Gêmeas

4 Episódio I: Deniel


Notas iniciais
Alô galero! Não vou ficar me demorando muito, porque tem muita coisa pra contar ainda! Simbora o/

Atravessamos a rua e eu, com um pouco de dificuldade – segurando o café, a rosa, os sapatos e a jaqueta -, virei a chave na fechadura e empurrei a porta. Até que enfim, de volta para casa. Corri os olhos pela cozinha e pela sala; nada anormal. Suspirei fundo, mas fui interrompida pela constatação de que havia algo errado. Notei algo diferente.

__ Sua casa foi…

__ Invadida? – cortei. – É, eu notei.

O detetive me olhou, admirado. Merda, cruzei a linha do anonimato.

__ O perfume? – ele perguntou.

__ Uhum.

Havia um perfume masculino no ar. Eu moro sozinha, raramente alguém consegue entrar em casa.

__ Ele está no andar de cima. Provavelmente no seu quarto.

__ Ele vai ter uma pequena surpresa.

Soltei sobre o sofá a jaqueta e a rosa. Do cano da bota, saquei uma pequena adaga, que sempre levo comigo – aprendi a desconfiar do mundo para fazer isso. Na ponta dos pés, e segurando a faca como aprendi – apontando o interior do antebraço e a ponta da arma para frente -, subi as escadas. Não me importei em deixar o detetive ver como eu me comportava, agindo como um cão de caça seguindo um rastro. Ele acharia estranho ver a donzela indefesa que ele conhecera há alguns dias revelar a assassina dentro de si, mas, de qualquer modo, eu teria que me explicar depois.

Cheguei a topo da escada. O cheiro doce e enjoativo do perfume estava mais forte. Devagar, trespassei a porta do quarto. Minha primeira reação – costume que adquiri depois do incidente em Moscou – foi olhar para o teto. Nada. Fechei a porta e a tranquei, abaixando para jogá-la sob a cama.

Olhei dentro do guarda-roupa.

Nada.

Banheiro.

Nada.

O cheiro estava absurdamente forte. Não era possível que ele não estivesse ali.

Algo clicou em minha mente. Subitamente, eu sabia onde ele estava.

Aquela casa era uma das únicas casas da rua com um sótão. Abri-lo não seria difícil. Eu só precisava lembrar como.

Encontrei a silhueta da portinhola através das falhas na madeira do teto. Usando a mão como um pequeno martelo, encontrei a trava que a mantinha fechada e forcei-a até quebrar. As escadas de ferro desceram junto a porta, unindo os dois andares.

Sherlock bateu à porta. Me aproximei dela antes de subir, colando as costas – mas mantendo a atenção na abertura no teto. “Me deixa entrar”. “Não. Preciso cuidar disso sozinha”. “Me deixa te ajudar, Luna”. “Fica longe disso, Sherlock”.

Com os sentidos aguçados o máximo que podia e a arma afiada em mãos, subi as escadas.

***

Estava escuro. Tentei ligar a luz, mas a lâmpada havia sumido. Só conseguia distinguir a silhueta de algumas caixas, deixadas ali pelo antigo dono do lugar, na parca luz que trespassava o vitral escuro da janela. O ar estava mais quente, assim como as paredes inclinadas. A altura do cômodo era um pouco maior que a minha, e por alguns momentos cheguei a raspar o topo da cabeça na madeira.

Furtiva, vaguei por alguns dos corredores entre as pilhas de caixas. Desbravei cada canto, cada esquina. O invasor era esperto, sempre passava despercebido pelos meus olhos e ouvidos.

Até eu ouvir um barulho atrás de mim.

Não tive tempo de reagir. Ele me puxou para baixo pelo pescoço, e bati com as costas na madeira. O chão rangeu. O invasor me prendeu no chão com o próprio corpo, como se estivéssemos em um ringue de MMA. Tentou cortar minha garganta com a adaga que eu segurava; empurrou-a contra a minha jugular. Com um pouco de técnica, consegui resistir, empurrando-o para trás com a ponta de um dos pés.

Tomei a dianteira na briga, prendendo-o no chão. Desferi um cotovelada em sua têmpora, com força suficiente para que ele desmaiasse. Ele não cedeu. Dobrei a força do golpe. Ele conseguiu se manter acordado. O intruso me empurrou e, juntos, rolamos por entre as caixas. Era como um jogo – quem saísse por cima era o vitorioso.

Eu tinha uma ideia. Para realiza-la, tive que perder o jogo. Terminei por baixo enquanto rolávamos – mas, de modo premeditado, com as costas sobre a entrada do sótão. Puxei as pernas junto ao corpo, tendo o formato exato para passar pelo vão, aumentando minha chance de acabar com aquele bastardo.

Caí – de novo – de costas, porém me recompus um segundo depois. Sherlock estava desesperado do lado de fora – tentava entrar de qualquer jeito. Dei alguns passos para trás, me preparando para o combate corpo a corpo.

O intruso chegou ao andar de baixo com um pulo, fez um rolamento para diminuir a distância entre nós e me atacou com um soco no rosto. Defendi com o antebraço, assim como o dois próximos socos. Com uma janela de ação de alguns bons segundos, utilizei-me de algumas táticas antigas para ganhar vantagem. A ordem de ataque foi: um soco no rosto para deixa-lo confuso, um chute forte no diafragma para deixá-lo sem ar e começar a quebrar algumas das costelas e, por fim, um soco para terminar com as costelas. Junto ao último golpe, agarrei seu colarinho e o joguei com força bruta em direção a porta, arrancando-a dos eixos e derrubando os dois – a porta e o intruso – ao lado do detetive.

Sherlock arregalou os olhos, virando o rosto em minha direção.

__ сукин сын – praguejei, em russo.

__ Oh, fique quieta, Tatiana – o intruso respondeu, aos trôpegos pela dor e falta de ar. Arregalei os olhos. Ninguém, além da Sophia, Dimitri e do Deniel me chamavam de Tatiana.

Sophia e Dimitri estão mortos.

Deniel?

Tirei a máscara de seu rosto. Meu coração acelerado não sabia se corria mais pelo susto ou se parava completamente. Perdi o ar e o chão.

Os olhos dele brilhavam na mesma cor dos meus. O cabelo castanho estava desarrumado pelo pano da máscara, e o nariz sangrava pelo soco que desferi.

__ Deniel? O que você está fazendo aqui?

__ Desculpe-me, irmãzinha, mas não vai sair daqui viva.

__ Ahn?

__ Dimitri voltou. E não quer provas vivas daquela época.

Meu coração fizera uma escolha. Estava a ponto de parar e não voltar mais.

__ Dimitri está morto, Deniel! – gritei. – Morto!

__ Ele achava que você estava morta. E eu também.

__ Ele não poderia ter sobrevivido a aquela bomba.

__ A não ser que o ataque tenha sido falso.

Me calei por um instante. Minha felicidade por ver meu irmão mais velho só conseguia ser suplantada pelo sentimento destruidor de saber o porque ele estava ali.

__ даже больше, младшая сестра – Deniel terminou.

Puxou uma arma. Apontou-a para o meu peito e puxou o gatilho.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim ^^ Até o próximo capítulo! Beijinhos da ruiva, Amelia.