No qual nossa heroína chora pelo sorvete derretido e nosso herói sobe pelas paredes.

Quando deixei a mansão Stark, planejava ir direto para o Griffith. Entretanto, passar praticamente o dia inteiro enclausurada no quarto e remoendo a discussão com Howard me pareceu nenhum pouco animador. Então, já que a Marsh's Bakery estava no caminho, decidi entrar.

Imaginei que um sorvete seria uma ótima companhia. Agora, aqui estou eu, remoendo a discussão com o patife enquanto observo a sobremesa gelada derreter pouco a pouco.

Não consigo entender o que acontece entre mim e Howard Stark. Acho que somos como uma montanha-russa bem da desgovernada. No começo do dia, estávamos ótimos, em perfeita sintonia. Foi só a campainha badalar, no entanto, que tudo desandou numa velocidade atordoante.

Sei que tive minha parcela de culpa nessa confusão e acabei pressionando o gênio infame mais do que ele conseguiu suportar. Por outro lado, será que foi tão exigente assim da minha parte esperar que ele me apresentasse à sua amiga da maneira certa? E Howard não poderia ter sido mais razoável em sua reação quando eu expus minha insegurança?

Com desânimo, remexo o líquido rosa e viscoso com a colher.

Eu costumava tomar muitos sorvetes quando era criança, especialmente de morango. Ainda é o meu favorito e me remete a certas memórias.

Nossos pais sempre levavam a mim e Jimmy à única sorveteria de Richmond na época. Era um momento quase mágico. Eu ficava observando o jeito afetuoso como nossos pais se entreolhavam e acreditava, piamente, que nada de ruim poderia acontecer no mundo enquanto estivéssemos ali, tomando aquele delicioso e perfeito sorvete em família.

Eu tinha dez anos quando mamãe perdeu a batalha para a tuberculose...

Depois daquele dia terrível, nosso pai só nos levou à sorveteria uma única vez. E foi tão difícil para ele, que eu e Jimmy nunca mais sugerimos tal programa. Na verdade, foi muito difícil para nós também.

Acho que uma parte do papai morreu junto com a nossa mãe. Ele se reergueu e seguiu a vida como pôde meses depois, mas nunca mais foi o mesmo.

O que me leva a ponderar que a morte não devia separar casais assim. É muito penoso para aquele que fica.

Todo casal que se ama de verdade devia ter muito tempo juntos e partir para a eternidade unidos também. O último suspiro seria de algum modo solene, sem sofrimento, com os dois bem velhinhos, de mãos dadas e satisfeitos com a vida que dividiram juntos.

Infelizmente, a morte não se importa com nada disso. É cruel e fatalista. Muitas vezes, injusta. Separa dois corações sem hesitar. Ou simplesmente une os dois, mas com algum final trágico, sádica que ela é.

Faço um esforço e consigo afastar esses pensamentos sombrios que nem sei de onde vieram. O que menos preciso agora é ficar mais melancólica do que já estou.

Nesse momento, sinto uma mudança no ar à minha frente e uma sombra encobre a taça de sorvete — do que antes foi um sorvete, melhor dizendo — por um segundo. Ergo a cabeça e vejo Howard Stark se sentar do outro lado da mesa.

A surpresa não me permite formular qualquer palavra. Na verdade, custo um pouco a acreditar que ele está aqui.

Quanto tempo faz que eu deixei sua casa? Menos de uma hora? Será que é uma boa ideia nos vermos tão cedo? Estamos calmos o suficiente ou só iremos nos magoar mais com um novo atrito inflamado?

Ele franze o cenho para a minha taça.

— Parece apetitoso, mas você devia ter pedido a panqueca com calda de morango.

Sim, ele está mais tranquilo. Ao menos, tentando quebrar o gelo com um comentário irreverente e em referência a primeira vez que estivemos aqui. Entendo isso como um bom sinal.

Apesar disso, não consigo sorrir ou demonstrar qualquer contentamento com sua presença aqui. Meu coração, no entanto, dispara como sempre acontece diante dele. Músculo estúpido e traidor, é o que é.

