Gênio Infame, Dama Mordaz
44 Ponto de Ebulição
No qual nosso herói e nossa heroína mergulham de cabeça.
Não quero perder a esperança, mas confesso que tem sido difícil manter o otimismo em relação ao plano de reconquistar o raio de sol.
Depois do dia que a procurei e almoçamos juntos, não tive mais nenhuma ideia para me reaproximar dela aos poucos. No fundo, acho que eu esperava que não fosse necessário pensar no movimento seguinte; pensei que ela sentiria minha falta antes e logo daria o próximo passo por si só.
Contudo, a semana foi passando, e nem sinal da bendita criatura.
Para piorar, Jarvis anda me azucrinando, dia após dia, com seus conselhos impertinentes. Ele argumenta que, uma vez que o plano não esteja saindo como o desejado, preciso mudar de estratégia. Em resumo, procurar Maria, jogar limpo com ela e dizer que lhe quero de volta.
Será que daria certo deixar a máscara cair assim ou isso apenas faria a dama mordaz fugir de mim?
Se fugisse, como eu conseguiria lidar com a rejeição e frustração?
Pior, ela ficaria com raiva por eu ter mentido sobre a proposta de amizade?
Enquanto não encontro respostas que me deem alguma segurança, tenho continuado assim, estagnado. E de mau humor, segundo Jarvis.
Pelo menos, consegui me livrar dele por hoje, dando-lhe uma folga extra e praticamente lhe enxotando da mansão há pouco.
Um barulho estridente vindo de alguma cadeira perto da piscina me faz concluir que, na verdade, não me livrei coisa nenhuma. O teimoso ainda está por aqui.
Expiro com força e xingo baixinho antes de resmungar em alto e bom som:
— Jarvis, pela milésima vez, hoje é a sua folga, não precisa se preocupar com o meu almoço. Se eu sentir fome, dou uma olhada na cozinha ou saio pra comer alguma coisa, mas duvido que será necessário. Como eu já disse, mil vezes também, estou sem o menor apetite. Aliás, sem a menor vontade de fazer qualquer coisa hoje. Só quero ficar sozinho aqui, pode ser? Obrigado. Tchau.
Alguns segundos depois, uma voz retruca cheia de desfaçatez:
— Um dia tão lindo e uma piscina tão convidativa não combinam com tanto mau humor. O que te aflige, Howard?
Abro os olhos, alarmado. Porque não é a voz de Jarvis.
Recuso-me a acreditar que foi uma alucinação.
Surpreso e com uma estranha palpitação no centro do peito, mexo-me na espreguiçadeira a fim de girar o corpo para encontrar a origem desse som. Abaixo o óculos de sol e estreito o olhar na direção da ninfa em forma de mulher a poucos metros de distância.
— Você! — respondo, embora Maria não esteja me afligindo nesse momento, para ser justo.
Ao contrário, sua presença é simplesmente um deleite. O que me atormenta mesmo é a sua ausência.
Abro um sorriso devagar porque é meio impossível não sorrir para ela. E também é inviável permanecer sentado por mais tempo. Quando dou por mim, já levantei e estou caminhando até Maria.
Quando me detenho em sua frente, ela brinca de modo teatral:
— Surpresa!
Por falar em surpresa, ainda não assimilei essa situação e me sinto meio aparvalhado diante dela.
Podem me chamar de convencido, mas também sinto Maria um tanto desnorteada enquanto olha para mim.
Sendo mais específico, percebo muito bem o rápido olhar que recai no meu peito, já que o roupão está meio desalinhado nessa parte de cima e deixou um bom pedaço de pele à mostra.
Ora, ora...
Finjo ajeitá-lo apenas para abrir mais um pouco a fenda. As bochechas de Maria ganham um tom rubente. E algo me diz que nada tem a ver com o sol sobre sua linda e loura cabecinha.
Com a confiança renovada, faço-lhe a pergunta mais importante do momento:
— O que está fazendo por aqui, princesa?
E ela se recompõe o mais depressa que consegue para respondê-la:
— Eu estava passando por perto, resolvi parar e te fazer uma visitinha. Fiz mal? — Ela pisca muito rápido, de repente meio afobada. — Desculpe, você mesmo mencionou que queria ficar sozinho. É melhor eu voltar outra hora? Outro dia, quem sabe? Sem problemas!
O problema é que o raio de sol atropela um tanto as palavras e me parece em busca de uma desculpa para sair pela tangente num piscar de olhos. Talvez esteja arrependida de ter resolvido me fazer essa visitinha. Talvez não esteja pronta para dar o próximo passo.
