia. Eu sou experto, Bia, e sou mais forte que você.

— Então você…

— Mas você também não é nem um pouco burra. Você não ia querer terminar em um duelo comigo, eu sei que você e seu amiguinho ruivo tentariam se livrar de mim antes que isso pudesse acontecer, você faria ele acreditar que pode vencer você, e no final era só um duelo entre você e o mané.

— É, esse parece realmente um bom plano.

— Não vai funcionar. Eu não vou te ajudar com isso.

— Então vamos fazer do seu jeito. Se acha que eu e meu amigo somos um problema, podemos tirar ele do jogo.

— E você vai se livrar dele tão friamente assim?

— Não tente parecer chocado. Você sabe tão bem quanto eu que eu não estou me importando com nenhum de vocês. Mas eu preciso de ajuda, e você sabe que eu vou ser útil.

— Útil? Eu sei é que você se acha demais, garota.

— Você sabe? Bom, eu sei qual é o objetivo dessa partida, você certamente não. Então vamos fazer um acordo, eu te digo o objetivo e você me ajuda no próximo jogo.

Paulo pareceu confuso por um momento. Ele realmente não sabia qual era o objetivo daquele jogo, mas não achava que Beatriz estava mentindo, não chegava nem a passar por sua cabeça que ela estivesse blefando. De fato, era como se não existissem mentiras naquele mundo, nem sequer pensava em mentira, o conceito de mentir havia simplesmente desaparecido de sua mente. Não apenas de sua mente, mas da mente de todos naquela casa. Existia apenas a verdade.

— Então você realmente tinha uma carta na manga.

— Bem, você não tem o que perder nessa. Se fecharmos um acordo você pode sair desse jogo tranquilamente, me ajudar no próximo, e a partir daí faça o que quiser. Eu ainda vou precisar tirar Gabriel desse lugar antes de sair. Ele também vai ser útil.

— E como é que você sabe qual é o objetivo? Como sabe que vai precisar de ajuda no próximo?

— Eu não posso te contar isso agora. — A moça se apoiava na mesa em sua frente, olhando para a janela ao lado sem reparar no que se passava no lado de fora. — Só preciso da sua palavra pra te dizer como sair daqui.

— Certo. — Ele dizia estendendo a mão para Beatriz. — Eu prometo que vou te ajudar, com duas condições. Primeiro você precisa prometer que não vai se virar contra mim no próximo jogo. Vamos vencer ele juntos. E segundo, nós vamos eliminar seu amigo fortinho na próxima rodada.

— Mas eu ainda preciso da ajuda dele.

— Eu sei que você consegue enrolar ele até lá. Ou isso ou nada.

— Está bem, faremos do seu jeito então. — Ela apertava a mão do rapaz, sabendo que aquelas eram palavras verdadeiras. — Pra vencer o jogo você só precisa sair da casa. Não da casa em si, mas do terreno, lá fora no jardim, passar pelo portão e ir para a rua.

— Sair da casa? Simples assim?

— Não é tão simples se você não sabe o que precisa fazer. Você não saberia que precisa sair, não é? Ninguém sabe. Ela deixou algumas pistas pela casa, mas nada muito óbvio.

— “Ela”? Que seja, eu não me importo.

O rapaz virou as costas e começou a andar. Não precisava pensar muito em onde estava indo, simplesmente sabia onde era a saída da casa. Era uma casa grande, levaria algum tempo para sair, principalmente estando no último andar, mas estava confiante, não era uma tarefa nem um pouco difícil, e agora tinha a certeza de que o próximo desafio também não seria complicado.

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Ana rodeava Camila como se vasculhasse cada centímetro da moça, brincava com os cabelos rosados da jovem, mexia em seu vestido, cutucava seu rosto, fazia de tudo para interagir, queria uma resposta da garota.

— Sabe Mila Mila, seria muito mais fácil se você me respondesse. Os outros jogadores pediram minha ajuda, você vai ficar na desvantagem se me ignorar!

— O que quer de mim? — Dizia finalmente, tentando se manter tranquila.

