Futuro ausente de um presente vazio
2 A fuga
— Tenten? – a voz grave a fez olhar de modo automático na direção daquele que conseguira detectar sua presença ali.
Os olhos de chocolate se fecharam em busca de força e paciência por breves segundos até virar o rosto em direção de onde vinha a voz que havia chamado por seu nome. Encontrou-o imediatamente, afinal a voz do seu outro companheiro de equipe era inconfundível.
Entretanto a atenção da morena foi desviada pela presença de um ser que ela conhecia, mas não tão bem quanto os outros ali. De maneira esquisita, Sai, o substituto do Uchiha no time de Naruto deixou cair um pesado equipamento ao ouvir seu nome ser pronunciado por Lee.
Quando Tenten procurou a fonte da bagunça, caiu com os olhos diretamente dentro dos olhos grandes e negros do novato de passado misterioso. Os castanhos achocolatados de suas íris se mostraram superiores ao negro vazio e profundo de Sai, e antes que o desenhista os desviasse, tão rápido quanto os encontrara, voltou sua atenção à Rock Lee.
— Lee! – disse com um amplo sorriso nos lábios.
Impressionada consigo mesma e em como mesmo à beira de um surto de nervos como o que ela estava passando, Tentem podia aprisionar as lágrimas e esconder a dor. A expressão de desgosto, ira e náusea que brincaram durante a noite toda em sua face completamente desanimada e sem nenhum resquício de esperança, ainda puderam ser maquiadas pela kunoichi das armas, e seus olhos brilharam na falsidade indetectável de seu sorriso para esconder tudo o que se passava realmente.
— Missão solo Tenten? É sempre bom ver o fogo da juventude ardendo nas veias de uma kunoichi brilhante como você.
— Arigato, Gai-sensei – respondeu forjando mais um sorriso enquanto direcionava o corpo em uma leve flexão em respeito ao mestre.
Ao retornar à posição ereta normal, mais uma vez se deparou com o garoto pálido e quieto com quem não estava acostumada. Sai estava deliberadamente com os olhos pregados em si, mas dessa vez completamente disperso, observando com seus olhos vazios seu sorriso falso.
Estranhamente, Tenten constrangeu-se sob aquele olhar pesado, naquele momento os olhos dele foram mais fortes. Sentiu-se constrangida e sabia muito bem o porquê disto, aquele olhar expunha seu segredo.
Sabia que podia enganar muito bem todos ali, nem mesmo o sharingan de Kakashi seria capaz de ler suas mentiras ou duvidar de seu sorriso falso e mascarado, ninguém perceberia. Ninguém exceto alguém que usasse dos mesmo artifícios constantemente.
E assim teve certeza que a análise do ex ANBU em seu sorriso era perspicaz e certeira; Sai notaria a montagem por trás de cada sorriso. Quando ele a encarou nos olhos novamente, ela pode sustentar aquele olhar penetrante apenas por alguns poucos segundos e então desta vez quem quebrou a conexão foi ela.
— Na verdade, estou indo visitar meus pais. – prossegui na direção de Gai – Tsunade-sama me liberou para passar uma pequena temporada perto da família. – disse sem perceber a forma como baixou o olhar.
Longe dos pais desde pequena, mentir para seu sensei também era difícil. Mais difícil que mentir para Hokage-sama e também mais difícil que mentir para Neji. Como seu mestre, Gai tinha assumido um papel de vital importância para a morena, mesmo que às vezes o shinobi lhe parecesse exagerado e com pensamentos insanos, amava-o como um pai.
— Yosh Tenten-san, não estamos indo pelo mesmo caminho, mas não nos atrasaria muito acompanhar você, não é Gai-sensei? – disse Lee.
Anos de convivência fizeram um amor de irmandade e cumplicidade entre os dois membros do time Gai. A morena havia aprendido a respeitar a até admirar alguns dos gestos exagerados de Lee. Sentia que o moreno de expressões marcantes era alguém que vivia fora de seu tempo, mas tinha índole impecável e um coração de ouro.
— NÃO! – ela disse, sobressaltando-se, antes que o mestre concordasse com Lee – Essas terras são neutras, não há necessidade de desviarem o foco de sua comitiva por isso. – emendou a desculpa para dispensar a companhia.
Estava se sentindo abandonada, nua, constrangida, traída e ao mesmo tempo traidora com relação a tudo que estava lhe acontecendo. Gai, Lee e Naruto não eram a melhor companhia para ela no momento tão conturbado.
