Fúria

21 Capítulo 20 - Marcos (2022)


"It must be exhausting

always rooting for the anti-hero"

Quando Marcos acordou, a luz do teto lhe deixou um pouco cego. Ele tentou se levantar, confuso, mas sua cabeça doía e, ao passar as mãos, percebeu que estava enfaixada. Imediatamente se lembrou de como tinha ido parar ali, e procurou ao redor do quarto esperando ver Giovanna ou Penélope. Ele lembrava de ter ouvido tiros, um som distante, e se perguntou se alguém tinha sido atingido.

O cheiro ardente da gasolina, a muralha de homens que cercava Penélope e as pupilas dilatadas de Iago eram o que ele mais se lembrava. Ele imaginou que tinha tido apenas uma concusão, talvez levado alguns pontos na cabeça, mas nada tão grave quanto poderia ter sido. Seu corpo não estava muito dolorido e, analisando os remédios que estavam sendo aplicados por intravenosa, constatou que tinha sido isso mesmo. Estava em um apartamento de cama única, e sem visitantes em lugar algum do quarto. Ele detestava todos aqueles fios o prendendo, e começou a retirar as agulhas quando a porta do quarto abriu.

De todas as pessoas que esperava ver, Aline não era uma delas.

Ela estava com os olhos inchados, e suspirou aliviada ao lhe ver acordado, atravessando o quarto para lhe abraçar. Marcos se sentiu sufocar um pouco, mas ficou grato por lhe ver.

— Meu Deus, Marcos, eu quase morri de preocupação. Giovanna me ligou, falou sobre o assalto e que você estava no hospital, eu vim correndo te ver.

— Assalto?

— Você não lembra? — ela se afastou, olhando para ele com preocupação. — Você teve uma concusão, os médicos falaram que ia ficar um pouco confuso. A sorte é que foi trazido logo para cá, podia ter sido pior.

Marcos se lembrava muito bem do que tinha acontecido antes de cair, e não havia tido assalto algum.

— O que aconteceu?

— Giovanna disse que vocês tinham acabado de chegar e que foram abordados na entrada. Ele entrou com vocês e ficou um pouco surtado, revirou tudo procurando dinheiro e até ameaçou queimar a casa. Sorte que vocês conseguiram sair a tempo, mas ele pulou em você quando já estavam na rua, e fugiu quando a ambulância chegou. Os vizinhos disseram que ouviram tiros, mas ele não atingiu ninguém. Giovanna está bem, graças a Deus. Só chorosa e triste.

Marcos não sabia de onde Giovanna tinha tirado aquela história mirabolante, mas decidiu que ia fingir confusão até poder perguntar para ela. Ele preferiria mil vezes denunciar Iago e o ver sendo preso. Por que dizer que tinha sido um estranho? Marcos queria ver ela, perguntar se estava tudo bem. E Penélope, também.

— Sua namorada estava aqui de manhã, com Giovanna. Elas estavam aqui desde ontem, passaram a noite com você. Eu disse para elas irem pra casa descansar. Tenho que avisar que você acordou.

— Penélope? Como ela está? O que aconteceu?

Aline franziu a testa, confusa.

— Penélope? Eu estou falando da Lily. Ela passou a noite aqui com Giovanna até eu chegar. — logo a sua confusão virou uma expressão de mãe. — Marcos, não vai me dizer que você está com duas namoradas.

— O que? — ele tentou se levantar novamente, mas Aline o impediu, brigando com ele quando viu que tinha tirado o acesso do soro. — Não vai ter casamento, eu terminei com Lily. Cadê a Penélope?

— Que término? Como assim? Por que ninguém nunca me diz nada? — perguntou, irritada.

— Aline! — perdeu a paciência. A luz estava começando a lhe deixar tonto. — Por favor, vai atrás da Penélope e pede pra ela vir aqui, eu preciso falar com ela. Cadê o meu celular? A Giovanna... Ela não pode ir pra casa, o cheiro da gasolina...

— Calma. Espera aqui, eu vou chamar a enfermeira pra ficar com você. Para de ficar se mexendo!

Aline saiu, e Marcos contemplou o silêncio, se perguntando o que significava tudo aquilo. Sua cabeça estava doendo, e, por mais que alguns momentos estivessem confusos, ele se lembrava perfeitamente de algumas coisas. Penélope não estava com Giovanna, então onde ela estaria? Com Franco? Com outra pessoa? Ela estava bem, estava segura? Ele sentia um pouco de decepção por ela não estar ali quando ele acordou, um sentimento parecido demais com a sensação que teve ao sair da delegacia e encontrar Marina sozinha esperando por ele, e um sentimento que o deixou em alerta.

Estava tudo acontecendo de novo.

Disse a si mesmo que se Penélope tivesse ido embora sem se despedir de novo, deixando ele sozinho em uma cama de hospital e se sentindo sozinho e confuso, então ele não lamentaria. Mas, mesmo enquanto pensava isso, Marcos sabia que não era verdade. Ficaria com raiva, ficaria decepcionado, ficaria triste, mas mesmo assim lamentaria uma vida inteira.

