"Não há segredos que o tempo não revele."

Jean Racine

—------------o------------

ROSE

A primeira semana de aula se passou numa velocidade surpreendente.

Eu, Alvo e Scorpius nos acostumamos a passar grande parte do tempo livre juntos. Aos poucos, aprendi a gostar daquele garoto loiro e petulante, e não demorou para que nos tornássemos grandes amigos.

Nossos primos mais velhos – pelo menos aqueles ainda em idade escolar – não aprovavam.

Me vi sendo “aconselhada” pelo menos meia dúzia de vezes por Victoire.

— Seja esperta, Rose. Esse Scorpius não é flor que se cheire. Sabe o que nossos pais acham dos Malfoy – ela disse da última vez, cruzando os braços, enquanto estávamos almoçando.

— Deixe disso, Vicky – suspirei, revirando os olhos – eu sei me cuidar.

Desde então, ela não tocou mais no assunto – nem em qualquer outro, começando a me evitar pelos corredores. E eu decidi que não iria atrás dela para fazê-la crescer.

Tiago não parecia menos desgostoso, vendo seu irmão na companhia constante de Scorpius. Porém, ao contrário de Victoire, ele tinha a decência de não fazer balbúrdia daquilo em público. Se chegava a falar com Alvo, o fazia quando estavam a sós.

Decidi que não ligaria para o que meus primos pensassem. Indo contra qualquer conceito equivocado, Scorpius era um garoto realmente divertido, e sua companhia sempre era agradável para nós dois.

Um dia, depois da aula de Herbologia, estávamos na beira do lago, aproveitando um pouco do intervalo, antes de irmos para a nossa primeira aula de Trato das Criaturas Mágicas.

Do nada, começamos a ouvir gritos animados, vindos de algum ponto atrás das árvores.

Scorpius foi o primeiro a se levantar, curioso, indo em direção ao som das risadas. Alvo e eu o seguimos, correndo atrás dele.

— Espere, Scorpius! — ralhou Alvo, ofegando.

Obedecendo quase que literalmente ao pedido de Alvo, Scorpius freou, parando inesperadamente, fazendo com que eu trombasse em suas costas.

— Mas que di…?

Foi quando eu percebi o que o havia feito parar – a mesma coisa que havia causado os gritos que havíamos ouvido.

Á primeira vista, parecia um lobo comum.

Mas lobos decididamente não davam piruetas, e nem dançavam ao som do aparelho trouxa de Yoko Thomas.

— Meu Deus – Scorpius proferiu, dobrando-se de rir.

Os demais alunos sorriram para nós, ainda assistindo o animal dar um giro completo no ar, como se tivesse molas nas patas.

Yoko riu, sacudindo o reprodutor na mão.

— Vocês nem viram nada. Tãpuaki estava fazendo um break uns segundos atrás.

Pousei a mão na testa, sacudindo a cabeça.

— Filch vai te degolar se ver isso – comentei.

Os olhos de Yoko ficaram ainda mais estreitos, mas a vi assentir, desligando o aparelho de som.

Várias exclamações desapontadas ecoaram ao nosso redor – incluindo um ganido chateado do lobo, que se aproximou de nós.

— E aí, Tãpuaki – cumprimentei-o, afagando seu focinho.

Tãpuaki lambeu minha mão, fazendo-me exclamar de choque. Todos riram ainda mais.

— Não acredito que você fez isso! — Scorpius tampou a boca, num esforço para não gargalhar.

O lobo rosnou uma risadinha, antes de erguer a cabeça, farejar o ar e, do nada, disparar galopante lago afora, sumindo entre as árvores.

— Ai. Que nojo — fiz uma careta, tirando minha varinha do bolso e usando o feitiço que havíamos aprendido no dia anterior – Tergeo!

A varinha aspirou toda a baba da minha mão, deixando-a completamente limpa.

— Maneiro – sorriu Scorpius.

Yoko fungou, botando as mãos dentro dos bolsos da calça.

— Bem… só não vou azarar a Sra. Certinha por que está quase na hora da nossa aula – disse, mostrando a língua para mim.

— Quanta maturidade, Yoko. Quanta maturidade – brinquei, indo até ela e bagunçando deu cabelo.

—Ahhhh! Tire essa mão babada de mim!

Ninguém mais aguentava rir. Na altura em que eu cheguei à aula – depois de nos despedirmos de Scorpius e Alvo, que iriam para sua próxima aula de Poções — ainda estávamos soluçando, com as barrigas doendo de tanto gargalhar.

Hagrid provavelmente nunca tinha recebido uma classe tão animada antes, já que aparentava estar bem satisfeito, cantarolando enquanto tomávamos nossos lugares na clareira da floresta.

