Gênese: A Saga da Rosa - Temporada I
24 Fraternidade
“Não é apenas a arte que põe encanto e mistério nas coisas mais insignificantes; esse mesmo poder de relacioná-las intimamente conosco é reservado também à dor.”
— Marcel Proust
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ROSE
Encarava distraidamente a delicada miniatura de pássaro-trovão que pendia no teto de meu quarto, enquanto a batida de uma das minhas músicas favoritas ecoava nos fones de ouvido. Embalada pelo som, cantarolava baixinho, com a cabeça repousada nos braços.
Docta docta, need you bad
Call me babe
Docta Docta, where you at?
Give me something
I need your love
I need your love
I need your loving
You got that kind of medicine that keeps me comin’
— A porta aberta de novo, Rosie? — Hugo adentrou no quarto, trazendo seu malão – qualquer hora você vai acordar com um canivete enfiado na cabeça!
Tirei os fones, revirando os olhos para meu irmão.
— Cara – funguei – papai e mamãe estão em casa. O pior que pode acontecer é o azarado conseguir alcançar a varanda… e olhe lá.
— AI. Tá bom. Que seja – ele deu de ombros – deixa a Nicki Minaj cantando aí, e me ajuda com a bagagem.
Larguei o celular na cama, indo até a escrivaninha. Cheguei a tempo de impedir que Hugo, trapalhão como de costume, trombasse tragicamente com o ovo vazio de occami que decorava a parte de cima da escrivaninha.
— Cuidado! — ralhei – mamãe me mata se o ovo quebrar!
— Calma, maninha – meu irmão bufou – Scamander pode mandar outro qualquer hora. O cara deve ter uma coleção desses em casa…
— Ainda assim – teimei displicente, começando a ajeitar as coisas de Hugo na maleta – ele foi muito legal quando resolveu aquele problema que tivemos com o crupe da tia Fleur no ano retrasado. O mínimo que ele merece é que eu cuide bem do presente dele… não acha?
Hugo sacudiu a cabeça.
— Você é muito certinha, Rosie – gracejou – e isso não é um elogio.
Baguncei os cabelos dele, fazendo Hugo me empurrar, risonho.
Ficamos algum tempo ajeitando as roupas dele. Porém, percebi que meu irmão parecia anormalmente quieto e pensativo. Vindo de Hugo, um garoto acostumado a dizer o que pensava sem titubear, aquilo ela realmente muito estranho.
— Rose…
Olhei-o, erguendo uma sobrancelha. Hugo aparentava nutrir uma enorme aflição.
— Sim?
— Você acha… que me darei bem na escola?
Lhe lancei um sorriso penalizado. Faltando menos de dois dias para o embarque no Expresso de Hogwarts – e, consequentemente, para o início de meu segundo ano na escola – o pobre garoto finalmente estava ficando desesperado.
— Relaxa, Hugo – afaguei suas costas – não é tão ruim quanto parece. Vai dar tudo certo.
Ele careteou de modo petulante.
— Eu acreditaria nisso… se o Zé Doninha não estivesse no mesmo trem que eu depois de amanhã.
Refreei a vontade de chutar a canela de Hugo. Já não bastava a saudade que eu estava de Scorpius e Alvo? Agora eu também teria que salvar meu pobre amigo das indiretas e diretas do meu irmão descontrolado?
— Quer parar de implicar com Scorpius? — cruzei os braços – será que não pode nem dar uma chance pra ele?
— Não me entenda mal, Rosie – vi-o embolar um par de meias, enfiando-as de qualquer jeito no malão – o garoto me é suspeito. E depois… — ele me encarou, sério – sabe muito bem que a família dele quase matou a nossa.
— Quase – enfatizei – e o pai dele acobertou o tio Harry, lembra? Draco cumpriu pena e tudo… por que tem tanto ódio deles?
Ele fechou o malão do nada, irritado. Por dois centímetros, teria ido para o segundo ano sem as unhas dos dedos.
— Pare de tentar defender os Malfoy, Rosie!
Nós dois congelamos quando mamãe adentrou no quarto, com as mãos na cintura, de um jeito que lembrava ridiculamente a vovó Weasley.
— Mãe?
— O que está havendo aqui? — sua expressão estava bizarramente contida para quem tinha acabado de flagrar os filhos discutindo em voz alta – dá para ouvir vocês dois lá do porão!
Naturalmente, com Despacito tocando no último volume na sala de estar, ela não tinha moral alguma para reclamar. Mas eu só contestaria isso se quisesse passar a noite dormindo no depósito, com a bunda vermelha de tanto apanhar, depois de um dia inteiro adubando o jardim.
— Nada – titubeou Hugo.
— Hugo está cismando com os Malfoy, mamãe – caguetei sem dó.
— Rosie!
A boca de mamãe se contraiu. Ela parecia reprimir uma risadinha.
— Ora. Parem com isso, os dois – ela espanou a mão sobre os cabelos de Hugo, que parecia martirizado de o descabelarem pela segunda vez em cinco minutos – os Malfoy agora são gente decente, Hugo. E não implique com seu irmãozinho, Rosie.
— Não tem nada de “irmãozinho” aqui, mãe – mordi a língua pra não gargalhar quando Hugo empinou o peito, numa fraca tentativa de parecer menos fracote – eu já sou grande! — mostrou a língua pra mim – até maior do que a Rose!
