Fúria

2 Capítulo 1 - Penélope (2022)


I still like you the most

You'll always bemy favorite ghost

A casa dele não ficava mais no mesmo lugar.

Penélope ficou feliz por isso, feliz por ele. Mas ainda era perto do bairro onde tinham se conhecido, e chegava a ser uma cena familiar mesmo que ela nunca tivesse ido ali. Ela pensou que ele não tinha vontade de ir para muito longe, porque sabia que o problema não era mais financeiro. Penélope imaginou se a mãe dele ainda morava no apartamento antigo, ainda tinha a mesma cara emburrada e ainda aparentava ter tomado veneno toda vez que falava dela.

Ela tinha se esforçado para esquecer tudo a respeito daquele lugar, a fingir que nunca existiu e foi apenas um sonho ruim. A infância na casa do seu pai... Essa sim Penélope se lembrava com perfeição de detalhes: a cama de casal, os quadros e cristais que enfeitavam seu quarto, a banheira redonda de mármore rosa, a piscina infantil onde tinha aprendido a nadar. Mas os anos morando naquele bairro ruim, os vizinhos com quem ela não se dava bem, o apartamento minúsculo e a porra da falta de dinheiro, tudo isso ela tinha feito questão de esquecer. Ela apagou todos os anos de pobreza e os muros pichados, os gritos da sua mãe e a violência do pai dele.

Apagou Marcos da sua mente também, tanto quanto conseguiu. Ela se recusava a pensar nele, porque sabia que isso acabaria com ela. Mas aparentemente não tinha feito um trabalho bom o suficiente, porque a familiaridade daquelas ruas a levava de volta ao passado: as paredes azul escuro do seu quarto, a cama de solteiro pequena demais para os dois, a risada dele, o corpo dele contra o seu. Os olhos tristes que ele tinha, mas que sempre sorriam para ela. Então ela pensou na sua mãe, nas olheiras e na expressão cansada, no quanto odiava ela por isso.

Penélope não queria pensar em nada disso. Expulsou a voz da mãe da sua mente, o rosto dela dos seus pensamentos, e continuou a andar.

A casa dele era exatamente como Marina tinha descrito: com paredes rosa claro, uma árvore grande na frente e um muro baixo. Penélope não tinha coragem de entrar, não tinha coragem de bater na porta dele e pedir por abrigo, mesmo sabendo que esse era o único motivo de estar ali.

"Eu me odeio, eu me odeio, eu me odeio. Eu vou atrapalhar a vida dele de novo, isso se ele me deixar ficar".

Mas não era como se ela tivesse outra opção. A verdade era que não tinha coragem de ir até ele, tinha medo de colocar ele em perigo e ser um estorvo. Penélope se perguntou se viraria uma pilha de sal assim que o visse.

Podia sentir algumas pessoas a olharem conforme se aproximou da casa dele. Não muito, mas o suficiente para lhe deixar nervosa. Sentia como se todos os olhares estivessem nela, como se todo mundo soubesse quem ela era e de onde vinha. Imaginou Louis saindo do meio da multidão, lhe obrigando a voltar para a casa dele, exatamente como da última vez.

Pensar no marido e em tudo que aconteceu fez com que ela conseguisse focar no que tinha ido fazer. Respirou fundo antes de atravessar a rua, determinada dessa vez. O ódio era um bom motivador. Mesmo que Marcos lhe mandasse embora, Penélope ainda assim gostaria de vê-lo pela última vez, quem sabe até pedir desculpas.

Ela montou um roteiro mental de tudo que devia falar antes de bater à porta. Por onde começar a se explicar, e o quanto poderia revelar sem envolver ele demais em toda a sua bagunça. Respirou fundo mais uma vez, tentando controlar a respiração e a ansiedade, engolindo o medo e o choro. Estava nervosa, ansiosa e apavorada, mas se controlou. Iria se manter firme, independente do que acontecesse.

Toda a sua pose, é claro, acabou assim que ele abriu a porta. Ela deveria saber que seria assim. Sempre tinha sido assim.

Ele era de novo o garoto mais bonito do mundo, como da primeira vez em que o viu. Apesar de que, é claro, não eram mais adolescentes, e ele já era um homem. Penélope prendeu a respiração quando o viu olhando para trás e rindo antes de lhe ver, uma parte dela ciumenta e curiosa para saber quem fez ele rir daquele jeito. Ele riu alto, e ela sentiu seu corpo arrepiar por ouvir sua risada de novo. Ela sabia que não tinha direito de sentir ciúmes, mas isso não a impediu de sentir

Penélope se arrependeu imediatamente de ter ido até ali assim que seus olhares se encontraram.

Sustentou o seu olhar por um momento, não conseguindo prestar atenção em mais nada, até que ele deu um passo na sua direção, parecendo não acreditar. Ela conhecia bem aquele olhar perdido e confuso. Então, deu um passo em sua direção, sem saber o que fazer, como reagir ou como começar a explicar, e se jogou em seus braços, sentindo as lágrimas caírem.

