Notas iniciais
Olás! Era para eu ter postado no sábado, mas não deu, sorry. Aqui está mais um capítulo ♥

No qual nosso herói e nossa heroína discutem a diferença entre correr e andar depressa. Entre outras coisas de suma importância.

Deixo-me cair no sofá, coloco os pés sobre a mesa de centro, cruzando as pernas, e dobro os braços atrás da cabeça. Um sorriso me vence.

— Ah, aquela mulher...

Ao notar que Jarvis me seguiu até aqui, está empertigado feito uma estátua a poucos passos, sem olhar de forma direta para mim, mas com uma expressão de alguém que tem algo a dizer só que não sabe como, desmancho o sorriso e pergunto:

— O que foi?

— É que... Nada, Sr. Stark.

A tentativa de se esquivar só me deixa mais incomodado. Por isso, endireito-me no sofá e insisto na questão:

— Diga logo, homem!

Inquieto, meu mordomo enfim tem coragem de me encarar nos olhos e começa a responder com certa cautela:

— Eu não me intrometo nas suas conquistas porque sei que não são da minha conta. Minha tarefa é apenas lidar com os possíveis e desastrosos efeitos colaterais que podem surgir eventualmente e apenas quando solicitado que eu faça o papel de advogado do diabo. Sem ofensa, senhor.

Estreito o olhar.

— Certo, Jarvis, muito obrigado por me lembrar qual a sua função na minha vida pessoal, agora desembucha de uma vez.

Ele respira fundo, suando em bicas e afrouxa o colarinho da camisa embaixo do alinhado terno. Parece muito desconfortável e fica ainda mais ao me dizer:

— Eu pensei que a Srta. Carbonell fosse diferente.

Não tenho dúvida de que ela é. Se bem que nenhuma mulher é igual a outra. Maria Carbonell só chamou a minha atenção por três motivos: 1.) aqueles belos tornozelos, 2.) porque é linda em todo o resto e 3.) por me confrontar de um jeito que não consigo ficar bravo por muito tempo, mas sim encantado.

De repente, me dou conta que talvez Jarvis não tenha se referido a esse tipo de diferença. Um mistério como meu pensamento voou tão longe.

— Você precisa ser mais específico, Jarvis. Qual é o ponto?

Ele solta a respiração e despeja de uma levada só:

— Ontem o senhor deu a entender que queria provar a si mesmo ser plenamente capaz de não agir como um mulherengo incorrigível cem por cento do tempo. Chegou a me dizer, a caminho da Marsh’s Bakery, que precisava que a senhorita em questão reconsiderasse a oferta de emprego justamente para isso, para provar que ela estava enganada ao seu respeito. E deu a entender também que não queria prejudicá-la, pois percebeu pelos sapatos gastos que a Srta. Carbonell está numa situação difícil.

Não gosto do tom de Jarvis nem das palavras que dirige a mim, porém tenho que admitir que não são nada absurdas.

A contragosto, incentivo-o a continuar:

— E?

E essa manhã a Srta. Carbonell pareceu muito perturbada depois de deixar o seu quarto. Onde entrou por engano, pobrezinha. E, há menos de cinco minutos, ela saiu correndo daqui como se tivesse visto um demônio ainda pior. E eu só estou me perguntando se aconteceu alguma coisa que o fez esquecer do que prometeu, Sr. Stark.

Fecho a cara e respiro fundo, tentando me ater aos argumentos do meu mordomo e amigo. Por mais que seja incômodo ouvir um sermão, sou obrigado a reconhecer que ele está certo.

— Você tem razão, Jarvis. Obrigado por me lembrar do que prometi. — Volto a relaxar no sofá e a pensar naquele raio de sol em forma de mulher. — Eu sei como devo agir com ela, mas me esqueci disso. Apenas o primeiro dia de trabalho dela por aqui e já foi tão... difícil.

— Seria muito atrevimento perguntar por quê?

Seria e é, ainda assim me ouço respondendo com um olhar distraído:

— Ela me intriga, Jarvis. As coisas que pensa e diz sobre mim deveriam me irritar. De certa forma, irritam, claro, mas...

— Mas?