— Ora ora, não é o que eu quero de você, é o que eu quero lhe dar! Sabe, eu gosto de ajudar, não é nada divertido ficar só olhando o jogo, eu quero participar também! Mas não vou ajudar você se não se abrir comigo.

— Me abrir? Você não sabe tudo o que acontece por aqui? Eu não preciso lhe dizer nada. — Camila se sentava no chão novamente, tentava segurar suas lágrimas.

— Eu sei que você está triste, mas quero ouvi-la dizendo o porquê.

— Talvez tenha a ver com a minha vida ter sido destruída nos últimos dias? Mas por que se importa? A única coisa importante agora é esse jogo maldito.

— Ei, não fale mal do meu jogo! Não fui eu quem te colocou aqui. E eu já disse que quero ajudar, se você me contar o que te deixa triste, talvez eu possa te dar um motivo para sorrir.

— E que motivo eu teria para sorrir? — Já não conseguia mais segurar as lágrimas, agora cobria o rosto com as mãos tentando se esconder. — Eu estou morta! Em um momento eu estava feliz, entrei na faculdade, fiz novos amigos, estava morando sozinha e cuidando da minha própria vida, então me levaram para um beco, me drogaram e fizeram tudo o que quisessem com meu corpo, e quando eu achei que tinha acabado, acordei trancada numa sala com pessoas estranhas dizendo que eu ia morrer ali. E agora eu tenho que passar por esse tipo de inferno, por que? O que eu fiz pra parar aqui?

— Bem, se você ganhar o jogo, vai poder sair. É o que todos estão fazendo.

— Eu não quero ter que jogar esse jogo! Eu não pedi por isso.

— Então fique aqui. Sabe, você não vai ser a primeira a desistir, mas eu posso te fazer uma… “Oferta especial”.

— Desistir? — A moça se encolhia pensando. Queria desistir, mas não tinha coragem de abandonar a sua vida.

— Sabe Mila Mila, eu sou a dona desse lugar, posso fazer qualquer coisa aqui. Eu normalmente não gosto que ignorem meu jogo, como aquela Diana fez. Agora ela está lá em meio às chamas, no próprio inferno se arrependendo da decisão estúpida de ficar parada. E ela vai ficar lá para sempre. O garoto, Mateus, ele não fez nada para me irritar, mas também não parecia disposto a jogar, então ele ainda está andando, seguindo em frente, acreditando que um dia ainda vai chegar ao fim daquele corredor e encontrar uma saída. Ele não vai. Mas você… Eu gosto de você, acho que só precisa aprender a conversar mais comigo.

— O que você quer? Espera que eu fique aqui para sempre, como eles fizeram?

— Bem… Sim, mas vai ser diferente. Me ajude a deixar essa partida mais interessante e eu prometo que você vai gostar de ficar aqui.

— O que? — Camila olhava para a garota, confusa. A menina mexia em sua franja, parecia ter um olhar doce, mas diabólico.

— Digamos que eu cometi um erro. Ajudei uma jogadora mais do que devia, e ela está estragando tudo agora. Mas é meio que contra as minhas regras atrapalhar os jogadores diretamente. Então vamos fazer assim, eu te dou um pouco de controle sobre essa partida, dificulte a vida deles por mim, mas no final você não vai poder sair daqui.

— E por que eu aceitaria isso? Você quer que eu ajude a matar alguém?

— Não não não! Você não ouviu? Você vai ser a perdedora nessa partida, você fica, eles saem. Só vão ter um pouco de dificuldade. E em troca, quando o jogo acabar, você vai ter essa casa inteira para você, pode fazer o que quiser com ela, vai ter a comida que quiser comer, os filmes que quiser assistir, as plantas que quiser cultivar, vai ser seu pequeno paraíso. Se você quiser eu posso até mesmo morar aqui com você! Podemos ser amigas! O que me diz?

— Você… — Camila observava a menina, acreditava no que ela dizia, sabia que se fizessem um acordo, Ana manteria a palavra dela. — Um paraíso para mim?

— Isso! Você não pode dizer que não é um lugar legal, tem um jardim incrível lá embaixo! Eu criei essa casa nos mínimos detalhes, você vai amar ficar aqui. Vai ser divertido, eu prometo, e em troca, você atrapalha eles e quem se diverte sou eu. O que me diz?

