Notas iniciais
O Futuro. Nem mais nem menos. Muitas e muitas vezes Félix e Niko pensaram no futuro deles e da família. Como seria esse futuro?! "A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo." - Peter Drucker.

8 anos depois...

Manhã de agosto.

Niko olhava um álbum de fotografias numa cadeira da varanda.

– Carneirinho, que coisa mais antiga... Não sei que graça você vê nesses álbuns, é uma velharia...

– Para, Félix, senta aqui comigo! Eu sei que você acha o máximo a tecnologia que a gente tem hoje em dia, mas, eu acho esses álbuns, sei lá, românticos, nostálgicos... Sabe como eu sou... Eu estava vendo as fotos dos aniversários dos meninos! Olha, Jayminho com dez anos!

– Mas, Niko, as fotos estavam todas digitalizadas... Você que quis imprimir essas e colocar nesse álbum aqui, você, às vezes, parece um velho!

– Não me chama de velho, que eu sou mais novo que você! Vem ver as fotos comigo... Ah, e pensar que agora nosso filho nem gosta mais de ser chamado de Jayminho!

– É, agora é só Jayme! Mas, também Carneirinho, onde ele tá agora?! Fazendo aulas para tirar a carteira de motorista!

– É Félix, nem dá pra acreditar que nosso filho já fez dezoito anos, está prestes a se formar no ensino médio, e depois pode ir fazer faculdade... Em outro lugar... Ai, eu vou sentir tanta saudade...

– Não sofre por antecipação carneirinho! Por enquanto, ele tem mais inclinação para os esportes, e para isso não precisa de faculdade né?!

– Félix, que é isso?! Se ele decidir seguir a carreira esportiva, a gente apoia, mas é importante ele ter ensino superior! Ah, você lembra que ele queria ser jogador de futebol? E acabou se dando bem no basquete!

– Foi! Mas também, ele ficou quase mais alto que eu carneirinho! Olha o tamanhinho dele nessa foto...

Eles continuaram vendo as fotos sem se dar conta que o filho mais novo vinha em direção a eles, quando este pulou no colo dos pais.

– Pai Niko, pai Félix, quando a gente vai comprar as coisas pra minha festa de dez anos? Vocês disseram que a gente ia comprar tudo, que iam me deixar fazer uma festa na piscina como o Jayme fez quando tinha minha idade...

– Calma, Fabrício, meu filho, a gente vai comprar tudo, mas não agora, sua festa é só mês que vem!

– Mas, pai Niko... – O menino logo fez biquinho para ele. – Pai Félix, vamos?!

– Fabrício, se seu pai disse que não, é não, e eu concordo... Pra quê essa pressa, meu filho?!

Fabrício pulou do colo deles, fazendo birra e saiu dizendo:

– Se vocês não forem comigo, eu compro tudo pela internet!

Félix gritou para ele: — Se eu te ver comprando pela internet de novo sem permissão Fabrício, você fica de castigo, e sem festa!

– Quando que ele estava comprando pela internet Félix?!

– Ah, foi um dia desses, eu me esqueci de te contar... Mas, foi uma besteira, eram coisas de jogos, não sei bem, mas ele não conseguiu concluir, nada demais! Mas, você viu como ele saiu?! É genioso, igual você!

– Ah, olha só... – Niko cruzou os braços e encarou Félix, quando exclamou outra vez: — Olha só!

– Que foi carneirinho, o quê que você tá vendo?

– Espera, fica parado! – Niko pôs os dedos nos cabelos negros de Félix e puxou um fio.

– Ai, carneirinho... – Reclamou Félix, mas arregalou os olhos quando viu o fio que Niko havia arrancado. – Não pode ser!

– Félix, querido, achei um fio branco nesse mar negro!

– Ah não! Eu não posso já estar ficando grisalho... Eu ainda sou muito novo!

– Meu amor, não seja dramático! É só um fiozinho... E nós já passamos dos quarenta...

– Niko, vê não faz questão de me lembrar, tá! Só porque é quase seis anos mais novo fica fazendo isso, por favor...

Félix voltou para dentro de casa emburrado deixando Niko na varanda sozinho.

– Hum... Depois diz que eu que sou genioso!

