Gênio Infame, Dama Mordaz
37 Corações Partidos
No qual a nossa heroína procura ter foco. E um novo emprego também.
Tento me concentrar apenas no que estou fazendo já há alguns minutos. Na limpeza das janelas da sala de estar. Concentro-me apenas na flanela ligeiramente úmida e em deixar os vidros reluzindo enquanto faço movimentos constantes e meticulosos contra uma superfície por vez.
Nada de pensar nos eventos desastrosos dessa manhã no laboratório e depois no escritório de Howard, nada de pensar nesse patife, nada de...
— Droga — resmungo baixinho, dando-me conta de que tentar não pensar nele automaticamente me leva a pensar nele.
Os vidros. As janelas. Tenho que me esforçar mais.
De repente, avisto um veículo conhecido adentrando a propriedade e dedico parte da atenção a isso também. Não demora muito, o Sr. Jarvis estaciona e sai do carro. Ele se apressa a fim de dar a volta para abrir a porta do passageiro e estende a mão para Ana descer.
Mesmo à distância, consigo enxergar nitidamente que não há apenas cavalheirismo nesse gesto tão simples. Há devoção e... muito amor.
Já de braços dados com o marido, Ana repousa a cabeça em seu ombro e faz algum comentário que arranca um sorriso carinhoso dele.
Eu não sei de muitos detalhes, só que, há cerca de um ano, Ana foi vítima de um ato covarde e almejada por um tiro. Ela mencionou certa vez que ficou em estado muito grave e o Sr. Jarvis, muito abalado. Por dias, ele permaneceu no hospital ao lado dela, não comia, não dormia, apenas vigiava seu leito. Embora, Ana tenha se recuperado no fim de tudo, houve uma sequela irreversível. Ela nunca poderá gerar um filho deles.
Uma tragédia assim poderia arruinar qualquer relacionamento menos sólido. Contudo, no caso de Ana e Jarvis, acredito que o momento difícil e a terrível consequência fortaleceram ainda mais o que, claramente, eles sentem um pelo outro, unindo-os ainda mais.
O cuidado do Sr. Jarvis com Ana aumentou consideravelmente após o ocorrido, segundo ela. O marido faz questão de acompanhá-la a qualquer consulta médica desde então. Hoje, por exemplo, eles foram em uma delas pouco depois que cheguei.
Nesse momento, vendo os dois juntos assim, tão cúmplices e harmoniosos, sinto um vazio estranho e uma saudade inconveniente de... Howard.
E de tal modo, a tentativa de não pensar nele se mostra falha mais uma vez.
Pela janela, vejo o mordomo dele se despedir da esposa com um beijo afetuoso. Então, ela segue para a casa dos dois, do outro lado da propriedade, e o Sr. Jarvis vem caminhando na direção da mansão.
— Srta. Carbonell — ele me cumprimenta de modo educado pela segunda vez hoje, ao adentrar a sala.
— Sr. Jarvis — cumprimento de volta, abandonando a limpeza dos vidros para lhe dar atenção. — Ana está bem?
Seus olhos têm certo brilho quando responde:
— Sim, perfeita como sempre. Eis uma mulher forte e fabulosa. Por mais que eu seja suspeito para dizer isso, é claro. — Ele olha em volta por um instante e depois pergunta: — Tudo bem por aqui?
Como devo responder?
— Claro.
Com uma mentira, por que não?
O mordomo hesita por alguns instantes, como se estivesse procurando assunto ou, o mais provável, enrolando para ir direto ao ponto.
— Sabe me dizer aonde a Srta. Carter está?
Penso um pouco. Não vejo Peggy desde aquele momento lá fora, na beira da piscina, quando nós duas estávamos conversando e Howard — ele de novo no meu pensamento, maldição — se juntou à nós.
— Eu já andei pela casa inteira desde a última vez que a vi e Peggy não está em parte alguma — enfim respondo. — Acredito que ela tenha saído para um passeio ou compromisso.
Espero que ela não tenha percebido que eu e... Howard sumimos ao mesmo tempo logo depois da piscina. Nem que tenha ouvido a nossa discussão por acidente, caso tenha passado pelo corredor na hora. Por Deus! Espero que Peggy nunca desconfie de nada do que aconteceu entre nós. Explicar nosso envolvimento seria complicado; explicar por que tudo terminou, seria muito doloroso.
— Certo. E... — Jarvis limpa a garganta e olha ao redor mais uma vez. — E o Sr. Stark?
Assim, ele enfim vai direto ao ponto.
