No qual nosso herói confronta nossa heroína, e chega a uma conclusão animadora para ele e desesperadora para ela.

Quem diria que a orgulhosa Maria Carbonell fosse enfim sair um pouco da defensiva e se render a pelo menos uma das minhas inúmeras qualidades?

Ainda não acredito que ela reconheceu o meu senso de humor, mas foi exatamente o que aconteceu ontem. Maria riu de uma piada que fiz, pareceu à vontade comigo pela primeira vez e ainda me chamou de palhaço nato — o que vindo dela é um elogio e tanto, não posso reclamar.

Isso somado ao sorriso franco e encantador que dirigiu a mim, antes de toda a confusão causada pelo meu primogênito Bernard Stark no jardim, mostra um claro progresso na sua forma de me enxergar. Um progresso misterioso também, pois ainda não sei o que fiz para merecer aquele bendito sorriso. Nem como vou tirá-lo da cabeça.

Diabos... Como pode um simples sorriso mexer tanto com um homem? E um homem como eu, habituado a recebê-los aos montes de todas as mulheres que cruzam meu caminho e desde sempre!

Por falar nisso, uma vez minha falecida mãe contou que a parteira estava sorrindo largamente quando me trouxe à mundo. Disse que eu era um bebê lindo, risonho e simplesmente não conseguia parar de sorrir para mim.

Parece que enfim Maria Carbonell percebeu como sou encantador também. Talvez não haja nenhum mistério nisso, apenas o bom senso falando mais alto e vencendo a hostilidade inicial que ela de cara nutriu pela minha pessoa.

Olha só! Já estou me referindo à sua hostilidade como uma página virada!

Sem querer me gabar muito, acredito que seja página virada mesmo. E, uma vez vencida essa barreira, acho que posso voltar a sonhar com uma possível conquista.

Se continuarmos nos aproximando, como senti que nos aproximamos tão naturalmente ontem, Maria verá minhas outras qualidades e não será mais capaz de resistir ao meu charme inegável.

Quando eu beijá-la então... Ah, aquela dama mordaz ficará sem palavras! E quando recuperar a capacidade de pensar e falar alguma coisa, tenho certeza que será apenas para pedir por outros beijos, por mais, por tudo que tem direito. E eu darei o paraíso a Maria Carbonell. Simplesmente o paraíso! Ela jamais vai esquecer.

Foi com esses pensamentos que fui dormir à noite e com eles que acordei essa manhã. Ao contrário dos últimos dias, dormi magnificamente bem. Inebriantes sonhos envolvendo tornozelos e sorrisos vêneros.

[...]

Depois de um banho revigorante e de me vestir, checo as horas no relógio que ajusto no pulso. São oito e quinze, e isso significa que Maria está muito perto de chegar para iniciar mais uma jornada de trabalho.

Ansioso, sigo para a varanda e estico o pescoço para espiar o caminho que dá no portão frontal. Para meu deleite, ela logo surge, porém de outra direção e acompanhada por Jarvis.

Ontem, meu mordomo contou que Maria tomou o café da manhã com Ana. Jarvis não conseguiu acompanhá-las na refeição porque estava ocupado demais correndo atrás do meu temperamental flamingo. Hoje, tudo indica que os três conseguiram se reunir.

Parecendo muito satisfeita e tranquila vista daqui, Maria sorri para Jarvis quando ele comenta algo que não escuto por causa da distância. E é então que eu me lembro por que corri para a varanda com tanta ansiedade. Quero que o raio de sol me veja antes de entrar na mansão e, assim, possa me agraciar com um sorriso como o de ontem.

Preciso de mais um sorriso dela...

Sem demora, pigarreio do jeito mais natural que consigo e finjo me distrair com uma roseira no vasto jardim adiante. Apoiado na mureta da varanda, arqueio as sobrancelhas com ar de indiferença, mas tenho certeza que essa é uma das minhas expressões mais sensuais. De esguelha, percebo que os dois pararam e estão olhando na minha direção.

— Oh, bom dia, Sr. Stark! Dormiu bem?

Dissimulo certa surpresa e abaixo o olhar mirando meu mordomo e amigo.

— Muito bem, Jarvis, obrigado.

Então me concentro em Maria, esperando ver aquele sorriso encantador, quem sabe um olhar caloroso e talvez até um cumprimento gentil para começar bem o meu dia. Chego a começar a sorrir ao direcionar o olhar a ela.

