Gênio Infame, Dama Mordaz
11 Palhaço Nato
No qual nossa heroína ri para o nosso herói, e ele acredita que o fim do mundo está próximo.
Quem diria que o magnata mulherengo, Howard Stark, fosse subir no meu conceito? Apenas um pouco, é claro. A leve admiração que passei a sentir por ele, depois de ouvir a história de Ana Jarvis sobre o que ele fez por ela e pelo marido, não é tão digna de nota assim.
Enquanto me cercava de perguntas na sala sobre aquele bendito sorriso que simplesmente me venceu no jardim ao vê-lo na varanda, o playboy metido pareceu julgar minha mudança de comportamento mais importante do que realmente é.
Ora, não sei para que tanto escarcéu! Só por que reconheci que existe certa nobreza dentro dele?
O mais esquisito disso é que uma parte de mim ficou feliz por perceber que o Sr. Stark se sentiu bem só porque agora eu não o desprezo por completo. É quase como se o sujeito valorizasse a minha opinião para alguma coisa. E não há nada que me deixe mais lisonjeada do que ter a minha opinião levada em conta. É quase como se eu fosse importante para ele de algum jeito...
O que é um tremendo absurdo, diga-se. Howard Stark não nutre qualquer estima por mim. Sou apenas um par de pernas que não se rendeu aos seus encantos — supondo que ele possua mesmo algum — e, por isso, um mínimo sorriso e uma resposta menos atravessada de minha parte já foram suficientes para que ele entendesse como uma pequena vitória.
Em pé perto do sofá e próximo de Ana e do Sr. Jarvis, ele acompanha atento o Dr. Mills — um sujeito de uns cinquenta anos, cabelos levemente grisalhos e expressão simpática — finalizando a consulta de emergência.
Ninguém parece ligar para o fato do Sr. Stark ainda estar vestido com o robe que adora tanto. Um benefício do dono da casa, com certeza.
Como eu já havia previsto, foi um exagero fazer um médico — certamente, alguém muito ocupado — se desabalar até aqui para me examinar.
Tudo bem que eu bati a cabeça numa pedra ao rolar pelo chão feito uma fruta madura e cheguei a desmaiar, mas, após um minucioso exame e perguntas de praxe, o médico constatou que não foi tão grave quanto pareceu ao trio à minha volta. O ferimento na têmpora foi superficial, o hematoma irá desaparecer nos próximos dias e tive apenas uma leve concussão.
Nada que o analgésico receitado pelo doutor e um dia de repouso em minha cama não resolvam. Além disso, ele providenciou um curativo e me recomendou trocá-lo após algumas horas. De resto, estarei nova em folha muito em breve.
Estranho quando percebo um incontido sorriso surgindo no rosto do Dr. Mills, ao que ele prontamente se explica:
— Em todos esses anos de medicina, eu nunca atendi uma pessoa que foi atropelada por um flamingo.
Rio um pouco e acabo entrando na brincadeira:
— Pois saiba que foi a primeira vez que algo assim me aconteceu também. Aliás, o flamingo em questão com certeza está envergonhado pelo acidente. No geral, ele é muito dócil comigo.
Assim que o Dr. Mills fecha a maleta, se despede com um sorriso e um gentil desejo de melhoras, Jarvis o acompanha até a saída. Possivelmente, para acertar os honorários e levá-lo até o portão.
Ergo-me um pouco, de forma a ficar sentada no sofá ao invés de estirada feito uma enferma nas últimas. Só então reparo que o Sr. Stark mantém um olhar intrigado na minha direção.
— Bernard é dócil com você?
Sem entender por que isso é importante, devolvo com outra pergunta:
— Algum problema?
Ele balança a cabeça em negação, embora ainda me soe pensativo.
— Nenhum. Exceto que ele é um animal selvagem e, portanto, não costuma ser muito dócil com as pessoas no geral.
