Fúria

16 Capítulo 15 - Penélope (2005)


Would it be enough

If I could never give you peace?

Penelope odiava o ambiente da delegacia, as pessoas que não paravam de falar e a correria de todo mundo, que passava apressado em frente a cadeira onde ela estava sentada. Ninguém lhe dizia nada, ninguém respondia suas perguntas, e ela ainda não tinha conseguido ver Marcos.

Marina estava ao seu lado, com o rosto inchado e tremendo as pernas, nervosa. Estavam há horas ali, esperando. Penélope já tinha dado um depoimento, e Iago tinha entrado a pouco tempo na sala. Apesar de tudo, ela ficou feliz em ver como o seu rosto estava deformado. Ela ainda podia sentir o peso dele sobre ela, as mãos dele puxando sua roupa.

— Eles não vão soltar ele — Marina choramingou, com o rosto escondido entre as mãos. — Marcos vai ficar preso pra sempre e...

— Para com isso agora! — Penélope repreendeu, nervosa — Ele não vai ficar preso!

— Penélope — a voz do seu pai lhe distraiu, e ela se virou para observar ele cortar caminho entre as pessoas na recepção. Alto, imponente, com um terno que custava mais do que qualquer um daqueles policiais ganhava em um mês. Ela suspirou aliviada, sabia que ele conseguiria tirar Marcos dali e resolver tudo.

Mas a expressão dele não era de alguém que iria lhe ajudar. Ele olhou ao redor uma vez antes de fazer um sinal para que ela se aproximasse.

— Vai ficar tudo bem, Marina — disse, se levantando, mas a irmã de Marcos lhe olhou como se duvidasse — Eu vou resolver tudo.

E ela iria, porque era por culpa dela que Marcos estava ali. Se não tivesse pegado a cocaína com Iago, ele não teria ido atrás dela para lhe cobrar ou tentado lhe agarrar. Pensar em Marcos na cadeia, em um lugar cheio de pessoas tão ruins quanto o pai dele, longe dela e de Marina, longe de tudo... E era tudo culpa dela.

Só quando parou em frente ao pai Penélope parou para pensar na própria aparência: ainda usava o mesmo vestido, sujo de sangue, estava suada, suja, e, pela expressão nada contente de seu pai, imaginou que devia estar fedendo também.

— Papai...

— Lá fora — lhe cortou, a voz tão baixa que ela quase não ouviu.

Penélope sentiu o coração acelerar, porque ele não estava lá para ajudar. Estava lá para gritar com ela, e não para tirar Marcos da cadeia. Ainda assim seguiu para fora e percebeu pelo sol baixo que tinha passado a noite toda na delegacia. Quando o seu pai entrou no carro parado na rua, ela entrou em seguida, ignorando o motorista no banco da frente.

— Você vai me explicar, muito bem explicado — ele apertou o seu braço, irritado — Mas muito bem explicado mesmo, porque o Pastor me ligou hoje avisando que o filho dele estava na delegacia, prestando depoimento, depois de ter passado a noite no hospital sendo costurado porque o vândalo do seu namorado o atacou.

— Ele me atacou — se defendeu, puxando o braço — Marcos estava me defendendo, ele teria me estuprado se Marcos não tivesse chegado.

— Penélope, faça-me o favor! Você sabe o que isso significa para os meus negócios, você sabe como essas fofocas me afetam?

— Ele me atacou! — repetiu, gritando, sem acreditar.

— Foda-se, Penélope! Você não pensa? — ele bateu no banco da frente, fazendo o motorista pular. Quando se virou para ela, seus olhos estavam injetados de raiva. — Você tem alguma noção do valor dos meus negócios com o Adriel? Você tem noção?

Penélope sentiu os olhos encherem de água, sem acreditar. Ela tinha se afastado do pai nos últimos anos, principalmente por suas brigas com a madrasta e as meia-irmãs, suas viagens constantes e o fato de que ele sempre estava trabalhando, mas nunca imaginaria que ele ficaria contra ela em uma situação como aquela. Era o seu pai alí, lhe dizendo que ela estava errada por ter denunciado o homem que lhe agrediu.

— Você vai entrar nessa delegacia e vai falar que o Iago é inocente, e eu não quero mais ouvir falar nesse seu namoradinho marginal.