— Boa tarde, meninos! — cumprimentou-nos, sorrindo – alguns de vocês já me conhecem, mas vou me apresentar mesmo assim. Sou Rúbeo Hagrid, professor de Trato das Criaturas Mágicas, e lecionarei para vocês esse ano – ele caminhou pela campina, arrumando uma inusitada tina de água no centro – trouxeram seus livros? Ótimo – esfregou as mãos – abram na página cinquenta e dois. Preciso de alguém para lê-la para mim… — hum… Srta. Thomas? Primeiro parágrafo, por favor.

Todos olharam para Yoko, que respirou fundo, erguendo seu livro na altura do queixo, começando a ler o trecho que Hagrid havia pedido.

— “Em 1811, Grogan Stump, o Ministro da Magia recém-nomeado, decretou que um '‘ser’' era 'qualquer criatura que possuísse inteligência suficiente para compreender as leis da comunidade mágica e para compartir a responsabilidade na preparação de tais leis’” — concluiu, erguendo o olhar para Hagrid.

— Excelente. Dez pontos para a Grifinória – o professor aprovou, fazendo os alunos soltarem guinchos de satisfação – então… de acordo com Stump, como se define uma criatura como um “ser” ou um “animal”?

Ergui a mão.

— Srta. Weasley?

— De acordo com ele, um “ser” é uma criatura… com inteligência semelhante ou equivalente à de um ser humano.- pausei um segundo, franzindo oc enho – mas professor… isso quer dizer que, aos olhos do Ministério, apenas “seres” tem direitos iguais aos dos humanos?

Percebi que o professor pareceu muito contente com minha pergunta;

— De fato, Rose. Há alguns anos, criaturas, sendo “seres” ou não, sempre foram consideradas inferiores aos humanos. Mas isso tem mudado com as novas leis judiciais que surgiram no Ministério da Magia. Agora, temos representantes de quase todas as espécies no Conselho Bruxo. Um questionamento inteligente… mais dez pontos para a Grifinória!

Yoko me acotovelou de leve, dando-me um sorriso.

— Alguém puxou à mãe – sussurrou, gracejando.

Revirei os olhos. Já havia ouvido aquilo pelo menos um milhão de vezes.

— Portanto… — Hagrid prosseguiu a aula – existem criaturas humanoides que facilmente seriam confundidas com humanos comuns. E hoje, a meu convite, uma delas se mostrará para vocês.

Ele apontou em direção ao ponto mais escuro da clareira, de onde surgiu uma forma de silhueta esbelta, surpreendendo todos os alunos. A figura colocou os pés dentro da tina de água, resfolegando alto, e nos encarando com curiosidade.

A primeira vista, já dava para perceber que não era humana.

Parecia ser bem jovem. Tinha longos cabelos castanhos, que esvoaçavam levemente no ar, embora não houvesse uma única brisa na campina. Sua pele brilhava suavemente à luz do sol. Seus olhos claros e dourados perpassaram por cada um dos presentes, demonstrando insegurança. Vestia um tipo estranho e delicado de vestido translúcido, que se escurecia em algumas partes. E sorria timidamente para todos ali.

Para minha surpresa, todos os garotos primeiranistas pareciam absurdamente vidrados na jovem garota, como se tivessem sido hipnotizados.

— Essa é Nina de Deão – sorriu Hagrid – é uma náiade… ninfa da água.

Ah… agora entendia por que os rapazes estavam tão encantados com ela.

Lembrei-me de quando mamãe contara sobre uma incursão que papai fizera na Floresta do Deão, vários anos antes de eu e Hugo nascermos. Ele havia encontrado um ninho inteiro de náiades no caminho, e havia salvado sua líder, Calíope, de morrer num desabamento de pedras.

Nina… Nina de Deão….

Foi quando me recordei.

Minha nossa. Calíope tinha uma filha com esse nome!

Vi a náiade sorrir para mim.

— Que linda! — cochichou um dos meninos, encantado.

— È um prazer conhecê-los – a voz de Nina parecia a do vento sobrando nas folhas.

Hagrid assentiu.

— Nina é moradora do lago de Hogwarts há alguns anos, e gentilmente aceitou falar um pouco sobre o modo de vida de seu povo. Pode começar quando quiser, minha cara.

A ninfa concordou coma cabeça, ainda tímida.

— Bem… como Hagrid disse, sou uma náiade… somos ninfas aquáticas, com poderes de controlar a água – explicou, gesticulando os dedos, fazendo um pouco da água da tina erguer-se no ar, para espanto geral — normalmente vivemos de oitenta a cem anos. Podemos nos comunicar mentalmente com qualquer ser vivo, e nosso sangue tem propriedades curativas. Às vezes, temos o dom… de profetizar.

Ela ficou ligeiramente amuada, como se tivesse perdido o fio da meada.

—Obrigado, Nina – o professor aprovou, agradecendo-a – alguém tem alguma questão que gostaria de esclarecer?