Também havia o fato de que se fossem com ela descobririam que sua aldeia fora atacada. Descobririam que seus pais, assim como os demais aldeões, estavam mortos e isto faria com que todos os seus planos fossem por água abaixo.
— Na verdade, acho que Tenten é uma kunoichi que dispensa proteções. Mitarashi é muito forte, sabe se cuidar, sinto muito Lee, não devemos desvirtuar nosso caminho... – salva por Kakashi que abrira a boca pela primeira vez até ali.
— Nós não, mas ela sim até certo ponto. Nossos caminhos não são os mesmos, mas já é noite, pode pelo menos acampar conosco esta noite. É mais seguro, tô certo! – Naruto que nunca falava algo descente, resolveu dar o ar de sua graça.
— Eu...bem..
— Naruto está certo Tentem, pelo passe a noite conosco. – concordou Lee.
A morena das armas passou seus olhos pelos amigos para lê-los, e ponderou. De Naruto a Lee, que havia falado por último. E deste para Sai, que estava logo ao lado do moreno de sobrancelhas grossas.
Sai lhe sorria de uma forma estranha. Sabia-se tão pouco daquele cara estranho que era difícil demais de decifrá-lo. Como na primeira vez, não regrediu seu olhar; não se renderia aos olhos impetuosos e vazios de Sai.
Entretanto, Gai se virou e cortou sua visão: “Yosh! então vamos arrumar o acampamento, Lee!” foi o que disse seu mestre em uma explosão enérgica.
— Eu vou fazer uma fogueira. Está ficando frio – anunciou Kakashi
— Hai, eu pego a madeira – disse Naruto antes de fazer muitos clones e sair correndo.
A movimentação como um todo deixou claro que qualquer tipo de resposta dada por si seria ignorada. A kunoichi desistiu, por fim, de sair logo daquele lugar devido à forma como se empenharam para montar um acampamento.
"Uma noite, uma noite apenas. Uma noite e nada mais, um último calor e conforto. A última noite" pensou antes de sorrir e se sentar perto de onde Lee e Gai montavam a bagunça toda.
— Vou caçar algo para comermos – disse Sai passando por si – diga isso a eles quando acabarem com a bagunça, por favor.
— Hai – ela respondeu e ficou olhando as costas daquele garoto estranho que se distanciava de si.
Não havia mais nada de estranho em seus olhos, nada que indicasse que houvesse uma disputa pela posse dos segredos reservados em sua cabeça. Logo, isto devia ser apenas algo de sua cabeça.
Ainda assim não conseguia compreender o motivo pelo qual Sai ficou a encarando daquela forma. Ficou confusa ao se perder em uma conjunção de pensamentos formados por perguntas sem respostas. Podia ser uma interpretação exageradamente paranoica sua crer que Sai poderia ler sua mente, mas a forma como o garoto lhe olhou era um fato e não uma alucinação.
E aquela era a função dos ANBUS, não era? Decifrar o indecifrável, descobrir os segredos dos segredos escondidos nas profundezas de mentes demasiadamente fortes, e/ ou, suficientemente dissimuladas para omitirem-se.
Não era uma mente forte. Tinha segredos, mas estes eram frágeis; não eram segredos com segredos.
Ficou claro que Sai foi o único naquele meio que havia percebido que ela não estava confortável, talvez até tenha percebido que não estava sendo verdadeira com as palavras e os sorrisos. Mas tudo certamente deve ter se resumido a isto, não havia meios de descobrir coisas não ditas com a precisão de cada sílaba apenas por uma inspeção de olhos imparciais.
Mitarashi encostou a cabeça no tronco da árvore atrás de si, ganhando a imagens das primeiras estrelas que brotavam no céu. Seria uma longa noite. Correu por um dia inteiro sem parar por nada, a brisa noturna tocou sua pele.
Já havia corrido distâncias muito longas em missões, mas nunca havia quebrado a barreira de vinte e quatro horas sem parar, e o corpo que começava a esfriar já começava a lhe cobrar as consequências dos excessos. A morena fechou os olhos para sentir melhor a brisa noturna e respirar o ar gélido para lhe aliviar todo o corpo.
Assim, sem perceber ou intencionar, adormeceu. E com a dor emocional ainda fixa em sua cabeça, seu sono foi embalado por um corpo cansado demais para impedir que os sonhos logo tomassem forma em sua imaginação.