Sorrio, lembrando-me da sensação que o comportamento dela despertou em mim, e sinto uma curiosa aceleração em meu pulso. O mesmo ritmo frenético quando ameacei beijá-la, quando a vi no meu quarto essa manhã, quando segurei sua mão ontem no restaurante.

— Mas, ainda assim, essas coisas me divertem mais do que irritam. Ela me diverte ao tentar me irritar, entende? E, mesmo quando consegue me irritar de verdade, ainda assim é... sei lá. Bom?

Muito bom, na verdade. Estranhamente bom. Um palavra tão simples e que cai como uma luva.

Não sei por quanto tempo fico fora do ar, apenas refletindo sobre os últimos três dias. É esse o tempo que transcorreu desde que Maria Collins Carbonell colocou os pés — e aqueles tornozelos perturbadores — nessa mansão.

Como pode tão pouco tempo parecer tanto? Como pode alguém que mal chegou causar tanto efeito na minha vida? Como posso me sentir mais... vivo desde então? Revigorado.

— Realmente intrigante, Sr. Stark.

Desperto dos devaneios e volto a atenção a ele. Meu amigo está com uma expressão estranha no rosto, o que me deixa sem graça.

Eu, Howard Stark, fico sem graça. Como isso é possível?

— Acho que vou me deitar — digo, já de pé, pronto para deixar a sala.

Sem olhar para Jarvis, dou um tapinha em seu ombro e caminho rumo à escada. Logo, estou no meu quarto. O que não ajuda muito a esvaziar a mente, já que o perfume daquele raio de sol está por toda a parte.

Ela mal passou cinco minutos no recinto hoje de manhã e, mesmo assim, sua presença ficou impregnada de alguma forma que não entendo. Talvez eu esteja, inclusive, imaginando esse cheiro levemente doce. Talvez eu esteja alucinando.

De qualquer forma, Jarvis tem mesmo razão, eu fiz uma promessa. Que quebrei hoje, mas que posso retomar amanhã. E vou.

Realmente não quero prejudicar uma mulher que precisa de trabalho. E se eu voltar a me comportar mal, sei que ela vai ignorar a própria necessidade e pedir demissão.

Além disso, devo preservar o meu orgulho depois de tantas demonstrações de desprezo e provar a mim mesmo que posso — e vou! — resistir a Maria Carbonell.

Com certa raiva por ter falhado miseravelmente hoje, arranco as roupas de qualquer jeito e entro no banho. Um impiedoso banho frio deve aplacar esse inconveniente calor que insiste em se alastrar pelo meu corpo ao pensar nela.

Maldição. Não adianta nada.

No dia seguinte...

Às vezes, tudo o que precisamos é de uma boa noite de sono para colocar a cabeça em ordem, analisar um problema com certo distanciamento e perceber que ele não é tão grande assim. Coisa que, infelizmente, não aconteceu nessa noite. Que foi péssima, aliás.

Digo a mim mesmo que não sonhei o tempo inteiro com aquela feiticeira atrevida e que está tudo bem. Foi frustrante não conseguir tomar os seus lábios nem em sonho, mas vai ficar tudo bem. Eu posso ter qualquer mulher que quiser — exceto ela — e TUDO BEM!

Tudo bem, certo?

Vou tirá-la da cabeça tão logo tiver um corpo quente e curvilíneo enroscado ao meu. Algo que pretendo fazer mais tarde, pois recebi um convite para um coquetel de inauguração de um hotel. Já pedi para Jarvis checar e há muitas mulheres na lista de convidados.

Devolvo o pequeno cartão com data, local e horário para dentro do envelope sofisticado e cor de creme, colocando-o de lado sobre a mesa e abro o jornal.

Enquanto saboreio uma boa xícara de café com leite cremoso, mordisco uma torrada e corto uma fatia do meu queijo favorito, percorro as manchetes do dia sem prestar atenção realmente.

Não tenho o menor interesse em saber o que aconteceu no mundo. Tampouco em angariar capital de giro para o aglomerado de negócios Stark, que vai muito bem das pernas, obrigado. Só o que me interessa no coquetel dessa noite serão as mulheres encantadoras que poderei conhecer, flertar, desfrutar.

Mulheres que, certamente, não fugirão de mim como o diabo foge da cruz. Mulheres que não me acham a escória do sexo masculino. Mulheres que não me respondem de um jeito atravessado nem me olham com ares de superioridade, mas que se derretem por mim tão logo adentro um ambiente com meu magnetismo natural. Mulheres que não são... ela.