Alguém se aproxima da mesa, atraindo nossa atenção. É o Sr. Marsh, dono do estabelecimento. Todo sorridente e exalando simpatia, o senhor de cabelos grisalhos cumprimenta este que deve ser o seu cliente mais estimado:

— Sr. Stark! Bom dia! Que bom recebê-lo mais uma vez! Já posso adivinhar qual será o pedido?

Dessa vez, no entanto, Howard não pede a melhor panqueca de Nova York, como fez naquele dia. Ao invés disso, apressa-se em dispensar o homem de um jeito um tanto seco:

— Hoje eu não quero nada, obrigado.

O Sr. Marsh murcha feito uma flor e olha para mim um tanto ressabiado. Fico com certa pena e decido inventar uma desculpa:

— Ele está com um pouco de azia.

O proprietário se volta para Howard de imediato, exibindo um olhar profundamente solidário.

— Sinto muito, Sr. Stark. Nós temos alguns chás que podem...

— Eu não quero nada. Obrigado.

Quando Howard o interrompe com um pouco menos de paciência, o homem parece compreender que o cliente não quer ser agradado hoje e se afasta pedindo licença muito baixo.

Assim que ficamos sozinhos de novo, o patife faz um gesto indicando a si mesmo e indaga:

— Você não vai me dizer o quanto esse lugar é mal frequentado?

Sob um clima diferente, eu até diria isso para provocá-lo. Hoje, porém, rebato com outra pergunta:

— Você me seguiu?

— Juro que não — ele afirma de pronto. — Só imaginei que tinha vindo para cá, já que é caminho do Griffith, e decidi arriscar.

Howard exala uma sinceridade natural. Sinto-me até meio boba por ter cogitado que ele se daria ao trabalho de me seguir.

— Esse lugar deve significar alguma coisa para nós dois já que pensamos nele ao mesmo tempo, hum? — ele insinua. — Algo especial?

Está mesmo empenhado em estender a bandeira branca pelo o que estou percebendo.

Olho ao redor por um instante e de volta para ele no outro.

Lembro bem do dia em que esse patife veio me confrontar, colocando uma certa pedra sobre essa mesma mesa. A pedra que eu pretendia arremessar em sua janela e que ele encontrou na sala da mansão como uma prova do meu quase crime.

Lembro também de como insistiu para que eu aceitasse o emprego, de experimentar um pedaço da panqueca que ele ofereceu milhares de vezes para me irritar, dos seus flertes que me tiraram do sério e de como me senti mais viva e incrivelmente quente quando Howard segurou minha mão para impedir que eu deixasse a mesa.

Tenho que admitir...

— Significa.

Ele esboça um sorriso discreto, saboreando a pequena vitória. Já meu coração, tal como naquele dia, erra uma batida.

Howard se recosta na cadeira, mostrando-se mais confortável com esse encontro, e dispara:

— Eu sou um idiota.

Franzo o cenho.

— Você veio até aqui para me dizer algo que eu já sei?

Ele aponta um dedo para mim.

— E você não é nada fácil.

Engulo em seco e desvio do seu olhar. Mexo no sorvete derretido com a colher, tentando ganhar tempo para encontrar um bom argumento. É em vão. Mais uma vez, tenho que concordar:

— Não, não sou. — Penso um pouco antes de completar: — E a Srta. Carter é apenas sua amiga.

O patife solta a respiração ruidosamente em sinal de alívio.

— Exatamente! Idiota, nada fácil, apenas amiga. Tudo esclarecido, então?

Deveria estar, não é? Entretanto, não é assim que me sinto. A aparição de Peggy Carter mexeu de verdade comigo e semeou uma pulga incômoda atrás da minha orelha. Eu acredito quando Howard diz que ela é sua amiga, mas não consigo espantar o fantasma da insegurança, afinal... grandes amores podem nascer de grandes amizades, não é?

— Vocês pareciam muito íntimos...

O sorriso vitorioso de Howard se dissipa.

— Porque nós somos — ele resmunga. — Eu conheço Peggy há anos, já passamos por muitas coisas juntos. Mas é apenas isso que nos une, raio de sol. Uma verdadeira e inocente amizade.

Pondero suas palavras. Uma parte de mim sabe que seria melhor dar o assunto por encerrado. A outra, por outro lado, está curiosa para saber mais sobre a misteriosa mulher que Howard parece admirar e estimar tanto.

