"As pessoas entram em nossa vida por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem."

— Lilian Tone

Teaspoon esfregou-se em meu rosto, como costumava fazer para me acordar.

Sonolenta, bocejei, esfregando os olhos e empurrando-a delicadamente para o lado.

Parecera ser um sonho tão bom…

Mas quando abri os olhos, e encarei a abóbada do dormitório, percebi que não fora um sonho. Arfei, erguendo-me na cama.

Eu já estava em Hogwarts.

E tinha ido para a Grifinória.

Sufoquei um guincho perplexo. Tudo havia sido tão… surreal…

Ainda não conseguia acreditar que Alvo – meu primo Alvo, um legítimo Potter – havia ido parar na Sonserina. E, mais surpreendente ainda… por escolha própria.

Porém, não tive muito mais tempo para me concentrar nesse fato óbvio, já que uma mão aflita puxou-me para fora do colchão, fazendo Teaspoon sibilar alto e pular para o piso de madeira.

— Ai! — exclamei em protesto, fechando a cara para Clary Longbottom – o que foi?

Bastou ver o pânico no olhar de Clary para que eu desmanchasse minha expressão turrona.

— Estamos atrasadas – ela respondeu, quicando de volta ao seu malão. Só então percebi que estava se vestindo às pressas, e havia se interrompido alguns segundos só para me avisar.

— Droga! — choraminguei, também começando desesperadamente a procurar meu uniforme.

Como pude perder a hora daquele jeito, logo no primeiro dia de aula?

Eu não sabia o que diabos acontecera para que apenas nós duas nos atrasássemos. Eu nunca havia perdido o horário de nada importante, em toda a minha vida!

Só sei que nunca pareci tão culpada, enquanto entrava na estufa de Herbologia de cabeça baixa, vendo vários olhares risonhos ou reprovadores recaírem sobre mim.

O rosto do professor Longbottom aparentava tanta simpatia quanto a da tentácula venenosa que tinha atrás de si,

— Atrasadas… Srta. Weasley… Longbottom – ouvi-o dizer o sobrenome de Chloe de um modo bem mais duro, ao que minha amiga balbuciou, envergonhada – tomem seus lugares.

Quis me desculpar ou explicar o que havia acontecido, mas ficamos aliviadas demais por Neville não ter nos tirado pontos da Grifinória, e decidimos simplesmente me juntar em silêncio aos demais estudantes, que estavam adubando uma planta nas mesas adiante.

Porém, na correria para chegarmos às estufas de Herbologia, eu nem percebera que iríamos dividir a aula com os alunos da Sonserina.
Então, foi com surpresa enorme que vi Alvo e Scorpius logo ao meu lado, sorrindo para mim. James estava mais longe, mas também me acenou, assim como meus demais primos.

— Bem… como eu estava dizendo – ele nos lançou outro olhar de censura – a Herbologia é um ramo do estudo mágico altamente subestimado para aqueles que não reconhecem sua importância em nosso mundo e, portanto, para a vida dos bruxos em geral. Ás vezes, não é necessário saber feitiços complexos ou poções detalhadas para resolver problemas. Em algumas situações, basta apenas ter o material certo em suas mãos – o professor tocou os ramos de uma plantinha, e por algum motivo, seu olhar pairou sobre mim – e bastará saberem modelar esse material… e torná-lo útil para vocês.

Senti uma arrepio estranho com o modo que o professor Longbottom me olhara.

— Rosie… — ouvi me chamarem.

Desviei o rosto, olhando para Malfoy.

— Hum… posso te chamar de Rosie, não [e? — ele lançou uma olhadela assustada para Alvo, que riu.

Sorri ao ver que os dois já pareciam ter se entendido muito bem, desde o momento em que nos conhecemos no trem. Fiquei realmente feliz ao perceber que Alvo já arranjara um excelente amigo.

— Claro – assenti.