Sou mais ligeiro do que ela, no entanto, e seguro sua mão, impedindo-a de me dar as costas, ao mesmo tempo em que disparo:
— Não vá!
Para constar, minha voz soou um pouco desesperada ao pedir isso.
Disfarçando, solto sua mão e esfrego a nuca despretensiosamente.
Maria, por sua vez, une as sobrancelhas e me encara com certo ar de vitória. Acho que, dessa vez, é ela que está pensando “ora, ora...”
Não me abalo. Ou pelo menos, finjo que não me importo. E assim como ela fez há alguns instantes, agora sou eu que me recomponho na velocidade da luz.
— Você é bem-vinda, pode ficar — digo do jeito mais natural possível.
Ela assente com um meneio de cabeça.
— Obrigada.
Um única palavra e um gesto simples, mas que carregam um quê de provocação. Maria sabe que estou feliz por ela ter vindo. E sabe que eu ficaria angustiado se fosse embora agora.
Visivelmente mais segura de si e com seu belo nariz empinado, o raio de sol olha em volta. Depois, torna a me observar, abre um sorriso preguiçoso e...
— Bom, então é assim que você recebe suas amigas? Sem um abraço?
— Hã?!
Ok, por essa eu não esperava! A atrevida não tem limites!
E sabem pelo o que eu também não esperava? Que Maria fosse vencer a curta distância entre nós e reivindicar o abraço por si só.
Fico tão tenso quanto um fio esticado até o limite. E muito, muito incrédulo. E, pasmem, sem saber o que fazer. Eu! Justo eu, tão acostumado a saber muito bem retribuir o carinho das mulheres, vejo-me paralisado diante desta aqui. Será que estou sendo acometido por um derrame?
Maria também deve achar minha inércia surpreendente porque ri, um bendito som melodioso, e me provoca mais uma vez:
— O sol derreteu o seu cérebro ou o quê?
E tal pergunta me leva a reagir finalmente, abraçando-a de volta. Mais caloroso do que seria apropriado abraçar uma simples amiga. E por mais tempo também.
De fato, não penso em soltá-la tão cedo. Ao contrário, aproveito o momento para subir as mãos por suas costas devagar, encaixar a cabeça em seu ombro e inalar o cálido perfume que emana de seus cabelos.
Fecho os olhos e aperto-a mais um pouco junto a mim.
Sabe quem fica tensa agora? Ela. Sim, eu sinto muito bem quando Maria arfa baixinho, como se respirar, de repente, tivesse se tornado uma tarefa assaz trabalhosa.
No entanto, ela não faz qualquer movimento para se desvencilhar ou me afastar. Em vez disso, uma das mãos percorre com suavidade o meu ombro e repousa com cuidado em minha nuca. A maneira como minha pele simplesmente arde é uma doce tortura.
Pergunto-me se a dama mordaz também está de olhos fechados e matando a saudade do meu cheiro. Sim, porque eu aposto que ela tem saudade de mim, de nós e de tudo.
Também me pergunto se seria muito descaramento de minha parte mover um pouquinho o rosto a fim de buscar um ângulo melhor para acabar com esse tormento. Concluo que é uma ideia brilhante e...
Um grasnado agudo rompe o ar sem aviso prévio, causando um sobressalto cômico e ridículo em nós dois. Maria se esquiva no mesmo instante e olha em volta, atônita. Ri de leve quando encontra a origem do som embrenhado em uma roseira há alguns metros de distância, observando nós dois de modo alerta.
Vejam bem, adoro o meu flamingo, mas, nesse momento... imagino-o virando uma nuvem de poeira e sendo carregado pelo vento, partícula por partícula, até desaparecer por completo. Essa bendita ave emplumada tinha que interromper justo agora? Desse jeito, vou ser obrigado a concordar com Jarvis sobre Bernard não passar de um Diabo Rosa!
Maria, por sua vez, parece aliviada pelo animal ter quebrado o seu momento de fraqueza e caminha até ele. Sigo-a um instante depois.
Bernard não se afasta quando Maria para diante dele e ainda estica o pescoço quando ela lhe cumprimenta com um carinho suave. Apesar de não ser um cachorrinho ou gatinho fofo, eu vejo doçura e euforia nos olhos dele. E, nesse instante, minha ira se dissipa um pouco porque eu lhe compreendo perfeitamente. Bernard também sentiu falta dela.
— O Sr. Jarvis e Ana estavam de saída e abriram o portão para mim — o raio de sol explica, sem me olhar de modo direto. — Ele perguntou se devia me anunciar, mas, cá entre nós, qual seria a graça?
