Duas semanas após a corrida digna de Mônaco, Eduardo marcou um encontro com Gustavo e Rafael e seus empresários, Hunter e Nicolas, em um quiosque na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Longe do ambiente sufocante dos boxes e do barulho dos motores V6, os cinco se sentaram para conversar como velhos amigos.

Eduardo colocou uma pasta sobre a mesa. Não era um contrato de piloto titular para 2021 — os dois sabiam que Nico e Kevin teriam que terminar a temporada para estabilizar a equipe e garantir o investimento — mas era um plano de reconstrução real.

— Eu não posso tirar o Nico e o Kevin do carro agora — começou Eduardo, olhando fundo nos olhos dos dois. — Além do contrato, eles são a nossa única garantia de que os patrocinadores não vão abandonar o barco este ano. Mas eu não posso e não vou construir o futuro da Vortex GP sem vocês.

Eduardo abriu a pasta. Dentro, havia um projeto detalhado para 2022 — o ano da grande revolução regulamentar da Fórmula 1, onde todas as equipes começariam do zero com novos carros aerodinâmicos.

— O que eu estou propondo é o seguinte — continuou Eduardo:

Pilotos de Desenvolvimento e Reserva de 2021: Gustavo e Rafael voltariam imediatamente para a estrutura da equipe. Passariam o restante da temporada 2021 acompanhando as corridas no simulador, nos boxes e aprendendo tudo o que pudessem diretamente com Hülkenberg e Magnussen.

Titulares Absolutos em 2022: Com o carro de 2022 sendo projetado do zero sem as garras de Marco Santoro, Gustavo e Rafael seriam os pilotos titulares da equipe para a nova era da F1.

Rafael olhou para o documento e depois para Gustavo. O impacto de saber que teriam uma garantia real para o ano seguinte fez a raiva acumulada finalmente se dissolver.

— Trabalhar diretamente com o Hülkenberg e o Magnussen? — perguntou Rafael, erguendo a sobrancelha — Eles aceitaram ensinar a gente?

— O Nico foi quem mais incentivou essa ideia, Rafa — explicou Eduardo com um leve sorriso — Depois de verem o quanto o 'tanque' do Gilberto era robusto em Mônaco, eles ganharam um respeito enorme por vocês dois. Eles disseram que seria uma honra preparar a próxima geração da Vortex.

Hunter e Nicolas se entreolharam. Estavam magoados com Eduardo e não seria tão fácil de engolir a situação, mas sabiam que os dois amavam aquela equipe e amavam estar na F1.

Por isso, deixaram a decisão nas mãos deles.

Olharam para seus dois pilotos como quem diz: "a escolha é sua"

Gustavo pegou a caneta que estava sobre a mesa, rodando-a entre os dedos. A mágoa ainda deixava uma cicatriz, mas a oportunidade de voltar para a Fórmula 1 pela porta da frente em 2022 era o sonho de uma vida.

— O Santoro tentou destruir nossa reputação dizendo que a gente não tinha braço — disse Gustavo, a voz firme e carregada de determinação — Estar na garagem este ano, ver esses dois veteranos sofrerem com o mesmo carro e depois assumir o cockpit em 2022 vai ser a nossa resposta pra ele e pro paddock inteiro.

Gustavo assinou a folha de compromisso para 2022. Em seguida, passou a caneta para Rafael, que assinou sem hesitar.

Quando a ponta da caneta de Rafael terminou o último traço no papel de compromisso para 2022, o silêncio no quiosque na Barra da Tijuca durou alguns segundos. Eduardo olhou para as duas assinaturas lado a lado.

Ele tentou puxar o ar para dizer "obrigado", mas a voz travou na garganta. Os olhos de Eduardo marejaram na hora. Ele cobriu a boca com a mão, virando o rosto para o mar em uma tentativa inútil de disfarçar as lágrimas que começaram a rolar pelo rosto.

— Eduardo?... — murmurou Rafael, surpreso com a reação.

— Me desculpem... — disse Eduardo, limpando o rosto com as costas da mão, a voz embargada pela emoção acumulada de meses de dor e solidão. — Desde que o Gilberto partiu e essa temporada começou... eu achei que tinha destruído o sonho dele. Achei que tinha destruído a vida de vocês por ganância e fraqueza. Ter vocês de volta... é a única coisa que me fez sentir que ainda vale a pena lutar por essa equipe.

Gustavo se aproximou, dando dois tapas firmes e carinhosos no ombro de Eduardo:

— A gente tá junto nessa, Eduardo. Pelo Gilberto. E por nós.