Nem eu podia discordar. Talvez por Hugo ter herdado quase toda a fisionomia de papai, era evidente que ele, embora mais novo, já estava bem maior do que eu.
Igualmente se segurando, nossa mãe riu-se, beijando a testa de Hugo.
— Não importa – ela arrulhou de modo afetuoso – vocês dois sempre serão meus bebês. Os tesouros mais preciosos da minha vida. E isso nunca mudará – Hugo sorriu de má vontade, assentindo em gesto de rendição – agora vamos almoçar. Tenho que levar vocês para comprarem o material escolar, e não quero que Rony reclame do nosso atraso.
— É só papai aprender a usar o câmbio do carro – vi Hugo dar de ombros – vai por mim. A gente economizaria pelo menos uns cinco minutos e um palavrão do motorista de trás.
Gargalhamos em conjunto.
É. Quando queria, Hugo também sabia ser um irmão legal…
Tinha que ser honesta. Ver meu irmão caçula comprando seu primeiro material escolar me fazia ter uma anormal empatia. Havia passado por aquilo, e poucas coisas eram tão incríveis do que ter aquela sensação.
— Papai… posso comprar uma coruja? — ele indagou, animado, assim que chegamos defronte à loja de animais do Beco Diagonal.
— Uma coruja? — meu pai fitou mamãe, achando graça, em seguida olhando para Hugo – mas você não disse que queria um gato?
Ele negou com a cabeça.
— Não. Não quero mais. Quero uma coruja – insistiu, humorado.
Garoto bipolar detectado.
— Está bem. Vamos comprar uma coruja pra esse garotão, querida.
Assim que entramos, meu irmão foi correndo para a seção de aves, admirando esgazeado as belas corujas empoleiradas nas gaiolas. Fiquei com meus pais no canto da loja, aguardando que Hugo escolhesse seu novo bichinho de estimação.
— Olha só para ele – mamãe disse, encantada – primeiro ano – senti que ela me abraçava pelo ombro, e abri um largo sorriso para ela – vocês crescem tão rápido. É assustador.
— Pois é – papai se inclinou, beijando-a na testa – lembro como se fosse ontem. Uma garota irritante… saindo de uma loja com um bicho horroroso nos braços.
Mamãe o acotovelou, e segurei a risada. Sabia que ele estava se referindo à Bichento, o gato que ela havia comprado em seu terceiro ano de escola. Vivia vendo aquela bola de pelos alaranjados nas fotos dos meus pais, e imaginava que teria sido muito bom conhecê-lo.
— É – ela suspirou – foi… um bom mascote. E… um bom amigo.
Porém, do nada, o olhar de mamãe ficou repentinamente estático e angustiado, como se sua mente estivesse vislumbrando uma dolorosa e terrível lembrança. A mão que segurava meu ombro retraiu-se violentamente, quase me causando um beliscão.
Papai notou a expressão dela, e soltou um longo arquejo.
— Hermione.
Ela piscou, também ofegando.
— Estou bem, Rony – embora o tremor em seus dedos desmentisse – estou bem.
Mordida, até pensei em indagar o que havia acontecido com Bichento, já que eles nunca haviam tocado no assunto – apesar de que, dada a idade do gato, era óbvio que já havia falecido.
No entanto, decidi ficar quieta.
Depois da reação espantosa de minha mãe, achei melhor adiar aquela pergunta indiscreta. Não devia ser exatamente um assunto agradável de se explicar, mesmo quando sua mãe era uma funcionária do mais alto escalão do Ministério da Magia. Diabos, ela também tinha sentimentos.
Desviando nossa atenção, Hugo retornou até o balcão, acompanhando o lojista do outro lado, que carregava uma bela gaiola em suas mãos. Dentro dela, alvoroçada, havia uma bonita – e minúscula – coruja flamada.
— Olha que miúda! — nunca tinha visto meu irmão tão feliz – vou chamar ele de Poky!
Foi o bastante pra todos, inclusive o vendedor, começarem a rir. O nome servia como uma luva — a corujinha era tão diminuta que facilmente sumiria dentro de um lugar apertado.
— Ela é lindinha, filho – mamãe comentou, virando-se para o lojista – vamos levá-la.
Dali para fora, tive que aturar – ou seria apreciar? — a alegria exuberante de Hugo pelo resto das compras.
Não havia encontrado nenhum colega de escola té então, e estava começando a ficar desanimada. Seria muito bom rever rostos familiares entre os corredores apertados do beco. Mas, pelo visto, todos os estudantes já haviam adquirido seus materiais com antecedência.
Sentia uma saudade imensa de Hogwarts.
Não só por que, após as férias na Toca, havia decidido que retomaria nossa pequena investigação em busca de respostas. Também sentia falta do ambiente aconchegante do castelo, das aulas, dos professores. Me contentaria até em ter visto o rosto desagradável de Astrid McLaggen entre os transeuntes, apenas para poder reavivar a raiva que eu só conseguira sentir, até então, nos terrenos agradáveis do castelo…
Mal podia esperar pelo início das aulas. Algo me dizia que aquele ano, ao contrário do anterior, me traria surpresas realmente extraordinárias.
O meu erro?
Não achar que seriam mais do que extraordinárias…
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