O tilintar de vidro se chocando com vidro me desperta, quando tudo o que eu mais queria era continuar ignorando o suave perfume no ar, fingindo que não percebi que a famigerada feiticeira encontra-se justamente aqui, na sala de jantar, a poucos passos de mim, limpando os itens da enorme cristaleira adiante.

Abaixo o jornal e olho para ela. Para minha surpresa, Maria esboça um meio sorriso. Não do tipo radiante ou minimamente simpático, mas puramente social. De certo, sorri só para me tranquilizar quanto ao barulho, enquanto mostra as taças limpas e intactas em suas mãos.

Eu devia voltar a “ler" o jornal, porém a verdade é que estou cansado de ignorar a presença dela e ansioso por ouvir o som da sua voz melodiosa, então...

— Chegou bem ao Griffith ontem?

Decepcionante. Maria limita-se a desviar o olhar para as taças e copos, assentindo de forma afirmativa com a cabeça enquanto continua a limpá-los.

Volte ao jornal agora, Howard. Não posso. Agora! Em um minuto.

— E teve uma boa noite de sono, imagino?

Ela para o serviço manual e fica um pouco tensa. Depois, meneia a cabeça de novo.

— Acordou bem disposta então?

Novamente, um sim dito sem palavras.

Abandono o jornal sobre a mesa, intrigado.

— O gato comeu a sua língua?

Maria balança a cabeça. Dessa vez, indicando que não.

Numa tentativa de irritá-la com a minha insistência e quem sabe assim despertar alguma reação verbal, insisto:

— Pois é o que parece.

Não funciona. Preciso ser mais incisivo:

— Por que tão muda? Pensei que você gostasse de falar pelos cotovelos feito uma matraca.

Maria me olha por um instante reflexivo. Parece um pouco incomodada com minhas palavras. Depois, dá de ombros e concentra-se na tarefa doméstica como se tivesse apagado o que ouviu.

Meu sangue começa a entrar em ebulição, irradiando um calor para o centro do meu peito. Ao mesmo tempo que fico com raiva pela sua inércia, desejo mais ainda ouvir a sua voz. Também quero entender o motivo da mudez repentina, admito, estou começando a ficar preocupado.

— Diga alguma coisa — peço, fingindo humildade. — Ou eu continuarei insistindo até o seu pescoço doer de tanto balançar que sim ou não.

Maria interrompe o trabalho de limpar os itens da cristaleira e ergue o olhar em minha direção. É estranho, eu esperava um olhar mortal, mas ela parece... acanhada?

— Ontem o senhor insinuou que tentaria me beijar se eu dissesse algo mais que o provocasse. Como qualquer coisa que eu diga parece ter esse efeito, prefiro trabalhar em silêncio. Caso não se importe.

— Eu me importo — disparo sem pestanejar, assustado comigo mesmo. Mexo-me na cadeira, me recomponho e tento ser racional: — Isso foi ontem. Além do mais, por mais tentador que fosse, eu desisti de te beijar quando pensei melhor.

— Desistiu? — ela indaga no susto, com uma nota de...

— Isso na sua voz é decepção, Carbonell?

A feiticeira pisca algumas vezes antes de negar com veemência:

— Não, claro que não! Eu só quero entender melhor. Primeiro, o senhor ameaça me aterrorizar com a sua nudez. Depois, afirmou que me roubaria um beijo. Quando confrontado, insinuou que talvez não tirasse o roupão e agora nega que iria me... que iria me beijar ontem à noite. Isso tudo é muito confuso, Sr. Stark.

Satisfeito pela evolução da conversa e ansioso para restaurar o meu orgulho, ou parte dele, assumo uma postura superior, ajeito o jornal de novo e explico do jeito mais natural que consigo:

— Sobre a nudez, prefiro deixar o mistério no ar. Você terá que viver com a eterna dúvida, sinto muito. Quanto a outra coisa, não se preocupe, eu nunca beijei uma mulher que não quisesse ser beijada e deixasse isso bem claro antes. Como você não é exatamente do meu fã clube, acho que ambos concordamos que ficaria a salvo ontem e continuará assim.