— Você sequer sabe o que aconteceu? — gritou, o empurrando quando ele tentou segurar seus braços novamente — Ele tentou me agarrar! Ele me machucou!

— Eu não tenho tempo e muito menos paciência pra lidar com os problemas românticos, Penélope! Você vai fazer o que eu to mandando, ou nunca mais vai ver a cor do meu dinheiro. Eu estou cansado dos seus problemas, dos seus dramas.

Ela fungou, engolindo o choro. Queria ir pra casa e tomar um banho, queria queimar aquela roupa até virar cinzas, queria nunca mais ter que olhar para Iago, queria que ele tivesse morrido. Mas não ia fazer nada disso sem antes tirar Marcos dali. Encarou o pai, vendo ele com outros olhos, finalmente.

— Ou você tira Marcos da cadeia agora ou eu vou entrar lá e dizer que não apenas Iago tentou abusar de mim, mas o meu próprio pai fez isso por anos, quando eu era menor de idade. A sua cara vai estar na primeira página de todos os jornais amanhã. Que tal isso como fofoca? Que tal isso como um escândalo para o pastor?

Carlos a encarou de boca aberta, e então furioso.

— Você vai armar contra o seu próprio pai pra proteger esse favelado?

— Pelo menos esse favelado se preocupa comigo — cuspiu as palavras, puxando o celular e olhando o relógio. — Você tem meia hora pra resolver isso. Não me interessa como vai fazer, o dinheiro que vai ter que gastar. Se não resolver isso, eu ligo pra imprensa.

O tapa veio tão rápido que Penélope só percebeu quando seu rosto bateu contra o banco, a pele ardendo. Era aquele jogo que ele queria? Pois esse ela sabia jogar. Ela sorriu para o pai.

— Essa vai ser a primeira marca que vão identificar no corpo de delitos. E pode ter certeza que eu vou garantir que encontrem outras.

Carlos parou, respirando tão rápido que por um momento ela pensou que ele teria um ataque. Ele puxou a carteira com tanta raiva que quase rasgou o bolso do terno, e então escreveu um cheque com tanta força que a caneta quase furou o papel. Por fim, ele jogou o talão de cheques no colo de Penélope, apontando a caneta para ela.

— Eu te dou cem mil pra você esquecer toda essa história e retirar esse depoimento ridículo.

Ele realmente achava que cem mil seria dinheiro o suficiente para que ela deixasse Marcos na cadeia? Penélope o encarou, impassível.

— Qual é o seu apego com esse garoto? — berrou, exasperado — Quanto você quer pra parar com essa besteira?

— Eu quero a liberdade dele — rosnou. — E pra mim isso não tem preço.

— Eu consigo que soltem ele se você concordar em ajudar Iago — negociou — Os dois podem ficar livres, eu continuo os meus negócios com o pastor e tudo fica bem.

"Tudo fica bem?" Penélope pensou, decepcionada. "Ele veio aqui defender o meu agressor, e então tudo fica bem?". Ela queria que Iago fosse punido, queria lhe ver atrás das grades. Mas se a liberdade dele era o preço para a liberdade de Marcos...

— Ele vai ser solto ainda hoje?

Carlos a ignorou, ligando para alguém, e Penélope deixou que ele conversasse com quem quer que fosse, só queria ir pra casa. Queria chorar, e queria ir para casa. Se sentia suja, infeliz e culpada, ainda sem acreditar completamente na conversa que tinha acabado de ter com o pai. Penélope sabia que ele não se importava tanto com ela, mas nunca imaginou que fosse tão pouco. Subitamente, queria o colo da mãe, queria poder chorar e ser consolada por ela de uma forma que não tinha sido desde que era criança, antes de toda a confusão na sua vida começar.

Ela captou o olhar do motorista para ela, de canto de olho. Parecia estar com pena, os lábios cerrados como se quisesse dizer alguma coisa, e ela se sentiu ainda pior. A pena era ainda pior.

Quando o seu pai finalmente desligou o telefone, ele o guardou e se virou para ela, segurando seu rosto com força.

— O seu namoradinho vai ser solto ainda hoje, e eu nunca mais quero ouvir uma única ameaça de você, entendeu? — Penélope concordou com a cabeça, assustada com a violência no olhar do pai, e ele a soltou — Eu não sei onde erramos com você. Deve ter sido a sua mãe, eu sempre fiz o meu melhor, e você me saiu um péssimo negócio, pior que aquele bastardinho defeituoso. Uma vagabunda chantagista igual a sua mãe. Ameaçando o próprio pai! Fora daqui, eu não quero te ver tão cedo.