E eis o problema... O que recebo não é nada do que esperei, mas sim uma expressão impassível e fria feito mármore, um olhar que carrega uma boa dose de desprezo e um irritante nariz empinado.

Confuso diante da recepção fechada, cumprimento-a com certo receio:

— Carbonell.

E tudo que ouço em retorno é um seco, formal e claramente falso:

— Sr. Stark.

Murmurado com uma má vontade que capto daqui de cima.

Num gesto quase imperceptível, Maria olha para a varanda com mais atenção. Só que não parece interessada em mim — será que ficou cega? —, é mais como se procurasse alguma coisa atrás de mim. No quarto atrás de mim?

Antes que eu me arrisque em puxar assunto e quem sabe entender o que está acontecendo, Maria desvia o olhar rápido e já está em movimento. Os belos tornozelos trabalhando em passos impetuosos rumo à entrada da casa, enquanto Jarvis se apressa para alcançá-la.

Sem entender patavinas e tomado por uma incômoda frustração, resmungo inconformado:

— Ora, essa!

Parece que a dama mordaz voltou. Naturalmente, o gênio infame que habita em mim quer muito entender o porquê.

[...]

Não importa quantos cubos de açúcar eu despeje nessa maldita caneca de café, a bebida continua amarga como fel. Despejo um pouco de leite na esperança de suavizar o sabor, e fica ainda pior.

Até o meu brioche favorito parece duro feito uma pedra hoje e a geleia de framboesa azeda demais. As frutas, tão sem graça quanto as cenográficas que costumo usar nos estúdios da Stark Pictures. O queijo com certeza é falso, feito de borracha.

Eu pretendia tomar o café da manhã como um rei, aproveitar o momento, saborear com prazer a refeição mais importante do dia, porém acabo desistindo ao perder o apetite por completo.

Quando Jarvis surge na sala, estou limpando a boca com o guardanapo.

— Já terminou, Sr. Stark?

Há confusão em sua voz, certamente por constatar que eu mal toquei na refeição posta por ele com a dedicação costumeira.

— Já — resmungo, amassando o guardanapo com violência e largando-o perto do café mais amargo que já provei na vida.

Jarvis engole em seco, parece desorientado por um instante.

— Alguma coisa não estava do seu agrado?

Tudo! Tenho vontade de praguejar. Entretanto, como sei que irei magoá-lo e como também sei que o problema não é o café da manhã, o que digo é:

— Tudo perfeito, Jarvis. Só não estou com fome.

Se ele acredita, não sei. Só sei que o mau humor se alastra dentro de mim a cada instante, deixando-me profundamente irritado comigo mesmo. Não, minto! Irritado com ela. Com Maria Carbonell e suas repentinas mudanças!

Primeiro, ela olha para mim como se eu fosse o pior homem do mundo, me julgando e condenando simplesmente por ser irresistível. Depois, sorri para mim sem mais nem menos! Um sorriso que chegou àqueles lindos olhos e me aqueceu com uma intensidade tão grande que ainda não entendo. Pois hoje, ela volta a me fuzilar com petulância e o ar de desgosto! Que mulher difícil de entender! E impossível de agradar!

Por que diabos quero tanto agradá-la? Por que me importo com o que Maria Carbonell pensa de mim? E o que mudou de ontem para hoje que a fez erguer de volta a barreira defensiva entre nós? Preciso de respostas!

Levanto da cadeira com um movimento brusco, fazendo-a ranger contra o assoalho.

— Onde ela está? Arrumando o meu quarto?

Jarvis demora apenas um segundo para entender a quem me refiro e, pela sua expressão, também desconfia que Maria é o motivo da minha indisfarçável irritação.

— Não. Ela está na biblioteca, Sr. Stark. Hoje e provavelmente nos próximos dias, a Srta. Carbonell vai cuidar da limpeza e organização das estantes.

Uma fagulha arde no meu peito, e já não sei mais se é apenas fruto do orgulho ferido ou a vontade de estar com Maria de novo. Deve ser a primeira opção, pois a segunda não faz o menor sentido.

— Ótimo — resmungo, meio confuso, afastando-me da mesa. — Acho que vou ler um livro.

Deixo a sala de jantar sem olhar para trás e sido determinado rumo à biblioteca.

[...]

A cada passo que venço na direção de Maria Carbonell, pondero o que vou dizer a ela e como vou dizer.