De soslaio, vejo que Maria abandona a flanela sobre a pequena mesa perto da cristaleira e coloca as mãos na cintura, encantadoramente irritada. Ela claramente se acalma antes de dizer:

— Sem sombra de dúvida estarei sempre a salvo. Ainda assim, é difícil acreditar que me deixaria em paz. Caso não se recorde, o senhor correu atrás de mim.

— Eu não corri, só andei depressa, é diferente.

Agora ela cruza os braços e não há qualquer resquício de polidez em sua voz quando questiona:

— E por que andou depressa atrás de mim, Sr. Stark?

Ela nunca irá me chamar pelo primeiro nome, não adianta.

— Para tranquilizá-la, é claro.

Tudo bem, não foi exatamente por isso, mas Maria não precisa saber que eu esperava que ela me beijasse de bom grado quando a alcançasse. Um não teria me feito parar, mas quando fui atrás dela, esperava muito ouvir um sim entre suspiros de expectativa.

Volto-me em sua direção, abandonando o jornal mais uma vez, e retomo:

— Assim que te vi fugindo em disparada...

— Eu não fugi em disparada! — Ela me interrompe, colérica. — Eu só... Eu só andei depressa.

Maria sorri com satisfação ao usar as mesmas palavras que eu, tal como eu fiz ao resgatar a mesma expressão que ela soltou ontem quando saiu do meu quarto.

No centro do meu peito, algo arde, queima e se espalha por todo o meu corpo. Sua capacidade de me irritar e me fazer gostar disso é mesmo um mistério.

— Certo — assinto, meneando a cabeça. — Assim que te vi andando depressa para fora do meu escritório, eu percebi que você tinha levado minhas palavras muito a sério. Então, senti que precisava esclarecer que jamais te beijaria.

— Jamais?

Ela parece tão surpresa que entendo de outro jeito. Não é só surpresa, não pode ser. Levanto-me, apoiando as mãos na mesa.

— Ok, isso na sua voz é decepção.

— Claro que não! Não seja ridículo! — ela nega com ênfase, meio no susto, empinando o nariz.

Ao notar que ultrapassou o limite da falta de educação com o patrão, entretanto, leva as duas mãos à boca, como se com o gesto pudesse engolir o xingamento que deixou escapar no meio da raiva.

— Não se preocupe, eu não vou te demitir por isso. E eu jamais te beijaria sem o seu consentimento, Srta. Carbonell. Está melhor assim?

Ela se recompõe e, ainda com o seu jeito orgulhoso, responde:

— Muito melhor. Perfeito. Obrigada.

— Muito bem. Porque eu estou falando sério dessa vez. Eu jamais te beijaria sem a sua permissão e, mais, sem que você pedisse com toda as letras antes.

Minha afronta a atinge em cheio. Maria arregala os lindos olhos azuis acinzentados e retruca indignada:

— Perdão, o que disse?

Arqueio as sobrancelhas, dou um passo à frente e coloco as mãos nos bolsos da calça. Olho-a do mesmo jeito que ela se dirige a mim, com superioridade e desafio.

— Você ouviu muito bem.

Ela abre a boca. Fecha. Abre de novo. Como um peixe indeciso.

— Pois saiba que eu jamais pediria um beijo seu! Nem que perdesse o juízo! Nem que a minha vida dependesse disso!

Dou de ombros e sinto que isso a aborrece. É como brincar com fogo, muito divertido, não resisto.

— Mais um motivo para afirmar que você está a salvo de mim.

— Eu nunca tive a menor dúvida disso! — Maria dá um passo à frente.

— Ótimo. — Dou outro.

— Excelente!

Pelo visto, Carbonell gosta de ter a última palavra. Uma pena porque me sinto instigado a fazê-la perder a batalha. Sou muito competitivo.

— E só para constar, mesmo que você permitisse e pedisse, eu não sei se te beijaria no final das contas.

O choque surge em seu rosto e, acredito que sem perceber como a pergunta soa estranha vindo dela, Maria questiona:

— Posso saber por que não?!