Com certo orgulho, finjo pouco interesse ao questionar:

— De onde você a conhece, afinal?

— Da Guerra.

— O que ela fazia lá? Era enfermeira?

Não conheci nenhuma mulher que foi para a Segunda Guerra Mundial se não para cuidar dos feridos. Por isso essa possiblidade me veio logo à mente.

O estranho é que Howard não confirma. Pior, ele se mostra meio inquieto com uma pergunta tão simples e tudo o que diz é:

— Algo assim.

Um pequeno alerta se acende.

— O que ela faz agora?

— Trabalha n-na... numa companhia telefônica.

E o alerta ganha mais força dentro de mim quando o patife esfrega a nuca por um instante e gagueja essa resposta.

— Que ótimo. — Arqueio as sobrancelhas de modo irônico. — Vocês têm um passado em comum, uma amizade profunda e segredos que te levam a mentir para mim.

Howard ergue um dedo em riste e contrapõe:

— Que me obrigam a ocultar certos detalhes. Eu não posso te contar o que Peggy faz, sinto muito.

— Por quê?

Agora estou mais do que curiosa, sinto-me irritada e preterida. O que ela faz é tão importante que eu não serei capaz de entender?

— Porque é melhor assim — Howard responde com firmeza. — Para ela e para você, acredite. Eu não quero te colocar em perigo, só isso. Quanto menos você souber sobre Peggy Carter, melhor.

A irritação perde um pouco de força quando eu assimilo as entrelinhas do que ouvi. Um aperto repentino surge bem no centro do meu peito.

— Você não está em perigo com a visita dela, está?

— Não. — O patife dá um sorrisinho e segura minha mão livre sobre a mesa. — Ainda se fosse o caso, eu sei me cuidar. Não se preocupe.

Se arrependimento matasse...

— Eu não estou preocupada.

Puxo minha mão de volta e desvio o olhar.

— Claro que não.

Ignoro o comentário e trago a conversa para o que realmente me interessa:

— Por que ela veio te visitar justo agora? Algum motivo especial?

Howard abre a boca para responder. Fecha, logo depois. Esfrega a nuca de novo.

Sinto-me murchar e peço:

— Você pode me dizer alguma coisa? Um pequeno detalhe que seja? Algo verdadeiro?

Talvez implorando seja a palavra certa.

O gênio infame e escorregadio me encara por alguns segundos, pensativo. Quando enfim se manifesta, é com uma revelação muito evasiva:

— Peggy veio a trabalho.

Não consigo disfarçar minha insatisfação. Howard, óbvio, percebe e então resolve acrescentar uma das piores explicações que eu já ouvi saindo de sua boca:

— Eu sou um inventor, Maria. Às vezes, invento algumas... invenções para a empresa que ela trabalha.

É nítido que está desconfortável com o rumo da conversa e fica envergonhado pelas palavras atrapalhadas que soltou.

Eu, por outro lado, não resisto em comentar com sarcasmo:

— Quanta eloquência. Inventor que inventa invenções...

Uma expressão emburrada toma conta do seu rosto e ele sugere sem rodeios:

— Será que podemos deixar essa parte de lado e falarmos sobre nós?

Engraçado, eu pensei que tudo até aqui era sobre nós, porém se Howard quer ser mais direto, eu também serei.

— Muito bem. Eu não sei se isso vai dar certo.

— Isso o quê?

Nós, ora essa! O que estamos fazendo e do jeito que estamos fazendo, eu quero dizer. — Procuro retomar a calma antes de prosseguir. — Eu pensei no que você disse sobre não saber como agir na sua própria casa quando eu estou lá.

— Essa não... — Howard faz uma careta. — Você vai distorcer o que eu disse, não vai?

— Não mesmo. Na verdade, eu acho que... — Muito a contragosto, completo: — Que você tem certa razão.

O patife arqueia as sobrancelhas em sinal de surpresa e murmura:

— Como é que é?

Abandono o sorvete de vez e recolho as mãos, colocando-as sobre meu colo embaixo da mesa.

— Eu sinto isso também quando estou lá. Trabalhar para você e dormir com você, a linha é tênue demais. É confuso. Por mais que tentemos separar as coisas, a verdade é que é... impossível.

Howard fica mudo por longos instantes. Parece não saber o que dizer e se limita a ponderar o que ouviu.