Sem me abalar, decido responder com a verdade pura:
— Da última vez, estava no escritório.
O mordomo estreita um pouco o olhar.
— Ele tomou o café da manhã que a senhorita levou mais cedo?
Impossível não me sentir péssima de novo ao lembrar exatamente de cada minuto no laboratório, quando tive a ideia inocente de levar a bandeja com o café para ele. Impossível não sentir... Bom, dor ao recordar as palavras duras que Howard destilou a mim.
— Não. Acho que estava mesmo sem apetite.
Disfarço a tristeza da melhor maneira que consigo, rezando para o homem na minha frente mudar de assunto.
— E o humor? Continua péssimo?
Que Deus me ajude...
Solto um suspiro meio cansado e digo a primeira coisa que me vem a cabeça:
— Bom, se ainda estiver, o problema é dele. Eu, sinceramente, não me importo.
O Sr. Jarvis franze o cenho um tanto alarmado. Para meu desespero, não parece satisfeito com a resposta e, meio sem jeito, contrapõe devagar:
— Longe de mim soar indiscreto, peço que me desculpe de antemão se estou me intrometendo, mas a senhorita chegou tão radiante hoje que eu pensei que poderia dar um fim a esse mau humor misterioso do Sr. Stark. Pelo visto... me enganei?
Limito-me a assentir com um meneio de cabeça e, dessa vez, o Sr. Jarvis não faz mais perguntas. Ao invés disso, fica pensativo por alguns instantes e, quando volta a se pronunciar, é muito gentil e cauteloso ao sugerir:
— Correndo o risco de parecer intrometido de novo, se tiver algo que eu possa fazer para ajudar, não hesite em me dizer.
Sorrio fraco para ele.
— Obrigada. De verdade.
Mas não há nada que você ou qualquer um possam fazer, apenas penso.
Nesse momento, um ruído vindo do andar superior chama nossa atenção e nos viramos para olhar a escada ao mesmo tempo. Howard está no topo dela. Ele vem descendo um tanto apressado, carregando uma... mala.
— Sr. Stark! — O mordomo vai até ele de pronto. — Deixe-me ajudá-lo com isso!
Seria muito infantil se eu saísse de fininho antes que Howard pise no último degrau e me veja aqui?
Oh... tarde demais, ele ergue o olhar e encontra o meu antes mesmo de terminar de descer a escada. Hesita por um segundo antes de continuar.
— Não sabia que ia viajar, senhor — Jarvis comenta e, por alguma razão, sua voz fica em segundo plano, distante, quase como se nem estivesse presente de fato.
É essa a sensação que tenho enquanto o patrão dele continua se aproximando, seguindo o mordomo até o centro da sala onde estou. Como se houvesse apenas nós dois aqui.
Embora eu esteja magoada por tudo o que houve, não consigo dizer ao meu coração para não ficar feliz ao vê-lo. Contrariando qualquer lógica, orgulho próprio ou instinto de preservação, ele fica e bate mais acelerado. Volto a sentir aquela saudade inconveniente.
Será que sou capaz de esquecer Howard Stark? Será que vou conseguir um dia?
Abandono essas questões ao notar algo intrigante no semblante dele. Algo que me leva a franzir o cenho enquanto me pergunto se estou imaginando. É impressão minha ou Howard está... ruborizando diante de mim?
— Sr. Stark? — Jarvis lhe chama.
Dessa vez, a voz do mordomo parece mais alta e irrompe a espécie de bolha que havia envolvido a mim e nosso infame patrão.
Howard desvia do meu olhar e se concentra no que ele diz a seguir:
— Quando decidiu viajar? E para onde vai? Sem dúvida, posso levá-lo até lá...
— Não é necessário, Jarvis — Howard o interrompe, parecendo muito desconfortável com essa situação.
Não posso negar, entendo-o perfeitamente. Ele está parado feito uma estátua na minha frente, eu estou parada diante dele feito uma estátua e segurando uma flanela. Enquanto isso, o Sr. Jarvis está ao lado dele, olhando de um para o outro, visivelmente agoniado por não saber o que aconteceu conosco, mas sem dúvida convencido de que não foi algo muito bom.
— Se me permite, eu posso convencê-lo a não ir então. Tenho certeza que não é uma viagem assim tão urgente.
Ah! E claramente quer nos ajudar... como cupido.
— É inadiável — Howard lhe corta mais uma vez, de modo tão firme que não deixa espaço para o coitado argumentar.
Derrotado, o Sr. Jarvis diz com desânimo:
— Eu levarei a bagagem até o carro.
— Ótimo, vou com você.