Um meio sorriso travesso brinca em sua boca, levando-me a uma constatação:
— Vejo que você está de bom humor.
— Por que não estaria? Um dia tão lindo...
— E uma piscina tão convidativa... — interrompo-a, tomando emprestadas as palavras que me disse há pouco. — Já que está aqui, por que não dá um mergulho comigo?
Maria se volta para mim como se tivesse recebido uma poderosa descarga elétrica.
Ao perceber que não tem mais a atenção dela, Bernard se afasta saltitando e logo desaparece pelo jardim.
Ainda de olhos meio arregalados, a dama mordaz reencontra a própria voz e exalta com ar descrente:
— Eu?!
— Você.
Ela pisca algumas vezes, desnorteada, enquanto eu me divirto internamente com o seu embaraço.
— Ah... Acho melhor não, mas agradeço a oferta.
Como eu esperava que faria, ela recusa. Contudo, como ela também deve desconfiar que eu farei, não me dou por satisfeito e insisto:
— Qual o problema?
— Nenhum.
— Não sabe nadar?
— Sei.
— Tem certeza? — provoco-a.
Seu olhar cintila com uma nuance de raiva genuína e ela assume uma postura altiva.
— Claro que tenho! Muito bem, se quer saber. Meu irmão diz que eu nado melhor do que ele até. Feito um peixe!
Estreito o olhar.
— Sendo assim...?
O raio de sol engole em seco e desvia os olhos para o jardim ao redor como se, desse modo, entre um arbusto e uma roseira quaisquer, fosse encontrar a desculpa perfeita para se esquivar de uma vez por todas do meu convite.
Por fim, seu rosto se ilumina e ela torna a me encarar, argumentando com notável satisfação:
— Eu não trouxe roupa de banho. Como eu disse, só estava passando pela vizinhança. Não pretendia parar aqui, muito menos para dar um mergulho.
Tolinha... Ela acha mesmo que pode me dissuadir da ideia com essa desculpa? Algo tão fácil de rebater que não hesito em indicar o amplo toalete social adjacente à mansão e lhe oferecer:
— Tem alguns maiôs ali atrás para as visitas. Estão dentro de um armário, bem fácil de encontrar. Tenho certeza que alguns te servem com perfeição. Fique à vontade, escolha um.
Maria força um sorriso e declina mais uma vez:
— Não. Obrigada, Howard.
E eu, mais uma vez, tento compeli-la:
— Está com ciúme por causa das mulheres que um dia usaram esses maiôs?
— Claro que não! — ela nega no ato, soando ultrajada. — Eu não tenho ciúme dos meus amigos. Pode emprestar os seus... trapos para quem você quiser.
Assinto com um meneio de cabeça, fingindo não perceber que Maria está emburrada demais para alguém que não sente ciúme desse amigo aqui.
Faço-me de sonso ao contrapor:
— Não são trapos, estão em ótimo estado e perfeitamente limpos. Você conhece o selo de qualidade do Jarvis, as peças estão impecáveis. — Franzo o cenho, escrutinando-a melhor. — Por acaso, você não está com vergonha de usar um desses maiôs na minha frente, está?
— O quê?!
Ela ri de leve, com escárnio, entretanto, não me convence de que eu disse algum absurdo.
— Porque seria ridículo se estivesse, considerando que eu já te vi com bem menos roupa.
Maria quase engasga com o ar e suas bochechas ganham uma graciosa coloração rosada.
Eu não devia estar me divertindo tanto com essa situação, mas estou. Também não devia dar alguns passos à frente nem me inclinar na sua direção para dizer algo mais próximo do seu ouvido, mas é exatamente o que faço...
— Com nenhuma roupa, para ser exato.
O raio de sol busca o meu olhar como se tivesse sofrido outro choque. Só que, para ser justo, quem fica mais desnorteado agora sou eu. Isso porque calculei mal o risco e me aproximei demais dela. Então, quando Maria se move assim sem aviso, seu rosto fica muito perto do meu.
De tal forma, que não nos tocamos por questão de poucos centímetros.
De tal forma, que sinto o seu hálito fresco invadir minha boca entreaberta.
Mais do que isso, quase sinto o gosto familiar do seu beijo em minha língua.
Para meu pesar, esse precioso momento dura muito pouco porque ela, meio atônita, logo recua uns dois passos.
— Um desses maiôs me serve mesmo? — questiona de súbito.