— Por falar em dormir comigo, o que acha de passar essa noite na minha casa?

Sim. É isso que ele tem a me dizer depois de muita reflexão.

— Você é inacreditável.

— Já que a linha é tênue demais, vamos acabar com ela de uma vez. Fim do problema, hã? — ele propõe pura e simplesmente. — Além disso, admita que será muito mais seguro ficarmos lá do que no Griffith.

Ele só pode estar brincando. Será que esse patife não percebe que agora não é o momento nem o lugar para tentar me seduzir? E que desviar minha atenção com distrações desse tipo não é a solução?

— Você não pode resolver nossos problemas me levando para a cama, Howard.

De imediato e soando meio ofendido, ele retruca:

— Não é isso que estou tentando fazer! — No entanto, depois de pensar por um momento, ele resmunga baixinho: — Por que não posso?

— Às vezes, não é o suficiente.

Se ele tinha ficado ofendido antes, agora me parece ultrajado com o que ouviu.

Eu não sou o suficiente?

Respiro fundo. Quem está distorcendo as palavras do outro mesmo?

— Não foi isso que eu disse — esclareço, com uma nuance de irritação na voz que não consigo conter.

Howard, por sua vez, também demonstra estar chegando a algum tipo de limite porque se recosta no assento com um movimento brusco e dispara sem muita paciência:

— Quer saber? Eu não entendi nem cinquenta por cento de tudo que você falou até aqui. Eu nem sei se você acredita em mim sobre a Peggy.

Penso um pouco.

— Acredito.

No entanto, vacilo enquanto o encaro de volta. E ele estreita o olhar.

— Mas?

— Mas isso não muda o fato de que vocês têm um laço importante, uma história em comum.

— E isso te incomoda por que...?

— Para começar, a Srta. Carter é linda — admito a contragosto. — Se esteve na Guerra, é forte e destemida também. Os poucos segundos diante dela, já me deram a impressão que é muito inteligente e especial. Uma mulher como poucas.

Howard franze o cenho. Talvez estranhando o tom polido em minha voz enquanto desfio elogios à sua amiga misteriosa e perfeita!

— Aonde está querendo chegar, Maria?

Respiro um pouco mais fundo. Vou precisar de coragem para admitir a vulnerabilidade que a Srta. Carter ativou em mim. Por uma mulher bem menos interessante do que ela, William me traiu sem pensar duas vezes.

— Não me peça para não ficar insegura ao descobrir que uma mulher assim faz parte da sua vida, Howard — peço, evitando contato direto com seus olhos para não me sentir pior. — Ela parece ter muito mais coisas em comum com você do que eu. Além disso, vocês podem ser só amigos hoje, mas quem garante que não irão se aproximar mais no futuro? Se eu não estiver no caminho, por exemplo...

— Isso é ridículo — Howard me corta num tom rascante. — Se Peggy estivesse aqui, ela mesma te diria isso com todas as letras. Não sem antes soltar uma boa gargalhada pela sua imaginação fértil. E se Daniel, o namorado dela ao que me consta, estivesse aqui também, ficaria muito ofendido.

Penso mais um pouco e procuro me convencer de que só estou imaginando coisas.

Howard tem razão quando falou que eu não sou nada fácil. Talvez agora seja um bom momento para ceder, confiar nele e afastar as caraminholas que rondam minha cabeça.

Abro a boca para colocar um fim nessa crise que eu mesma devo ter criado, porém vejo que demorei demais para tomar a atitude. Nesse meio tempo, Howard, que vinha olhando para um ponto qualquer da mesa, deve ter cansado de esperar ou interpretado meu silêncio de forma errada, e fala por cima de mim:

— Sabe de uma coisa? Eu também fico inseguro às vezes. — Ele ergue o olhar na minha direção. — Porque você também tem um passado misterioso com alguém e nunca me deu qualquer detalhe disso.

Há um tom acusatório em sua voz e impaciência em seus olhos castanhos.

Pega de surpresa, minha única reação é lhe dizer algo óbvio:

— É difícil para mim.

— Por quê? — ele inquere, inclinando-se um pouco sobre a mesa para me encarar mais de perto. — A essa altura, já não era para você ter superado o sujeito?