Niko fechou o álbum e foi para dentro. Félix estava no escritório, sentado com o tablet que ele segurava bem perto do rosto. Niko se abaixou atrás dele, apoiando a cabeça em seus ombros.

– Félix, querido, por que você tá olhando a tela tão de perto?

– Por nada, ora! É que... São muitas contas com os quatro restaurantes... – Ele afastou a tela na mesma hora.

– Será que você não está precisando usar óculos, meu amor?!

– Pelas contas do rosário, carneirinho, além de ficar grisalho você quer que eu use óculos, vou ficar parecendo um velho gagá...

– Mas, que velho Félix?! E você não está grisalho, foi só um fio branco! – Niko arrancou o tablet das mãos dele. – Não é porque nós já estamos a quase dez anos juntos que a gente está velho, meu amor, ainda somos jovens, só estamos mais experientes... – Niko sentou no colo dele.

– Mais experientes é?! – Félix riu. – E você está mais gordinho!

Niko levantou imediatamente. – Mais gordinho não tô não Félix, dá licença...

Félix riu de novo e segurou o braço de Niko.

– É brincadeira carneirinho, volta aqui vem... – Félix o sentou e sentou no colo dele desta vez. – Pronto, eu prefiro assim... E você sabe que eu faço isso porque adoro sua carinha de bravo...

Eles estavam se beijando quando foram interrompidos por batidas rápidas na porta.

– Que foi?! Já vai...

Abriram a porta e Jayme entrou esfregando as mãos como se estivesse nervoso.

– Jayme?! Que foi, meu filho?! – Perguntou Niko.

– Pai Niko... Pai Félix... Tenho que mostrar uma coisa a vocês!

– Mas o que criatura? Fala que tá nos deixando nervosos! – Exclamou Félix.

Jayme colocou a mão no bolso e tirou algo, que lhes mostrou com entusiasmo.

– Tirei a carteira!

– Ah, que alegria, meu filho, pensei que fosse demorar mais... – Niko o abraçou. — Ai que coisa, agora vou ficar preocupado quando você sair dirigindo por aí...

– Não precisa se preocupar carneirinho, o Jayme dirige super bem, fui eu que o ensinei!

Jayme abraçou os dois.

– Como esse meu pai Félix é metido hein?! Depois eu vou querer o carro de um dos dois emprestado...

Ele saiu e Félix comentou: — Meu carrinho emprestado? Ah, não, aí eu que vou ficar nervoso...

–--

Na escola, Jayme não era um dos garotos mais populares, mas tinha vários amigos, além de muitas admiradoras já que era um dos melhores jogadores do time de basquete. Assim como tinha os que gostavam dele pela ótima pessoa que era, simpático, generoso, fácil de conviver, também tinha aqueles que não gostavam tanto. Ainda havia alguns preconceituosos de plantão que mexiam com ele por ele ter dois pais, mas, Jayme soube lidar com isso da melhor maneira possível durante a adolescência, e não seria agora que já era maior de idade e estava prestes a acabar a escola que ia se sentir ofendido. Um dos jogadores do time, chamado Gustavo, era um dos que não fazia questão de esconder a inveja que tinha de Jayme por ele ser um dos melhores do time. Gustavo sempre fora um garoto rebelde, mal-humorado, difícil. Era daqueles que tinha sua própria turma, especializada em aprontar com os colegas. Eles mexiam com todo mundo, mas, Gustavo tinha um desagrado a mais por Jayme.

Jayme conversava com outros meninos quando Gustavo se aproximou com outros dois “seguidores” dele e roubou a chave que Jayme segurava.

– Me devolve isso, Gustavo! É a chave do carro do meu pai!

– Ah é?! Qual dos dois papais hein, Jayminho?!

– Não te interessa, me devolve agora!

– Se não o quê... Você vai chorar?! – Ele balançava a chave enquanto falava provocando Jayme.

– Me dá isso agora... Ou quem vai sair chorando é você!

– Ah ah ah... Vai fazer o que Jayme?! Bater em mim com um lencinho...

Jayme partiu para cima dele, arrancando a chave com um movimento rápido. O outro tentou pegar de volta, mas quando foi para cima dele, Jayme fez um movimento com o pé fazendo com que o outro caísse no chão. Jayme o olhou dizendo:

– Você não aprende Gustavo?! Porque ainda briga comigo... Se eu sempre ganho?!