Disfarço a minha perturbação como posso e, por segurança, também coloco mais dois passos de distância entre nós e as mãos para trás, a fim de resistir ao ímpeto de alcançar o raio de sol em um instante com elas.
Pigarreio para limpar a garganta e desanuviar a mente.
O que foi que ela perguntou mesmo? Ah, lembrei!
— Vários, mas o cor-de-rosa deve cair feito uma luva.
Maria avalia a resposta e me analisa por um longo momento. As engrenagens do cérebro trabalhando a todo vapor por trás de um olhar semicerrado e misterioso.
Desconfio que um embate íntimo esteja ocorrendo dentro dela nesse instante. Por um lado, Maria sabe que recusar definitivamente o convite para a piscina seria o mais inteligente e seguro, caso queira seguir me evitando. Por outro lado, se bem a conheço, ela aprecia um bom desafio e de sair vitoriosa no final. Além de ser orgulhosa e atrevida demais para fugir daqui feito uma coelhinha ressabiada.
De repente, ela empina o nariz, arqueia as sobrancelhas e me revela qual dos lados venceu a batalha:
— Eu já volto, patife.
Espero Maria me dar as costas e caminhar alguns passos rumo ao toalete para esboçar um sorriso de expectativa. E também para dar uma discreta olhadinha em seus lindos tornozelos em movimento. Ah, que saudade eu sinto deles!
— Mal posso esperar — balbucio baixinho.
Especialmente porque, na verdade, o tal maiô cor-de-rosa não cairá em seu corpo feito uma luva, ele ficará um pouco pequeno e apertado. De modo provocante, anseio.
[...]
Achei prudente me livrar do roupão e mergulhar na piscina para esfriar o sangue que ameaçava entrar em ebulição em minhas veias. Agora, longos minutos depois de Maria ter ido se trocar, começo até a sentir um pouco de frio em meio à tanta agua.
Não é possível que ela demore tanto tempo assim para tirar a roupa e vestir um simples maiô!
Será que mudou de ideia e foi embora? Não, eu a teria visto daqui. Não teria?
Nado até a borda e estico o pescoço para ver melhor o toalete bons metros à frente. A porta continua fechada, como das últimas vezes em que chequei.
Frustrado, nado até a outra borda e fico imerso enquanto reflito sobre a visita surpresa de Maria Carbonell e, especialmente, sobre essa torturante demora.
Será que ela está esperando que eu vá buscá-la? Ou será que está esperando que eu vá até lá e... me junte a ela?!
Meu nariz arde quando um pouco de água entra nele por acidente.
Sentindo-me o homem mais burro da face da Terra (o que não faz sentido porque estou certo de que sou o mais inteligente), emerjo a cabeça e tomo impulso para nadar até a outra extremidade de novo, sair da piscina e ir atrás dela de uma vez.
No entanto, paro na metade da piscina ao notar que a porta não está mais fechada. Logo, concluo que eu só estava fantasiando. Maria não esperava que eu fosse até o toalete, pois não parece nada desapontada ao me avistar na piscina. Ao contrário, ela sorri e acena ao me ver, aparentando mais confiança e relaxamento com essa situação.
A título de curiosidade, o raio de sol não está usando o maiô cor-de-rosa que eu sugeri tão gentilmente. Pelo menos, não só ele. Um roupão branco e felpudo oculta a peça de banho que ela veste por baixo.
Quando se detém diante de uma das espreguiçadeiras e despe, com encantadora hesitação, essa primeira peça, outra cor contrasta com sua pele clara.
Perco o fôlego.
Embora eu estivesse aguardando o maiô cor-de-rosa, não consigo ficar decepcionado com a imagem que inunda meus olhos. De fato, estou feliz que ela não tenha acatado a opção que ofereci. Porque essa peça sim e nessa cor lhe vestiu perfeitamente bem.
Maria está tão linda e naturalmente sedutora com tal maiô, que um comentário bobo me escapa:
— Se verde é assim, imagine madura.
Ela revira os olhos e disfarça muito mal um sorriso antes de vencer a curta distância até a piscina. Dou uma boa olhada em seus tornozelos perfeitos sem me preocupar em disfarçar como mexem com meu imaginário.
Por fim, sem cerimônia, Maria mergulha com graciosidade. E nada, sem pressa, ao meu redor. Não como um peixe faria, mas como uma sereia cheia de esplendor.
E quando a sereia emerge bem na minha frente, com um sorriso mais largo e um olhar cintilante, eu tenho certeza de uma coisa. Ela não precisa cantar para me deixar mais enfeitiçado.