— E de sabe-tudo, lontrinha, Rosinha… ai! — Alvo gracejou quando o acotovelei, enquanto Scorpius ria – brincadeirinha, prima. Brincadeirinha.

— Pois bem – Longbottom voltou a falar, ao que ficamos quietos imediatamente – hoje vocês terão uma tarefa bem simples – ele deu a volta na mesa, apontando para vários vasos ao canto, onde estranhas plantas, semelhantes a cactos com bolhas, encontravam-se enraizadas – isso são bobotúberas. Nessa aula, apenas adubarão a terra ao redor delas. Tomem cuidado para não irritarem nenhum ponto sensível. Não queremos nenhum acidente por aqui, então mantenham varinhas longe das plantas. sem as luvas de couro. Podem começar.

Nos reunimos em pequenos grupos ao redor das esteiras, abrindo pacotes de adubo ao nosso lado. Eu, Clary, Scorpius e Alvo ficamos um pouco afastados, começando a afofar a terra das bobotúberas.

Havia lido sobre elas, nos livros que mamãe me emprestara há algum tempo atrás. Produziam um pus valioso, excelente para tratar problemas de pele.

De soslaio, percebi que Astrid McLaggen, a desagradável sonserina que nos acompanhara no trajeto do lado, estava a poucos metros adiante, conversando com o garoto que parecia ser um tipo de guarda-costas dela. Algo naquela menina me desagradava profundamente.

— Eu lembrei quem ela é – comentou Alvo, dividindo o fertilizante entre nós quatro – ela é filha de um dos caras que fizeram teste pra goleiro no sexto ano de papai – franziu o cenho – Córmaco McLaggen, não é?

— Córmaco McLaggen? — Clary titubeou – não é o subordinado da sua mãe, Rosie? Aquele homem que trabalha no Departamento de Mistérios?

Sinceramente, eu não conseguia gravar rostos no Ministério da Magia. Com mamãe e papai sendo quem eram, já fora forçada a conhecer cada um dos mais de mil funcionários de lá. E, por isso, não ia lembrar de ninguém em especial.

— Qual deles? — bufei, exasperada.

— Ah, e isso importa? — Clary deu de ombros – desde que ela não apareça em nosso caminho, não precisamos nos preocupar.

Concordei, embora tivesse a péssima impressão de que a tal Astrid ainda iria nos causar problemas.

Continuamos fertilizando as plantas em silêncio, enquanto o professor Longbottom passava por nós, analisando nosso trabalho. Parecendo mais calmo, deu um sorriso satisfeito para mim, e uma piscadela mais complacente para Clary, enquanto Chloe – que se encontrava do outro lado da estufa – olhava distraída para a irmã gêmea.

Porém, sobressaltando todos os alunos do primeiro ano, alguém bateu vigorosamente à porta da estufa.

— Continuem – Neville orientou, enquanto ia receber quem quer que estivesse ali.

Olhei pelo ombro, vendo-o abrir a porta da estufa, e parecendo se espantar, ao deixar entrar um homem louro, de vestes formais, que remetiam diretamente ao Ministério da Magia. Era estranhamente familiar.

Scorpius também encarou o visitante, e seus olhos saltaram de choque.

Foi quando percebi por que ele não me era estranho.

— Papai? — guinchou Scorpius, aturdido.

Neville não parecia menos surpreso.

— Sr. Malfoy! — falou alto, provavelmente devido à perplexidade – a que devo a surpresa da visita?

O Sr. Malfoy pairou o olhar entre os alunos por um momento, como quem procura um rosto específico. E, para meu espanto, eles finalmente recaíram sobre meu rosto.

— Um assunto… particular – ele respondeu, ainda me observando atentamente, o que me deixou desconfortável – poderíamos conversar em particular?

Pela expressão do nosso professor, a resposta verdadeira seria uma negação. Mas, talvez para evitar mexericos, ele assentiu, inclinando a cabeça para a estufa ao lado da nossa, para onde se dirigiram em seguida, entrando e fechando a divisória.