Aline voltou pouco depois, e pela expressão dela Marcos sabia que não eram boas notícias.

— Giovanna disse que Penélope foi embora ontem a noite. Ela tinha um voo marcado e não podia se atrasar — ela claramente não aprovava a atitude, pela forma como falou, pronunciando cada palavra.

— O que... Quanto tempo eu fiquei desacordado?

— Só um dia. Você acordou ontem, na verdade, mas só falou umas esquisitices e voltou a dormir.

Um dia. Penélope sequer atrasou o seu embarque. Marcos sentiu seu mundo inteiro afundar, e deve ter deixado isso bem claro na sua expressão pois Aline se sentou ao seu lado na cama, segurando sua mão. Ele podia imaginar os milhões de sermões que ela queria lhe dar, mas se segurando porque ele estava de cama.

— Gigi está louca pra te ver, quando eu disse que você estava acordado ela disse que estava vindo — tentou lhe animar. — Ela não deve demorar a chegar.

Marcos estava louco para ver a filha, é claro, mas não conseguia deixar de pensar em Penélope indo embora. Depois de tudo que tinham passado? Depois de tantas vezes ter implorado para que ela ficasse, ter lhe oferecido uma vida, uma família? Depois de se reencontrarem tantos anos depois de um fim caótico, ela não iria nem mesmo se despedir em outro fim caótico?

Mas, afinal, a vida com ela sempre tinha sido exatamente assim, Marcos pensou com amargor. Problemas e caos, sem nunca ter fim. Ainda assim... Ainda assim ele gostaria que ela tivesse ao menos esperado que ele acordasse e se despedisse de maneira apropriada. Tinha deixado Giovanna sozinha, com o pai desacordado. Que tipo de consideração era aquela?

Se sentiu exausto, cansado de uma vida inteiro arrumando desculpas para os comportamentos de Penélope, por sempre estar tão disposto a lhe perdoar por tudo e qualquer coisa. Como ela podia ter ido embora assim?

Ele se deitou novamente com cuidado para que sua cabeça machucada não doesse, fechando os olhos. Não conseguia acreditar. Não queria acreditar. Outro final que não era um final, e o fazia se sentir pequeno e insuficiente.

Aline apertou sua mão, e ele ficou grato que ela não estivesse insistindo em conversar.

— Você quer água?

Ele assentiu, sem abrir os olhos, e sentiu o colchão mudar quando Aline se levantou. Tinha visto antes um bebedouro em uma pequena bancada ao lado de uma cafeteira.

— Alguém deixou isso para você — Aline comentou, confusa, segurando um envelope pardo que estava em cima do bebedouro.

O nome de Marcos estava escrito com uma caneta azul, na caligrafia cheia de rabiscos de Penélope. Se Aline não tivesse lhe entregado logo o envelope, Marcos teria pulado nela.

— É dela? Da nova namorada? — questionou, curiosa.

Marcos sequer respondeu, pegando as folhas com avidez como se fosse a própria Penélope dentro do envelope. Sua vista ainda não estava muito boa, especialmente para decifrar a caligrafia dela, mas Marcos se esforçou porque não conseguir em nada que gostaria de ler mais naquele momento.

Ele respirou fundo, com medo do que leria, e então começou sem se importar que Aline ainda estivesse ali lhe olhando como uma investigadora.

"Te deixar naquela época foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz, e te deixar agora, em uma cama de hospital, é mais difícil ainda. Existem coisas que você teria gostado de me ouvir dizer antes, e eu não disse porque sabia que você ficaria triste, preocupado, e não me deixaria voltar para a minha vida se soubesse. Eu não consigo organizar meus pensamentos direito e estou com pressa, então vou tentar explicar em ordem:

Eu tinha um caso com Franco por pouco tempo, não mais que um ano. Eu engravidei, fugi, Louis me encontrou e me levou para uma das casas dele, que ficava em uma ilha grega. Eu fiquei isolada lá por meses, e então a minha filha nasceu, e então ela morreu, e então eu saí da ilha, e isso é tudo que você sabe.

Mas isso não é tudo, e eu sinto que preciso te contar tudo. Eu te devo pelo menos isso.
Sinto muito por ter bagunçado tudo (o seu noivado, a sua casa, o seu trabalho e a sua vida), mas eu quero que você saiba que foi tudo muito importante pra mim.

Eu tentei me matar, Marcos. E sentir o seu cheiro e ter o seu abraço e me sentar na mesa da cozinha com Giovanna pra estudar e ouvir ela falar mal dos seus desafetos e apostar corridas com ela e te beijar de novo, tudo isso me ajudou muito.

Quando Mia nasceu, ela era muito pequena. Eu já te contei isso (eu me lembro de tudo que eu já te falei, porque eu nunca menti pra você). Eu não fiz pre-natal, não fiz consulta alguma, não fui em médico nenhum durante toda a gravidez, e eu morria de medo dela ter algum problema, como Rodrigo. Eu pedia e implorava, e você sabe como eu sou ruim nisso, e ninguém me deixava sair. As empregadas, o motorista, os seguranças, o cozinheiro... ninguém me deixava sair. Nas últimas semanas Louis voltou para a casa, porque queria estar presente para o parto, e foi ele quem me levou para um hospital simples, ali mesmo na ilha, quando as contrações começaram cedo demais.