Não sei quanto tempo se passa, mas devo estar com uma expressão embasbacada ou estranha, ou as duas coisas, porque Maria joga água no meu rosto como se quisesse me despertar e preenche o silêncio:
— Você se enganou feio, patife. O maiô que me falou não serviu. Eu mal consegui entrar nele. Ficou tão apertado e decotado que beirava à indecência.
Sinto uma fisgada no centro do peito e engulo em seco.
— Indecência, é?
Maria não se dá ao trabalho de confirmar. Em vez disso, muda de assunto:
— Sabe que eu estou começando a gostar da ideia de sermos amigos? Não me leve a mal, eu sei que você não é só um milionário qualquer e também não quero parecer interesseira, mas é muito bom ter um amigo com piscina. Posso vir aqui mais vezes?
Minha voz quase não sai quando respondo:
— S-sempre que quiser, coração.
O raio de sol aperta as mãos como se tentasse conter a euforia.
— Ai! Muito obrigada!
E de tão agradecida, ela se aproxima mais um pouco, segura meu rosto entre as mãos e me surpreende com um beijo estalado na bochecha.
Sinto uma nova fisgada. Dessa vez, na virilha. E eis aqui o meu limite, senhoras e senhores.
Maria se afasta ao mesmo tempo em que me movo até ela, como se atraído por um ímã.
Confusa, ela franze o cenho.
— Howard?
— É meu nome.
Ela cambaleia para trás, e eu sigo reduzindo nossa distância.
— O que está fazendo?
— Não sei... — é tudo que consigo elaborar.
Quando suas costas encontram a borda da piscina, Maria fica mais alarmada. Ela me detém ao colocar a mão no meu peito.
— Parece que você sabe, sim!
E, por um momento precioso, eu me pego observando seus dedos delicados em contraste com minha pele nua. Uma deliciosa sensação de formigamento se espalha sob o seu toque.
Quando dou por mim, já tomei essa mão perfeita e a levei até os lábios a fim de beijá-la apropriadamente. E demoradamente.
Por sobre sua mão, vejo Maria boquiaberta, o peito subindo e descendo mais rápido, a pura imagem do choque e do descompasso.
Ela ainda me quer. Ainda é a minha Maria.
Tal constatação me faz reunir coragem, ou atrevimento, para ir direto ao ponto:
— Ok, isso vai parecer meio impróprio, mas eu preciso de um beijo.
Se ela já estava chocada antes, agora então...
— Precisa?! — questiona, puxando a mão de volta.
— Preciso — reafirmo.
E como preciso! É uma necessidade tão forte que chega a doer. Só não sei se apenas um beijo será o bastante para aplacar tamanho desejo, mas... vamos por partes.
Maria me analisa por um instante. O choque se dissipa e dá lugar a uma expressão astuta.
— Muito bem — ela anuncia, fazendo o meu estômago afundar.
Chego a lamber os lábios de tanta expectativa.
Expectativa essa que é logo frustrada quando ela se aproxima sim, porém apenas para me torturar com mais um beijo no rosto.
— Não assim — resmungo com desdém. — Não um beijo de amigos.
O ar astuto ganha força e também transparece em sua voz quando argumenta:
— Mas é exatamente o que nós somos agora, coração. Apenas amigos. Inclusive, essa ideia brilhante foi sua.
— Foi — praticamente rosno.
De modo irritante, Maria reforça:
— Exato.
Reflito um pouco, dou de ombros e retruco:
— E daí?
Maria me encara e ri sem humor, como se a resposta fosse muito óbvia. Mesmo assim, acaba explicando:
— E daí que amigos não se beijam na boca.
Ergo um dedo em riste e protesto:
— Não, inimigos não se beijam na boca. Via de regra, é esperado que não aconteça. Agora, amigos? Não tem nenhuma regra que proíba bons amigos de se beijarem, tem?
O raio de sol expira com força e me olha de modo exasperado ao reclamar:
— Essa conversa não faz o menor sentido.
Ignoro o comentário, que mais me parece uma tentativa de se esquivar do assunto, e me movo de novo até ela enquanto retomo o fio da meada:
— Ainda mais se eles já se beijaram antes, tantas vezes e de tantas maneiras, e se foi tão bom...
Nitidamente abalada e um tanto ofegante, a dama mordaz não dá qualquer indício de que irá me afastar. Na verdade, ela nem parece ter percebido a aproximação, o olhar preso ao meu.
Aproveito para brincar com uma mecha do seu cabelo entre os dedos e, enquanto observo sua boca tão rosada quanto às bochechas, sigo com o jogo de sedução:
— Ainda mais se estão com tanta saudade desses beijos. Com saudade um do outro.