— Eu superei!

Howard, no entanto, não se mostra convencido e insiste:

— Será mesmo? Se ainda pensa nele e não consegue se abrir comigo sobre o que aconteceu, talvez você só esteja se enganando, Maria.

Fico boquiaberta por um instante. Não consigo acreditar no que acabei de ouvir.

— Isso sim é ridículo! — defendo-me. — Eu não penso no William como você está insinuando.

— Mas pensa de algum jeito — o patife pontua e, mesmo que talvez não seja sua intenção, ele soa mais cruel quando conclui o raciocínio: — Quem sabe, se eu não estivesse no caminho, você não daria a ele uma segunda chance? Maria e William, Howard e Peggy! Soam melhor mesmo, não é?

E assim ele vira o jogo contra mim. E assim eu me arrependo de não ter me entendido com ele um minuto atrás. Por outro lado, se eu tivesse estendido a bandeira branca, nunca saberia que é assim que Howard se sente sobre mim, não é?

Será que é isso mesmo que ele pensa? Ou só quer pagar minha desconfiança na mesma moeda para me magoar?

Seja o que for, neste momento, pouco me importa descobrir.

— Você devia ir embora.

Howard levanta da mesa um segundo depois.

— Ótima ideia — resmunga, meio contrariado, meio decidido.

Então, ele se afasta e logo deixa a Marsh's Bakery, nosso lugar especial, sem olhar para trás.

Triste e furiosa, não sei se mais com Howard, comigo ou com nossa péssima comunicação, observo o sorvete derretido na minha frente.

— Que lambança, Maria.

[...]

Depois de perambular pela cidade sem rumo certo, voltei ao Griffith no começo da tarde.

Esperava encontrar Angie e aproveitar que hoje ela estava de folga do trabalho no L&L Automat para desabafar em seu ombro sobre o meu dia insano. Ela sempre melhora o meu humor e faz os problemas parecerem insignificantes com seu jeito positivo e prático de pensar.

O que eu não esperava é que ela já tivesse outros planos para hoje.

Assim que cheguei, a Sra. Fry comentou que minha vizinha havia saído um pouco antes. E não foi sozinha, mas sim acompanhada por uma antiga moradora do Griffith que veio visitá-la.

Sabem quem?

Exato, a Srta. Carter.

Só então me dei conta de que já tinha ouvido esse nome antes. Angie mencionou a amiga algumas vezes no meio das nossas conversas. O Sr. Jarvis também disse algo sobre uma tal Srta. Carter quando me deu a primeira carona até aqui, exatamente no dia em que conheci Howard. E sim, até o patife em questão me falou dela uma vez, referindo-se à Srta. Carter como uma grande amiga.

Na época, eu não acreditava que ele pudesse ser apenas amigo de uma mulher e não dei importância ao nome nem alimentei a história para descobrir mais detalhes da relação.

Analisando agora, todos parecem nutrir tanto carinho e admiração por essa mulher, que é impossível não ser atormentada por certo despeito de novo. Ao mesmo tempo, sinto-me uma boba por ter me deixado levar por puro ciúme.

Em minha defesa, talvez se Howard tivesse me apresentado a ela do jeito certo, isso teria sido evitado. Talvez até eu me sentisse à vontade com a Srta. Carter. Eu poderia até gostar dela, já que, claramente, não me fez nada de mal.

De repente, me sinto culpada. Ela foi tão simpática, e eu me comportei feito uma estátua de mármore. Rígida como um fio esticado ao limite.

Será que fui mal educada com ela?

Cansada física e mentalmente, acabo dormindo. Não um sono reparador, mas inquieto.

Quando acordo, o quarto está escuro e a varanda mostra um céu negro e estrelado lá fora. O mundo está mergulhado em silêncio, indicando que a madrugada já está começando.

Volto a pensar em tudo que aconteceu. E antes que eu enlouqueça de tanto pensar, decido tomar um banho numa tentativa de fazer minhas angústias escorrerem pelo ralo.

Depois, visto a camisola e um robe por cima. Deito na cama assim mesmo, fico balançando os pés e olhando para o teto por um tempo.

Inquieta, viro para o lado e me ajeito melhor. Dou de cara com Assassinato no Expresso do Oriente na mesinha ao lado da cama.