Mais tarde, na Áustria, quando os mecânicos romperam em aplausos no box e Hülkenberg e Magnussen abraçaram os garotos, Eduardo precisou dar dois passos para trás e se encostar na parede divisória do box. Ele baixou a cabeça, deixando mais algumas lágrimas discretas caírem sobre o piso de borracha da garagem. Não eram lágrimas de desespero desta vez — eram de alívio puro. A alma da Vortex GP estava viva.

O Reencontro na Garagem (GP da Áustria)

O retorno oficial de Gustavo e Rafael à equipe aconteceu no GP da Áustria — exatamente no mesmo circuito do Red Bull Ring onde, um ano antes, haviam conquistado os milagrosos 3 pontos na estreia.

Quando os dois garotos entraram na garagem vestindo novamente os uniformes pretos e cinzas da Vortex GP, os mecânicos os receberam com palmas e abraços calorosos. A energia da equipe mudou instantaneamente.

Nico Hülkenberg e Kevin Magnussen saíram das suas salas e foram ao encontro dos jovens brasileiros.

Aí estão os garotos que sobreviviam naquele touro mecânico! — brincou Magnussen, apertando a mão de Gustavo com força. — Se vocês conseguiram pilotar a aberração do Santoro sem bater, vocês vão voar em 2022.

Bem-vindos de volta, pessoal — disse Hülkenberg, sério, mas com um olhar de aprovação. — Nesta segunda metade de temporada, será um prazer ter vocês do nosso lado em cada reunião de telemetria. Vamos ensinar tudo o que sabemos pra garantir que em 2022 esse time brigue no meio do grid de verdade.

Eduardo observava a cena do fundo da garagem. Pela primeira vez em meses, a Vortex GP não parecia um negócio frio à beira do colapso, mas uma verdadeira família reunida em torno do mesmo sonho.

A tempestade de 2021 ainda não tinha acabado, mas o caminho para o futuro finalmente estava traçado.

O Aprendizado no Laboratório Vivo (Segunda Metade de 2021)

Durante o restante da temporada europeia e as corridas nas Américas, Gustavo e Rafael viraram as "sombras" de Hülkenberg e Magnussen.

Longe da pressão das câmeras, a dinâmica na garagem se transformou em uma verdadeira escola de automobilismo:

Na Telemetria: Nico Hülkenberg ensinou aos garotos como traduzir sensações sutis do cockpit em linguagem técnica rápida para os engenheiros.

"Não digam apenas que a traseira tá solta" - explicava Nico, apontando para as curvas de gráfico na tela — "Mostrem o ponto exato da esterçada onde a pressão do fluido cai. É assim que você obriga a equipe a consertar o carro certo."

A Agressividade Controlada: Kevin Magnussen passou horas com Rafael analisando vídeos de largada e disputas roda a roda.

"Vocês têm o coração e a coragem" - dizia Kevin, dando uma risada alta — "Agora precisam aprender a usar o corpo do carro para defender posição sem levar punição dos comissários. Na F1, espaço se conquista na marra."

O Trabalho no Simulador: Enquanto Nico e Kevin iam para a pista nos treinos de sexta-feira em circuitos como Spa e Monza, Gustavo e Rafael viravam noites no simulador da equipe, testando acertos de suspensão em tempo real e enviando os dados direto para a pista.

A dupla de veteranos adotou os brasileiros não como reservas, mas como irmãos caçulas que iriam herdar o bastão. A mentalidade dos garotos amadureceu anos em questão de meses.

Opção 2: A Busca pelo Projetista Pé no Chão para 2022

Com o regulamento de 2022 exigindo carros completamente novos com o retorno do efeito solo e rodas de 18 polegadas, Eduardo sabia que não podia cometer o mesmo erro de ego que cometeu com Marco Santoro. A Vortex GP não precisava de um "gênio estrela" da Europa; precisava de um engenheiro raiz.

A busca levou Eduardo até a Inglaterra, na pacata cidade de Silverstone, onde encontrou Arthur Pendelton — um veterano engenheiro de 58 anos que havia trabalhado como projetista sênior na era de ouro de equipes independentes nos anos 90 e 2000, mas que preferia ficar longe dos refletores da F1 moderna.

A reunião aconteceu numa oficina modesta e cheia de graxa:

— Eu vi o que aconteceu com vocês com o Santoro — disse Arthur, servindo um chá para Eduardo — Aquele rapaz achava que a Fórmula 1 se resolve no computador. Ele esqueceu que o carro desliza no asfalto de verdade, não num grid de pixels.

— Nós não temos o maior orçamento do grid para 2022, Arthur — foi direto Eduardo — Mas nós temos dois garotos famintos por provar seu valor e uma equipe que trabalha na raça.