Jayme saiu dali com os colegas com os quais conversava. Um deles, Paulo, um típico nerd, entusiasmado com a rápida briga, perguntava:

– Jayme, onde você aprendeu esses golpes cara?! Ás vezes, você parece um ninja tipo os de anime...

Jayme riu. – Foi meu pai Niko que me ensinou algumas coisas... Ele é rápido com as mãos, os pés e as facas...

– Ele também usa facas pra brigar Jayme?!

– Não, Paulo! É pra cortar peixe... Esqueceu que ele chef?! Sinceramente, você anda vendo muito RPG!

–--

Mais tarde, no treino de basquete, Gustavo tentou se vingar da briga de mais cedo. Durante o jogo amistoso contra os colegas de outra classe da mesma escola, a rivalidade entre eles era visível, porém os dois estavam no mesmo time. Mas, Jayme não estava nem aí para Gustavo, ele só queria se divertir, o outro queria humilhá-lo.

Só o treinador assistia ao jogo. Ele estava selecionando os melhores jogadores da escola para fazerem parte do time principal que jogaria no campeonato entre as escolas da cidade. Em um momento, um dos jogadores passou a bola para Jayme que foi tentar o arremesso. Gustavo pulou em cima, tentando tirar a bola dele para arremessar. Para não ficar naquela briga, Jayme soltou a bola deixando que Gustavo a pegasse. Ele tentou o arremesso, mas errou. O treinador parou o jogo, gritando, dizendo que ele estava fora e perguntando no que ele estava pensando ao roubar a bola de um companheiro de equipe. O jogo continuou e outra vez a bola foi para as mãos de Jayme. Um pouco mais longe que da outra vez, ele arremessou e marcou uma cesta de três pontos, fazendo seu time vence. Sem dúvida, ele era um dos melhores e o treinador deixou bem claro ao dizer que ele já estava no time principal.

–--

Jayme foi para o vestiário junto com os outros jogadores. Quando todos saíram, ele ficou, pois procurou a chave do carro no armário, na mochila e não a encontrou. Ele não queria ligar para Félix e dizer que havia perdido a chave do carro dele, que ele havia finalmente emprestado depois de Niko conseguir convencê-lo. Jayme pensava e sabia que com o gênio de Félix era bem capaz de o pai nunca mais lhe deixar dirigir o carro dele.

Enquanto procurava se a chave havia caído no chão, de repente, dois pés pararam a sua frente, o barulho de chave balançando deixava claro que esse alguém estava com a chave perdida.

– Levanta verme... Ou você prefere ficar nessa posição?! – Dizia a voz irônica de Gustavo.

Jayme levantou com raiva.

– Gustavo! Eu sabia... Me entrega essa chave agora mesmo!

Gustavo foi andando para trás, levando a chave.

– Me diz Jayme... O carro lá fora é de qual papai bichinha?!

– Não fala dos meus pais! – Jayme gritou alterado.

– Não falo Jayme... Então vamos falar de você...

– Não tenho nada pra falar com você...

Jayme avançou para pegar a chave, mas desta vez, Gustavo foi mais rápido e jogou a chave no ralo do vestuário. Os dois começaram a brigar, mas Jayme estava cansado do jogo. Gustavo era tão forte quanto ele e como não havia jogado por muito tempo estava levando vantagem. Os golpes que Jayme havia aprendido com Niko não estavam surtindo tanto efeito e Gustavo conseguiu prendê-lo contra o armário.

– O que você quer Gustavo? Por que não me deixa em paz?! – Perguntou Jayme enquanto continuava preso contra o armário com a mão de Gustavo em seu pescoço.

– O que eu quero?! – Gustavo se aproximou dele. – Não sei... Não sei ainda... Eu só me divirto te enchendo... – Ele se aproximava cada vez mais, até que encostou a outra mão no abdômen de Jayme. – Eu só me divirto...

Ele olhou Jayme de cima a baixo e deslizou a mão um pouco para baixo.

Jayme notou que ele estava muito estranho. Com um movimento rápido conseguiu soltar as mãos de Gustavo de si, dizendo:

– Tá louco?! O quê que tá fazendo?!