O romance policial me encara de volta. Sinto um aperto no peito e uma saudade genuína de quem me deu esse presente.

Howard.

Assim, outra parte da discussão com o gênio infame vem me assombrar. Especificamente, o que ele disse sobre eu não ter superado o crápula do William.

O fato de ainda nutrir muita raiva do meu ex-noivo significa alguma coisa? Que eu ainda gosto dele, por exemplo?

— Argh!

Reviro-me na cama só de cogitar tal absurdo.

O patife está redondamente enganado. Eu não gosto mais daquele infeliz. Os únicos sentimentos que ainda me prendem ao passado são a mágoa e a raiva que ficaram depois da traição.

No entanto... Devo admitir que já passou da hora de superar essa parte também. William Mitchell não merece que eu perca um minuto de paz e do meu precioso tempo remoendo o passado. Acabou. Eu vim para Nova York reconstruir minha vida, virar a página. E é exatamente isso que vou fazer.

Decidida, levanto da cama, acendo a luz de um abajur na penteadeira e me acomodo na cadeira de frente para ela. Pego papel e uma caneta em uma das gavetas e começo a escrever:

“William,”

Sim, nada de prezado, caro, muito menos querido. Apenas William. Porque é isso que ele é. Apenas um nome sem qualquer importância.

“Aposto como você não esperava ter notícias minhas assim, mas há duas coisas que eu preciso lhe dizer diretamente.

Primeiro, meu irmão já conversou com você sobre o nosso casamento?”

Sorrio com certa maldade. Nosso casamento... Só Jimmy mesmo para armar uma patacoada dessas para cima de mim. Aposto como William vai entender a ironia e o desgosto implícito nessas duas palavras.

“Está tudo resolvido quanto a isso? Espero imensamente que sim.

Em segundo lugar, quero que você saiba que eu...”

Um ruído na varanda me causa um sobressalto e a caneta tomba sobre o papel. Deixo a carta inacabada e olho na direção de onde o barulho veio na mesma hora, já levantando da cadeira.

E meu coração relaxa e dispara antes mesmo da silhueta de Howard Stark se revelar quando ele passa pela mureta e pisa de fato dentro do meu pequeno apartamento.

Sem pensar, movida apenas por uma espécie de instinto, dou dois passos em sua direção. Porém, detenho-me ao estranhar uma coisa nele.

Ao contrário das outras noites em que esteve aqui, não há sinal do carro voador, que deve ter ficado na rua lá embaixo. O gênio infame tem um aparelho esquisito nas duas mãos, algum tipo de luva especial ao que parece. E um par de calçados robusto protege seus pés também.

Chocada, deduzo que foi com essa aparelhagem esdrúxula que ele... escalou a fachada do Griffith até meu quarto.

É mesmo um inventor que inventa invenções, esse homem!

Tal pensamento me arranca um meio sorriso e me pego olhando para Howard com admiração divertida, além da surpresa em si por sua vinda.

Assim que ele se livra das luvas e sapatos especiais, ergue o olhar para mim e solta um comentário:

— Pois é, eu subo pelas paredes por você. Literalmente.

Apesar do tom cômico, há certa tensão em sua postura e uma expectativa em seus olhos.

— Só por você, sua tonta.

E algo urgente em sua voz mais rouca que me faz engolir em seco.

Quando ele dá alguns passos até mim, cambaleio um tanto atordoada e me apoio na penteadeira para não cair feito uma fruta madura e bem da patética.

Tudo que consigo murmurar é...

— O q-que veio fazer aqui?

Algo me sustenta além do móvel agora. São mãos firmes na minha cintura. Meu coração dispara ainda mais com o toque reconfortante que posso sentir através do tecido fino do robe.

— As pazes. De uma vez por todas — ele esclarece, a expectativa mais evidente nos olhos mais escuros que focam nos meus. — E sim, vai ser do único jeito que eu sei. Na cama.

Essas palavras e a distância mínima entre nós dois me aquecem no mesmo instante. É como uma fagulha que se acende, ganha chamas muito rápido e promete incendiar o mundo inteiro.