Eu tive problemas e ela teve problemas, e Louis me mandou de volta para casa depois de pouquíssimo tempo ao lado dela, e levou Mia para a capital para ser internada em um hospital melhor. Foi a maior ansiedade da minha vida saber que Mia estava sozinha com ele e longe de mim, mas ele tinha a minha filha então não tinha nada que eu pudesse fazer além de esperar. Ele voltou semanas depois e deixou que eu ficasse com ela por alguns dias. Ela estava melhor, maior e mais disposta, e eu pensei por um momento que ele nos deixaria em paz. Por que ele teria tanto esforço para salvar Mia se não fosse para nos deixar em paz? E, mesmo se eu nunca mais pudesse sair de lá, eu ainda estava em uma casa grande e confortável com a minha filha, e ela poderia crescer e ter uma vida feliz e bonita.

Eu fui uma idiota, e subestimei o nível de crueldade dele.

Eu estava no meu quarto, deitada com Mia na cama, quando ele entrou. Tinham várias pessoas com ele. Eu reconheci o jardineiro e um dos seguranças, mas tinham também outros empregados novos, que eu não conhecia.

Ele pegou Mia, e eu tentei impedir. Você dizia que eu era briguenta, então vai acreditar em mim quando eu disser que nunca, em toda a minha vida, eu briguei tanto quanto naquele dia. Com ele, com os seguranças, com as pessoas que me seguravam, pra não deixar que ele pegasse a minha filha. Era era tão pequena e tão delicada, e eu não queria que ninguém tocasse nela.

Eu fui casada com ele, eu conheço ele, e eu sabia que ele não iria me devolver ela. Não como nas vezes em que a tirava de mim, sumia por algumas horas, e depois me devolvia. Ele disse que eu precisava aprender uma lição: o que acontecia com frutos de traição. Que isso me ensinaria a não trair ele de novo, nunca mais. Ele nunca acreditou quando eu negava que Franco fosse o pai. Os homens acenderam a lareira do quarto, e ele jogou minha filha no fogo. Eles me seguraram lá enquanto ela queimava, chorava, berrava, até morrer. Eu disse tantas vezes que ela era a filha dele, e não adiantou de nada.

Você é pai. Mesmo que não fosse, eu acho que não precisaria explicar mais do que isso, não é?
Depois disso ele foi embora e eu continuei trancada por algumas semanas, mas um dia a porta estava aberta. Eu não sei se de propósito ou por acidente, mas estava. Então eu sai de casa, caminhei até um dos penhascos da ilha, um que era famoso por suas pedras pontiagudas, e pulei. Foi isso que causou os cortes nos meus braços.

Eu queria tanto morrer, mas quando estava na água, sendo puxada de um lado para o outro e jogada contra as pedras, eu pensei: "por que sou eu quem vou morrer, e não eles?". Então eu tentei nadar para longe, mas tinha perdido muito sangue. Por sorte um barco de pesca de uma família que mora na ilha me encontrou. Eu pensei que fossem me devolver para Louis, mas eles não fizeram isso, talvez por me verem tão machucada. Foram eles quem me levaram para o barco da organização de Marina, e foi assim que cheguei até ela. A coincidência mais absurda da minha vida: eu deveria ter morrido naquele dia, mas a água me levou até um barco que me levou até Marina, que me levou de volta para você.

Então, meu amor, essa é a minha história. Que você queria tanto que eu contasse, mas eu não contei.

Eu tentei te proteger, tentei envolver você o mínimo possível em tudo, e mesmo assim você está em uma cama de hospital, atacado por alguém que me odiava. Você sempre ouviu os meus conselhos, então eu vou te dar um: casa com ela. Ela vai te trazer equilíbrio, paz e apoio. Vai ficar do seu lado, e sua vida vai ser tranquila de um jeito que nunca seria comigo. E antes que você pense que isso não importa, eu digo que importa sim. Importa pra mim, porque eu quero que você e Giovanna fiquem bem. E, também, eu fiz algo que não te contei: pedi pra ela esperar por você, e ela disse que esperaria. Não que isso seja algum sacrifício.

Você vai me superar, vai esquecer de mim, e vai seguir em frente. Por favor.

Você me deu tudo, absolutamente tudo que eu precisava. Antes, logo quando a gente se conheceu, e agora também. Só tem uma coisa que você não pode me dar, e é por isso que eu não vou mais te incomodar. Fica bem, por favor.

PS: Você me perguntou naquele dia que tirou os pontos se eu sequer lembrei de você enquanto estava vivendo a minha vida, e eu disse que não. Era verdade, em parte, porque eu não gostava mesmo de pensar no passado. Mas tem uma coisa que eu não te contei: se fosse menino, eu teria dado o nome de Marcos, porque sempre pensei que, se algum dia tivesse um filho, queria que meu filho fosse igual a você."

Notas finais
Capítulo roubado, porque o POV é do Marcos mas a carta da Pénole é mais da metade k Mas vamos lá... quem adivinhou que a morte da Mia tinha sido assim?