Serei firme e direto, deixando clara a minha insatisfação com a sua antipatia descabida por mim. Depois, vou perguntar quem ela pensa que é para me tratar desse jeito tão superior. Por fim, vou pressioná-la até descobrir por que sorriu para mim ontem e hoje mudou da água para o vinho com uma carranca no lugar do rosto.

— Que tipo de jogo é esse? — ensaio, muito bravo, chegando ao corredor onde fica a enorme biblioteca.

Serei firme e direto! É isso! Nada de me derreter por ela! Nada de fraquejar, Howard! Ela pode ser bonita — linda, tudo bem — e um encanto de tão desafiadora, mas você tem o seu orgulho e deve preservá-lo acima de qualquer...

Paro sob o umbral da porta de carvalho e o que vejo lá dentro faz os meus pensamentos ruírem feito um castelo de cartas ao vento.

De perfil, em pé numa escada, a cerca de dois metros do chão, segurando uma pilha de livros em um dos braços e emoldurada por uma vasta estante atrás de si. É desse jeito que vislumbro Maria Carbonell. E que me pego admirando-a sem conseguir resistir. Em meio a tantos clássicos e iluminada pela luz mais suave da biblioteca, ela parece ainda mais perfeita do que nunca.

Pisco e faço um esforço para voltar à realidade.

— Mulher... não vai cair daí — ralho, num tom suave demais para uma bronca.

De onde veio essa preocupação na minha voz? E aonde foi parar a raiva que me torturava há apenas alguns segundos?

A arrumadeira que vem bagunçando minha cabeça com maestria olha para mim de imediato. Os lábios levemente abertos pela surpresa em me ver de novo. Acho que não esperava que fosse acontecer tão cedo. Para ser sincero, nem eu, mas aqui estamos nós. Aliás, o que eu vim fazer aqui mesmo? Certo! Confrontá-la!

Dois passos e cruzo a entrada, adentrando a biblioteca. Apoio uma mão no quadril e com a outra ergo o indicador em riste, ordenando de cabeça erguida e num tom firme e direto:

— Desça já dessa escada, Carbonell. Preciso conversar com você. É urgente.

Um longo instante se arrasta, Maria assimilando minha visita e o que eu disse. Enfim esboça uma reação. Não a que eu espera, claro! Adivinhem só quem está de volta? A carranca! Com direito ao nariz empinado, queixo erguido e olhar de desdém! Olhar esse que ela não mantém por muito tempo sustentado na minha direção. Ao invés disso, desvia e o concentra na estante, separando mais livros para a pilha já considerável alta em seu braço.

Por um momento, acho que Maria pretende me humilhar, optando por fingir que não me ouviu, ignorando-me até eu desistir e ir embora.

— Pode falar do que se trata, Sr. Stark, eu consigo ouvi-lo muito bem daqui de cima — ela acaba se manifestando de maneira muito formal e teimosa.

E o meu sangue ferve diante disso. O que custa descer da maldita escada?

— Mas eu não consigo vê-la direito daqui de baixo — insisto, num tom indisfarçável de irritação.

Espero que o bom senso vença, mas Maria parece possuir nenhum. O que me leva a jogar com as armas que tenho.

Cruzo a enorme mesa de leitura, sobre a qual vários livros já estão dispostos, e logo paro a poucos centímetros da escada. Não consigo me conter e seguro as laterais, mantendo a estrutura firme no lugar. Nessa altura, meu rosto fica bem de frente para os tornozelos de Maria. O vestido bordô do uniforme não os cobre devido ao cumprimento um pouco abaixo dos joelhos. Então sorrio torto para a obra-prima da natureza e provoco:

— Pensando bem, consigo sim. Eles são ainda mais lindos desse ângulo...

O protesto vem rápido e repleto de choque:

— Ora! Como se atreve? Afaste-se agora mesmo, seu pervertido, ou eu juro que solto esse livro na sua cabeça!

E ameaçador também.

Sem me intimidar com o possível livrocídio, ergo o olhar e encaro o rosto furioso de Maria. Ela realmente pegou um dicionário pesado do topo da pilha.

— Ah, então voltamos mesmo à hostilidade de antes — constato, e em seguida a pressiono para revelar a razão disso: — Por quê?

A mulher intrigante na escada pisca algumas vezes, soando um tanto desnorteada pela pergunta feita sem rodeios.