Ainda corria, séria e concentrada; claramente equipada para uma missão. Cruzava uma floresta quase que por cima da copa das árvores, correndo em saltos de galho a galho. Uns mais altos e outros mais baixos, mas cada um deles com a precisão perfeccionista da forte shinobi que era. Concentrada, nem olhava para baixo; seus olhos olhavam apenas para frente.
Pés firmes saltavam com e pousavam com precisão e velocidade, o rosto firme não expressava nenhuma dor ou cansaço. O objetivo estava no horizonte e nada, nem mesmo os ferimentos de batalha que carregava a tiraria deste caminho.
— Chotto Neji-kun, eu acho que... ahh – caiu.
Mesmo que não admitisse, aquela face segura apenas omitia a dor da perna ferida. Não precisaria admitir que estava além de seus esforços depois de a mesma não ter alcançado o galho de apoio entre um salto e outro. Ao invés de um impulso para cima, a kunoichi caiu.
— Tenten! – Neji se apressou para chegar ao chão antes dela, pegando-a com destreza no exato momento em que o corpo da morena tocaria o solo – Se você não fosse tão orgulhosa – completou a erguendo nos braços – Poderíamos ter ficado na vila mais próxima para você ter cuidados médicos
— Isso não é necessário. – Respondeu se desprendendo do mesmo, sempre orgulhosa. – Isso não é nada...ahh.
— Deixe de ser teimosa! – disse passando as mãos por trás dos joelhos da companheira, tomando-a novamente em seus braços – Deixe-me pelo menos carregar você.
— Posso andar sozinha. – concluiu tentando se desvencilhar, mas Neji apenas reforçou mais o aperto.
— Eu sei que pode, mas me deixe ajuda-la apenas um pouco.
E sem que pudesse se lembrar de ter dado alguma resposta ou não, a morena se sentiu presa em uma vertigem aguda que a fez fechar os olhos rapidamente. Não tinha problemas se apenas uma vez se deixasse ser cuidada ao invés de fingir ser sempre uma rocha forte e indestrutível.
Com este pensamento nada mais viu. Certa de que a dor que sentia era muito maior do que ela tinha se forçado a não demonstrar, havia fratura em seus ossos e uma ferida que a fazia perder mais sangue do que era seguro perder. Fingir que aquilo não era nada levou consigo toda a energia da kunoichi.
— Até que enfim você acordou. – a falta de expressão nos olhos do líder da bouque não ajudou a sonolenta kunoichi decifrar se ele estava aliviado ao vê-la despertar ou se a estava reprimindo por dormir demais.
— Onde estamos? – quis saber.
— Estávamos ainda longe de Konoha quando você desmaiou. Perdeu sangue demais e eu acho que você sofreu algum tipo de fratura, trouxe você para o abrigo mais próximo. Não tem médicos, mas irá servir. – concluiu indicando com a cabeça a bolsa suspensa que repunha o sangue supostamente perdido. Você vai ficar bem. – dessa vez ela pode sentir um fiapo de contentamento nas palavras de Neji.
Lembrava-se apenas de desmaiar nos braços dele e acordar agora. Sentia-se duplamente envergonhada, uma vez por ter se ferido e outra por não ter dado a devida atenção ao ferimento e aí sim comprometer o andamento da missão.
Quis desculpar-se, mas nem bem o amigo havia terminado de falar, a porta do quarto abriu:
— Ah até que enfim você acordou, o médico vindo de Konoha já está à caminho – disse a mulher largando uma bandeja na cama ao lado dela.
— Oka-san? – os olhos da kunoichi brilharam admirando a figura que amava tanto, depois Neji – Arigato Neji-kun – disse enquanto sufocava a mãe com um abraço carregado com saudade.
— Yare, coma menina coma, seu namorado nos deu um baita susto quando chegou aqui com você desacordada, tem que comer pra repor tudo o que perdeu – a face de Tenten enrubesceu com o comentário da mãe. – Vou avisar o seu Otou-san que você está bem. – disse e logo saindo do quarto.
— Gomen nasai Neji-kun, parece que minha okaa-san pensa que eu e você... – iria prosseguir, mas apenas imaginar as palavras a faziam rir, então acabou trocando o final da frase por uma risada afobada.
Ela nunca havia escondido da mãe o amor que sentia pelo colega de equipe, mas também nunca imaginou que ela falasse uma coisa do tipo, principalmente porque também nunca escondera da mãe que Neji era uma pessoa que parecia não se interessar nem um pouco para qualquer outra coisa que não fosse a Bouque. Aquela frase repentina tinha sido realmente muito inadequada, fosse Neji seu namorado ou não.