Ana se sentava perto de Camila, sorrindo gentilmente e brincando com o cabelo. Estava alegre, animada com o plano que criara. E Camila pensava na situação. A jovem não era religiosa, mas associava a situação ao que sua mãe diria ser um “pacto com o diabo”. Estaria trocando a vida dela, os valores dela, tudo o que tinha de bom para conseguir algo que queria. Mas não lhe parecia errado, pelo contrário, parecia tão certo que ela mal conseguia pensar em qualquer argumento para recusar. Não queria realmente aceitar o acordo, mas quanto mais pensava a respeito, mais sentido fazia aceitar aquilo. Observava o sorriso da garota mais uma vez antes de se decidir.

— Eu… Eu aceito. — Dizia engolindo os soluços por entre as lágrimas. A garota ria novamente, levantava Camila do chão e colocava uma coroa na cabeça da jovem. A coroa que não estava lá a um momento atrás, mas que surgia sem parecer quebrar nenhuma lei da lógica, e se encaixava perfeitamente bem com os cabelos rosados da moça, que agora se sentia mais acordada do que em qualquer momento da vida. Sentia que tinha certeza sobre tudo o que sabia, e sabia onde cada jogador estava naquela casa, com quem estava e para onde estava indo.

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Gabriel caminhava torto por um dos corredores, não sabia para onde ir, sabia apenas que ficar parado não iria ajudar. Tentava explorar a casa, mas já conhecia cada cômodo do lugar, só lhe restava caminhar sem rumo, então encontrava com Beatriz, que agora andava sozinha pelos mesmos corredores.

— E não é que ele estava perdido mesmo? — Debochava a moça,

— Bia. Você disse que ia me tirar daqui, então me tire.

— Calma ruivo, ainda temos tempo. Quero falar com você.

Entravam em um quarto próximo e fechavam a porta. Estavam a sós, o rapaz ruivo e a garota dos piercings.

— Antes que crie segundas intenções, — interrompia o rapaz. — eu não gosto de você. Só estou aqui porque você tem um plano.

— Puxa vida, você acabou com os meus sonhos. — Dizia com sarcasmo enquanto puxava uma cadeira para sentar. — Então vamos ter que falar sobre como vamos jogar. Sabe, eu convenci Paulo a nos ajudar no próximo jogo.

— Você confia nele?

— Fofinho, eu não confio em ninguém. Mas ele vai fazer o que eu pedir, pode ter certeza disso.

— Ótimo, então qual é o plano?

— Bom, a gente vai se livrar de uma daquelas três doninhas, a questão é saber qual delas. Uma vai ficar por aqui, e se eu precisasse chutar, diria que a tal da Maria.

— Por que acha que ela vai perder o jogo de hoje?

— Bem, ela parecia bem perdida no primeiro jogo. Fora que a miss cachinhos parece ser boa demais em quebra-cabeças para perder esse jogo. Eu diria até que ela já deve saber qual é o objetivo. E a outra garota… Ela é estranha, mas não parece ser burra. Das três, eu acho que a Maria é a única que realmente não conseguiria cumprir o desafio.

— E qual é esse desafio?

— É simples, só precisamos sair da casa. E quando chegarmos no próximo, tiramos a cachinhos do jogo, o que acha?

— Parece fácil demais, mas e se a Leila não chegar no próximo desafio?

— Então tiramos a estranha. Não é uma decisão difícil.

— E como pretende “tirar” alguém do jogo?

— Amor, nós estamos em maioria, seremos três contra uma. — Beatriz levantava em direção a Gabriel, dando-lhe um beliscão no braço.

— Ei! Por que fez isso?

— Queria testar uma coisa. — Sorria sadicamente. — Parece que ainda sentimos dor nesse mundo. No pior dos casos, quebramos uma perna ou outra e saímos vitoriosos. Agora vamos embora, não quero dar muitas chances daquelas abelhas descobrirem como sair daqui.

