Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I
38 Porta Para Um Novo Mundo
“Nosso legado de bondade e maldade é construído e se encerra aqui, quando as luzes da vida se apagam e as cortinas se fecham. Não esteja apenas aqui… faça valer a pena.”
— Aleff Lavoisier
—-------------O--------------
ROSE
O segundo ano encerrou-se de uma forma que eu jamais havia sequer sonhado.
Depois de tudo que havia acontecido nos últimos tempos, minha perspectiva quanto ao futuro havia sofrido uma reviravolta radical.
Agora que eu já sabia o que me aguardava, sentia que os eventos vindouros teriam um impacto maior do que eu havia imaginado em minha vida. Mesmo sabendo que – ao menos, à partir de agora – eu não estaria mais sozinha naquela empreitada, meus receios só haviam aumentado.
Por hora, havia decidido deixar tudo aquilo de lado. Eu precisava despedir-me de mais um período escolar de uma forma digna, sem ficar encucada com preocupações tão longínquas.
Para minha sorte, Alvo, Scorpius e Hugo haviam respeitado isso.
Porém, me sentia mal por ter que manter Scorpius longe da verdade – ao menos por hora. Mas eu não estava pronta para lhe revelar tudo.
E esta minha decisão cobraria um preço amargo no futuro.
Assim que a cerimônia de encerramento terminou – com uma grande festança, já que Corvinal, pela primeira vez em anos, recebia a Copa das Casas –, depois das despedidas se encerrarem, começamos a embarcar no Expresso de Hogwarts, prontos para tomar o nosso caminho de volta à Londres.
Para nossa surpresa, Queenie Goldstein sentou-se conosco na cabine, acomodando-se timidamente a meu lado, com um largo sorriso estampado no rosto.
Ainda me surpreendia com a simpatia e vigor que uma bruxa de quase cem anos podia expressar.
— Fico feliz que todo aquele impasse tenha se resolvido, Rosie – ela comentou, lançando uma piscadela amável na direção de Scorpius e Alvo – eu fiquei tão preocupada naquela noite…
Assenti, repentinamente relembrando de algo que ela havia me dito no início do ano.
— Sra. Goldstein… — ofeguei – quando disse que não conseguia ler minha mente… — perguntei, ciente de que Queenie certamente sabia sobre meu segredo – é por que…?
— Sim – concordou – de fato, querida… você e sua mãe… são verdadeiros mistérios para minha Legiminência – brincou – diria que é mais uma das vantagens de você ser… você.
Fiquei amuada, baixando o olhar pensativamente. Sabia que Scorpius nos encarava de maneira desconfiada, remoendo-se para tocar novamente no assunto que sabia ser tabu.
— Então… o que a senhora vai fazer agora? — Alvo falou – vai voltar para os Estados Unidos?
— Sim, Alvo… vou sim – Goldstein o encarou – na verdade, um dos intuitos de eu ter me hospedado pro tanto tempo em Hogwarts… de certa maneira… — riu-se – foi justamente por causa de nossa jovem Weasley aqui.
Ofeguei, erguendo a sobrancelha.
— Por minha causa?
— Eu nem vou perguntar por que – resmungou Scorpius – é segredo de Estado, provavelmente. Aposto minha bunda branquela nisso.
Fechei a cara para ele, enquanto Alvo mordia o lábio, aparentando reprimir uma gargalhada. A bruxa também riu, sacudindo a cabeça para ele, num falso gesto de censura.
— Sim… e não, Sr. Malfoy – declarou – entenda… – sua voz perdeu um pouco da amabilidade, tornando-se mais séria e tensa – o mundo como o conhecemos… já não será mais o mesmo. As mudanças estão a caminho… — acrescentou sombriamente – e não tardarão a chegar.
Nós três trocamos olhares, retraídos.
Alguém bateu à porta da cabine. Queenie se ergueu, abrindo a fresta, meneando o queixo para um recém-chegado oculto.
— Ah, pelo amor de Deus – ralhou Alvo, esbarrando em Scorpius, como quem já começou a calcular o pontapé que daria nele – se beijem logo.
Meu rosto esquentou, enrubescendo absurdamente. A pele pálida de Scorpius adquiriu um anormal tom cor-de-rosa, e ele arquejou, fechando a mão em punho ameaçadoramente.
No entanto, por alguma razão, meu constrangimento não parecia ser devido à inconveniência do meu primo.
Parecia ser… algo bem mais profundo.
— A-Alvo! — guinchei.
Antes que Scorpius moesse Alvo de tapas, Goldstein virou a cabeça em nossa direção, fazendo uma careta.