Ana ri ao meu lado e emenda:
— Principalmente com Edwin. Com ele, aquele flamingo é mesmo um verdadeiro Diabo de Rosa.
Curiosa, alimento a despretensiosa conversa:
— Ele é dócil com o senhor?
— Mas é claro! — o Sr. Stark assegura depressa, um orgulho tangível reluzindo em seus olhos. — Eu sou o pai afinal, mereço alguma consideração.
Não consigo resistir. Antes que eu tenha sequer chance de tentar conter a reação, uma risada escapa. Alta, fácil e prazerosa.
Recomponho-me tão logo percebo que outra coisa reluz nos olhos do Sr. Stark agora. Um brilho de pura satisfação. E, talvez, algo mais que não consigo ou temo me perguntar o que pode ser. Se não fosse loucura, eu arriscaria dizer que ele parece... encantado?
— A senhorita riu de uma piada minha. — O inventor orgulhoso arqueia uma sobrancelha de leve. — Seria um sinal do fim dos tempos?
Numa reação assustadoramente natural, o que acabo dizendo é...
— Ou um sinal de que o senhor é um palhaço nato?
E tão logo me dou conta de como tal comentário soou atrevido e impróprio — afinal de contas, Howard Stark é o meu empregador —, abro a boca para explicar que não foi minha intenção, pelo menos não dessa vez, ofendê-lo com uma resposta mal-criada.
Antes que eu pronuncie uma palavra sequer, ele ergue a mão me pedindo silêncio e fala com uma tranquilidade divertida:
— De todas as coisas que já me disse, palhaço nato me parece um elogio. Obrigado, eu fico com isso.
Tenho vontade de lhe dizer que, de fato, foi um elogio. Um elogio meio torto, ainda assim um elogio. Entretanto, justamente por ficar surpresa com a minha capacidade de reconhecer o seu senso de humor, opto por manter a boca fechada e volto-me na direção de Ana, planejando mudar de assunto.
— Bom, preciso ir para o Griffith agora e ficar de repouso, como o médico orientou.
Nesse meio tempo, pego-a olhando ora para o Sr. Stark, ora para mim, com uma constância e um interesse que me perturbam um pouco. A princípio, me sinto mal por tê-la deixado meio de fora da conversa, mas percebo que não está desconfortável com isso. Na verdade, Ana Jarvis parece... intrigada com alguma outra coisa.
— Algo errado? — pergunto, um tanto preocupada com a expressão indecifrável em seu rosto delicado.
Ela abre um sorriso misterioso, despertando da observação atenta, e faz menção de me ajudar a levantar. Aceito de bom grado, embora não veja uma real necessidade nisso, pois não sinto mais qualquer tontura.
— De maneira alguma, meu bem. — Aproveitando-se da súbita proximidade, Ana emenda um sussurro em meu ouvido: — Talvez algo muito certo.
Estou prestes a lhe perguntar o que diabos quis dizer com isso, embora uma parte de mim desconfie da resposta e não queira a confirmação, quando ela volta a se pronunciar. Dessa vez, num tom que o Sr. Stark consegue ouvir facilmente:
— Vamos, eu te acompanho até o carro e Edwin te leva ao Griffith.
— Ah, um táxi está de bom tamanho. Não quero atrapalhar mais do que já atrapalhei todo mundo hoje. O coitado nem conseguiu tomar o café da manhã ainda.
Ana ri como se eu tivesse dito algo muito inocente ou absurdo, e então esclarece:
— Se não quer ofender o meu marido, é melhor aceitar a carona, Maria. Confie em mim.
Por um momento, imagino que ela está apenas brincando, afinal como alguém pode ficar ofendido com uma mera recusa de carona? Em seguida, lembro que é o do Sr. Jarvis que estamos falando e prefiro não discutir a questão. A gentileza e o prazer que sente em ser útil são coisas intrínsecas dele, longe de mim privá-lo de ser quem é.