Howard se move um centímetro e, dessa vez, quem lhe corta é ele:
— Não! Digo... Espere aqui, Sr. Stark. Eu colocarei a bagagem no porta-malas e trarei o carro para mais perto da casa. Buzino quando estiver pronto.
Fico tão surpresa quanto Howard aparenta ficar. Ao que parece, o mordomo não vai desistir tão fácil e está tramando algo.
— Que bobagem, Jarvis! O carro não está tão longe. E mesmo que estivesse, caminhar pelo jardim até ele não será nenhum sacrifício.
Tramando algo como nós deixar sozinhos!
Antes que eu pense numa maneira de sair pela tangente sem me importar caso seja infantil, e antes que Howard tenha tempo de contra argumentar, ele dispara o plano no ar:
— Faça companhia a Srta. Carbonell enquanto me espera! Eu não demoro! Com licença!
Em seguida, Jarvis mesmo dispara porta afora, levando a mala consigo.
Por um longo e constrangedor momento, ficamos olhando para a saída. No mais absoluto dos silêncios. Acho que nenhum de nós acredita que isso está acontecendo. E claro, o pior, nenhum de nós sabe lidar com o plano de nos deixar a sós.
— Muito sútil, não? — Howard rompe o silêncio primeiro, fazendo-me voltar o olhar em sua direção. Embora tão embaraçado quanto eu, ele ainda consegue fazer certa graça ao comentar: — Só perde para uma manada de elefantes.
Com certo terror, percebo que agora sou eu quem está corando. Feito uma idiota, aposto.
Numa tentativa de dispensá-lo e pôr um fim nesse momento desnecessário, digo com cuidado:
— Não precisa me fazer companhia.
Silêncio. Howard fica sério.
— Eu sei.
Embora concorde comigo, não se move um centímetro em direção à porta nem faz qualquer menção de se afastar. Ao invés disso, continua estagnado bem aqui, olhando para mim, quase como se pretendesse dizer alguma coisa, porém estivesse indeciso ou não soubesse quais palavras usar.
Só pode ser imaginação minha. O que mais ele teria a me dizer? Tenho certeza que nós já dissemos tudo um ao outro. Talvez até falamos além da conta e por isso nos machucamos tanto.
Ainda assim, para preencher o novo e aterrador silêncio, comento a primeira coisa que me vem à mente:
— Você vai viajar.
Não foi uma pergunta, porém acho que ainda assim é um comentário impertinente.
Olho para qualquer lugar, menos para Howard, e retiro o que disse:
— Desculpe, não é da minha conta.
— Não é uma viagem de lazer — ele esclarece um momento depois.
— Se fosse, também não seria da minha conta.
E eu não devia estar triste com a partida dele, ainda assim estou. Muito. Será que minha presença aqui é tão insuportável e por isso Howard prefere viajar tão de repente?
Como se lesse meus pensamentos, ele explica:
— Eu preciso me afastar um pouco. Por um tempo e para trabalhar. Já tinha mencionado para Peggy que estava cogitando isso. Quase mudei de ideia, mas...
— Mas decidiu viajar mesmo assim — completo quase sem perceber.
— Acho que será melhor.
Há certo pesar em sua voz. E há mais alguma coisa também. Uma dúvida no ar. Um espaço para eu dizer algo. Se não fosse maluquice, eu diria que, talvez, Howard esteja querendo que eu discorde dele.
Uma parte de mim, que martela dentro do peito, acha que eu deveria fazer exatamente isso. Por mais ilógico que seja, não quero que ele vá embora. Por outro lado, também não o quero por perto. Será mais difícil esquecê-lo com ele por aqui.
Será que é disso que se trata? Howard decidiu viajar para me dar algum espaço?
— Estou indo para uma das minhas sedes. Os laboratórios lá são maiores, tenho mais equipamentos e materiais à disposição. Além disso, um pouco de isolamento vai ser ótimo para me concentrar e colocar a mente em ordem.
Ou talvez ele é que precise de espaço e distância de mim por um tempo. Algo encolhe no meu peito.
— É muito longe? Digo... O senhor vai de carro mesmo?
Não sei por que pareço ansiosa e nem por que pergunto tais coisas. Nada disso importa. Aliás, também não sei por que estou alimentando essa conversa inútil!
— Posso te pedir para não me chamar assim?
Distraída com os últimos pensamentos, fico um tanto desnorteada com seu ar incomodado.
— Assim como?
Howard estreita o olhar e inclina um pouco a cabeça, analisando-me como se a resposta fosse óbvia. Admito que ela é mesmo. Antes que ele esclareça, eu já tenho uma boa ideia do que se queixará.