Dessa vez, deixo qualquer jogo de lado e opto por ser franco, expondo toda a minha insatisfação com a maneira como ela vem me tratando:

— Porque você me despreza gratuitamente desde que colocou os pés nessa casa. Porque ontem abominou a ideia de um beijo, sendo que as mulheres fazem fila por isso, saem no tapa praticamente, porque eu sou muito bom no que faço, obrigado. Porque um homem tem o seu orgulho e você feriu o meu.

Ela fica muda, apenas me encarando um tanto surpresa pelos instantes que se seguem. Acho que não esperava tanta franqueza, nem ouvir o tom de ressentimento em minha voz.

— Sinto muito — sibila por fim, olhando para baixo.

E então, quem fica surpreso sou eu.

— O quê?

Ela torna a erguer o olhar na minha direção.

Quando foi que ficamos tão perto um do outro?

— Sinto muito por julgá-lo tanto. A maneira fútil e devassa como leva a sua vida, cercado de mulheres sem se importar com elas de verdade, não é da minha conta.

Claro, quando a esmola é demais...

— Isso é um pedido de desculpas em qual língua?

Maria respira fundo. Talvez percebendo a péssima escolha de palavras, reformula:

— O senhor tentou me incluir nessa fila de mulheres que adorariam uma chance. Desde que nos conhecemos, não pode negar. Por isso, passou a ser da minha conta e eu venho reagindo do único jeito que posso.

— Com hostilidade e fugas?

— Eu prefiro força de caráter e instinto de preservação.

Desta vez, sou eu quem respira fundo. Seu desprezo e vaidade precisam ser estudados pela ciência! Que mulher difícil!

— Eu já disse que esses lábios de mel aqui jamais tocarão os seus, fique tranquila.

— Então o senhor não me beijará nunca?

Por que Maria ainda acha difícil acreditar. É ultrajante!

— Foi o que eu acabei de dizer.

— Nem que eu permita?

Que diacho de pergunta foi essa?

— Nem que você permita.

É impressão minha ou essa conversa está ficando cada vez mais estranha?

— Nem que eu peça? — ela insiste, dando mais um passo à frente, a voz num tom bem mais suave, quase insinuante.

— Nem que você peça.

Não sei de onde tiro forças para respondê-la tão rápido, mas sinto meu peito inflando de tanto orgulho por conseguir. Maria Carbonell pode ser linda e me atrair bem mais do que eu entendo, mas tenho alguma força de vontade para resistir aos seus encantos. Ah, se tenho!

Para minha total surpresa e certo desconforto, o raio de sol se aproxima mais um pouco, reduzindo a nossa distância a quase nada. Assim, tão de perto, posso vislumbrar as bordas das iríses com aquele tom de verde escuro misterioso.

— Nem que eu entre no quarto do senhor por engano de novo ou no seu escritório para confrontá-lo? E o tire do sério a ponto de querer me silenciar com um beijo?

— Nem... — Engulo em seco ao imaginar os dois cenários. Pisco, dissipando as ilusões, e procuro ser firme: — Nem assim!

Uma nuance de nervosismo reluz nos olhos da feiticeira quando ela, me surpreendendo ainda mais, apoia as mãos suavemente no meu peito.

O calor que eu vinha sentindo até agora se intensifica e viaja até... Bom, até embaixo.

Atiçando ainda mais as labaredas, com a voz ainda mais suave e doce — um canto de sereia, com certeza —, Maria faz mais uma pergunta:

— Nem que eu me aproxime desta forma, levando o senhor a entender minha atitude como uma abertura? Como permissão? Como um pedido humilde e silencioso por um único beijo?

Não sei por quanto tempo fico imóvel, tenso e completamente mudo. É difícil raciocinar com a cabeça de cima agora. É praticamente impossível resistir à uma insinuação dessas. É difícil imaginar qualquer outra coisa que não seja envolver a cintura desse raio de sol, tomá-la nos braços com vontade e roubar todo o seu ar com um beijo digno de Hollywood.

É isso que eu devia fazer. É isso que eu quero fazer.

— Veja bem...

Essa voz rouca saiu de mim? E o que é essa chama nos olhos de Maria agora? Expectativa? Curiosidade? Desejo também?

Sorrio torto, lançando a ela um olhar cheio de segundas intenções. Inclino-me em sua direção, pronto para ceder ao desejo, até que...