Eles saíam do quarto em direção ao primeiro andar, com cuidado para não serem vistos por ninguém. Passavam pelos móveis de forma natural, como se fizessem aquele caminho todos os dias, ignoravam os quartos, ignoravam os quadros, apenas andavam rumo ao objetivo.

Já no jardim, Paulo caminhava para a saída, o grande portão prateado que se encaixava entre os altos muros que cercavam o terreno. Pensava no que faria ao longo dos jogos, precisava de alguma estratégia para tirar Beatriz da competição. Acreditava que ela era a assassina que prendeu todos naquele jogo, e não podia correr o risco de perder o jogo para ela. Também pensava no que iria querer se vencesse o desafio, ter qualquer desejo concedido parecia irreal para ele, mas tinha esperanças de que conseguiria. E então parava de andar, observando a jovem que parava em sua frente usando um vestido estampado com flores negras e uma coroa de cristal.

— Ei, você é a garota que… — Paulo percebia que ainda não sabia o nome da jovem, apenas havia visto ela encolhida antes do jogo começar, e não a encontrara desde então. — Que seja, eu estou saindo desse lugar, então saia da minha frente.

A moça dava um passo para trás enquanto Paulo se aproximava, mas não abria o caminho. Olhava para ele assustada, acenando que não com a cabeça, e ele parava.

— Olha moça, eu não quero brigar com você, eu só quero sair daqui e acabar essa partida em paz, ta? Então sai da minha frente, ou me segue se quiser sair daqui também, mas não fique no meu caminho.

— Eu… — A voz da moça voltava a sumir. Não tinha forças para falar com ninguém, apenas desviava o olhar tentando respirar. — Não vou deixar.

Camila levava as mãos ao coração, trêmula, e logo fazia com que o chão tremesse com ela. Paulo olhava assustado, enquanto as plantas do jardim se contorciam como se estivessem vivas. Ele dava um passo para trás, observando a expressão amedrontada da menina que se concentrava no ambiente. Uma raiz de árvore se enrolava no pé do rapaz que não tinha tempo de reagir antes de ser arremessado para longe, em um movimento fluido e natural. Caía no gramado a alguns metros de distância, mas não havia se machucado, apenas tentava levantar, mas outras plantas começavam a se agarrar a ele enquanto ele lutava para se soltar.

Perto dali, Leila e Maria observavam a cena, assustadas, e Camila se virava para elas com a mesma expressão. “Vamos sair daqui”, dizia Leila enquanto puxava sua amiga para longe, mas não iam muito distante antes de um grande muro se erguer na frente das moças.

— A gente precisa parar ela! — Gritava Paulo enquanto apanhava das vinhas no gramado.

— E por que eu deveria te ajudar? — Gritava Leila procurando alguma rota de fuga.

— Se não me ajudar, ninguém vai sair daqui!

Camila olhava para uma das sacadas da casa, onde Ana observava saltitante. A jovem não queria fazer aquilo, mas estava disposta a trabalhar um pouco para ganhar seu próprio paraíso. Fechava os olhos sentindo cada detalhe da casa, sentindo que Beatriz e Gabriel estavam chegando, teria que lutar com eles o máximo que conseguisse se quisesse viver em paz para sempre.

“Vamos, me entretenha um pouco!”, pensava Ana eufórica, observando a cena de longe. Beatriz olhava a cena confusa, não esperava que aquilo acontecesse. No desafio anterior, a garotinha havia lhe dito que o jogo seria apenas sair da casa, não havia pensado que algo como uma jogadora rebelde atrapalharia a todos.

— Gabriel, preciso que você derrube ela.

— O que? A garota está dando uma de deus e você quer que eu me jogue nela?

— Bom, seja lá o que ela estiver fazendo, ela não parece querer vencer o jogo. Só precisamos ganhar tempo pra sair daqui.

— Você quer que eu ganhe tempo para você sair? Não vai rolar.

— Pense direito! — A moça tentava soar menos irritada, mas não conseguia esconder o quanto repudiava Gabriel. Achava que ele demorava mais do que devia para entender seus planos. — Você atrapalha ela, eu ajudo Paulo, nós três saímos daqui juntos e deixamos que as outras bobonas cuidem dela.