Estamos seguindo rumo à enorme porta da sala que dá para o jardim, quando me lembro de outra coisa. Não me despedi de uma pessoa. Não que eu faça muita questão disso, mas educação é educação. E, tendo em vista que minha relação com o dono da casa melhorou um pouco, ele merece o mínimo de etiqueta de minha parte.
Pensando assim, diminuo o ritmo dos passos e olho para trás.
— Até amanhã, Sr. Stark.
Meio assustado, ele ergue a cabeça depressa e sorri de um jeito automático, como uma criança pega aprontando. Não acredito que estava olhando para os meus tornozelos! Peguei o infeliz em flagrante!
Queria entender qual o problema dele com essa parte do meu corpo. Não, pensando bem, é melhor não saber de nada.
Não importa que tenha subido um pouco no meu conceito, Howard Stark ainda é um libertino. Um homem descarado que enxerga toda mulher como um pedaço de carne!
— Descanse bem, Carbonell. — Ele esboça um sorriso torto agora, o lábio superior levemente arqueado, o que me faz esquecer um pouco da raiva. — Cuidado com o flamingo desgovernado pelo caminho e com as pedras por aí.
Uma piscadela. Uma maldita piscadela para arrematar.
Meneio a cabeça em anuência e retomo a caminhada. Alcanço o jardim com Ana segurando de leve no meu braço para me dar apoio, enquanto reflito sobre o conselho final e irreverente do meu patrão.
Não me preocupo tanto com Bernard, ele é inofensivo, só me atropelou porque fugia em disparada do mordomo. Agora deve estar tranquilo em um canto da propriedade, talvez enfim no lago artificial para onde era a intenção do Sr. Jarvis atrai-lo. O comentário sobre pedras, no entanto, esse sim faz o meu pensamento voar um tanto longe.
Lembro da pedra que quase usei para estilhaçar uma vidraça da mansão Stark na primeira vez que estive aqui. A mesma pedra que perdi na sala de estar e com a qual o dono da propriedade me confrontou no dia seguinte na Marsh’s Bakery. Lembro também da pedra que minha cabeça encontrou hoje, quando fui levada ao chão pelo flamingo em fuga.
E com isso uma dedução insana, embora um pouco coerente, me invade. Parece que existem pedras entre o meu caminho e o caminho do Sr. Stark. Pedras que aproximaram nossos caminhos ao mesmo tempo...
Longe demais. É isso, o meu pensamento voou longe demais e me fez fantasiar algo absurdo!
Com um esforço, afasto tal fantasia e volto à realidade, ao mesmo tempo em que o Sr. Jarvis abre a porta do Plymouth para mim. Despeço-me de Ana com um abraço caloroso e entro no veículo logo depois.
No momento em que o marido dela fecha a porta do meu lado e dá a volta para tomar o lugar na direção do sedã, avisto algo na varanda do Sr. Stark. Algo não, alguém. Uma mulher.
Vestida com um robe lilás, os cabelos negros ligeiramente desgrenhados e a maquiagem um tanto borrada. Ainda assim, uma mulher jovem e deslumbrante. Alguém que deve ter passado a noite nos braços dele depois de, certamente, se atracarem feito dois animais no cio. Ela deve ter ficado exausta para só acordar agora, com o sol a pino...
Afasto tal pensamento impróprio da minha cabeça e me concentro em outro mais crítico: Howard Stark é mesmo um devasso incorrigível.
Eu já sabia disso pela imprensa, claro, e agora comprovo de perto. Apesar do pouco tempo que estou trabalhando na mansão, captei comentários do seu mordomo no ar e deduzi que o milionário saiu com muitas mulheres nas últimas noites. Pelo visto, algumas têm o privilégio de dormir ao seu lado na mesma cama.
Ah, não é romântico?!