— Não acredito! — Ele lhe abraçou. Sua voz era feliz e confusa — O que você está fazendo aqui?

— Me perdoa — sussurrou — Eu preciso... Eu preciso...

Marcos se afastou o suficiente para olhar o seu rosto, e ela podia ver a preocupação, o choque que causou, e isso a fez chorar ainda mais. Penélope o abraçou com força, sabendo que se não fizesse isso iria cair, e escondeu o rosto. Depois de tantos anos ela sentia que deveria ser punida por fazer ele se preocupar com ela mais uma vez.

— O que aconteceu? — uma voz feminina preocupada perguntou — O que aconteceu, Marcos?

Ela não queria olhar para aquela mulher, não queria que ela lhe visse tão feia e descontrolada. E não poderia se importar menos com ela. Tudo que conseguia pensar era o homem que lhe abraçava apertado, a puxando para dentro da sua casa como se isso pudesse lhe proteger. Ele a fez sentar em um sofá e Penélope escondeu o rosto nas mãos, envergonhada.

Penélope se odiava por tudo aquilo. Não queria olhar para ele e ter que se explicar, ter que ver o quanto o assustou.

— Eu vou pegar uma água para você, tudo bem?

— Não! Por favor, fica. Não me deixe aqui — implorou, e ele se sentou novamente, segurando as mãos dela nas suas.

A mulher orbitava ao redor, e Penélope começou a sentir-se envergonhada por ela também. Fazer aquela cena ridícula em frente a uma desconhecida era ainda pior e fazia com que ela se sentisse humilhada.

— Me desculpa por tudo isso — fungou, sem nenhuma elegância.

— O que aconteceu?

Queria ficar a sós com ele. Queria poder conversar em paz, mas não podia expulsar a mulher da própria casa. Ela apertou as mãos dele e Marcos leu os seus pensamentos, como costumava fazer.

— Lily, você pode...?

— É sério isso? — ela retrucou, incrédula. Penélope decidiu que não gostava dela.

Suas lágrimas estavam parando, e ela não viu o que devia ser uma conversa silenciosa entre os dois porque Lily saiu logo em seguida. Ela se sentiu muito melhor sem a presença de uma desconhecida. Marcos ficou de pé e segurou o seu rosto, mas ele fez isso rápido demais. Fez com que ela pensasse em Louis. Penélope se encolheu e se afastou dele.

— Não... Não me segura assim — pediu.

— Penélope, você não pode simplesmente aparecer na minha porta dezesete anos depois, ter uma crise de choro, e se recusar a me explicar o que diabos está acontecendo.

Ele tentou se manter calmo, mesmo que ela soubesse que ele estava fervendo por dentro. Ele se abaixou na sua frente, seus estúpidos olhos castanhos prestando atenção em cada detalhe dela, e Penélope decidiu arrancar o curativo de uma vez só:

— Eu perdi tudo. O meu marido está atrás de mim, e eu não posso voltar para França. Eu não tenho nada, Marcos, nada. E eu... Eu preciso de ajuda. Se ele me encontrar ele vai me matar.

Ela não soltou a sua mão e não se afastou, mas também não se aproximou. Os olhos castanhos ainda estavam grudados nos dela, e Penélope não conseguia e nem queria desviar o olhar. Os dois ficaram suspensos da realidade, longe daquela sala e daquele sofá por um momento.

Ela se perguntou se na mente dele se passavam tantas lembranças deles dois quanto na dela. As boas e as ruins.

— Então ele não vai encontrar você.

— Não é tão simples assim...

— Nós vamos dar um jeito.

Foi a determinação na voz dele, que decidiu lhe ajudar sem pestanejar, exatamente como no passado, que fez a mulher chorar novamente. Estavam sozinhos, e ela não precisava se segurar quando estava com ele. Despejou todas as lágrimas que tinha guardado no último ano, desabando de uma vez só agarrada ao seu pescoço.

— Me perdoa — pediu novamente, com o rosto escondido em seu ombro.

Ele ainda tinha o mesmo cheiro, a blusa dele ainda era macia ao toque. Ele passou as mãos pelo cabelo dela, a puxando mais para si de um jeito que estavam quase os dois no chão, e Penélope se agarrou mais a ele. Deveria ser impossível sentir tanta falta assim de alguém, como se ela tivesse perdido uma parte do seu corpo. Se sentia como se estivesse violando alguma lei da física quando se permitiu sentir o prazer de estar com ele de novo, de se afogar na sua presença e no seu abraço.

Era como voltar para casa.

— Perdoar, Penélope? Não tem nada a ser perdoado.

Notas finais
Genteee, vamos deixar uma coisa clara: a Penélope não é uma heroina. Ela também não é uma vilã, mas definitivamente não é a mocinha de novela. Ela fez e faz coisas erradas, mas tem consciencia disso. Mas, conforme vocês forem conhecendo mais dela acho que vão gostar Por favor comentem e votem, isso ajuda demais para que essa história chegue a outras pessoas ♥