— De senhor — ele confirma o que eu esperava. — Ou, o igualmente terrível, Sr. Stark. É como se perfurasse meus ouvidos toda vez. — Howard me lança um olhar diferente, mais... vulnerável. — Dói.
Engulo em seco. Fica claro para mim que não são apenas os ouvidos dele que doem. É o coração.
Consigo compreender porque eu mesma sinto isso quando ele se refere a mim como Carbonell. Como, aliás, me chamou lá no seu escritório no final da última discussão.
Última discussão. Que pensamento fatalista, não é mesmo? Ainda assim, é verdade, foi a última.
Um tanto impaciente, talvez por eu não ter respondido nada ainda, Howard retoma o assunto anterior:
— Sim, é longe. Vou pegar um jatinho depois.
Tudo o que digo, apenas para não deixá-lo falando sozinho, é um apático:
— Entendo.
Sabe o que eu não entendo? A impertinência do Sr. Jarvis. Aposto como nem chegou ao carro ainda. Ou, se chegou, está protelando trazê-lo para mais perto da mansão e buzinar, como mencionou que faria.
É nítido que está bancando o cupido, esperando que qualquer desentendimento entre mim e Howard possa ser solucionado nos deixando sozinhos e nos obrigando assim a falar um com o outro.
Em outros tempos, eu acharia a atitude muito bonita, até fofa, porém hoje só consigo me sentir desconfortável com esse plano absurdo. Tão desconfortável que evito olhar para o homem na minha frente de novo.
Outra coisa que não entendo é justamente ele. Por que Howard não coloca um fim nisso de uma vez? Por que ainda está aqui? O que espera conseguir com esses minutos extras? Já ficamos a sós antes e só pioramos tudo.
Mesmo sem vê-lo diretamente, sinto seu olhar sobre mim. Intenso e desarmado.
Nesse momento, uma possibilidade ressurge. Acho que Howard não está tão resoluto assim em relação à viagem. Talvez espera que eu o faça mudar de ideia mesmo. Talvez que eu até lhe peça para ficar com todas as letras, caso me diga algo diferente, como... a coisa certa.
E o que seria a coisa certa? Não há nada que ele possa me dizer que vá mudar como me sinto. Nada que vá me convencer de que a nossa história não acabou. Porque é isso, ela acabou.
— Maria, eu...
A contragosto, volto-me para ele de novo. E encontro aquele olhar vulnerável e o misterioso rubor no seu rosto mais uma vez.
Cada parte de mim vacila. Quero vencer nossa distância e abraçá-lo. Bem forte. Quero beijá-lo com paixão e acreditar que estou enganada, que ainda não é o fim.
Só que não posso fraquejar agora. Não posso me iludir e sofrer de novo.
Howard dá um passo à frente e, nesse instante, parece muito firme e decidido. Há um brilho caloroso em seus olhos. Um brilho que me abala de maneira profunda e faz meu coração martelar tão forte que chega a doer. Fico meio sem ar.
Seguro com mais força na flanela, apertando-a entre os dedos, como se minha vida dependesse disso, de me concentrar em qualquer outra coisa nesse momento.
Não posso criar expectativas, ter esperanças, me envolver de novo. Não posso!
Howard pigarreia para limpar a garganta.
— Eu preciso te dizer uma co...
— Faça uma boa viagem, Sr. Stark! — interrompo-o de supetão, dando um passo para trás.
E outro passo quando constato no seu semblante como essas palavras o atingiram em cheio. Especialmente porque o chamei do jeito que ele pediu para eu não tratá-lo mais.
Não me orgulho dessa atitude proposital, porém se é o único jeito de silenciá-lo e me preservar, que seja.
Afasto-me mais um pouco, incapaz de encarar o desalento em seus olhos por mais tempo. Sinto-me horrível por ter causado isso, mas está feito.
Paro ao lado da janela que limpava antes do Sr. Jarvis chegar e fico olhando para a flanela em minhas mãos. O tempo parece ter estagnado ao nosso redor, frio e implacável.
— Obrigado — Howard diz em dado momento, a voz sem emoção.
Ele permanece imóvel. E nada do Sr. Jarvis buzinar.
Acabo erguendo o olhar, profundamente sem jeito e arrependida por ter ferido Howard com a interrupção seca. Pelo menos, não encontro ressentimento na maneira como me encara de volta, apenas... resignação.
Ele esboça um sorriso amarelo e meneia a cabeça, assentindo, como se me compreendesse, afinal.