— Coma, chegou aqui muito fraca. A quantidade de sangue que você perdeu nesse ferimento foi assustadora, não temos treinamento médico, se não fosse a norma termos que carregar um selamento para invocar uma bolsa de sague, eu não saberia o que fazer.
— Gomen... – resmungou baixo, sentindo-se capaz apenas de comer como o outro havia sugerido, apenas para não criar mais problemas.
— Eu realmente achei que você estava em condições, quando seguimos a viagem de volta. Você é sempre tão forte diante de tudo que não percebi sua situação real. Como não vi isso com o Byakugan? – disse a última parte passando as mãos no rosto, como se não tivesse percebido falar aquilo alto, como se fosse a confissão de uma falha.
— Há muitas coisas que você não pode ver com o seu Byakugan. – disse em um muxoxo – Até porque você não olha pra mim com o Byakugan ativado, ou olha? – perguntou sentindo uma vergonha imensa tomar seu corpo por completo, aquecendo-o.
Neji abriu a boca como se fosse responder alguma coisa, mas não falou nada. Era como se tivesse um lapso de memória onde as palavras, especialmente aquelas que usaria para uma boa justificativa, simplesmente tinham sumido do seu repertório.
Tenten se lembraria de guardar essa imagem do prodígio sem saber o que falar para sempre em sua memória, deixando com ela também a enorme dúvida sobre essa resposta, afinal, se ele olhava para si com certeza veria mais coisas do que ela suspeitasse interessar o companheiro.
— Você me olha com o Byakugan Neji-kun? – ela repetiu a pergunta, com cada palavra bem declarada, mas mais uma vez ele não respondeu – Neji... – repetiu, sentindo cada extremidade da pele arder em fogo, enquanto o coração da kunoichi se enchia com uma pequena esperança.
— Bom, é minha responsabilidade manter os membros dentro do círculo da minha concentração. – respondeu em seu tom usual.
Foi uma resposta plausível bem no fim, e que a fez murchar rapidamente aquele pequeno balão de esperança. Abandonando pouco a pouco o desejo de significar um pouco mais que um reforço em campo de batalha para o homem que amava tanto
— Mas talvez mantenha mais focado em você do que deveria. – concluiu, por fim, baixando a cabeça, deixando de fitar a garota para olhar as ranhuras do chão de carvalho de carvalho bruto.
— Mais do que...
— Tenten-chan! Que bom que está bem, você chegou aqui com uma aparência realmente ruim – ela foi interrompida pelo pai que anunciava a sua presença já com o eco de sua voz impotente.
— Otou-san, que saudade! – disse o abraçando.
A kunoichi viu Neji sumir do seu campo de visão por cima do ombro do pai, saindo do quarto para dar mais privacidade para pai e filha. Era apenas o colega de missão, não tinha permissão alguma para ficar ali e participar da união dela com sua família. Mas lhe bastou a informação de que ainda não tinha visto um sorriso tão verdadeiramente sincero em seu rosto até vê-la sorrir de volta para o homem que lhe dedicava um abraço cheio de afeto. Ele lhe contou isto no dia exatamente seguinte.
— Tenten? Tenten-san, acorda! – Lee havia a tirado do sonho que estava tendo, relembrando do dia em que tudo definitivamente mudou no relacionamento ela tinha com o colega de equipe. – Você pegou no sono. Vem comer, o Sai assou um coelho. – disse e se debandou para junto do resto do grupo.
A noite agora havia caído por completo ao redor dela. Seus amigos falavam, comiam, riam, mas no interior de sua cabeça a voz de Neji ainda ecoava, dando continuidade à lembrança que o sonho revivera em si.
O moreno havia voltado ao seu quarto depois das longas horas que passou sob o carinho zeloso dos seus pais. Mais expressivo do que normalmente era, Neji disse que sabia que era quase uma invasão de privacidade manter seu Byakugan nos colegas, e que exatamente por este motivo nunca tinha falado nada; a vigia constante era acima de tudo, uma ordem de Gai.
Por fim pediu desculpas se isto a aborrecia ou constrangia. Ouvir o Hyuuga desculpar-se algo era realmente um evento a ser memorizado, mas sobre aquilo sua colega não desejava um perdão tão bem polido. A pequena confissão de que talvez ele a olhasse um pouco mais do que deveria não sairia de sua cabeça, e não era de sua personalidade ir para a cama dormir com uma dúvida tão desoladora que passarias a noite lhe cochichando coisas que a levaria à insônia.
