Gênio Infame, Dama Mordaz
27 Cantoria e Assobios
“No qual uma pequena confusão acontece em frente ao Griffith.”
Depois de dirigir por uma Nova York ainda adormecida, assobiando uma certa melodia pelo caminho até cruzar o portão de casa, tomo um banho relaxante cantarolando a plenos pulmões a mesma canção.
Minutos depois, visto-me, ajeito bem o cabelo e aliso meu charmoso bigode para que fique ainda mais atraente. Aprecio o resultado no espelho, arqueando as sobrancelhas com meu ar naturalmente sedutor.
— Gênio e lindo. Como resistir? — Empertigo-me um pouco, estufando o peito. — Eu sei, é impossível.
Deixo o quarto assobiando a música romântica que não me sai da cabeça enquanto relembro os momentos prazerosos nos braços do raio de sol em forma de mulher.
Mais que prazerosos; momentos... plenos. Especiais de uma maneira que eu não sabia ser possível.
Com as mulheres que tive antes de Maria, era apenas o meu corpo ali. Já com ela, é algo mais, algo maior.
Descendo as escadas, mãos nos bolsos e postura altiva, percebo lindos raios solares atravessando as cortinas já abertas. Parecem anunciar um belo dia. Não; um magnífico, com certeza!
Ah, como a vida é maravilhosa!
— Sr. Stark?
Detenho-me no meio da escada e avisto Jarvis a postos na sala. Não sei a que horas esse homem acorda, ou mesmo se dorme em algum momento, mas já está impecável em seus trajes e bem composto como sempre.
— Por acaso estava assobiando... La vie en rose, senhor?
Do que adianta negar?
— Culpado — admito, erguendo as mãos ao descer o restante dos degraus. — O que posso dizer, Jarvis? É uma bela canção.
— De fato, é mesmo. — Com o cenho franzido, ele analisa meus pés e a escada atrás de mim. — E acabou de saltitar, senhor?
Saltitei? Ora! Talvez eu tenha saltitado um pouquinho, e daí?
— Se você tem alguma coisa a dizer, diga logo, homem.
Um brilho sutil de diversão perpassa o semblante do meu amigo e mordomo por um momento. Depois, ele se empertiga um pouco, a postura mais séria.
— Nesse caso, é muito bom vê-lo disposto assim, Sr. Stark. E tão... feliz, ouso observar.
Sorrio de leve, apoiando a mão em seu ombro. Jarvis olha para mim e o ar de diversão ressurge.
— Quer saber? Eu me sinto mesmo assim, disposto e feliz. Como um barco completo!
— É nítido que encontrou uma boa âncora.
A satisfação dele ao dizer isso é clara feito água.
— Não só uma boa âncora, Jarvis, mas a minha âncora. Tão... perfeita pra mim.
Sentindo-me meio bobo, disfarço como posso e vou até uma das janelas. Longe dos olhares de Jarvis, posso deixar mais um sorriso me vencer.
Avisto Bernard Stark dando sua voltinha matinal pelo jardim e sou acometido por uma vontade súbita de rodopiar com ele. Numa dança. Ao som de Édith Piaf, é claro!
Como se tivesse captado meu plano a tal distância, o flamingo ergue o pescoço esguio e lança um olhar na minha direção. Em seguida, corre em disparada pelo jardim com suas pernas compridas e um tanto desengonçadas. A penugem rosada logo desaparece atrás das roseiras.
— Ora essa... — resmungo baixinho. — Você parte meu coração, ingrato.
Decido deixar a dança para outro momento e pego a chave do Plymouth no bolso da calça. Arremesso-a no ar só para segurá-la com agilidade enquanto volto a assobiar.
— Pretende sair de novo, Sr. Stark?
Viro-me na direção de Jarvis.
— Sim, vou tomar o café da manhã no Marsh's. Antes, vou buscar... você sabe quem no Griffith.
— Por acaso não precisa de um motorista?
Os olhinhos dele brilham com expectativa. Seria muito insensível da minha parte dispensar Jarvis de algo que ele adora fazer: ajudar, ser útil, estar sempre a postos. Mesmo assim, acho melhor alertá-lo sobre um certo detalhe:
— Depende. Você suporta me ouvir assobiar o caminho inteiro? E cantar um pouco, talvez?
Ele assente de pronto, estende a mão para que eu lhe entregue a chave e afirma:
— Será uma provação, Sr. Stark, mas eu já estive na guerra. Creio que sou plenamente capaz de sobreviver a isso.
Estreito o olhar e lhe dou a chave. Não sem antes alfinetar:
— E o fato de eu pagar o seu salário? Não ajuda?
Jarvis pensa um pouco. Sorri como um perfeito e irritante cavalheiro.