Jayme o empurrou com as pernas, fazendo com que ele caísse e batesse as costas contra a parede, caindo no chão em seguida. Ele levantou ainda querendo brigar.

– Seu idiota! Volta aqui, Jayme!

Jayme apenas ignorou, pegando sua mochila e indo para fora. Foi ao estacionamento, onde o carro de Félix estava e encostou-se a ele. Pegou o celular e criou coragem para ligar para o pai.

– Pai... Podia vir me buscar?

– Por que garoto? Você não foi com meu carro... Espera aí... O que aconteceu com meu carro Jayme?!

–--

Em casa...

– Niko... Viu no que dá você me convencer a deixar o Jayme sair com meu carro por aí?!

Jayme e Félix acabavam de chegar. Jayme subiu sério para o quarto sem falar uma só palavra.

– Mas, o que aconteceu Félix? Por que você foi buscá-lo?

– Ah, você não imagina carneirinho... Acontece que esse moço perdeu a chave do meu carro, ainda bem que eu tinha uma cópia e levei para poder trazer meu carrinho, senão... Ah, mas eu já dei uma bronca nele, por isso ele subiu todo zangadinho assim...

– Félix, você não pegou muito pesado com ele, não foi?!

– Carneirinho, você não vai defendê-lo não é?!

Jayme desceu novamente. Já havia trocado de roupa.

– Vocês não vão discutir por minha causa agora não é?! Eu estou cansado e com fome...

Félix continuava sério, mas Niko respondeu:

– Não meu filho, a gente não ia discutir... Vamos jantar, a Adriana já pôs a mesa!

Os três e Fabrício sentaram à mesa. Todos estavam muito calados. Apenas Fabrício quebrou o gelo quando começou a perguntar sobre sua festa de aniversário. O menino falava o que queria ganhar, o que faria no dia, e muitas outras coisas, até perguntar a seu irmão como havia sido sua festa. Jayme não o respondeu, estava pensativo.

– Jayme... Jayme... Me responde...

– Hã?! O que você quer Fabrício?!

– Me diz como foi sua festa de dez anos! Eu quero fazer uma melhor e mais grandona!

Jayme respondeu vagamente.

– Ah, é... Foi legal... Foi na piscina... Foi legal...

Niko já havia notado como Jayme estava estranho.

– Jayme, meu filho, você está se sentindo bem?!

– Estou... Estou pai, só estou cansado pelo treino! Ah, eu entrei para o time principal, vou jogar no campeonato entre escolas!

– Ah, que coisa boa meu filho! Isso não é bom Félix?

– Claro que é... Mas, seria melhor se ele fosse mais responsável...

– Félix! Não começa! – Reclamou Niko.

Ao terminarem o jantar, Fabrício pediu para ir ver TV e Félix foi com ele. Quando Niko estava tirando a mesa, Jayme continuava sentado, pensativo. Niko sentou-se ao seu lado.

– Filho, está acontecendo alguma coisa?

– Pai Niko... Eu... Eu não perdi as chaves do carro do pai Félix...

– Não? Então onde estão?

– Caíram num... Num ralo do vestiário masculino... Foi depois do treino... Bom, na verdade, não caíram... Foram jogadas!

– Como assim jogadas Jayme?! Quem jogou?

– Ah pai... Lembra que eu falei sobre aquele cara que vive arrumando confusão lá na escola? Foi ele... Eu tive uma briga rápida com ele pela manhã e agora à tarde eu tinha acabado de sair do treino, quando comecei a procurar a chave! Eu tinha certeza que tinha deixado no armário, mas ele havia roubado! Quando ele jogou a chave... Ele também ofendeu vocês... Então, a gente brigou de novo...

– Ele ofendeu a nós?

– É... A vocês dois pai, com certas palavras, você sabe... Comigo podem dizer qualquer coisa, mas não gosto quando falam de vocês...

– Ele diz coisas com você também?

– É... Ás vezes... Acho que é como muita gente preconceituosa pensa, que se eu fui criado por gays, eu tenho que ser gay também...