Infelizmente para nós quatro, que estávamos logo ao lado da estufa dois, as finas paredes não contiveram o teor da conversa.

Scorpius estava quase perturbado, sem acreditar que o pai adentrara em sua aula de Herbologia, sem ao menos lhe dirigir uma única palavra.

— Tudo bem, Draco. Por que está aqui?

— Acho que nós dois sabemos o motivo, Longbottom – ouvi o pai de Scorpius sussurrar, sua voz abafada pela divisória – acho que, agora, até mesmo você compreende que o único desejo de um pai é proteger seus filhos.

— Não se atreva a insinuar nada, Malfoy – Neville rosnou baixo.

— Não estou – Draco disse, complacente – só estou preocupado com Scorpius, agora que ela está aqui.

Parei de prensar a terra em minhas luvas, estarrecida.

Por que, assustadoramente, algo me dizia que estava se referindo a mim.

Ouvi alguém socar a divisória, ao que vários outros alunos, alienados à conversação, ergueram suas cabeças na direção da estufa.

— Pombas, Malfoy. Vai mesmo começar essa sua neurose outra vez?

— Achei que devia conversar com alguém… que sabe realmente tudo o que envolverá mantê-la perto de outras pessoas.

— Chega. Não vou fomentar uma preocupação que nem sequer existe!

— Que você saiba – retrucou Malfoy – que ela saiba – ouvi-o suspirar alto – se for como da última vez, sei que poderá lidar com isso. Mas eu temo as consequências que suas escolhas poderão provocar.

O professor Longbottom também inspirou profundamente. Quando voltou a falar, seu tom era mais conciliatório.

— Eu entendo, Draco. Acha que eu teria deixado minhas filhas perto deles todo esse tempo, se não soubesse que estariam seguras? — ouvimos o tamborilar de dedos na parede – vamos deixar para discutir isso mais tarde. Com a diretora, se lhe parecer melhor. Não quero que eles ouçam.

— Tudo bem – Malfoy concordou – espero não ter tomado muito de sua aula. Vou aguardar a diretora na Torre.

Naquele momento notei que, estranhamente, apenas eu ouvira a conversa entre Neville e Malfoy. Alvo, Clary e Scorpius tinham voltado a adubar suas plantas, e pareciam não ter prestado atenção em nada. Por isso, aparentaram curiosidade quando, por fim, Malfoy retirou-se da estufa, com o professor atrás de si, contornando nossa esteira e se aproximando de Scorpius, indiferente ao retorno dos burburinhos na estufa.

— Desculpe, Scorpius – ele abaixou-se para abraçá-lo – não quis te assustar.

— Está tudo bem, papai? — ele indagou, preocupado.

— Claro que está – Malfoy sorriu – estou só resolvendo um assunto importante aqui. Fiquei sabendo… Sonserina, não é? – Draco riu – estou orgulhoso de você, filho – ele relanceou os olhos sobre nós – são seus amigos?

— Sim – Scorpius sorriu largamente, me deixando sem graça com sua satisfação em nos apresentar – essa é a Rose – apontou para mim – Clary, amiga de Rose.- indicou Clary – e esse é o Alvo – parecia quicar de tanta animação – ele é um Potter, papai! Também entrou pra Sonserina!

Draco pareceu sinceramente espantado com essa revelação, e não era para menos.

— Bem… — sua voz baixou, como se estivesse com dificuldade de escolher as palavras – vou ficar até o fim do dia com a diretora, filho. Se precisar de alguma coisa, estarei na sala dela. Agora vou deixar que terminem sua aula – despediu-se, dando a volta e saindo sutilmente pelo corredor ao lado. Scorpius acenou para ele, acompanhando-o até que desapareceu porta afora.

O professor Longbottom retomou a aula, mas eu já não estava mais presando atenção – e assim fiquei, absorta em meus pensamentos, até que o sinal batesse!!br0ken!!