— Fique bem, Maria.
É a última coisa que diz antes de caminhar rumo à porta. E cruzá-la sem olhar para trás.
Sinto um vazio imenso me consumir e só então percebo que ainda estou meio sufocada. Inspiro lentamente e solto a respiração.
— Vou ficar — murmuro baixinho, só para mim.
Viro-me para a janela e acompanho Howard com o olhar enquanto ele vai embora, apressado.
Tenho que ficar bem.
E para começar a esquecê-lo, devo parar de me perguntar o que ele tinha a dizer, certo?
Será que era importante? Não consigo evitar tal pensamento.
Um pensamento inútil porque, ao que tudo indica, nunca saberei o que Howard estava prestes a me dizer.
Mais tarde
Foi ingenuidade imaginar que com Howard longe da mansão, eu pensaria menos nele. Não importa o que eu faça ou para onde vou, cada canto desse lugar está impregnado pela presença dele.
Os autorretratos nas paredes onde me deparo com aquele sorrisinho enviesado a cada cômodo, a biblioteca onde tivemos tantos embates e onde o beijei pela primeira vez, o sofá para onde ele me trouxe no dia em que eu bati a cabeça e desmaiei no jardim, o próprio flamingo Bernard aqui fora, que me atropelou naquela ocasião e causou o desmaio. Tudo, exatamente tudo me traz uma lembrança dele.
Desanimada, pego o jornal que Howard abandonou aqui perto da piscina, sobre a pequena mesa entre as espreguiçadeiras. Folheio algumas páginas, perguntando-me por qual delas ele passou os dedos, para quais dedicou o seu olhar mais atento, quais leu de verdade.
Estou prestes a devolver o amontoado de papel para o mesmo lugar quando me deparo com a seção de vagas de emprego. E assim, sou transportada para mais uma lembrança, a primeira delas, o anúncio infame que Howard publicou no jornal e eu li com muita indignação.
Não sei se foi o acaso ou o destino, mas foi ao ler aquele anúncio que tudo começou.
Nada mais natural que agora tudo termine comigo procurando outro anúncio, certo? Um que não foi escrito por Howard, um elaborado por qualquer outra pessoa à procura de alguém para qualquer outra ocupação.
Eu já havia tomado ciência de que não poderia continuar trabalhando aqui, contudo agora essa certeza fica mais forte e me dedico a ler cada descrição de vaga.
— Ele ficará de coração partido.
Uma voz conhecida fala um pouco atrás de mim.
Pega em flagrante, viro-me um tanto sobressaltada na direção dela.
— Peggy!
Ela concentra o olhar no jornal em minhas mãos.
— Qual o problema em trabalhar aqui? A jornada é muito desgastante? A remuneração não é tão boa? O Sr. Jarvis, muito metódico? Ou o patrão é muito excêntrico?
Por onde devo começar? Oh, certo! Não posso, pois ela não sabe de nada e quero que continue assim.
— É tudo muito... complicado — limito-me a dizer.
— Aposto que é. — Peggy faz uma pausa. — Howard já sabe da sua intenção?
Lembro da difícil conversa no escritório, quando ele mencionou algo sobre minha carta de demissão e eu garanti que logo ele a encontraria sobre a mesa.
— Sabe.
— Mesmo assim, ele vai ficar arrasado quando você for embora.
Franzo o cenho, analisando-a. Por que Peggy está falando desse jeito comigo?
Como se lesse minha pergunta, ela se põe a explicar:
— Ele me pareceu muito satisfeito por ter contratado você e fez elogios aos seus serviços como arrumadeira.
— Fez?
— U-hum.
Por algum motivo, não acredito nela. O que me leva a novas questões. Por que Peggy estaria mentindo? Com o intuito de me enrolar? Desconversar? Insinuar algo? Por quê? O quê?
— Encontrou algo interessante? — Ela pega o jornal das minhas mãos e se acomoda em uma das espreguiçadeiras.
Analiso-a com mais atenção, lembrando que não a vejo desde cedo. Desde que a deixei conversando com Howard à beira dessa mesma piscina. Pouco depois, ele foi atrás de mim.
Será que...
Uma suspeita surge e faz meu estômago afundar.
Tento me convencer que é uma suspeita infundada, entretanto não custa nada sondar para eliminá-la por completo.
— Aonde você estava?
Sem desviar os olhos dos anúncios, Peggy responde:
— Ah, dando uma volta na cidade. Achei que seria bom um passeio por aí enquanto...
Ela para de falar de repente, ergue a cabeça e olha em volta.