— Eu não sei do que o senhor está falando.

E escolhe se esquivar com uma mentira deslavada.

Decido não deixar barato e provoco mais uma vez:

— Aposto que seus olhos ficaram verdes ao redor. Acontece quando você não diz a verdade, lembra?

Maria volta a fechar a cara. Ao menos começa a descer a escada segundos depois, o que faz um peso sair do meu peito.

Afasto-me um passo, mas continuo com as mãos fixas nas laterais da estrutura até ela chegar ao último degrau e depois ao piso de fato.

Sem olhar para mim, Maria vai até a mesa desconversando:

— Eu já disse que não sei do que se trata essa conversa. Se puder ser mais específico...

— Muito bem! Pois eu serei! — interrompo-a, aceitando o desafio. Um pequeno sobressalto me atinge quando ela larga os livros sobre a mesa com força, espalhando um baque pelos corredores da biblioteca. — Aconteceu uma coisa ontem, está recordada?

Maria volta a olhar para mim, como uma criança sendo confrontada com algo que preferia manter enterrado. Sinto muito por ela, mas estou aqui para desenterrar e esclarecer as coisas goste ou não.

— É claro que me lembro, eu fui atropelada por um flamingo de um idiota, bati a cabeça e desmaiei. O tipo de dia inesquecível!

Depois, para meu desespero, caminha até a escada de novo e sobe os malditos degraus rumo ao topo com certa brutalidade nos passos. O peso no peito retorna ao ver a escada tremer e me apresso em segurar as laterais, enquanto Maria reúne uma nova pilha de livros.

— Que tipo de homem tem um flamingo como animal de estimação, santo Deus? — resmunga baixinho, porém o suficiente para que não me passe despercebido.

— Deixe Bernard Stark fora disso, Carbonell. Não é sobre o atropelamento acidental que eu quero falar.

— Então é sobre o quê? — sua voz é uma navalha afiada de impaciência.

Não me intimido. Ao contrário, confronto-a de novo:

— Você sabe muito bem, ou não estaria fugindo.

O tempo congela e o mundo para de girar de repente. O suspense pesa no ambiente e Maria interrompe a tarefa. Em seguida, abaixa um olhar chocado na minha direção.

— Eu não estou fugindo — nega, entredentes.

— Sendo assim, desça dessa escada e me encare até eu terminar de falar — intimo.

Maria hesita. Olha-me com raiva e de um jeito contrariado. Penso que terei que insistir de novo, mas ela me surpreende ao se dar por vencida e desce os degraus.

— Sem problemas, Sr. Stark.

Com ela parada bem na minha frente, o efeito que exerce em mim parece se potencializar. E me aquece por dentro. E me desnorteia, deixando minha garganta seca e despertando um tremor no centro do meu peito. As palavras fogem de mim e me perco no olhar atrevido e impaciente de Maria Carbonell.

Com a pilha de livros nos braços, ela diz num tom insolente:

— Poderia se apressar, por obséquio? Caso não percebeu, eu tenho trabalho a fazer. Não foi para isso que o senhor insistiu em me contratar? Para arrumar as coisas?

Percorro seu rosto com o olhar, ao mesmo tempo em que busco entender o meu pulso acelerado e murmuro:

— Pois então pare de bagunçá-las, raio de sol, ou vai acabar me enlouquecendo.

Maria pisca os longos cílios e fica sem reação por um momento. Analisando-me de volta até balbuciar com confusão:

— Eu não estou entendendo.

Para ser franco, nem eu. Tudo que eu queria era que ela ficasse frente a frente comigo, mas agora me vejo inclinado a me afastar. Porque preciso me afastar ou vou mesmo enlouquecer.

Disfarço a desordem que me abala por dentro e caminho até a mesa, optando por ficar atrás dela. Uma barreira entre Maria e eu parece uma boa ideia para esfriar esse calor crescente que sinto cada vez mais intenso.

— Você sorriu para mim ontem. Conversou civilizadamente comigo na sala. Chegou a rir de algo que eu disse.

A expressão insolente está de volta.

— E daí?

Respiro fundo, acatando o desafio mais uma vez.

— E daí que não era do seu feitio agir assim comigo. Foi um progresso, admita.

Maria não admite. Ao menos, não nega. Ao invés disso, dá de ombros e faz pouco caso:

— E daí?

Certo, essas réplicas estão começando a me irritar.