— Senhor, eu posso deixar a menina em casa. Não é mais seguro?

O motorista se intrometeu, virando para eles. Mesmo com o quepe Penélope podia ver que ele era mais velho pelos cabelos brancos escapando pelas laterais, além as rugas na testa e ao redor dos olhos. O olhar dele era preocupado, e Penélope imaginou o quão preocupado ele deveria estar para estar se intrometendo na conversa do chefe.

— E você cale a sua boca se não quiser ficar desempregado! — gritou, e o senhor lhe olhou com um olhar de desculpas antes de se virar novamente para a frente.

— Pai... — Penélope tentou uma última vez, odiando a fraqueza na própria voz. — Pai, eu não menti. Ele tentou me agarrar, ele me machucou. O Marcos chegou bem a tempo de impedir uma coisa pior.

Carlos se virou para a filha, e por um momento ela teve esperanças. Pensou no pai que tinha conhecido, que ria e brincava com ela, que se importava com ela, lhe tratava tão bem, com tanto cuidado.

— Penélope, não se fala mais nisso. Não aconteceu nada, e não se fala mais nisso. Eu não vou perder os meus negócios por uma historinha de romance adolescente.

Penélope não sabia o que dizer. Ela apertou o talão de cheques na mão, tão amassado que ela pensou que o papel rasgaria. Sua mente trabalhou rápido, mas por amor ao pai ela decidiu lhe dar mais uma chance.

— Você não vai fazer nada?

— Puta que pariu — ele resmungou baixinho, mas ela ouviu. Carlos se inclinou no banco, falando com o motorista — Deixa essa garota em casa. Eu vou pegar um táxi.

Penélope se jogou no banco de trás, ignorando o olhar de pena do motorista, e observou o seu pai fazer sinal para um carro. Ele entrou sem olhar para trás.

Ela não queria sair de lá ainda, queria ter certeza que Marcos seria mesmo liberado, mesmo achando que o seu pai não mentiria sobre isso. Além disso, ela ainda precisava voltar ao prédio para mudar o seu depoimento.

— Você quer ir pra onde, filha?

O motorista tinha idade para ser o seu pai, e Penélope odiava a maneira carinhosa como ele lhe tratava, a pena com que lhe encarava. Odiava porque como um estranho poderia lhe oferecer aquilo, quando o seu próprio pai lhe deixava sozinha na porta de uma delegacia? Ela considerou que tinha que fazer alguma coisa, e rápido, antes que Carlos percebesse o erro que tinha cometido.

— Me dá uma caneta.

Ele entregou, sem lhe perguntar, e então se virou novamente para a rua. Penélope se perguntou se ele sabia o que ela faria, e não queria ver para não ser cúmplice. Se ele trabalhava para o seu pai, então ele devia saber, sim. Já devia ter visto e ouvido muita coisa.

Desamassou o talão de cheques, puxando o aparador do banco para apoiar os cheques enquanto escrevia. Ela sabia falsificar a assinatura do pai, mas o cheque que ele mesmo tinha escrito serviu como apoio. Ela pressionou a caneta no papel, exatamente como ele tinha feito, e escreveu os números e o nome de Carlos com perfeição. Um de seiscentos mil, um de trezentos, e o que ele mesmo tinha feito, de cem mil.

— Me leva ao Banco.

*

Quando Penélope voltou à delegacia, ela tinha uma ideia fixa: iria se afastar de Marcos. Ela dava muito trabalho, lhe colocava em situações terríveis. Ele tinha sido preso por culpa dela, Jesus. E no que dependesse do seu pai e do pai de Iago, ele teria ficado na cadeia por muito, muito tempo. As coisas não podiam continuar assim, ele precisava de paz e tranquilidade.

O pai dele ficaria preso, ele sim merecia a cadeia. Não poderia fazer mal aos filhos de trás das grades, e com a certeza que ele teria paz em casa ela decidiu que ele poderia ter paz longe dela, também. Penélope não iria mais atrapalhar a sua vida, complicar tudo sempre que se envolvia, ser o motivo das brigas dele com a mãe, com os amigos, com o mundo. Marcos era uma pessoa tão tranquila, tão maravilhosa, todos os problemas que surgiam para ele eram sempre relacionados a ela.