Fiquei quase o dia todo com aquela bizarra conversa deles em minha cabeça.

Pelo que entendera, o pai de Scorpius temia pela sua segurança. Mas o que poderia lhe ser uma ameaça?

Inicialmente, até pensara que estava falando sobre mim, mas agora isso se mostrava demasiado improvável. Afinal, que mal podia eu fazer ao filho dele?

Ainda assim, alguma coisa aprecia não estar nada certa naquela situação.

Depois de mais dois períodos de aula – onde, como que para compensar a simplicidade da primeira aula, enchei meus pergaminhos de anotações e lições de casa de Transfiguração e Feitiços – por fim consegui um tempo vago para escrever aos meus pais.

Scorpius, muito gentilmente, me emprestara sua coruja, Pérola, para que eu mandasse minha carta. Decidi lhes contar todas as novidades desde o dia anterior.

Mamãe e papai (e Hugo, se estiver fuxicando aí)

Chegamos em segurança no castelo na noite passada. A Seleção foi incrível… como já devem saber, entrei para a Grifinória. Clary e Chloe também. Mas o primo Alvo foi pra Sonserina. Acreditam só nisso? Tio Harry vai pirar, não vai?

Alvo e eu fizemos amizade com Scorpius – aquele garoto que papai disse pra eu ter cuidado. Sim, papai, estou revirando os olhos. E sim, se ele ficar de gracinha comigo, eu lembro da azaração que o senhor me ensinou.

Estou adorando meu primeiro dia de aula – embora tenha chegado atrasada com Clary na aula de Herbologia (o professor Longbottom já nos deu oc arão, mamãe. Poupe a tinta.).

Tive mais dois períodos, de Transfiguração e Feitiços. A professora Patil nos ensinou a transformar uma caixinha de fósforo numa barata… foi hilário ver Alvo gritando quanto a minha caixa ganhou antenas. Deviam ter visto!

Aliás, aconteceu uma coisa estranha da aula de Herbologia. O pai de Scorpius, Draco Malfoy, veio conversar com o professor Longbottom e a diretora McGonagall. Queria saber o que ele veio fazer aqui…

Espero que esteja, todos bem aí em casa. Já estou com saudades.

Com amor,

Rose

Decidi não mencionar sobre o teor da conversa deles na estufa dois. Achei que aquilo era apenas um lapso nervoso do meu cérebro, e não incomodaria papai e mamãe com nenhuma teoria boba.

Amarrei a carta na pata de Pérola, que piou baixinho e alçou voo, partindo com o envelope em direção à Londres.

— Ela é linda – comentei, sentindo Scorpius se aproximar ao meu lado.

— Ganhei dos meus pais de aniversário – ele deu de ombros, sorrindo – parece preocupada – seu sorriso sumiu, numa expressão de genuína solidariedade, que me deixou sem jeito.

— Não é nada – protelei, embora parecesse querer mais convencer a mim mesma do que a ele – foi um longo dia – pisquei – onde está Alvo?

— Ah… seu primo? — Scorpius gracejou – estava conversando com um moreno alto do sétimo ano. Tabaqui, ou algo assim.

— Tãpuaki – o corrigi, rindo – ele é filho de um casal amigo dos meus pais.

— Me contaram que ele é um animago – sorri com a repentina admiração nos olhos cinzentos de Scorpius — isso deve ser tão legal!

Concordei, olhando para o céu e confirmando que Pérola já sumira no horizonte.

— Vamos entrar. Está começando a esfriar — falei, ao que Scorpius assentiu, me acompanhando de volta ao castelo.

Enquanto adentrávamos pelos corredores, balancei a cabeça num gesto impaciente, e decidi que não ficaria pensando no que havia acontecido na aula de Herbologia. Afinal, concluí nada do que eu ouvira poderia ter alguma relação com minha vida ou meu futuro.

Como eu estava errada.