Enquanto o quê? Tenho vontade de gritar. A suspeita ganha força.
— Onde ele está? — Depois, concentra-se em mim e esclarece: — Howard.
Sinto uma pontada de tristeza. Disfarço do melhor jeito que consigo e respondo de maneira bem resumida:
— Viajou.
Peggy abaixa o jornal sobre o colo, espalhando um farfalhar de folhas pelo ar, e soa muito surpresa e indignada quando protesta:
— O quê?! Eu não acredito que ele fez isso! Por quê? — Ela para por um momento, dá um tapa no ar e dispensa: — Esqueça, eu me entendo com Howard depois. — Então, torna a se concentrar no jornal, as unhas pintadas de vermelho percorrendo alguns anúncios até parar em um deles. — Você tem alguma experiência com datilografia?
Eu devia guiar a conversa para esse lado. Só que não consigo desligar o alerta da suspeita dentro de mim. Preciso sondar mais. Como quem não quer nada, é claro.
— Peggy, será que eu posso te fazer algumas perguntas?
— Certamente já fez a primeira. — Ela ergue o olhar, sorri para mim e indica a outra espreguiçadeira. — Tudo bem, vá em frente.
Ajeito-me na frente dela e aperto as mãos no meu colo, ciente de que devo escolher bem as próximas palavras para que o feitiço não vire contra a feiticeira. Há uma grande chance da minha suspeita ser apenas isso, uma suspeita sem fundamento. Nesse caso, uma palavra mal empregada por mim, pode acender outro alerta. Só que em Peggy Carter.
Molho os lábios, controlo a ansiedade e começo do jeito mais tranquilo que consigo:
— Em um cenário hipotético, se te confidenciasse que eu estou de coração partido, o que você me diria?
Peggy estreita um pouco o olhar e rebate de pronto:
— Eu perguntaria, de forma sinceramente solidária, o que houve. Qual seria sua resposta, Maria?
Confesso que fico meio zonza com a rapidez do seu raciocínio.
Simplesmente preciso confirmar:
— Em um cenário hipotético?
— É claro. É disso que estamos falando, não? Apenas hipóteses?
Assinto com um meneio de cabeça. E com outro. Só mais um para que não reste dúvida.
Cruzo as pernas e apoio as mãos unidas sobre um joelho. Volto a apertar os dedos, ganhando tempo.
Tenho que pensar bem no que lhe dizer agora, pois tenho a estranha impressão de que Peggy é mais esperta do que eu imaginava.
Talvez seja um grande risco, um tiro no escuro, porém decido pegar o caminho mais fácil, o da verdade. Sem dar nome aos bois no tal cenário hipotético, é claro, prossigo:
— Bom, eu contaria que estou assim porque alguém, muito especial para mim, foi injusto comigo, duvidou dos meus sentimentos e intenções. E essa atitude rude e cruel me machucou demais.
Uma pontada martela no meu peito, levando-me a questionar se isso foi mesmo uma boa estratégia. Um ardor estranho nos olhos me diz que não foi.
Recomponho-me como posso e torno a olhar para a mulher na minha frente. Tento sorrir. Não tenho muito êxito.
Peggy me encara de volta, está mais séria. Sinto que está me escrutinando, o que me deixa um tanto acuada. Foi uma péssima ideia sentar aqui com ela e propor esse jogo. Claramente, estou perdendo.
— Nesse caso, eu diria que lamento e respeito a sua dor. E que entendo que você precise de algum tempo para curar a ferida.
Maldição, não posso chorar agora. Faço um esforço e retomo o controle.
— Mais alguma coisa?
— Sim. Apesar de você estar certa em ter suas reservas agora, eu te pediria para levar em consideração que esse alguém está muito arrependido do que fez e para não esquecer o quanto você é especial para ele também.
Sorrio de leve.
— Seria muito gentil dizer isso, Peggy, mas como você poderia saber?
Dessa vez, é ela quem sorri. De modo sútil e meio enigmático.
— Talvez porque eu conheça o Howard.
Fecho os olhos por um momento, aceitando o que eu tanto temia, que a suspeita era verdade. Peggy sabe.
— Touchè.
De repente, a raiva surge em cada terminação nervosa do meu cérebro.
— Aquele patife te contou tudo, não foi? — deduzo, entre dentes. — Miserável linguarudo. Eu vou matá-lo.
No entanto, para minha surpresa, Peggy esclarece:
— Não o crucifique, Maria, não foi preciso que Howard me dissesse coisa alguma. Na verdade, ninguém precisou.