— É claro. Tem isso também.
Abusado.
[...]
Jarvis sobreviveu ao caminho. Aliás, minha cantoria e assobios não pareceu irritá-lo, e sim diverti-lo. Em vários momentos, flagrei sorrisos que ele lutou para comprimir a fim de que não virassem risos de fato.
Ao estacionar rente ao meio-fio do hotel, no entanto, La vie en rose perde-se na minha garganta ao avistar a dama mordaz na escadaria. Mais do que isso, o verso afunda pesadamente em meu estômago ao perceber que Maria não está sozinha.
Pisco para ter certeza que não estou imaginando.
Não estou.
Há um homem diante dela. Segurando-a pelos braços. Tocando sua pele. Os dois muito perto um do outro.
— Não se preocupe, Sr. Stark. O cavalheiro deve estar apenas ajudando a Srta. Carbonell. Acho que eu a vi tropeçar um pouco antes.
Engulo em seco. Nunca me senti tão desconfortável. Nem mesmo quando comprei cuecas do tamanho errado por engano. Pequenas, ficaram apertadas demais em meus países baixos.
— Ela está perfeitamente equilibrada agora. Por que ele não a solta de uma vez?
Mal reconheço minha voz. Há algo rígido em cada palavra. Como se uma cueca pequena apertasse minha garganta.
Eu sei... é uma comparação esdrúxula, mas vocês entenderam, ora!
Ao mesmo tempo, uma sensação muito mais incômoda faz meu peito arder.
Eu, que nunca tive um concorrente em meus casos, vejo-me desnorteado por um completo estranho que se aproximou do raio de sol.
Será mesmo um mero estranho? Acho que não. O sujeito está de costas para a avenida, não posso analisar seu rosto, porém consigo captar o semblante de Maria daqui e ela parece... abalada? Sem dúvida, está boquiaberta.
— E por que os dois ainda estão tão perto?
Mais uma vez, Jarvis não diz nada.
De repente, o sujeitinho puxa Maria para um abraço. O infeliz!
E o pior ainda estava por vir! Meio hesitante, mas claramente emocionada, ela retribui, lançando os braços ao redor do pescoço dele e rindo.
Maldição. Ela solta uma gargalhada para ele. Um som melodioso que sempre arrepia minha pele, porém agora simplesmente gela o meu sangue.
— Tenho certeza de que há uma explicação razoável para isso, senhor. De certo, é algum conhecido da Srta. Carbonell. Um amigo que veio visitá-la.
Sei que a intenção de Jarvis é me tranquilizar, porém o efeito é totalmente o oposto. Uma insegurança súbita me domina ao deduzir que o atrevido misterioso abraçando Maria só pode mesmo ser algum conhecido. Mais do que isso, alguém importante do seu passado.
Uma parte de mim aposta que é o homem de quem ela pouco fala, mas que a marcou demais. O homem que teve a sorte de tê-la nos braços antes de mim e, por algum motivo tolo, deixou-a escapar. O homem sobre quem não fiz questão de pensar muito até agora e que, justo hoje, decidiu voltar para a vida de Maria.
Do carro, consigo ver um sorriso nos lábios dela. Um sorriso que se alarga. É perturbador. Bem como os olhos fechados em puro êxtase.
O sujeitinho infeliz ainda tem a audácia de tirar os pés de Maria do chão. O abraço se torna ainda mais forte e... íntimo.
— Já chega. — Abro a porta do carro com um rangido violento. — Eu não tenho sangue de barata!
— Sr. Stark! Espere!
Ignoro Jarvis e marcho rumo à escadaria. Ele vem logo atrás de mim, despejando um conselho:
— Não faça nenhuma loucura!
Meus dentes rangem. Cerro os punhos. Fuzilo o descarado logo à frente com um olhar fulminante.
— Não posso prometer isso, Jarvis. Loucura é meu outro sobrenome, não sabia?
No entanto, ao alcançar o casalzinho no meio dos degraus e notar que o tal homem é bem mais alto do que eu e mais parece um armário de tão largo e forte, engulo em seco.
Pretendia arrancá-lo dos braços de Maria e lhe dar um soco certeiro, mas mudo de ideia e acho melhor apenas cutucá-lo no ombro enquanto pigarreio e digo do jeito mais firme que consigo:
— Posso saber o que diabos está acontecendo aqui? Quem é você e o que quer com ela?
Ao ouvir minha voz e o tom raivoso que não consigo disfarçar, o raio de sol abre os olhos completamente alarmada e se desvencilha do sujeito.
Engulo em seco mais uma vez, só que agora é porque algo doloroso me atinge em cheio. Dói perceber a culpa que Maria sente diante do flagrante. Só pode ser isso, culpa. Eu ainda tinha esperança de estar enganado, mas parece que sou um tolo.