E daí que hoje nós regredimos. Não, você regrediu e voltou a me tratar como se eu fosse o pior homem do mundo. Eu quero saber por quê. E não minta, porque eu saberei pelos seus olhos.

Talvez eu não enxergue daqui, porém se ela inventar alguma desculpa ou desconversar, vou arriscar vencer a nossa segura distância física. E tenho certeza que verei as bordas ficando mais verdes nas íris predominantemente azuis.

— A resposta está no seu próprio questionamento, Sr. Stark.

Demonstrando muita esperteza, Maria usa as palavras ao seu favor, não negando, mas também não confessando o que eu quero saber.

Mesmo a opinião dela não sendo uma novidade para mim, questiono magoado:

— Você me acha o pior homem do mundo?

— Não de todo, mas em certo ponto, sim. — Maria engole em seco, parecendo um pouco sem jeito. — Eu não quero ofendê-lo, mas é o senhor que está insistindo nesse assunto...

— Em qual ponto eu sou o pior homem do mundo? — Tão logo pergunto, a resposta sai nítida e óbvia da minha boca: — Mulheres, claro.

De súbito, Maria demonstra irritação de novo e retruca com impaciência:

— Se o senhor tem consciência de como é um patife com elas, qual o sentido dessa conversa além de me fazer perder tempo?

O meu orgulho ferido e o ar superior de Maria me levam a argumentar defensivo:

— Eu não sou um patife, sou um homem livre que gosta de se divertir. E elas se divertem comigo também. Sinto muito se isso incomoda você.

Ela ri sem humor, como se eu tivesse soltado uma piada muito sem graça.

— O que me incomoda é a suposição que fez. Por eu ter sorrido ontem e o tratado com alguma cortesia, hoje eu tinha que me derreter pelo senhor.

Touché.

A dama mordaz e extremamente atrevida caminha até a mesa e abandona a pilha de livros sobre ela, olhando-me feio. Depois, me dá as costas e segue para a estante com passos determinados, retomando o perigoso serviço de desocupar as prateleiras se equilibrando na maldita escada.

O aperto no meu peito protesta. Mas dessa vez, faço um esforço para não sucumbir ao instinto de me aproximar e segurar a estrutura. Com outro esforço, retomo o foco:

— Não se derreter, mas ao menos não me olhar com tanto desprezo como fez lá fora e agora aqui.

— Eu lamento sinceramente por isso, mas é a única maneira de me proteger de homens como o senhor.

— Você tem um jeito muito peculiar de pedir desculpas, Carbonell.

Ela pisa firme em cada degrau e começa uma nova pilha de livros. Expira com força e argumenta num tom mais civilizado:

— Nós somos patrão e empregada, Sr. Stark. Prometemos agir como tal e manter o respeito para que essa relação dê certo. Uma relação estritamente profissional, ressalto. Eu tento não julgá-lo nem ofendê-lo por suas atitudes deploráveis com as mulheres, e o senhor me mantém fora da sua lista de desejos. É bem simples, na verdade. Só um tonto não entenderia.

O que eu vinha temendo dá sinal de que vai acontecer. Maria pisa em falso ao segurar um livro que escorregava da montanha em seu braço. Num instante, vejo-a caindo para o lado, prestes a se esborrachar no assoalho, os livros já espalhados por toda a parte. No outro instante, estou com as mãos presas em sua cintura, impedindo que a tragédia aconteça.

Sinto seu corpo junto ao meu, os pés de Maria pressionando meus sapatos suavemente, seu perfume me inebriando junto com seu calor, nossos rostos tão próximos que capto um gritante alerta de perigo pairando no curto espaço que ainda me separa dela.

Não nego, é bom tê-la assim. Muito bom. E confuso. Definitivamente confuso.

— Talvez eu seja um tonto. Porque isso é qualquer coisa, menos simples.

Não sei de onde tiro forças para dizer essas palavras. Só sei que elas saem num tom rouco, francas e trazem Maria Carbonell de volta ao mundo real. Ela desperta assustada ao se dar conta do quão próximos ficamos e prontamente se desvencilha dos meus braços. Abaixa-se exalando embaraço e irritação, e passa a recolher os livros com as mãos um tanto trêmulas.

— Eu não sei aonde o senhor quer chegar com isso, mas também não faço a menor questão de descobrir.

Sorrio, misteriosamente satisfeito por não ser o único abalado por aqui, e então me abaixo para ajudá-la.