Reduzo a mínima distância entre nós a absolutamente nada, inclinando a cabeça e trilhando um beijo demorado em seu pescoço. Posso sentir seus batimentos cardíacos bem acelerados sob a pele macia, enquanto meu coração também martela forte.
— Fale... por você, patife.
Viro o rosto para beijar o outro lado do pescoço dela. Com a mesma reverência.
A dama mordaz finca as mãos em meus ombros, porém não parece ter a intenção de me empurrar. Na verdade, parece fazer isso mais como uma necessidade de se agarrar a alguma coisa.
— Você não sente saudade de mim? — pergunto, depois de mordiscar muito de leve sua pele.
— Não...
Ela tenta soar firme quando nega, porém o fio de voz não transmite qualquer resolução.
Sigo beijando seu pescoço. Maria se contrai um pouco e os dedos afundam em meus ombros.
Apesar de tanta água ao nosso redor, sinto como se o líquido estivesse em ponto de ebulição. Talvez porque a temperatura entre mim e o raio de sol esteja subindo, de maneira drástica, a cada segundo.
— Nenhum pouco?
— N-nenhum pouco.
— Pois eu sinto.
Colo meu corpo mais junto ao dela embaixo d’água, fazendo com que Maria perceba o meu grau de excitação, o estado deplorável e glorioso em que me deixa, o tamanho da minha saudade traduzido nesse desejo carnal do meu corpo pelo seu.
Sinto-a estremecer e me segurar com mais força.
Busco seu rosto e espero ela abrir os olhos. Maria faz isso devagar, parecendo meio entorpecida. Observo-os por um momento. Sorrio de canto ao constatar algo que eu torcia por encontrar.
— E eu ainda sei quando você mente, raio de sol. Os olhos te denunciam, as bordas ficam mais verdes.
Pega de surpresa e contrariada, a dama mordaz bate as mãos na água, levando-me a recuar um pouco, e insiste entredentes:
— Eu não sinto saudade de você. Não sinto!
Mesmo a certa distância, consigo estreitar o olhar no seu o bastante para enxergar outra coisa.
— E ficam mais escuras também — provoco. — Como estão agora.
Ela me encara com certa fúria, porém, instantes depois, com ar meio resignado, acaba admitindo:
— Tudo bem! Talvez eu sinta um pouco de saudade! Satisfeito?!
Primeiro, tenho certeza que ela quis dizer muita saudade. Segundo...
— Satisfeito? Longe disso. Mas eu posso ficar. E você também, é claro.
Mostrando que ainda é possível, suas bochechas ficam ainda mais ruborizadas.
— O que v-você está... sugerindo?
Afasto-me mais um pouco, esperando que com mais espaço entre nós, ela consiga ponderar com clareza suficiente o que lhe insinuo a seguir:
— Que não seria nenhum crime matar a saudade, Maria. Somos adultos, livres e amigos com um importante passado juntos. Não seria a nossa primeira vez e não precisamos nem falar disso depois, se você não quiser falar. Podemos apenas viver o momento e depois, se você achar melhor, fingir que nada aconteceu. As coisas entre nós não precisam mudar, mas a saudade que sentimos... Essa pode ser saciada.
Seu peito sobe e desce mais rápido enquanto o olhar me fulmina feito duas brasas.
— É a proposta mais indecorosa que já ouvi!
— Isso é um não? — indago, pessimista.
Maria, no entanto, não confirma. Em vez disso, permanece em silêncio, um estranho silêncio, olhando-me de modo hesitante.
Começo a cogitar que a respiração descompassada e o olhar em chamas não são fruto apenas da indignação. A reação parece mais ser um claro indício do mais puro e primitivo dos desejos que, assim como em mim, também deve estar ganhando força dentro dela, fazendo-a reconsiderar a ousadia da proposta.
Apesar de tudo indicar que, no fundo, Maria está inclinada a aceitá-la, preciso ter certeza:
— É um sim?!
Envergonhada de um jeito encantador, ela cobre o rosto com as mãos e fala mais para si mesma do que para mim:
— Eu estou brincando com fogo...
Com o coração martelando mais forte, cheio de esperança, nado de volta até Maria e apoio as mãos na borda da piscina, uma em cada lado do seu corpo, prendendo-a num círculo.
Quando ela, eventualmente, reúne coragem para me encarar, lanço um último argumento:
— Por que isso tem que ser ruim? O fogo não precisa queimar, princesa. Às vezes, tudo que ele quer é te aquecer.