– Mas, isso é tão absurdo... Não tem nada a ver com a criação, seu pai Félix é a prova disso, teve um pai machista, homofóbico, e olha só... Mas, me conta, o que aconteceu nessa briga que te deixou tão pensativo?!

– Então... Eu sempre consigo derrubá-lo sem quase nem tocar nele, graças àqueles golpes que você me ensinou... Mas, ele me pegou depois de um jogo muito cansativo, e eu não conseguia me defender direito! Ele conseguiu me imprensar contra o armário e foi aí que aconteceu uma coisa estranha...

– O quê filho?

– Ele... Ele estava com uma mão no meu pescoço e a outra na minha barriga! Ele se aproximou de mim, dizendo que fazia aquilo por divertimento, então ele... Ele passou a mão em mim...

– Mas... Mas, o quê... – Niko ficou sem saber o que dizer. Jayme continuou:

– Pai, eu nunca senti nada contra quando via você e o papai Félix juntos... Vocês até evitavam algumas carícias na minha frente quando eu era menor, depois fui crescendo e vendo que era completamente normal... Mas, quando eu vi o jeito que o Gustavo me olhou e como ele passou a mão em mim, eu só senti uma coisa... Nojo! Pai, eu não sei se deveria sentir isso, por ter sido criado por vocês, mas, eu tive nojo, tive nojo de sentir outro homem me tocando! Achei aquilo muito desagradável... Eu nunca havia notado que o Gustavo... Eu nem podia imaginar que...

Niko segurou na mão do filho e passou a mão em seu braço.

– Filho, você sente nojo quando eu faço isso?

– Não, claro que não pai!

– E você sabe que eu sou gay! Talvez o nojo que você diz que sentiu tenha sido pela surpresa pelo que esse garoto fez... Também é porque, assim como já disse, a criação não determina o que cada um será! Filho, você não se sente incomodado conosco, porque somos seus pais, mas, você tem todo direito de se sentir incomodado com o assédio desse garoto... Você não é gay! Você é hétero e você tem certeza disso... Já conversamos tantas vezes, você já se definiu... E como todo hétero é normal que não goste nem um pouco do assédio de alguém do mesmo sexo!

– É, é isso aí, você tem razão, por isso que gosto de conversar com você... – Félix vinha voltando a cozinha e ouviu só o resto da conversa. – É muito melhor conversar com você pai Niko... O pai Félix acha que sempre tem a razão, mas, ele não sabe conversar muito bem sem se descontrolar às vezes, ainda mais se eu for contar certas coisas pra ele né?! Tchau, pai, vou dormir mais cedo, tô muito cansado!

– Tchau filho! – Respondeu Niko. Félix voltou para a sala quando Jayme se levantou da cadeira.

– Tchau pai Félix! Tchau maninho! Já vou dormir, estou muito cansado e amanhã tem teste!

Fabrício estava entretido com a TV, deu apenas um tchau com a mão para o irmão e Félix respondeu:

– Tchau filho! Boa noite e boa sorte amanhã!

Assim que Jayme subiu, Félix foi até Niko.

– Carneirinho, o que tanto você e o Jayme falavam hein?!

– Ah Félix, nada demais... Coisas da escola... – Niko tentou desconversar. – Sabia que já estão arrumando tudo para a formatura?!

Mas, Félix percebeu. – Niko, não foge do assunto! Eu estava vindo e ouvi muito bem quando o Jayme disse que preferia conversar com você do que comigo, porque eu sou “descontrolado”! – Disse fazendo o gesto de aspas nos dedos!

Niko titubeou um pouco para responder, mas acabou falando baixinho:

– Pior que ele tem razão!

– Carneirinho, eu ouvi!

Niko tentou remediar a situação.

– Félix, não vamos discutir, vamos ficar lá fora um pouquinho, tá uma noite linda, vem...

Ele o puxou pela mão para não dar-lhe tempo de protestar.