— E se as “bobonas” resolverem fugir antes?

— Elas não vão, elas não sabem qual é o objetivo do jogo. Só nós sabemos.

— Espero que esteja certa. — Gabriel pisava pesadamente no chão, observando Paulo apanhar para o mato, enquanto Maria e Leila tentavam se afastar do local. Corria em direção a moça coroada, não pensava no que iria fazer, queria apenas distraí-la, e em uma investida única, colidia com a jovem e a jogava no chão.

Beatriz corria para ajudar Paulo a se levantar, enquanto gritava para as outras jogadoras, chamando a atenção delas. Leila olhava, assustada, sentia-se desafiada naquele momento, mas não sabia como agir, em um momento estava tudo calmo, e agora o cenário estava animado, quase caótico. Maria se segurava em seu braço, tão perdida quanto poderia estar, e Camila agora empurrava Gabriel para longe com uma força desumana.

As árvores se contorciam novamente, com suas raízes correndo por todo o chão. Os jovens desviavam como se dançassem com as plantas, sentindo que um passo em falso poderia arremessá-los para muito longe dali.

— Nós somos cinco! — Gritava Leila, tentando chamar a atenção dos outros. — Se vocês cooperarem, a gente consegue parar ela e nós cinco saímos desse jogo!

— E como pretende sair daqui? — Gritava Beatriz em desdém, sabendo que Leila não tinha uma resposta para aquela pergunta.

— Eu ainda não sei! Mas imagino que um de vocês saiba, então vamos sair daqui!

— Ela está certa! — Paulo se equilibrava em um ponto no chão. Tudo estava tremendo, tudo parecia assustador. — Se elas ajudarem a gente consegue sair daqui, Bia.

O cenário se contorcia cada vez mais, era como se o mundo se tornasse uma espiral, e Camila era o centro daquilo. Fechava os olhos em desespero, sabia o que estava fazendo, mas não se sentia bem com aquilo. “Você não está me divertindo”, ouvia Ana sussurando de longe. Precisava fazer mais. Com um estalo, fazia um buraco se abrir entre ela e os jovens, um buraco que se estendia pelo infinito, uma queda que não teria fim, e brincava com a gravidade fazendo com que o chão se tornasse a parede. Os jovens escorregavam, se segurando no que pudessem para não cair. Maria segurava a mão de Leila, se prendendo a um tronco de árvore, quase não sustentando o peso. Gabriel voltava a escorregar na direção do buraco, mas conseguia se segurar por entre as plantas.

“Isso sim é divertido!”, dizia Ana circulando pelo local, “mas acho que você pode fazer mais”. “Eu não quero machucar ninguém”, respondia Camila em pensamento na conversa que envolvia apenas ela e a criança. “Ninguém? Nem mesmo a pessoa que te trouxe para cá?”. Camila sentia um pulso em seu coração, um pensamento que surgia como uma bomba naquele momento. Alguém era culpado por ela estar naquele lugar, alguém que provavelmente estava se segurando naquela parede. Alguém que ela realmente queria machucar.

— Eu posso deixar vocês saírem. — Dizia ofegante. — Se me contarem quem é o assassino.

Todos ficaram em silêncio. Ninguém esperava por aquilo, e os jovens se entreolharam como se procurassem uma resposta. Uma pergunta tão simples, todos queriam saber, e agora era o que poderia tirá-los dali. “Eu não vou machucar vocês, apenas… Me digam quem foi e todos os outros podem sair”. Maria olhava para Leila como se esperasse uma resposta da menina, mas essa permanecia em silêncio, sem ter o que dizer. Gabriel olhava de longe para as duas, não sabia quem acusar, estava surpreso com a situação. Paulo encarava Beatriz, se sentindo encurralado. Se acusasse Leila de ser a assassina, poderia contar com o apoio de Bia, mas algo o impedia de fazer aquilo. Queria apontar para a garota e dizer que aquela era a culpada, mas simplesmente não conseguia. “Vocês não podem mentir aqui”, implicava Ana surgindo ao lado da moça de cabelos rosados, “Não podem mentir na minha casa!”