Chego ainda mais perto e ergo seu queixo com o indicador. Há tantos sentimentos intraduzíveis no olhar de Maria agora que meu estômago afunda pela segunda vez, tomado por uma curiosa emoção que também não sei explicar.
Decido me arriscar mais um pouco. Busco o encaixe perfeito com seu rosto e fecho os olhos depois de mirar nos seus por um instante a mais. Pressiono a boca na sua com uma força gentil por um tempo que não sei precisar quanto. Depois, vou abrindo seus lábios com a ponta da língua bem devagar.
As mãos do raio de sol voltam a encontrar meus ombros e, por longos segundos de pura tensão, eu volto a imaginar que ela pretende me empurrar. Talvez até me afogar na piscina.
Em vez disso, logo eu sinto as mesmas mãos trilhando o caminho pelo meu pescoço até aninharem meu rosto com uma mistura de determinação e entrega. E logo sinto sua língua mordaz encontrar a minha, pois Maria abre mais a boca e mergulha de vez num beijo cheio de intensidade e volúpia, como se quisesse me devorar.
Igualmente faminto e sem mais reservas, envolvo-a por inteiro num abraço apertado e caloroso, permitindo que minhas mãos se revezem ora por suas costas bem esculpidas, ora pela cintura fina, ora subindo por sua nuca e se emaranhando nos cabelos macios e molhados, ora descendo na direção oposta, rumo à base de sua coluna. Até que me arrisco mais uma vez e...
Maria arfa de vontade, porém afasta a mão atrevida que encontrou seu traseiro com um golpe tão violento que sinto uma onda de água se erguer entre nós. Uns bons pingos atingem meu rosto em cheio, ainda bem que ainda estou de olhos fechados.
Ok, recado entendido, vou tentar outra coisa.
Afasto minha boca da sua e mordo de leve sua bochecha; depois, o queixo. O raio de sol joga a cabeça para trás, deixando-me livre para percorrer o adorável pescocinho com uma trilha de beijos lascivos que termina em seu ombro. Quando chego aqui, afasto a alça do maiô com meus dedos um tanto afoitos e tento descer a peça para vislumbrar um dos seios.
Maria, entretanto, sobe a alça e traz minha boca até a sua, deliciando-me com seu gosto de novo, apesar de me deixar um tanto frustrado. Enquanto nos beijamos com mais urgência e ardor, consigo raciocinar o suficiente para subir a mão pelo outro braço dela até encontrar a alça desse lado.
Desço-a um pouco. E alguns centímetros mais abaixo. A mão ansiosa escorregando rumo ao seio quase desnudo, prestes a tomá-lo por completo na palma e...
E mais uma vez, meu plano é minado, pois a sereia endiabrada torna a subir a alça do maiô e, mesmo às cegas, ainda me dá um tapa na mão para me repreender.
Afasto-me com um grunhido, levo as mãos à cabeça e juro que tenho vontade de arrancar cada fio com puxões violentos. Em vez de chegar a tal ponto, bato as mãos na água e recuo mais.
— Pelo bem da minha sanidade, mulher! Se você não me quer agora como eu te quero, diga de uma vez e me deixe sozinho! Ou eu vou enlouquecer! Isso é uma tortura!
E sabe outra coisa que me tortura agora? Olhar para a sua boca entreaberta e meio inchada pelos beijos intensos, e ter que resistir à vontade de tomá-la em um novo beijo ainda mais ardente e profundo.
Enquanto luto internamente para não sucumbir, Maria parece lutar para assimilar o susto que levou com meu desabafo e para assimilar o significado por trás de cada palavra.
Começo a temer o que ela fará a seguir, imaginando ter-lhe dito a coisa errada. Imaginando que minha urgência em tê-la por completo fará Maria mudar de ideia sobre a proposta de matar a saudade. Eu só tinha que ser mais paciente, mas parece que estraguei tudo com minha ansiedade, droga!
Provando que, infelizmente, estou certo sobre tal previsão, o raio de sol revira os olhos, me dá as costas, toma impulso e sai da piscina.
Frustrado e infeliz, saboreio o gosto amargo da derrota enquanto ela se afasta pisando firme.
Ao notar que, cega pela raiva, Maria esqueceu de pegar a direção do toalete, onde reencontrará suas roupas para vestir e ir embora na sequência, grito:
— Está indo para o lado errado, coração!
Ela para de súbito e se vira para me olhar, como se tivesse ouvido um tremendo disparate. Um instante depois, coloca as mãos na cintura e grita de volta:
— Engraçado! Eu pensei que o seu quarto fosse lá dentro!