Ela evitou Marina quando entrou na sala do delegado, se apresentando com a filha de Carlos Magalhães, um nome que sempre tinha significado tanto para ela, mas, depois da última conversa com o pai, significava muito pouco. Disse o que precisava falar, odiando cada segundo daquilo. O delegado não parecia muito interessado, ficou irritado com as muitas vezes que ela perguntou, querendo ter certeza de que soltariam Marcos.

— Eu também não posso fazer milagre. Tá muito cheio aqui hoje, ele pode sair no final da tarde.

— No final da tarde?! Ele vai passar o dia todo nesse lugar horroroso?

Ele fez uma careta, mas pelo menos Penélope se sentia mais confiante. Tinha passado em um hotel para tomar banho, e tinha comprado uma roupa nova. Jogou a outra fora. Queimaria, se pudesse, mas apenas a deixou no lixo do hotel. O gerente do banco achou estranho, mas não questionou, os seus olhos brilhando quando viu os possíveis muitos zeros na conta bancária.

— Quanto pra ele sair agora? — perguntou, sem rodeios.

— Cinco e eu solto ele depois do almoço. É o melhor que eu posso fazer.

Penélope assinou um cheque para ele, irritada. Ainda faltavam algumas horas, mas pelo menos ele sairia. Ela estava se levantando quando o delegado lhe analisou dos pés à cabeça, de uma maneira curiosa.

— Posso te dar um conselho, garota? Você é nova, não deveria estar aqui tirando um namoradinho da cadeia. Vai aproveitar a vida, sair com suas amigas... Namoros assim nunca terminam bem.

— Eu não pedi a sua opinião — rosnou, irritada. — Faça o seu trabalho, é para isso que você é pago.

Ela não esperou pela sua resposta, indo procurar Marina. Sabia muito bem que a garota devia estar uma pilha de nervos com o seu sumiço.

— Ele vai sair ainda hoje. Não vão prestar queixas, não vai ter processo, nada. Mas... Bem, eu sei que Iago não vai esquecer tão cedo — "porque eu não esqueceria" pensou, com amargor. Lembrou de Iago, anos atrás, lhe dizendo que pessoas como eles não se misturavam com pessoas como Marcos. Tinha razão, ela tinha constatado, mas não pelo motivo que ele acreditava. Pessoas como ela, caóticas, vingativas e inseguras, levando desgraças aonde quer que fosse, não deveriam se misturar com pessoas como Marcos. — É melhor vocês passarem um tempo na casa da sua avó, ficarem meio afastados da cidade por umas semanas. Ele vai esquecer, se entreter com outra coisa, arrumar outro problema.

— Como assim "vocês"? Você não? — Marina finalmente parecia ter notado a sacola de compras na mão de Penélope, o seu cabelo escovado, e sua irritação foi evidente. — Você decidiu parar no salão enquanto Marcos está preso por sua causa? Qual é o seu problema? Ele podia ter ido pra um presídio!

— Mas ele não foi! — Ela olhou ao redor, e as pessoas começaram a prestar atenção na conversa. Puxou Marina pelo braço, lhe arrastando para fora da delegacia sob protestos antes de falar, com a voz baixa, assim que estavam na rua — Marcos não foi preso porque o meu pai deu um jeito, ela vai ser liberado hoje porque eu paguei por isso, Iago não vai prestar queixa porque teve um acordo. Eu não vou admitir nem por um segundo que você aja como se eu não me importasse com o seu irmão, porque eu me importo!

Marina empurrou sua mão, ainda parecendo irritada, e Penélope podia entender o motivo. Se Marina tivesse desaparecido da delegacia lhe deixando sozinha e voltado horas depois como se tivesse tomado um banho de lojas, ela ficaria furiosa. Mas, mesmo que fosse uma caçula rebelde, ela ainda era irmã de Marcos:

— Desculpa, eu tô nervosa. Então ele vai sair hoje, de verdade?

— Sim. Eu preciso ir, tenho que falar com a minha mãe.

— Você não vai ficar? Ele vai querer te ver quando sair.

Aquilo partiu o coração de Penélope. É claro que ele iria querer lhe ver assim que saísse de uma delegacia onde só tinha ido parar por culpa dela. Porque ele era um idiota apaixonado que não iria lhe culpar, mesmo que a culpa fosse dela.

