GOD - O Jogo dos Sonhos II

2 Capítulo 1 - O Jardim de Sonhos


O gramado verde balançava vivamente com a brisa suave que batia no campo. Havia um cheiro doce no ar, talvez de flores, e sentia que o ambiente era de certa forma aconchegante, mas estava incomodada com isso. “Eu… Morri?”, pensava para si mesma enquanto levantava tentando se equilibrar. Era estranho, sentia que seu corpo não pertencia a ela, mas certamente não se sentia morta. Passava o pé descalço pela grama sentindo a maciez do terreno, não pensava como chegara ali, tinha a sensação de que estava naquele lugar a muito tempo, mas também sentia que aquele era o primeiro momento em que realmente decidia fazer alguma coisa. Olhava ao redor e via outras pessoas no gramado, e se lembrava de já ter visto aqueles rostos, embora não soubesse dizer quem eram. Apenas sentia que não gostava deles, e se afastava, andando para longe. Pensava no que estava fazendo, sabia que precisava sair daquele lugar, mas não entendia bem como, apenas olhava procurando por alguma saída.

Estava caminhando a alguns minutos quando reparou que em sua frente apareciam novamente os rostos que havia deixado para trás. “Mas… Acabei de caminhar para longe deles”, pensava, enquanto chegava a única conclusão lógica de que havia dado a volta ao mundo. Não era um mundo realmente grande, aceitava em silêncio, mas aquilo não soava realmente estranho. Era um mundo pequeno, gramado, com uma leve brisa e flores pelo chão. Flores de papel, feitas de jornais velhos, estampavam em suas pétalas manchetes que ela era incapaz de ler, mas não eram feitas por alguém, pareciam estar nascendo do chão como flores de verdade. Via os jovens ainda distante interagindo entre si, tentavam acenar para ela, mas recusava responder, apenas desviava o olhar e se mantinha longe.

— Sabe… — Dizia uma voz vinda do alto, assustando a garota — ...Se você ficar aí só olhando, nunca sairá daqui. — A origem da voz era uma pequena garota que se pendurava de cabeça para baixo em um galho de árvore, a árvore que agora passava a existir bem na frente da jovem, não estava ali antes.

— E quem é você para dizer o que devo fazer? — Respondia a jovem incomodada.

— Eu não sou ninguém. — A garotinha descia do galho em um movimento fluido quase desumano. — Mas se você quiser continuar sendo alguém, é melhor se apressar, porque eles já descobriram o que fazer.

A jovem olhava para as pessoas que abandonara ao longe, procuravam algo pelo chão, as flores, que pareciam se incendiar ao serem arrancadas do gramado.

— O que eles estão fazendo?

— Estão jogando. — A garota agora circulava a jovem, brincando com as flores pelo chão. — Se você me disser o seu nome, talvez eu te ajude.

A jovem hesitou por um momento, pensava no que estava acontecendo. — Diana.

— Diana, então? Vou chamá-la de Di. — A garota saltitava na frente da moça, agora exibindo seus olhos brilhantes e cabelo preto muito longo. Sorria de uma forma peculiar, e segurava uma das flores em sua mão. — Me chamo Ana, mas eu não sou uma pessoa de verdade.

— Você é alguma alucinação minha? Algum demônio?

— Não, bobinha. — A criança ria e se sentava na grama. — Eu sou apenas parte do sonho. Você está sonhando, lembra? — De repente, tudo parecia fazer sentido para Diana. Se lembrava de ter sido sequestrada, de ter sido levada para uma sala com estranhos ao seu redor e de estar participando de algum tipo de jogo sádico.

— Eu preciso sair daqui! Não sei…

— Ei, eu disse que iria ajudar. — interrompia a garota agora com um olhar sério. — Está vendo aqueles bobões? — Apontava para as pessoas ao fundo. — Eles acham que vão encontrar a “chave” para sair daqui nessas flores. Mas eles ainda não entenderam que cada vez que tiram uma delas do meu jardim… — Ela brincava com a flor em sua mão, que agora começava a escurecer a entrar em combustão. — Eles criam o próprio inferno.

Diana olhava assustada para o jardim. Notava que agora as pessoas estavam deixando um rastro de fogo para trás, mas pareciam não perceber. Olhava para Ana que agora se deitava no gramado olhando para cima, seu rosto sereno fazia o cenário parecer calmo, quase como um paraíso.

— E como isso me ajuda? Como eu saio daqui?