— Eu trouxe vocês para cá. — Dizia Beatriz quase rindo. — É, eu tirei você daquele depósito onde ia morrer e trouxe pra uma segunda chance de viver, vai me culpar por isso?

— Você… — O coração de Camila pulsava, a moça não conseguia controlar o que sentia, deixava o ódio correr pelo sangue.

— Você matou todos nós! — Gritava Gabriel. — Você vai pro inferno!

Em um estrondo, a gravidade voltava ao normal, e os jovens voltavam a se equilibrar no chão. Gabriel corria para o portão prateado, seguido por Paulo, e não demorava para Leila e Maria segui-los também. Beatriz parava, observando Camila encará-la. “Então irmã, agora você pode se vingar”.

Com um estalo, um gigantesco caule de rosas espinhento chicoteava o corpo de Beatriz, que caía no chão gritando de dor, se contorcendo e se esforçando para levantar. Um segundo golpe acertava seu rosto, e Camila caminhava para mais perto da garota, seus olhos de raiva perfuravam a alma. Sentia algo bom naquilo, a tristeza parecia ir embora, se transformava em ódio, que sumia em cada grito de dor de sua assassina. Um terceiro golpe, agora os espinhos se prendiam na pele de Beatriz e a jogavam para longe. A garota gritava em desespero, sabia que estava sonhando, mas a dor era tão real quanto podia esperar que fosse. Não conseguia se levantar, sentia o castigo do mundo sobre si. Se lembrava bem de porque estava sangrando. Era uma noite abafada, havia recebido as fotos da garota que fora sequestrada e estuprada, conhecia os culpados, fechava um acordo para se livrar da vítima. A arrastava para um velho galpão, acorrentava-a à parede e a drogava por tempo o suficiente para buscar suas outras vítimas. No local já estava Leila, a jovem que havia capturado naquela manhã. Não tinha um padrão específico para as suas vítimas, procurava pessoas jovens, na faixa dos 20, próximos à sua idade. Havia uma festa naquela noite, bebidas, drogas e cúmplices, era o cenário ideal para encher sua sala. Aproveitava a tarde para capturar mais dois jovens, Mateus e Gabriel. Ambos haviam irritado os cúmplices de Beatriz de alguma forma, um havia se relacionado com uma ex de um dos assaltantes e o outro estava devendo dinheiro, duas cabeças marcadas, fácil de levar. Beatriz tinha dinheiro para brincar, queria se divertir, e aquele jogo parecia a melhor diversão que ela conseguiria em qualquer momento. Desde pequena gostava de jogos, gostava de forçar os outros a seguirem suas regras. Prendia animais em labirintos sádicos, forçava os amigos a aceitarem desafios cruéis, apenas se divertia com a dor dos outros. Dessa vez queria o poder de ter um desejo realizado, mas precisava de outros jogadores para isso, então organizava um festival, não se preocupava com a polícia ou com qualquer coisa do tipo, todos estariam mortos antes mesmo de qualquer investigação começar, e não era a primeira vez que sequestrava alguém.

Agora, com os espinhos arrancando a sua carne, sentia-se viva. Sentia que seu jogo estava saindo do controle, e pensava, naquele doloroso momento, que talvez não fosse capaz de superar a todos. Talvez suas vítimas não fossem tão fracas quanto acreditava. E quase aceitou isso como verdade, e então as plantas paravam de açoitá-la. Tentava abrir os olhos, um deles rasgado pelos espinhos, olhava para cima e via Paulo estendendo sua mão. Ao longe, Gabriel se erguia sobre Camila, que estava desacordada no chão, gritando para que a assassina se apressasse. Ainda estava no jogo, ainda estava no controle. E saíam pelo portão deixando Camila jogada no chão.

Logo se via de pé no jardim novamente, consertando o estrago que a luta havia feito no jardim que agora era seu. Havia baixado a guarda, estava tão focada em seu ódio que não percebeu quando Gabriel a atacou, mas agora aquilo não importava mais, e caminhava para dentro, queria um banho quente. Estava feliz naquele lugar, Ana havia cumprido com a promessa. Agora Camila estava em seu paraíso.