— Pode entregar isso pra ele, por favor? — Marina lhe olhou com suspeita, como se desconfiasse de algo, e Penélope revirou os olhos e se forçou a sorrir, empurrando o envelope para ela. — Pelo amor de Deus, Marina, não é uma bomba. Eu vou encontrar vocês em casa, vou avisar sua mãe e... e comprar um bolo. O de morango, aquele que ele gosta.

— Tem certeza que quer falar com a minha mãe? — franziu as sobrancelhas, desconfiada — É melhor eu falar com ela e você espera aqui.

— Relaxa. Vai ficar tudo bem.

Penélope abraçou Marina apertado, ignorando o suor e a sujeira nas roupas dela. Aquela menina era tão nova, e já tinha passado por tanta coisa... Penélope sabia que ela era a pessoa que Marcos mais amava no mundo. Penélope gostava dela, também, Ela se sentia uma boa irmã mais velha, não a irmã mais velha defeituosa que ela era para Rodrigo. Ela não tinha coragem de se despedir de Marcos, mas podia abraçar Marina e fingir por um segundo que era ele.

— Eu já vou. Tenho que falar com a minha mãe. Vai ficar tudo bem, ok?

Ela se recusou a ouvir os protestos de Marina, entrando no carro o mais rápido possível e mandando o motorista seguir.

*

Rodrigo estava brincando no chão da sala quando Penélope entrou, e ele correu para ela assim que percebeu sua presença. Rodrigo estava com quatro anos, e sua saúde não tinha melhorado com o tempo. Ele ainda babava o tempo todo, sujando qualquer que fosse a roupa que vestia, e ainda passava mais tempo no hospital que em casa.

Mas Penélope sentia mais afeição pelo irmão, que parecia lhe adorar independente do que ela estivesse fazendo, sempre correndo para ela quando estava em casa. Sua mãe não deixava eles ficarem muito tempo juntos, sempre vigilante com a saúde do filho. Ela sorriu para ele, pensando em todas as vezes que Rodrigo corria para Marcos quando o via.

— É verdade que ele tá preso? — A voz da sua mãe é passiva, vinda do sofá. Ela estava sentada, olhando para Rodrigo, e não se virou para olhar a filha, que há dois dias não aparecia em casa.

— É. — Penélope poderia mentir, mas não tinha mais forças para isso.

— Tal pai, tal filho. Eu te avisei.

— Mãe... — Penélope tinha tanta coisa para falar, mas nenhuma palavra saiu. Ela queria se aproximar, queria sentar ao lado da mãe no sofá, mas não sabia mais como fazer isso. Elas tinham perdido completamente toda e qualquer intimidade ao longo dos anos.

— Mãe, quem é o pai do Rodrigo? — Pela maneira como Maria se virou para a filha, com os olhos arregalados, Penélope soube que estava certa. — Papai disse que Rodrigo era um "bastardinho". É verdade, não é?

Maria se levantou, andando ao redor do filho, nervosa. Passava a mão no cabelo, tremendo.

— Para de besteira, Penélope. Me respeita, eu sou sua mãe!

— É verdade, não é?

Ela se abaixou, pegando o filho no colo apesar dos protestos dele, que queria continuar brincando. Mesmo aos quatro anos de idade Rodrigo era pequeno, e parecia muito mais novo.

— Não é da sua conta! — rosnou para a filha. — Eu não vou admitir que você fique falando essas besteiras na frente dele. O seu irmão já tem idade para entender as coisas.

Penélope impediu a mãe de ir pro quarto, ficando na frente dela. Os olhos azuis se encontraram, e Penélope soube que ela cederia. Ela só queria saber, só queria uma confirmação, porque isso explicaria tanta coisa para ela. O descaso do seu pai com Rodrigo, a falta de dinheiro, o divórcio que sempre tinha sido mal explicado, como a sua mãe nunca tinha conseguido se reerguer, procurar um emprego, contar com os antigos amigos.

Não tinha partido da sua mãe, não tinha sido ela quem escolheu aquela vida terrível na qual Penélope nunca conseguiu se adaptar. Tinha sido a punição de Maria, e não a sua escolha. Tinha sido a punição que Carlos escolheu, que apenas um homem com a influência dele poderia impor, e que ela tinha escondido da filha por anos.