— Não! — Até que me dou conta de que não posso fazer isso e a afasto do jeito mais delicado que posso. — Nem assim, feiticeira. Fique longe de mim!

Eu prometi a mim mesmo que resistiria, que sou capaz, não posso ceder assim tão fácil! Não posso ceder só porque uma bela ninfa está me seduzindo sem dó nem piedade.

A tal ninfa me encara com uma expressão indecifrável. Parece surpresa e outra coisa que não sei identificar porque ela disfarça muito bem no instante seguinte e já se manifesta de novo:

— Oh... Dessa vez, o senhor está mesmo falando sério.

O tom, que nada tem de interrogação, me faz matar a charada de imediato.

— Isso foi um teste. Que ardilosa! E esperteza de sua parte, admito. Eu devia ter imaginado que você estava fingindo.

Um pouco sem graça, não sei se por ter a armadilha descoberta ou se pelo elogio de reconhecimento, Maria não demora em se justificar:

— Eu só precisava ter certeza, me desculpe.

— A minha palavra não era o suficiente? Você parte o meu coração, sabia?

— Bom, o senhor não cumpriu com sua palavra ontem e eu estou surpresa que tenha um coração, logo, eu precisava...

Antes que a ladainha recomece, ergo as mãos a cortando e me dou por vencido:

— Tudo bem, já entendi. Pode confiar em mim agora, Srta. Carbonell?

— Agora eu confio.

Três palavras tão simples que ela parece murmurar sem perceber. Um grande peso nos meus ombros. Agora ela confia em mim. Não inteiramente, claro, mas confia que vou cumprir a promessa de deixá-la em paz, de tratá-la apenas como o que ela, de fato, é. Uma funcionária.

Maria Carbonell confia nisso, e eu não posso decepcioná-la. Também não posso decepcionar a mim mesmo, tenho que encarar essa conversa franca e definitiva como um incentivo para me esforçar e resistir.

Não é o fim do mundo. Posso ter qualquer mulher. Exceto ela. Maldição. Por que é tão difícil aceitar?

— Obrigada, Sr. Stark. Fico feliz por esclarecer as coisas de uma vez por todas.

Feliz? Como ela pode se sentir feliz num momento desses? Eu mal consigo respirar. Que curiosa sensação é essa? Como se todo o oxigênio do ambiente tivesse desaparecido.

Não importa. Hei de ser forte ou não me chama Howard Stark!

— Eu também estou radiante! — minto, só para não sair por baixo da situação.

Enquanto volto para a mesa do café, emendo do jeito mais indiferente que consigo dissimular:

— Ah! Se quiser trabalhar em silêncio a partir de agora, eu não me importo.

Talvez tenha sido um pouco demais, talvez eu tenha exagerado e sido levemente grosseiro porque ouço-a prender um suspiro de choque. Seja como for, não volto atrás, tampouco me desculpo.

Não demora, e ouço o tilintar nos copos mais uma vez, ela voltando ao trabalho. Muda como antes.

Se a feiticeira quer distância de mim, é melhor que me veja como um patrão antipático e fechado de agora em diante. Assim, irei decair ainda mais no seu conceito a ponto dela evitar estar presente nos mesmos recintos que eu.

Vê-la o mínimo possível será ótimo para mim e um bálsamo para ela. Todos saem ganhando.

Apesar do raciocínio fazer sentido, um pesar estranho se abate sobre mim enquanto novamente finjo ler o jornal. Um vazio que nunca senti antes. A sensação de ter perdido não só uma possível conquista, mas algo maior do que isso. Maria Carbonell estava me divertindo tanto, e agora as poucas palavras que trocar com ela deverão ser lacônicas e estritamente formais.

Que entediante e que pena.

Esse vazio não faz o menor sentido, eu sei. Ainda assim, não consigo aplacar essa sensação. É incômoda e me deixa mal humorado pelo resto do dia.

À noite, na esperança de me sentir inteiro de novo, sigo ansioso para o coquetel. Quase penso em ir no meu carro voador, mas não quero causar mais furor entre as damas do que a minha presença lhes causa naturalmente.

Furor do qual Maria Carbonell parece ser mesmo totalmente imune.

Querem saber? Azar o dela.

Notas finais
O título do capítulo foi uma pegadinha só para vocês pensarem que ia rolar beijo kkkkkkkk