— Quando a comunicação falha, um homem tem que jogar com as armas que possui — meu patife argumenta, parecendo ainda mais ansioso, enquanto pressiona o corpo junto ao meu. — Se essa não é a melhor maneira de resolver um problema, eu não me importo, Maria. Não hoje, não agora. Pense o que quiser, julgue o quanto quiser, só não me mande embora de novo.

Por um momento, apenas olho para ele. Depois me lembro de voltar a respirar. Então, me dou conta que nós dois falamos coisas de cabeça quente, mas que somos maiores do que todas elas, mais importantes do que qualquer confusão.

Devemos ser mais fortes do que qualquer crise porque a mágoa que senti mais cedo, até mesmo a insegurança que me cegou, nada disso me assombra agora.

Mais uma vez, permito-me confiar nele. Em mim mesma. E em nós.

Também tenho que reconhecer que Howard veio até aqui mesmo tendo ficado furioso antes. Ele deu o primeiro passo de novo, demonstrando humildade e que realmente se importa comigo. Só me resta admitir que é a minha vez de fazer alguma coisa e mostrar o quanto ele é importante para mim também.

— Seria ilógico te mandar embora quando cada parte de mim quer muito que você fique.

Howard me olha com certa surpresa. Acho que esperava um pouco mais de resistência. Talvez mais um pouco de discussão?

Entrelaço os dedos em seu suspensório e o puxo na minha direção, deixando claro que não quero mais conversa e fazendo com que nossos corpos fiquem colados de vez.

O patife irresistível não reclama, claro. E eu avanço mais, fechando meus olhos e encostando minha boca na sua como alguém em busca de ar, alimento, sentido.

Uma mão sobe devagar pela minha cintura, pela lateral do meu seio, alcança meu pescoço até que se fixa em minha nuca com dedos que mais se parecem com garras. Um arrepio me percorre inteira antes que a outra mão siga o mesmo caminho.

Howard pressiona meus lábios com força e eu abro a boca para recebê-lo melhor, ao mesmo tempo em que jogo os braços em volta do seu pescoço. Quando nossas línguas se encontram, não consigo pensar mais em nada.

Apenas me deixo levar. E levitar, já que ele tira meus pés do chão ao me sentar sobre a penteadeira para se posicionar entre minhas pernas. Algo cutuca minha coxa e solto uma risada sem querer, afastando o rosto para abrir os olhos.

Howard me encara de cenho franzido, sem entender patavinas.

— É que eu senti uma coisa — explico.

Um olhar endiabrado me encara de volta e um sorrisinho estica o canto da sua boca.

— Aposto como sentiu.

Inacreditável. Convencido. Depravado.

Claro que eu senti o desejo rígido do patife contra minha coxa também, mas não era a isso que eu estava me referindo no momento!

Pego a caneta e mostro para ele. Howard esboça um sorriso sem graça. Jogo-a em qualquer lugar e puxo o gênio infame para mais um beijo.

Mais um beijo intenso, envolvente e delicioso que nos leva ao limiar do desejo.

Passo as alças dos suspensórios por seus ombros e me empenho em livrá-lo dos botões da camisa logo. A peça se junta ao meu robe, que Howard arrancou de qualquer jeito e atirou no chão.

Uma trilha de beijos quentes em meu pescoço me fazem fechar os olhos inebriada e segurar forte em seus ombros. De repente, estou levitando de novo. Rumo à cama.

Howard me coloca sobre ela e se afasta um pouco para se despir do resto das roupas com uma pressa meio cômica.

Aproveito para fazer o mesmo, tirando a camisola devagar. Deixo-a de lado e encontro um par de olhos cravados em mim à meia luz que envolve o quarto.

O patife fica paralisado por algum tempo. Apenas seu peito subindo e descendo numa respiração curta e difícil, como se lutasse muito para manter algum tipo de controle.

Meio envergonhada pela nudez, meio com frio pela brisa que entra pela varanda, encolho-me um pouco. É o suficiente para Howard despertar da espécie de transe e se juntar a mim na cama. Para me aquecer como se deve.

Afundo contra o colchão e sou envolvida pela sensação maravilhosa do peso do seu corpo contra o meu. E da sua boca devorando a minha com fome e ternura.

Logo, não há mais vergonha, tampouco o menor frio. Ao contrário. Há entrega, um calor tão intenso que ameaça nos consumir e nós dois no centro do universo.