Enquanto isso, Fabrício ficou só na sala. Ele olhou para os lados. Viu que os pais haviam saído, o irmão estava no quarto e então, teve uma ideia. Correu ao escritório e pegou o tablet de Félix. Começou a mexer e entrou em um site de compras. Aquilo era muito fácil para ele e ele conseguia mexer em tudo muito rápido, diferente de Félix que, apesar de gostar dessas tecnologias, não se dava muito bem com elas. O menino viu uma coisa que fez seus olhinhos brilharem. Ele pensou: “É aqui que eu quero que seja meu aniversário”! Procurou alguma coisa por ali, que não foi difícil de achar; um cartão de crédito de Félix. Ele fez tudo como estava pedindo no site e depois fechou, deixando o tablet no lugar. Quando abriu a porta para sair deu de cara com Adriana.

– Fabrício, menino, o que você tava fazendo no escritório do seu pai?

– Nada... Nada Adriana! E não fica me vigiando, já tô bem grandinho!

– Grandinho?! Olha, mas nem fez dez anos ainda e já tá se achando grande... Daqui a pouco só vai ter adolescente nessa casa... Aí eu vou ser babá de quem?! – Adriana chegou a ficar com uma expressão um tanto preocupada no final da frase.

–--

Na manhã seguinte, Jayme estava na escola terminando o teste. Ao terminar, foi entregar para o professor e saiu de sala como todos estavam fazendo. Gustavo entregou o teste em seguida, e foi atrás dele. Quando Jayme entrou no ginásio de esportes, Gustavo o surpreendeu, prensando-o outra vez contra a parede.

– Se você contar alguma coisa sobre ontem para alguém eu acabo com sua raça!

– Pode deixar Gustavo, por mim, eu já esqueci!

Gustavo o soltou e saiu de lá. Jayme notou que eles não estavam sozinhos, alguém estava sentado na arquibancada vendo aquela agressão.

Era um garoto, aparentemente da idade dele, magro, provavelmente tímido, pois quando notou que Jayme o olhava se escondeu em vão atrás de um caderno, fingindo não ter visto nada.

Jayme subiu a arquibancada e perguntou:

– Ei, nunca te vi por aqui... Você é algum novato?

O garoto o olhou pelo canto do caderno e exclamou:

– Jayminho... É você?!

– De onde você me conhece?! Ainda mais pra me chamar assim...

– Jayme, não se lembra de mim?! Sou eu, o Lucas!

Jayme parou para pensar e se lembrou do seu colega de escola, o que fugiu para ir ao seu aniversário de dez anos. Desde aquela época, eles nunca mais se viram. Depois daquela briga com o pai de Lucas, o mesmo o tirou da escola e o levou para outra cidade. Isso foi tudo que Jayme soube do amigo.

– Lucas... Me lembrei de você! Há quanto tempo...

Eles se cumprimentaram, conversaram muito. Lucas o perguntou quem era aquele garoto que quase o agrediu e Jayme contou que era o metido a valentão da escola, mas que não valia a pena falar dele nem com ele.

Depois, Jayme o convidou para ir a sua casa, mas Lucas falou tímido:

– Acho que não...

– Por quê? Não me diga que seu pai ainda implica com isso, por causa dos meus pais...

– Não, Jayme, meu pai morreu!

– Ah... Sinto muito!

– Tudo bem... Já faz cinco anos! Ele não era muito de se cuidar, fumava muito, bebia e não fazia exercícios! Mas, acho que ele morreu mais de teimosia... Ou desgosto!

– Desgosto do quê Lucas?!

– De... De nada... Deixa pra lá!

Jayme viu o caderno de desenhos em sua mão.

– Você continua desenhando?

– Ah, sim! Quero fazer disso minha profissão!

– Posso ver?

Lucas entregou o caderno a Jayme. Ele havia melhorado e muito suas técnicas de desenho, agora, eram praticamente profissionais. Havia desenhos de pessoas, personagens, roupas e até paisagens.

– Caramba! Você desenha muito bem!

– Você acha?

– Claro cara! Como não achar, olha isso, você desenhou a quadra de basquete, que massa! Você vai voltar a estudar aqui?

– Vou... Vou acabar o ensino médio aqui! Acho que vamos estudar na mesma sala de novo!

– É, legal! Bom, tenho que ir! Hoje não tem treino, então eu vou indo, amanhã a gente se vê! Tchau!

– Tchau Jayme!

Lucas ficou olhando Jayme sair. Mas, não imaginava que outro futuro colega de sala seu também o observava.

–--

Notas finais
Logo a parte 2. E terá mais... Comentem!