— Bem, se todos eles encontrarem as chaves e você não, ficará presa aqui. Comigo e com as chamas que deixarão para trás. — A garota dava uma risada levemente assustadora. — Mas não se preocupe, eu não sinto calor. — E entrava em combustão, sumindo em cinzas e deixando para trás apenas uma risada que fazia Diana se contorcer em terror.

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Diana andava pelo gramado com medo, observava os outros jovens incendiarem o pequeno mundo aos poucos, e pensava se deveria fazer o mesmo. Testava uma das flores pelo chão, a puxava com facilidade, e logo a pequena flor se contorcia em chamas e Diana a largava na grama novamente, assustada. “Isso nunca vai funcionar”, dizia para si mesma, enquanto percebia, em choque, que se ficasse apenas olhando, a única coisa que veria seria o campo se tornando um inferno. Decidia então correr para impedir que os jovens continuassem, talvez esse fosse seu objetivo. “Faça-os parar, depois saia daqui”, pensava enquanto esbarrava com um rapaz alto, que agora a encarava com certo alívio.

— Diana! — Dizia o jovem, Paulo, que tentava abraçar a garota que desviava de seus braços irritada.

— Não toque em mim! Eu não conheço você, Paulo, você pode muito bem ser um assassino! — Ela olhava ao redor para ver se mais alguém a encarava, mas não havia ninguém perto o suficiente. — Mas você precisa parar de arrancar as flores!

— Como é? — O rapaz respondia incrédulo, tentando olhar nos olhos ariscos da garota. — Você quer que eu pare de procurar a única saída daqui, e diz que eu sou o assassino?

— Você não vê que estão incendiando o mundo?

— É claro que eu estou vendo! Faz parte do desafio! E se você ainda tem alguma esperança de viver, é melhor fazer o mesmo. — O rapaz irritado caminhava em direção a uma das flores que estavam no chão. — Olha, eu também não conheço você, mas sei que não é a assassina. Você lembra da carta, não? Vamos morrer se não cumprirmos o objetivo.

— Eu não acredito em você! Vocês só querem tacar fogo nesse mundo, todos vocês!

Diana se afastava do rapaz que fazia um gesto como se tentasse convencê-la a ficar, mas desistia e voltava a sua tarefa de arrancar as flores do chão. Corria para longe, passando pelos outros jovens que faziam a mesma coisa: arrancavam flores do chão e incendiavam o local. “Todos vão morrer”, pensava a garota que agora corria para a árvore onde estivera mais cedo, sentando-se encostada ao tronco. “Já estamos todos mortos”.

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“Está tudo bem agora, querida” — a voz suave de sua mãe tentava confortar a pequena Diana. Estavam em lágrimas, observavam as chamas devorarem seu lar. Ela tinha 11 anos quando aconteceu o acidente, estava em casa com a mãe quando ouviu o grito de socorro, e via se formar na cozinha as labaredas que consumiriam tudo o que tinham. Saíram de casa, correndo, e Diana apenas podia observar enquanto seu mundo se transformava em cinzas. Não teve tempo de salvar seus brinquedos, não teve tempo de salvar suas fotos. Teve apenas tempo de sair com sua vida, e nos braços da mãe tentava entender o que acontecia, era pequena demais para conseguir aceitar aquilo.

Agora, 10 anos depois, via outro mundo em chamas. Observava o cenário antes pacífico se tornar vermelho, e se encolhia perto da árvore desejando apenas acordar. Tinha medo do fogo, mas não conseguia admitir isso para si mesma. Sabia que talvez aquela fosse a única saída, mas se recusava a acreditar que precisaria do fogo para escapar, e tentava se manter o mais longe possível do calor.

— Diana! — Uma voz doce vinha em direção a garota. Não demorou muito para reconhecer Leila, a garota dos cachinhos.

— O que quer de mim? Me deixa em paz!

— Diana, você vai morrer se ficar aí parada! — Leila parecia estressada, quase como se estivesse em um dos momentos mais importantes de sua vida.

— Vocês estão mentindo! Todos vocês! — Diana se afastava da garota, com medo. Não confiava nela, preferia não enfrentar o fogo. — Só querem me queimar.

— Você não está pensando! — Leila tentava se colocar na frente da moça, em vão. — Se você agir assim, você vai morrer aqui!

— E daí? Eu já estou morta até onde eu sei. E qualquer um de vocês pode ser o culpado. Todos vocês podem ser culpados.

— E você vai simplesmente desistir assim?

— Me deixa em paz! — Empurrava a moça com hostilidade, fazendo-a se afastar, sem esperanças de continuar aquela conversa. — Eu não confio em vocês. Em nenhum de vocês!