— É verdade — os olhos da sua mãe estavam marejados, furiosos. Parecia envergonhada, também. — Ele não é filho do Carlos. Satisfeita?

— Eu tenho dinheiro. Ele me deu dinheiro, a gente pode sair daqui. Ir embora pra bem longe, mãe. Começar do zero.

Maria riu, sarcástica.

— E porque nós iríamos pra qualquer lugar com você? Você, que não consegue se manter longe de confusões, que não gosta do seu irmão, que não gosta de mim, que é egoísta e nunca me ouve?

As palavras machucaram Penélope. Não era a primeira vez que as ouvia, mas tinha alguma coisa diferente naquela vez. Talvez fosse a adrenalina que sentia na delegacia, que ainda não tinha sido dissipada, ou a culpa que sentia, o remorso. Ou o fato de, mesmo depois do banho, ainda sentir o peso de Iago acima de si. Ela respirou fundo, pronta para implorar por aceitação, por carinho, apenas daquela vez.

— Mãe...

— Você acha que eu confio em você, Penélope? Acha? — Rodrigo começou a chorar, estressado — Acha que eu iria embora com você sabe-se lá pra onde, que eu confiaria em colocar os meus problemas nas suas mãos? Que eu confiaria te seguir para algum lugar, colocar o tratamento do seu irmão em risco? Pois eu não confio.

— Eu vou pagar! Eu pago por tudo! — gritou, chorosa. Naquela vez não se importava em chorar na frente dela — Eu só quero que vocês venham comigo, eu só não quero ficar sozinha.

Maria lhe encarava, impassível. Ela demorou um pouco para falar novamente, e Penélope até pensou que ela iria aceitar.

— Eu confiei no seu pai, e olha só onde eu vim parar. Eu nunca confiaria em você, você é igualzinha a ele. Vai me fazer promessas e depois nos abandonar. Eu prefiro ficar aqui, onde eu sei que eu só posso contar comigo. Assim eu não me decepciono ainda mais com você.

— Mãe, eu preciso de você! Eu prometo, eu vou me comportar. Eu cuido de vocês, eu não deixo faltar nada. Vamos embora dessa merda desse bairro, ficar longe de tudo isso, voltar pra nossa vida.

Maria se afastou dela, pegando a bolsa que estava sobre a mesa.

— O meu filho é a minha vida agora, Penélope. E ele tem uma consulta às 11h.

Ela sabia que a resposta da mãe era definitiva, mas mesmo assim a acompanhou escada abaixo, pedindo que ela considerasse, implorando para que a acompanhasse. Penélope fez tantas promessas, pediu tantas desculpas, que nem mesmo ela entendia mais as palavras que saíam da sua boca.

— Já chega! — Maria gritou, irritada, assim que chegaram na frente do prédio. — Eu não vou pra lugar nenhum com você, eu não acredito em você. Já chega!

Penélope ia responder, ia pedir mais um pouco. Os pedidos da sua mãe para que ela parasse com o que quer que fosse nunca tinham lhe impedido, afinal. Mas ela não teve tempo de dizer nada, porque Maria atravessou a rua. Rodrigo sorriu para a irmã, acenando.

Penélope ainda estava olhando para as costas da mãe quando o ônibus os atropelou.

Notas finais
Então gente, o que acharam? Pra mim o lance da desconfiança da mãe da Penélope é por elas não terem um bom relacionamento: a penélope era impulsiva, egoísta, mimada, rebelde... E a Maria não achou que ela fosse mudar ou que ela estivesse falando a verdade quando disse que ia cuidar deles dois. Ela não confiou na filha, e preferia se preservar. A Penélope indo embora: não sei se consegui deixar muito claro os sentimentos dela, mas ela se sentia muito culpada pela prisão do Marcos, teve o trauma do quase estupro, a reação ridícula do pai dela, e todos os problemas pessoais dela nos ultimos anos. Aqui ela tem 18 anos, ainda é muito nova e já se sente uma pessoa terrível por muitos motivos. E vamos ser sinceras, de fato ela fez bastante estrago nesses poucos anos de vida né? KKKKKRYING De fato ela e o Marcos vibram em frequências diferente, digamos assim. Ele era uma tempestade e ele uma lagoa. Enfim, espero que vocês estejam gostando! ♥ deixem a opinião de vocês!