— Tenho que ir agora, meninos – disse, abraçando e beijando cada um de nós – mandem lembranças aos seus pais, está bem? Quem sabe não voltemos a nos ver em breve… — encarou-nos afavelmente – se cuidem….
Assentimos em concordância, acenando para Queenie, que retirou-se da cabine logo em seguida.
— Droga… vou sentir falta dessa mulher doida – Alvo nos disse, risonho.
Funguei,
— Que Deus permita eu chegar aos cem anos… ou envelheça conservada desse jeito… — acrescentei, mostrando a língua – ou os dois. Ahn… é.
Rimos em conjunto, finalmente desmanchando a atmosfera tensa que havia se instalado dentro do vagão do trem.
Assim que desembarcamos na estação de King's Cross, encontramos nossas famílias aguardando na plataforma, acenando em meio à espessa névoa da maria-fumaça.
Alvo abraçou Scorpius, já disparando na direção dos meus tios. Cumprimentei-os com um meneio da cabeça, sorridente, logo vendo meu primo, finalmente, desaparecer em meio à fumaça.
— Scorpius!
Meu amigo balançou o braço na direção dos pais, num pedido mudo de espera.
— E´…. — sorriu, virando-se para mim – agora… só ano que vem.
— Sabe que pode ir nos visitar, Scorpy – observei.
— É. Eu sei…. — deu de ombros – tem razão.
Não aguentei.
Arquejei, puxando-o para um abraço apertado.
— Rosie! — exclamou.
— Você é o melhor amigo do mundo, escorpião – gracejei, deitando a cabeça em sua nuca.
Ele riu, sacudindo o corpo.
— E você é a amiga mais louca, rosinha.
Scorpius me soltou, segurando minhas mãos.
— Prometa que vai ao menos me mandar uma carta – disse – principalmente… se quiser conversar… sobre qualquer coisa.
Sabia que ele se referia ao que eu ainda escondia dele.
— Eu prometo – jurei.
Ele assentiu, sorrindo.
— Até mais, Rosie.
Me doeu ver que seu olhar ainda transmitia uma mágoa velada, conforme virava-se na direção da família. Eu queria tanto poder lhe contar…
O vi encarar-me uma última vez.
E então, Scorpius adentrou na neblina, desaparecendo de vista.
— Quer ajuda com a bagagem, Rosie?
— Não… obrigado, mãe.
Papai e Hugo haviam saído de casa, sob o pretexto bizarro de ir buscar algo que o destrambelhado do meu irmão havia esquecido no material de Alvo.
Eu mal havia desfeito as malas, mesmo depois de Hugo e eu chegarmos em casa. Estava estirada na minha cama, encarando o teto, na típica pose de uma pessoa que estava sofrendo uma séria crise existencial.
Porém, tinha certeza que nenhuma criança de doze anos, em todo o planeta, teria uma crise existencial como a minha. Nenhuma delas se encontrava diante de um paradigma tão assustador.
Previsivelmente, minha mãe entrou no quarto poucos segundos depois.
Baixei o olhar, sem erguer a cabeça, fitando-a de onde estava.
Depois do que havia presenciado na Redoma da Wicca, já não conseguia mais ver aquela mulher da mesma forma.
Ainda me recordava, arrepiada, daqueles deslumbrantes olhos prateados.
Conciliar aquela imagem com o rosto bondoso que me fitava agora parecia quase impossível.
— Está tudo bem? — sussurrou, recostando-se na porta.
Bufei.
— Tirando o fato de que eu sou protagonista de uma profecia, possuo um poder que nem sei controlar e que ando guardando segredos do meu melhor amigo? — funguei, desanimada – estou ótima, mamãe.
Ela aproximou-se, sentando na beirada da cama, afagando meus cabelos.
— Eu realmente fiz uma tremenda burrada – comentou, sorrindo de maneira triste – não é mesmo, minha flor?
Olhei-a de soslaio.
— Somos Weasleys, mamãe – revirei o olhar – fazer burrada está no nosso sangue.
Funcionou. Mamãe gargalhou, sacudindo-se de humor.
Espantada, vi a luz do quarto acender-se repentinamente, oscilando curiosamente, no mesmo ritmo de sua risada.
— Ah.. — ofegou, percebendo o que havia chamado minha atenção – eu tenho alguns lapsos de vez em quando.
Estreitando o olhar, finalmente ergui as costas, sentando-me no colchão.