Leila olhava para a moça, parecia perder as esperanças, e logo se retirava, voltando para o aglomerado de jovens. Diana voltava a encostar na árvore, trêmula, e não conseguia mais segurar suas lágrimas. “Como eu vim parar aqui?”.

Observava o tempo passar, os jovens pareciam estar desaparecendo aos poucos, mas o fogo só aumentava. Aquele parecia o único canto no pequeno mundo que ainda não havia sido soterrado em chamas. Diana pensava sobre tudo o que fizera até aquele momento, e percebia agora que talvez os outros estivessem certos, talvez ela realmente precisasse procurar por uma chave, mas não tinha a coragem para fazê-lo. Olhava para cima e via Ana sentada no galho da árvore, balançando as pernas e rindo enquanto via o incêndio. Não queria falar com a menina, mas agora sabia que aquela seria sua única companhia, sabia que estava condenada a passar a eternidade naquele inferno.

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“Isso não é como o jogo devia ser jogado”, dizia a garotinha insistente enquanto perturbava Mateus. O rapaz olhava para o alto, inquieto. Parecia ser um dos únicos a notar o formato estranho das nuvens, marcavam as horas, mas não como um relógio, e sim como um cronômetro. Faltavam duas horas e alguns minutos para o tempo acabar. Alguns minutos, ele não sabia dizer muito bem quantos, embora os números estivessem bem claros no céu, uma daquelas coisas que só aconteciam em sonhos.

— Então… — Ele dizia enquanto caminhava para perto de um arbusto florido. — É só eu continuar procurando por alguma flor que seja uma chave?

— Exatamente! — Dizia animada a menininha que agora corria para abraçar o arbusto. — Mas você não vai dizer isso a ela, não é mesmo?

— Eu não tenho que falar com ela. Ela sabe o que precisa fazer, se não quer, não é responsabilidade minha. — Mateus olhava para Diana, ao longe, que se encostava em uma árvore e se recusava a sair de lá. — Fora que… Se ela desistiu é melhor para todos nós. Pelo menos já sabemos quem é o perdedor desse jogo.

— Ora ora, Mateus! Você não se sente mal em descartar alguém assim?

— É claro que não. Eu não conheço essas pessoas, e ela pode inclusive ser a culpada por eu estar nesse jogo estúpido. — Ele dizia com certa convicção em sua voz, mas estava blefando. Ele se importava com os outros, mesmo não conhecendo nenhum deles, mesmo não confiando em ninguém. Mas também tinha a certeza de que alguém teria que perder aquele jogo, e via que um sacrifício daqueles poderia beneficiar todos os outros.

Mateus continuava a procurar pela chave, irritado. Pensava no que significava estar ali. Ele estava realmente morto? Não se sentia assim, e certamente achava que aquele campo flamejante não era a vida pós morte que imaginara. Talvez parecesse um paraíso no momento em que chegara ali, talvez parecesse um inferno no momento em que saísse, mas não era nenhum dos dois. Era apenas um sonho que lentamente se tornava um pesadelo. Pensava se precisava apenas acabar com o jogo para acordar em sua casa. Estaria feliz até mesmo se acordasse na sala em que estivera acorrentado, só desejava acordar. Não sabia se devia acreditar ou não no jogo dos sonhos, mas sabia que a melhor opção era seguir as regras. Caso tudo fosse real, ele pelo menos estaria seguindo o caminho de volta para sua vida, e se tudo fosse apenas um pesadelo, pelo menos ele acordaria e nada daquilo importaria. Em qualquer um dos casos, desejava apenas acordar e poder voltar para casa.

Olhava para os outros jogadores, alguns começavam a se agrupar, como a dupla Leila e Maria, que pareciam ter criado alguma empatia e tentavam convencer a garota do cabelo rosado a se juntar a elas, ainda sem saber seu nome. Mais ao outro lado podia ver alguma discussão entre Paulo, Beatriz e Gabriel. Mateus achava que os três pareciam muito suspeitos, desconfiava que se houvesse um assassino entre os jogadores, seria um dos três. Mas apenas desconfiava, não tinha provas contra ou a favor de ninguém. Preferia se isolar como Diana fazia, mas sem desistir do jogo. Olhava para Ana que parecia se divertir em apenas olhar, mas sentia que a criança poderia ajudá-lo de alguma forma. “A chave está por aqui?”, perguntava gesticulando para o arbusto. A menina levantava os ombros em deboche, fingindo não saber a resposta, mas estava bem claro que ela sabia. E Mateus continuava a procurar por entre as flores, sabia que era só uma questão de tempo até acabar aquele desafio.