Não sei por que isso me incomoda. Não sei por que a mulher na varanda me surpreende agora. Tampouco, por que o significado da sua presença aqui me abala um pouco. Só um pouco! Nem mesmo por que sou acometida por uma estranha revolta quanto mais fico remoendo esse assunto.
Com raiva, concluo que o Sr. Stark não merece a minha pequena admiração. Não merece meu elogio ao seu senso de humor. Não merece nada de mim. Porque ele não passa de um patife!
[...]
Ficar de repouso o resto do dia se mostrou muito entediante. Ainda mais por que não consegui me concentrar na leitura de um mísero livro. Nem relaxei por completo com o banho morno que tomei antes de me enfiar embaixo do cobertor quentinho.
Volta e meia, a imagem daquela mulher na varanda me vem à mente, como um fantasma. Pior, acompanhada pelos outros acontecimentos do dia, tudo misturado numa verdadeira lambança dentro de mim.
Fiquei relembrando a sensação... até boa que surgiu no centro do meu peito enquanto eu sorria para o Sr. Stark, ele em pé naquela mesma varanda. Pensando no calor que emanou do corpo dele e me envolveu, quando me segurou perto do sofá, impedindo que eu caísse ao ficar tonta. Pensando na proximidade dos nossos rostos, a apenas mínimos centímetros de distância um do outro. Cheguei a sentir, inclusive, a sua respiração quente perto da minha boca. E talvez, por um milésimo de segundo, eu tenha me perguntando como seria o roçar daquele bigode ridículo no meu pescoço...
Fecho o livro com força e atiro-o sobre o criado-mudo ao meu lado, percebendo que estou mais do que entediada, estou irritada. Com ele.
Por quê? É uma ótima pergunta.
A resposta? Simplesmente não sei. Ou não quero pensar a respeito; é o mais provável. Mesmo porque não há nada para se pensar.
Batidas suaves e ritmadas na porta do quarto afastam o inexplicável mal-humor e despertam minha curiosidade.
Num instante, levanto da cama e caminho até a porta, vestindo o robe por cima da camisola.
Tão logo abro, Angie entra feito um raio e falando feito uma matraca:
— Oi, doçura! Como foi o seu dia? O meu foi péssimo e eu preciso desabafar! Se você precisa também, sou toda ouvidos! Ah! Dá uma olhada no que eu trouxe para nos fazer companhia!
A primeira amiga que fiz em Nova York retira da bolsa uma garrafa de algo que creio ser licor, enquanto fecho a porta atrás de mim.
Não sei se é uma boa ideia misturar álcool com o analgésico que tomei há pouco e, com certeza, nem meu pai nem o meu irmão aprovariam que eu — uma dama exemplar! — bebesse de um jeito ou de outro, mas querem saber?
— Vou pegar os copos no armário!
Antes que eu dê o primeiro passo rumo à pequena copa adjacente ao quarto, entretanto, Angie repara em algo no meu rosto e solta um leve grito de assombro.
— Virgem Santa! O que aconteceu com você?
Abro um pouco os braços e me sinto ridícula quando respondo:
— Nada demais, só algo envolvendo um flamingo destrambelhado e uma pedra no meio do jardim.
Não foi apenas isso que aconteceu hoje, mas me parece um bom resumo para começar.
Surpresa, Angie franze o cenho, como se estivesse decidindo entre rir ou ficar mais preocupada. No fim, ela dá de ombros, sorrindo acolhedora, despenca sentada na minha cama e determina muito mais empolgada:
— Tudo bem, você começa!
Enquanto Angie Martinelli abre a garrafa de licor, apresso-me em buscar os copos e volto bem rápido.
Por mais que, no fundo, eu não queira conversar sobre tudo que aconteceu nesse dia maluco, acho que será bom me abrir um pouco. E ninguém melhor para me ouvir do que ela.
Quem sabe no final, eu perceba que não aconteceu nada de importante? E que não houve qualquer mudança na minha forma de enxergar aquele gênio infame, afinal?
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