— How... — Maria meio que engasga, meio que respira, os olhos dardejando sem rumo certo. — Sr. Stark! O que faz por aqui?
A raiva torna a ferver em minhas veias.
— Oh! Quer dizer que agora eu voltei a ser o Sr. Stark? Que conveniente.
As bochechas de Maria ficam tão rosadas que eu acharia a imagem encantadora, se o cenário fosse outro.
Só que o cenário é péssimo e fica ainda mais quando o homem do seu passado olha para mim com as sobrancelhas unidas em completo desprezo e me devolve a pergunta:
— Quem é você e o que quer com ela, parceiro?
Armário ou não, decido enfrentá-lo em nome da minha honra e que se dane possíveis hematomas e fraturas que eu venha a sofrer. Olho para o alto e despejo num tom cínico:
— Não ouviu aí das nuvens, parceiro? Como a senhorita aí acabou de dizer, eu sou Stark, Howard Stark. E eu sou o...
O que sou de Maria exatamente? Titubeio, sem saber como definir em uma palavra.
— O meu patrão, ora essa! — ela se apressa em dizer, causando-me uma estranha decepção.
Não tenho muito tempo de refletir sobre isso, pois o infeliz olha de mim para Maria algumas vezes com as sobrancelhas franzidas na expressão que eu já detesto mais do que tudo.
— Seu patrão? — Ele ri. Maldito seja. — E desde quando você precisa trabalhar, Maria?
Mesmo sendo um armário, é nítido que o homem encolhe os ombros ao ser encarado com dureza pela mulher diante dele e se arrepende amargamente do comentário.
Não o julgo. Em seu lugar, eu também ficaria com medo, Maria pode ser assustadora quando pisam em seu calo.
Trincando os dentes, ela esclarece com a frieza de uma lâmina:
— Desde que eu deixei nossa cidade e vim para Nova York atrás da minha independência, seu idiota.
Tenho a impressão de que o sujeito vai reunir coragem para argumentar, entretanto, Jarvis surge entre nós bem nesse instante e se intromete na conversa:
— Com licença, Srta. Carbonell. Seria muito indelicado pedir que nos apresente o jovem cavalheiro, por favor?
Maria olha para o meu amigo com satisfação, e eu sinto que, por alguma razão, estou em maus lençóis.
— Oh! Muito obrigada por não tirar conclusões precipitadas e preferir me perguntar educadamente, Sr. Jarvis. Se todos os homens fossem assim, papelões enormes seriam evitados.
Apesar de responder a ele, é para mim que Maria olha. De um jeito nada satisfeito, devo dizer, numa clara alfinetada. O que acaba deixando o sujeitinho desconfiado.
— Okay... O que está acontecendo, Maria? — o traste pergunta.
— Nada! — respondemos os três em uníssono.
Eu porque não quero dar satisfações ao infeliz que caiu de paraquedas no meu dia antes tão perfeito. Jarvis porque é um apaziguador por natureza e deve ter julgado melhor desconversar do que explicar a indireta de Maria. E ela porque, apesar da alfinetada, parece não querer que o Armário Humano saiba sobre nós, já que me apresentou apenas como seu empregador.
Ainda um pouco afoita, Maria endireita a postura e faz as devidas apresentações:
— Jimmy, esse é o Sr. Jarvis, um amigo e colega de trabalho. — Os dois apertam as mãos brevemente, e Maria me encara com olhos de aço. — Sr. Stark, este é Jimmy Carbonell, meu irmão.
I-irmão?
Demoro um longo instante para absorver a revelação feita. Enquanto isso, o mundo mergulha num silêncio sepulcral.
Irmão. O sujeito é irmão de Maria. Apenas isso e nada mais.
Tão rápido quanto surgiu, o fantasma da insegurança se dissipa, levando junto com ele o monstro de olhos verdes do ciúme sem fundamento. Sinto-me um completo idiota. E também o homem mais aliviado do mundo.
E é assim, com alívio e espírito renovado, que me volto para Jimmy Carbonell com um sorriso simpático e a mão estendida em paz:
— Como vai, parceiro? É um prazer! Sua irmã me falou muito ao seu respeito.
É mentira, claro. Se Maria tivesse mencionado a existência de um irmão, essa situação embaraçosa não teria acontecido para começo de conversa.
— Assunto curioso entre patrão e empregada...
Rio um pouco nervoso, porém consigo pensar numa resposta rápida e (espero) que soe natural:
— Acontece que ela fala pelos cotovelos enquanto trabalha. Como eu moro lá, não me resta alternativa a não ser ouvir.