Fiquei olhando para Nina, mordendo o lábio, indecisa se deveria ou não verbalizar minha dúvida.

Por fim, a curiosidade venceu. Ergui a mão.

— Sim, Rose?

Ofeguei, sem graça.

— Você morava na Floresta do Deão, não é? — hesitei, sentindo que não devia perguntar aquilo, mas me corroendo por dentro – por que veio para o Lago Negro?

Como eu havia temido, Nina arquejou audivelmente. Percebi seus olhos se encherem de tristeza.

— Houve um… acidente – percebi Nina escolhendo cuidadosamente as palavras que dizia – minha mãe, Calíope… todo o ninho onde eu vivia… — balançou a cabeça, segurando um soluço – fui a única sobrevivente… — suspirou – a diretora foi muito gentil, e ofereceu-me um novo lar aqui.

Senti um baque no peito com aquela notícia.

Calíope tinha morrido.

Como meus pais não haviam ficado sabendo daquilo?

Nina aparentou achar que falara demais, pois levou as mãos à boca, mergulhando num silêncio tristonho e constrangido.

Houve uma quietude incômoda por alguns segundos. Vendo a atmosfera tensa que surgira na clareira, Hagrid pigarreou, afagando as costas da ninfa.

— Tudo bem, Nina. Obrigado por se manifestar. Já pode ir.

A náiade assentiu, com a cabeça baixa, retirando os pés da tina e correndo na direção da floresta. Vi-a olhar para trás uma última vez, antes de desaparecer entre as árvores.

Yoko segurou meu ombro.

— Rose? Você está bem?

— Estou – menti, abraçando meu próprio corpo.

— Muito bem – o professor declarou, tentando desmanchar o ar melancólico da aula – chegamos ao fim da aula de hoje. Para a próxima aula, tragam um pergaminho curto sobre as principais subespécies de ninfas. Estão todos dispensados.

Por fim, a classe começou a se dissipar, com os estudantes começando as tomar o caminho de volta para o castelo.

— Você vem? — ela me perguntou.

— Já estou indo… — olhei na direção de Hagrid – vou falar com o professor.

Enquanto Yoko acompanhava os demais alunos da Grifinória, dirigi-me até Hagrid, insegura.

— Ah… olá, Rosie – finalmente fora da formalidade da aula, Hagrid podia se dar à intimidade de bagunçar meus cabelos com sua enorme mão – não vai para a próxima aula?

— Sim… é só que… — olhei afoitamente na direção do lago – eu… acho que devia falar com Nina… e me desculpar.

A expressão de Hagrid se tornou uma máscara.

— Não se preocupe, Rose. Não foi culpa sua… ela só está se sentindo sozinha, depois de tudo que… aconteceu – ele titubeou – sabe… você e os meninos podiam visitá-la de vez em quando…Nina adoraria ter companhia.

Era uma boa ideia, afinal. Poderia compensar minha falta de delicadeza, ajudar Nina e, de quebra, tentar conhecê-la um pouco melhor.

— Vou fazer isso – disse, convicta.

— Excelente – Hagrid deu outro sorriso – acho melhor você ir agora. Não vai querer se atrasar para sua aula de Poções.

Concordei com a cabeça, me despedindo de Hagrid, e tomando o caminho rumo às masmorras.

—-----------O------------

— Pelas cuecas de Merlim! — xingou Tiago, dedilhando o pergaminho sobre a mesa do Salão Comunal da Grifinória – a professora Hawkes pediu dois pergaminhos sobre a participação bruxa na Guerra de Troia para a próxima aula! DOIS. PERGAMINHOS!

— Se acalma, Tiago – riu Chloe, dando um tapinha nas costas do meu primo.

— È. Pelo menos você não vai ter que fazer uma enciclopédia sobre os tipos de ninfas – Clary completou.

— Efidríades, Epigéias, Náiades, Oreádes, Dríades e Alseídes.

— E essas são só subcategorias. Dentro delas tem mais duzentas classificações.

— Tem ninfa da neve. Santo Deus.

— Ok, já entendi! — Tiago bufou, enquanto eu segurava o riso.

Suspirei, vendo Teaspoon subir no sofá, enroscando-se confortavelmente no colo de Clary.

— Acho que vou dar um passeio no pátio – avisei, sentindo uma vontade imensa de esticar as pernas, numa tentativa de espantar o sono – antes do toque de recolher.

— Tudo bem – meu primo disse, sem tirar os olhos de sua lição.

Antes que eu pudesse sequer me aproximar daquela parte do castelo, porém, senti uma vertigem terrível.

Apoiei-me na pilastra do portão, levando a mão à cabeça. Com a testa contraída, ouvi – para minha perplexidade – uma voz ecoar dentro de minha mente, alta e urgente.

“Rose… sou eu, Nina. Traga alguém de confiança com você… preciso te ver. Agora”.