Meu queixo cai por um momento. Sinto-me patética com o significado do que ela disse. Incrédula, simplesmente preciso confirmar que não compreendi errado:
— Você descobriu sozinha?! C-como?
— Uau! — Peggy apoia as costas na espreguiçadeira e me olha com descrença também. — É sério que vocês não percebem como olham um para o outro? É engraçado, ele teve a mesma reação quando eu revelei que já sabia de tudo.
Indignada, tento argumentar:
— Você chegou aqui há um dia!
Peggy dá de ombros e tudo o que diz é:
— Exatamente.
Abro a boca para protestar, só que não encontro uma palavra sequer para fazer isso. No fundo, ainda não acredito que ela percebeu o que acontecia entre eu e Howard. Estava tão nítido assim?
À medida que absorvo o que está acontecendo, encolho-me um pouco e escondo o rosto entre as mãos.
— Que vergonha... Eu posso imaginar o que você está pensando dessa história toda. O patrão e a empregada envolvidos. Ele, rico e com um extenso histórico de conquistas fugazes. Ela, provavelmente uma interesseira ou só mais uma iludida.
Tenho vontade de desaparecer. Não quero que Peggy me julgue mal assim.
— Eu sei que você me conhece muito pouco ainda, mas acredita mesmo que é isso que eu estou pensando de vocês?
Suas palavras me fazem olhar para ela de novo. Peggy parece um pouco... brava comigo? Encolho-me mais um pouco.
— A primeira vista, qualquer pessoa pode imaginar algo exatamente assim, tudo bem — ela reconhece. — O que eu vejo, no entanto, é diferente. Meu melhor amigo, até então um desgarrado na vida, se apaixona por uma mulher forte, mordaz e doce ao mesmo tempo que vira o mundo dele de cabeça para baixo. Ele comete erros, porque é imaturo e está aprendendo a lidar com algumas emoções. Creio que ela também cometa alguns erros, pois ninguém é perfeito. Acontece que os dois se importam demais um com o outro e duvido que consigam ficar longe por muito tempo.
Peggy esboça um sorriso, como se estivesse quase se divertindo às nossas custas. Confesso que uma boa parte do que ela diz faz sentido e fico aliviada por ela soar tão sincera, gentil e não nos julgar errado. Por um outro lado, uma parte me incomoda e não posso concordar com ela.
É preciso deixar claro que...
— Não posso falar por ele, mas eu vou conseguir.
Peggy, entretanto, escolhe não me ouvir e retoma o raciocínio:
— É uma história linda, Maria. Só que, infelizmente, algo desagradável aconteceu e nenhum de vocês está esperançoso sobre a continuação dela nesse momento.
Fecho a cara e seguro com força na espreguiçadeira.
— Esse é o ponto, Peggy. Não tem continuação, a história acabou.
— Não, você está enganada. — Ela sorri de novo, maldição. — Os personagens centrais só precisam de alguma ajuda nos próximos capítulos.
Antes que eu assimile o que ela quer dizer com isso, Peggy se levanta, meneia a cabeça em sinal de despedida e começa a se afastar.
Alarmada, coloco-me de pé também e não me importo se serei impertinente, preciso saber:
— Aonde você vai?
Peggy se vira para mim e sorri de modo simpático. E muito suspeito.
— Decidi viajar também. Voltarei para o meu trabalho em Los Angeles, na verdade. Claro que... passarei em um lugar a caminho de lá, pois será bom falar com um amigo antes.
Eu não devia perguntar, temo descobrir a resposta por mais óbvia que seja, mas...
— Que amigo?
Pelo olhar que Peggy me lança, tenho certeza que foi mesmo uma pergunta retórica.
— Só pode ser brincadeira... — protesto ainda assim, acrescentando com ironia: — Você e o Sr. Jarvis formam uma ótima dupla!
— Oh... Você não faz ideia.
Não faço mesmo. Não entendo o que há por trás desse comentário, porém algo me diz que Peggy não está se referindo à minha crítica velada sobre ela e o mordomo bancando os cupidos intrometidos.
Decido manter o foco da conversa e, sem conseguir esconder a indignação ressentida, argumento:
— Você disse que me compreendia por eu precisar de um tempo para me curar!
— Então você admite que pode se curar com o tempo? — Peggy é tão rápida nesse contraponto que fico sem reação. — Viu? Sinal de que a história não acabou.
Abro a boca. Fecho a boca. Sinto-me como um peixe fora d’água em busca de oxigênio. No meu caso, em busca do que dizer.
— Não é nada disso... E-eu... Acontece que...