— Mãe… — murmurei – a senhora é a bruxa mais inteligente, disciplinada e extraordinária que eu já conheci. Parando para pensar… — soltei um suspiro – você nasceu para ser… uma Wicca. Mas eu… — ergui as mãos – eu mal sei qual meu lugar neste mundo. Sou tão… instável… — baixei o rosto – sei que vocês vão querer me ajudar… mas eu nunca conseguiria… — contraí os dedos – ser como você…
Distraída, surpreendi-me quando ela segurou minha mão.
— E eu tampouco espero que você seja como eu, Rosie – encarei-a, admirada – não… meu objetivo não é fazer com que apenas herde esse legado. Agora que você foi escolhida em nossa linhagem… apenas faremos com que se torne a Wicca que está destinada a ser – afagou meu rosto carinhosamente – você é um diamante bruto… que precisa apenas ser lapidado. O poder já é seu… iremos apenas moldá-lo.
— E como eu vou fazer isso? — exclamei – mãe… eu sou algo que ninguém sequer suspeita existir… como aprenderei a usar esse poder… e ainda mantê-lo em segredo?
Ela passou a mão pelo próprio ombro, baixando a manga da blusa.
Saltei o olhar, admirando, em sua pele, uma cicatriz que nunca havia reparado antes – um tipo de queimadura circular, com traçados familiares.
— O Pentagrama – ofeguei, pasma.
Vi-a assentir.
— Quando me descobri como Wicca… — contou — McGonagall disse uma coisa… que eu jamais consegui esquecer – proferiu em tom baixo — “Algumas maldições são imperdoáveis... outras são um fardo... mas algumas podem se tornar uma bênção. Caberá a você escolher... entre a luz e as trevas.” — encarou-me – nem todos os obstáculos em nosso caminho foram feitos para nos enfraquecer, querida. Assim como a espada de Gryffindor… você aprenderá a absorver apenas o que te fortalece.
Abri um meio sorriso.
Quando queria, minha mãe era uma verdadeira sábia. E aquilo só tornava aquela bruxa ainda mais extraordinária.
— Ok – foi tudo que consegui dizer, embora quisesse ter elaborado uma resposta mais coerente – mas… você não respondeu minha pergunta.
Ela ergueu-se da cama, postando-se à minha frente.
— Venha comigo, Rosie – pediu – quero lhe mostrar uma coisa.
Assim que descemos, minha mãe acompanhou-me aos fundos da casa.
— Lembra-se de chave que lhe presenteei no Natal passado?
Concordei com a cabeça.
— Accio chave.
A chave prateada levitou pelo corredor, indo pousar suavemente na mão de mamãe. Respirei fundo, intrigada, encarando sua expressão soturna.
Foi quando percebi onde realmente estávamos.
A misteriosa porta trancada — aquela que sempre havíamos sido proibidos de tentar cruzar. O único lugar de meu lar que eu realmente nunca havia tido a chance de conhecer.
— Mãe…?
Ela fitou-me. Suas feições eram neutras, mas havia algum tipo estranho de tempestuosidade em seu olhar.
— Você poderá fazer uma escolha agora, Rosie – falo, num tom de voz solene – esta chave abrirá esta porta… e o que verá aqui dentro fará parte de você… pelo resto de sua vida. Se escolher entrar… assumiremos que vai aceitar a maldição… e que decidiu se tornar uma verdadeira Wicca.
Enrijeci.
— E se eu escolher ficar…?
Sua expressão amansou-se levemente.
— Então entenderei que não se sente pronta para isso… e farei o possível para que consiga reprimir qualquer descontrole. Terá a vida mais normal que pudermos arranjar… e o mundo jamais saberá sobre seu segredo, mesmo quando se tornar adulta. Quanto à profecia, daremos um jeito em qualquer um dos casos – baixou a cabeça, suspirando – não precisa decidir isso agora… — avisou – mas, quando tomar a decisão… não haverá volta, Rosie. Então... peço que ouça seu coração.
Mamãe colocou a chave em minha palma.
Era um verdadeiro dilema.
O que eu decidiria? Aceitaria aquele fardo, que o Destino havia jogado sobre mim? Ou continuaria tentando viver como uma garota normal, fingindo que nada havia mudado?
Sacudi a cabeça.
— Cansei de fugir, mamãe – declarei, convicta – ignorar isso seria viver uma mentira – acrescentei – e estou farta de mentiras.
Aproximei-me da porta, colocando a chave dentro da fechadura, girando-a.
Hesitei por um momento, segurando a maçaneta.
Senti as mãos de minha mãe pousarem em meus ombros.
Desta vez, foi fácil perceber que não estava mais em sua forma comum.
— Estou com você, minha estrela – ouvi-a sussurrar, em sua resplandecente voz inumana.
Assenti, vincando a testa.
E então, determinada, finalmente rodei a maçaneta, abrindo a porta.
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