— Será que não podemos ser pelo menos... amigos, Maria?

Ela ergue o olhar e exclama com incredulidade e surpresa:

— Amigos?!

Amigos, Howard?! De onde você tirou essa ideia? E como acha que conseguiria tal proeza? Ser amigo de Maria Carbonell quando sua única vontade é tomá-la nos braços e beijá-la até lhe roubar o fôlego por completo?

— Amigos, sim. Por que, não? — resmungo de mau humor, montando minha pilha ao lado da pilha de Maria.

Pensando bem, amigos é melhor do que nada. E pode ser um caminho para conquistar sua confiança e, quem sabe, reconquistar a misteriosa admiração que durou tão pouco.

— Homens como o senhor não têm amigas.

E lá vem o homens como o senhor de novo! Mas será possível!

Ofendido, encaro a criatura petulante e me defendo de pronto:

— Pois saiba que eu tenho... Eu tenho uma amiga! Você ainda não conhece a Peggy, mas ela é a minha melhor amiga, uma mulher fabulosa e sabe reconhecer as minhas qualidades como uma boa amiga faz.

Maria ri, ácida feito limonada. Tenho pena dos livros que sofrem com a brutalidade das suas mãos agora.

— Sem dúvida, ela deve ter uma extensa lista das suas qualidades. Por acaso era a Srta. Peggy na varanda do seu quarto ontem?

Um estalo. Sinto e ouço um estalo nas engrenagens do meu cérebro.

— O que disse?

Visivelmente arrependida, Maria se levanta e carrega a pilha rumo à mesa.

— Eu não disse nada.

— Disse sim, eu ouvi.

Vou em seu encalço, colocando os livros que recolhi junto aos dela.

— Se ouviu, então por que diabos pergunta?

Maria é a personificação da ira. Ira de si mesma por enfim ter admitido a razão para a sua mudança comigo.

Anteontem, cheguei em casa tarde e com alguém ao meu lado. Não dormi sozinho. De manhã, deixei minha companhia na cama e fui até a varanda. Vi a confusão envolvendo o flamingo e fui atrás de Maria. Ela deve ter visto minha acompanhante depois, quando estava indo embora, após o atendimento médico de emergência.

— Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa! Ah, eu sabia! — faço questão de comemorar, sentindo que isso tira Maria ainda mais do sério. — Você não gostou do que viu e por isso está me tratando feito um demônio hoje! Você é difícil de entender, Carbonell, mas não é impossível afinal.

Numa reação que não me surpreende nenhum pouco, ela se esquiva:

— Sr. Stark, eu gostaria de me concentrar no trabalho agora.

Maria marcha rumo à escada, e eu sigo-a de perto, subitamente animado e esperançoso.

— Não era a Peggy na minha varanda, era a Melanie... Ou seria Natalie?

— Ele nem ao menos se lembra do nome da infeliz... — critica com um esgar, subindo os degraus com força. — Chocada.

Por instinto, vejo-me segurando as laterais mais uma vez.

— Cuidado aí, raio de sol. — E admirando seus tornozelos só mais um pouquinho, pergunto: — Você ficou com raiva do que viu?

Maria trinca os dentes, empilhando os livros com brutalidade.

— Nenhuma. O senhor se dá muita importância.

— Ficou sim. Não apenas raiva, você ficou com... — A conclusão faz meu peito disparar. — Mulher, você ficou com ciúme!

O tempo congela e mais uma vez o mundo estanca o movimento de rotação. Maria me lança um olhar duro e gélido.

— O que disse?

Desconfio que posso estar em perigo, mas não dou a mínima agora.

— Não se faça de surda nem desentendida, Maria. É tarde demais.

Não sei como acontece, só sei que é rápido. Num instante, o semblante de Maria é a personificação do choque. Depois, da ira por não conseguir negar o óbvio. Por fim, algo despenca na minha direção. Um maldito e pesado dicionário.

Que só não me atinge porque meus reflexos são excelentes. Seguro-o no ar antes que tenha chance de me atingir em cheio na cabeça.

Então, afasto-o do rosto e lanço um sorriso enviesado para Maria. Um sorriso quase diabólico e vitorioso. Com uma mistura de felicidade e afronta, ignoro o perigo mais uma vez e pontuo bem cada palavra que digo:

— Você. Tem. Ciúme. De. Mim.