Claramente, falho. Peggy Carter me pegou. É uma mulher muito, muito esperta. Mais uma vez, fui inocente ao supor que poderia vencê-la nessa discussão.
Antes que eu me recupere dessa humilhante constatação, ela muda de assunto:
— Ah! A propósito, eu apoio que você encontre outro emprego. Não pela razão que está te motivando a buscá-lo agora, mas apoio que procure novos desafios e crescimento por você mesma.
Ela apoia?! Mas como se, há poucos minutos...
— Você disse que ele ficaria de coração partido.
Cruzo os braços e arqueio as sobrancelhas numa expressão superior. Por um breve momento, acho que ganhei a batalha e deixei Peggy sem argumentos. Só que então eu reparo que ela está muito satisfeita com o que ouviu de mim e só então percebo o que ficou subentendido nas entrelinhas.
Depressa, assumo uma postura mais rígida, torço para ela não notar o rubor inconveniente em meu rosto e esclareço:
— Não que eu me importe.
É uma mentira deslavada. É claro que me importo. Apesar de tudo, não quero que o patife sofra. Vou tentar esquecê-lo porque acredito ser o único caminho, porém sempre me importarei com ele. Até meu último suspiro.
Pelo jeito como Peggy me encara de volta, é nítido que ela já sabe disso. É inútil tentar enganá-la dizendo qualquer coisa para camuflar meus sentimentos por Howard Stark.
Por isso mesmo, resolvo não lhe dizer mais nada. É uma forma de não subestimar sua inteligência e de evitar qualquer armadilha que eu mesma arme por acidente.
— O que deixará Howard arrasado não é perder a arrumadeira. É você sair da vida dele por completo, era a isso que eu me referia. Há uma diferença.
Claro que há. Ela tem razão.
No fundo, eu já ponderei esse cenário algumas vezes e sei do que Peggy está falando. Se não tivesse rompido com Howard hoje, eu poderia muito bem mudar de trabalho a qualquer momento, porém seria diferente. Howard questionaria no começo, porque não me veria mais quase o tempo todo aqui, porém estou certa de que logo entenderia as vantagens da mudança.
Sem dúvida, evitaríamos muitos conflitos se não houvesse mais a relação patrão e empregada em jogo. Quando eu viesse para cá, poderia simplesmente estar com ele sem me sentir desconfortável por misturar o pessoal com o profissional. Eu teria mais liberdade. Nós dois, mais leveza. Algo assim faria bem para a nossa relação de homem e mulher. Eu poderia conhecê-lo mais de perto e... amá-lo ainda mais.
Engulo em seco, silenciando esses pensamentos com certo custo. Nada disso importa agora porque acabou.
— Você pode ser bem mais do que a arrumadeira de uma rica mansão, Maria, nunca duvide do seu potencial — Peggy aconselha, chamando minha atenção de novo. — Já têm muitas pessoas lá fora para duvidarem de nós, não é mesmo?
Que mulher admirável. Com certeza, pelo simples fato de ter nascido mulher, enfrentou mais desafios na vida do que qualquer homem pode mensurar. E apesar de conhecê-la ainda muito pouco, algo me diz que venceu todos até aqui e o céu é o limite para ela.
Não consigo evitar sorrir. Peggy Carter é uma inspiração e tanto. E, nesse momento, decido que vou me lembrar dela sempre que encontrar algum percalço no meu caminho.
— Obrigada.
Pelo importante conselho profissional? Por ter sido tão gentil ao se aproximar de mim quando eu estava fragilizada pela briga com Howard mais cedo? Por não ter nos julgado mal, muito pelo o contrário? Pela amizade súbita e, ainda assim, já muito valiosa para mim? Por tudo, ora.
Ouso dar um passo em sua direção e abraço-a.
— Foi um prazer conhecer você, Maria — ela diz, abraçando-me de volta. — Espero te reencontrar num futuro próximo e que, até lá, o tempo já tenha feito o trabalho dele.
Uma parte de mim, talvez uma parte muito tola, pega-se desejando que isso aconteça, que ele cure essa maldita ferida, que Peggy tenha razão e esse não seja o fim da minha história com o gênio infame.
Ela se afasta o suficiente para me encarar de novo. Esboça um sorriso.
— Porque Howard e Maria ficam ótimos juntos. Acredite em mim.
Dito isso, Peggy se vira e caminha rumo à mansão, provavelmente para fazer as malas e se preparar para a viagem.
Suas palavras ainda ecoam dentro de mim quando ela cruza a porta e desaparece lá dentro.
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