E aponta a mansão com um movimento da cabeça.
Levo um choque.
É o quê?!
O estômago afunda pela terceira vez, o coração dispara ainda mais e... não vou nem mencionar o estado da ereção dentro de minha sunga.
Maria me dá as costas de novo e retoma o passo rumo à casa. Rumo ao meu quarto! Então é isso! Ela decidiu, mas prefere o conforto de uma boa cama em vez da piscina!
— Santo Einstein das causas impossíveis!
Duas braçadas e saio da água o mais rápido que consigo. Tropeço numa maldita espreguiçadeira pelo caminho e, por algum motivo idiota, pego o meu roupão largado sobre ela e me visto de qualquer jeito.
É uma atitude estúpida porque não pretendo ficar com ele por muito tempo. Mas acho que me sentiria ainda mais estúpido se fosse atrás do raio de sol apenas com a sunga.
O tecido causa muita fricção aqui embaixo, e eu me sentiria um jovenzinho bobo que não consegue controlar os hormônios aflorados diante de uma mulher. Sem falar que Maria ficaria ainda mais ruborizada ao me ver assim, ao ponto de poder ser promovida a um tomate bem maduro.
Sendo assim, fecho bem o roupão e aperto o passo na direção dela, aproveitando o ângulo favorável para dar uma boa olhada em seu corpo, especialmente no rebolar perfeito do quadril curvilíneo...
— Pare de olhar meus tornozelos desse jeito depravado ou eu vou desistir dessa maluquice! — Maria reclama, sem se virar para confirmar a direção do meus olhos.
Sorrio enviesado sem que ela veja também e, assim que lhe alcanço, acho justo me defender:
— Não era para eles que eu estava olhando.
— Argh! — Ela empurra meu ombro com força e segue andando. — Eu te odeio!
Um riso me escapa. Esbarro em seu ombro de propósito e murmuro baixinho:
— Imagina se me amasse...
A dama mordaz detém o passo de repente e se vira na minha direção, visivelmente curiosa e um tanto alarmada.
— O que disse?!
Oops... Acho que agora não é um bom momento para confessar que li sua carta ao ex-noivo sem importância. A carta na qual ela afirmava que o infeliz era página virada e confessava me amar profundamente.
— Posso te levar no colo? — sugiro, mudando de assunto e tentando soar romântico.
— Não se atre...
Eu me atrevo antes que ela termine de protestar. Pego-a no braços com agilidade, fazendo com que Maria se agarre ao meu pescoço por instinto e solte uma risada involuntária pela surpresa.
Silencio tal som com um beijo forte e estalado e, apesar de sentir as pernas meio fracas pelo desejo latente que me domina a cada segundo, consigo me mover com considerável velocidade rumo à mansão.
Depois, porta adentro.
Escada acima.
Corredor adiante.
E chegamos ao meu quarto, cuja porta fecho com um chute desajeitado após entrar com o raio de sol ainda aconchegada nos meus braços.
Maria me observa por um momento antes de se desvencilhar devagar e colocar os pés no chão. De frente para mim, envolve meu rosto entre as mãos com carinho e me beija com uma suavidade lenta e provocante.
E nesse momento eu sei que, de um jeito ou de outro, essa mulher vai me enlouquecer. Posso não perder os fios de cabelo, mas aposto como Maria vai me deixar grisalho antes da hora.
O mais insano é que mal posso esperar por isso. Por viver e envelhecer ao seu lado. Com os momentos de plenitude e prazer, mas também com as preocupações e briguinhas descabidas que um relacionamento envolva. Eu quero tudo com ela.
E, se eu for afortunado o bastante, quero partir dessa para uma melhor ao seu lado também. Ou, pelo menos, antes dela. Porque estou certo que a vida sem Maria não terá a menor graça.
Eu ficaria perdido sem ela.
Sei disso porque eu estava perdido antes dela surgir.
Paro de pensar nessas coisas quando a feiticeira em questão anda para trás, as mãos buscando as alças do maiô.
Maria passa os braços por elas e deixa-se sentar na cama devagar, como se tivéssemos todo o tempo do mundo para nos redescobrir e matar a tal saudade que nos atormenta.
Ainda assim, há uma urgência genuína na maneira como me olha, como me chama sem dizer qualquer palavra, pois cada instante é precioso demais para ser desperdiçado.
Trôpego, vou ao seu encontro, despindo-me do roupão pelo caminho, ao mesmo tempo em que assisto a sua roupa de banho finalmente descer um pouco pelos ombros.
E mais um pouco.
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