De soslaio, sinto um olhar feroz me fuzilando por alguns instantes. Tenho certeza que se estivesse mais perto de mim, Maria pisaria com força no meu pé. Por precaução, afasto-me um passo.
Ainda desconfiado, Jimmy hesita antes de enfim aceitar meu cumprimento. Só que ele aperta minha mão com muita força e balança por mais tempo do que o necessário, enquanto me escrutina com um olhar de águia.
Mesmo concentrado em não fazer uma careta de dor, consigo ver a semelhança com os olhos de Maria agora. É o mesmíssimo tom. Jimmy só não tem a borda verde na íris. Isso é uma marca peculiar e encantadora só da irmã dele.
Finalmente, o brutamontes larga minha mão. Disfarço como posso e massageio os dedos esmagados. Numa pose um tanto intimidadora para o meu gosto, Jimmy cruza os braços musculosos contra o peito e indaga de maneira direta:
— E o que o patrão da minha irmã faz em frente ao lugar que ela mora?
Maria e eu nos entreolhamos, como se assim pudéssemos encontrar a resposta perfeita. No entanto, é Jarvis quem nos salva ao expor uma versão da verdade:
— Eu estava levando o Sr. Stark para tomar o café da manhã perto daqui quando vimos a Srta. Carbonell e o senhor. Como ela pareceu um tanto abalada, imaginamos que pudesse estar em perigo.
Jimmy pondera um pouco. Ainda demonstra desconfiança.
— Eu só a abracei. — Depois de pensar mais um pouco, entretanto, ele sai da defensiva e emenda: — De qualquer forma, obrigado por se preocuparem com a segurança dela. Está cheio de aventureiros por aí, loucos para se aproveitarem de moças de família. Se eu visse um estranho abraçando Maria assim, pobre do sujeito... Não sobraria um músculo no lugar.
Engasgo do nada. Com o ar. Uma mão pesada bate nas minhas costas. Uma, duas, três vezes.
— Tudo bem aí, parceiro?
Afasto-me para o lado, erguendo a mão para dizer que já estou sim recuperado, embora ainda sinta a garganta seca e arranhada por espinhos invisíveis.
Ao desviar o olhar dele, tenho um leve sobressalto ante a expressão furiosa do raio de sol. Pelo menos, não é a mim que ela está fulminando agora.
— Eu sei muito bem me defender sozinha, Jim — afirma, os olhos cravados no irmão, que também se assusta um pouco. — Nem você, nem o Sr. Jarvis, o Sr. Stark ou o Papa precisam me defender dos malfeitores. — Maria mira cada um de nós ao pontuar isso e, se Vossa Santidade estivesse aqui, com certeza também teria sido encarado e tremido nas bases com tal olhar. — Ou dos idiotas.
A última parte, sinto que é só para mim. Está muito claro que Maria percebeu o meu ciúme e não gostou nenhum pouco da cena. Sendo franco comigo mesmo, também me detestei por agir assim. Fiquei cego e agi por um impulso que nunca havia sentido antes.
Se pelo menos eu pudesse dizer isso a ela agora... Só que não posso porque, para todos os efeitos, sou apenas o seu patrão, e não o seu... Namorado? Amante?
Jarvis limpa a garganta e, mais uma vez, age como o conciliador que é:
— Lamento pela intromissão. Nós já vamos indo. Com licença e foi um prazer conhecê-lo, Sr. Carbonell.
— Por favor, podem me chamar de Jimmy — o irmão do raio de sol diz e, pela primeira vez, lança um sorriso simpático a nós dois.
Por um momento, é como se eu tivesse levado uma pancada na cabeça pois permaneço no lugar, esperando Maria nos acompanhar.
Demoro a compreender por que Jarvis apoia a mão em meu ombro e por muito pouco não bato com a língua nos dentes.
No último instante, logo depois de Maria me fitar com um olhar de alerta na verdade, entendo que o café da manhã romântico não vai acontecer. É hora de bater em retirada.
Conformado, porque não tem outro jeito afinal, espalmo o ombro do brutamontes e me despeço dele:
— Parceiro. — Depois, volto-me para Maria. — Até mais tarde... Srta. Carbonell.
— Sr. Stark. — Ela anui com a cabeça, as bochechas levemente rosadas de novo, porém a insatisfação comigo ainda presente quando alfineta: — Prometo não falar pelos cotovelos hoje.
Das duas uma: ou Maria vai me dar um gelo, não me dirigindo a palavra o dia inteiro, ou fará justamente o contrário... Falar, falar e falar, reclamando do meu comportamento à exaustão, até eu desejar a surdez como escapatória.
Viro-me para descer os degraus e sigo para o carro com Jarvis ao meu lado. Um estranho vazio me acompanha. Sem assobios ou cantoria, prefiro o completo silêncio dessa vez.
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