Arthur olhou para os esboços do novo regulamento aerodinâmico sobre a mesa e sorriu, ajeitando os óculos velhos:

— O novo regulamento de 2022 vai ser dominado pelo efeito solo. Se a gente fizer um chassi simples, robusto e com uma aerodinâmica por baixo do carro que não seja fresca, a gente não precisa de milhões para fazer um bom trabalho. Eu não quero salário de astrofísico, Eduardo. Só quero liberdade para desenhar um carro de corrida de verdade, como o seu amigo Gilberto fazia.

Com a contratação de Arthur Pendelton, a peça final do quebra-cabeça se encaixou. O projeto do VT-02 para 2022 nascia não da arrogância, mas do trabalho duro, da humildade e da união de um time renascido das cinzas.

O Encerramento de 2021: Uma Trégua Honrosa em Yas Marina

O GP de Abu Dhabi fechou o ano sob as luzes de Yas Marina com uma sensação muito diferente do desespero de meses atrás. O clima nos boxes da Vortex GP era de cumplicidade e dever cumprido.

Nico Hülkenberg e Kevin Magnussen entregaram tudo o que podiam no "tanque" ajustado, cruzando a linha de chegada em 14º e 15º lugares. Não havia pontos no painel, mas havia o respeito do paddock. A equipe havia sobrevivido à pior crise de sua história recente, reestruturado sua engenharia e limpado a garagem de toda a toxidade de Marco Santoro.

No final da corrida, quando o paddock estava sendo desmontado, Nico e Kevin se despediram do cockpit com um aperto de mão demorado em Eduardo, Gustavo e Rafael.

Nós fizemos a nossa parte, garotos — disse Nico, tirando as luvas e entregando o carro na garagem — Limpamos a bagunça e deixamos a casa arrumada. O VT-02 do velho Arthur é com vocês. Façam esse motor urrar em 2022.

E não esqueçam do que a gente ensinou sobre a dividida de curva — brincou Magnussen, dando uma piscada de olho para Rafael. — Espaço na F1 se conquista na marra.

O dinamarquês loiro já havia assinado um contrato para retornar à Haas no ano seguinte. A equipe americana, que também passava por uma situação financeira delicada, estava o recontratando para ajudar a equipe a pontuar. Já Hulkenberg seria reserva da Aston Martin para o ano seguinte, precisando ainda esperar mais um tempo para virar titular.

O Ceticismo de Fora: Investidores e a Imprensa Brasileira

Se dentro da garagem a esperança era palpável, do lado de fora a realidade era amarga.

Os investidores do consórcio continuavam com o pé atrás. Para eles, a demissão de Santoro e a contratação de um "projetista aposentado dos anos 90" soavam como um retrocesso amador. O consórcio renovou o patrocínio por apenas mais um ano, deixando claro no contrato: se o carro de 2022 não pontuar com frequência, o financiamento será cortado definitivamente.

Já a imprensa e o público brasileiro viviam o topo do desânimo. O trauma de ver a Vortex GP andando no fundo do grid ao longo de 2020 e 2021, somado à demissão e posterior "recontratação" dos jovens brasileiros, fazia os narradores e comentaristas olharem para a equipe com ar de pena. Para a maioria dos especialistas nas TVs nacionais, a Vortex era apenas mais uma equipe condenada a desaparecer, e trazer Gustavo e Rafael de volta era visto apenas como uma "jogada de marketing para comoção local".

Ninguém sabia o que Arthur Pendelton e a equipe estavam cozinhando em silêncio no galpão.

A Negociação em Maranello: A Carta na Manga de Arthur

Semanas antes da apresentação em Interlagos, Arthur Pendelton e Eduardo Lacerda haviam pegado um voo silencioso para a Itália. Eles não foram para uma reunião com executivos de terno, mas para o escritório do comando técnico da Scuderia Ferrari.

Usando o peso do seu nome e a moral de quem já havia projetado carros históricos para a equipe italiana, Arthur colocou os desenhos da suspensão traseira do VT-02 sobre a mesa dos italianos.

Eu sei como tirar o máximo de fluxo de ar por baixo do carro sem que a traseira vire um sabonete, disse Arthur aos engenheiros de Maranello. — Mas o meu chassi precisa do torque de vocês. Vocês nos fornecem o motor e a caixa de câmbio para 2022 e 2023 com desconto de parceiro técnico, e em troca a gente entrega para a Ferrari dados puros de telemetria de como o efeito solo se comporta com a unidade de potência de vocês em uma equipe cliente.

A Ferrari aceitou a aposta. A notícia da troca de motores foi mantida em segredo absoluto até os testes de Barcelona.

Ao saírem da fábrica da Ferrari, Eduardo não conseguia esconder um sorriso. Ainda teriam que viajar para a França e avisar para a Renault que não renovariam o contrato de fornecimento de motores, mas antes mesmo de terem o motor, ele já sentia que a equipe estava, finalmente, encontrando o caminho para o sucesso.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.