As desculpas de Neji não cobriam todas as questões, e ela não o deixaria passar se livrar de tudo o que desejava saber. Discutiram, como de praxe, ambos tinham personalidades difíceis e fortes nas mesmas dimensões, mas entre as palavras desorganizadas entre os dois houve, de alguma forma, uma confissão.
Havia uma desconfiança em si que a fazia duvidar se o colega conhecia o verbo “amar”, ou sabia conjugar o conjugar em alguma frase. Tanto que nunca desconfiou nem desconfiaria que ouviria cada sílaba dita no "eu te amo" que ouviu naquela noite, serem ouvidas por alguém se ditas por Neji; para ninguém, muito menos para si.
Naquele dia, Neji a amou. Assim como nos dias que se seguiram, mas com o tempo as palavras foram sumindo e do sentimento que ambos confessaram ter, apenas o dela restou. No Hyuuga ficou apenas a paixão, a sede por tudo que a mulher de personalidade firme o fazia querer.
Negou-se a crer, sabia da verdade e isto doía tanto agora. Percebeu que nada era como ela sonhou que seria depois daquela noite, mas ele havia dito que a amava. Neji não mentiria sobre algo tão importante, a menos que simplesmente não fosse amor desde o princípio.
Tenten sabia que era tudo o que o moreno desejava, mas jamais seria a mulher ao seu lado noite após noite. Tinha o sangue do guerreiro, mas não conseguia passar com o mesmo por dentro das câmaras do seu coração.
Fora simplesmente usada, descansando sobre lençóis soados enquanto ele montava o seu casamento cheio de honras. Ah, quanta honra, casar-se com a herdeira da família que ele cobiçou a vida inteira, enquanto marca encontros secretos que envolviam apenas nós, a minha cama e tudo mais que desejássemos fazer.
Já havia passado pelo estágio de sentir nojo de si mesma, agora havia acima de tudo a dor por permitir-se acreditar que aquela declaração havia sido verdadeira, e um dia o relacionamento que dividiam deixaria de ser secreto. Então ela se reuniria feliz com suas amigas e não precisaria fingir dar a mínima para aqueles assuntos, quando eles aconteciam.
Mas isto nunca aconteceria. Agora estava tão claro que ela apenas era a única coisa que Hinata não lhe oferecia; o libido vivido sem receios. Sem perceber arremessou o pedaço de carne que mantinha intocado nas mãos direto na brasa onde ele fora preparado com raiva, fazendo os pares de olhos todos se voltarem para ela; não era para ele nada além de encontros sexuais irrelevantes.
— Tenten-chan, não gosta de carne de coelho – perguntou Naruto.
— Eu não.. Eu... ah me desculpem por favor, Sai deve estar ótimo, mas eu não tenho fome. – ela simplesmente se levantou e saiu andando sob o olhar supervisionado do ninja mais pálido de todos.
— Tenten-san, está tudo bem? – esse era Lee.
— Eu só preciso de um pouco de ar Lee, sente-se aí por favor, eu já volto. – concluiu sem nem ao menos olhar para trás.
Caminhou para o mais longe que pode, até que o caminho a fez chegar em um lago. Sentou-se em uma pedra comprida que se sobressaltava ali e deixou se seus pés mergulhassem na água e movimentar a mesma sobre o reflexo da lua na mesma como se pudesse de alguma forma a apagar, mas apenas a fazendo ondular e parecer uma lua de tecido retorcido.
— Só você mesmo pra me fazer vir até aqui enrolada em um lençol Neji-kun – disse se sentando no topo de uma cachoeira, com os pés encostando no paredão por onde a água caía com força.
— A ideia de virmos pra cá hoje à noite foi totalmente sua! – contrapôs se sentando atrás de si, deixando-a entre suas pernas.
Neji manteve uma das pernas flexionadas, abraçando-a com um dos braços junto com a cintura encoberta da kunoichi. A outra perna ficou caída ao lado da dela, servindo de apoio para o outro braço que também circundava a cintura de Tenten.
— Para um piquenique noturno romântico. E que se quiséssemos nos sentar na cachoeira, seria antes de tirarmos as roupas, não depois enrolada no lençol que, a propósito era para ser usado no piquenique. – disse de forma simples e direta.
— Uhum. Ok, se o lençol é o que te incomoda – sussurrou em um de seus ouvidos enquanto deixava os lábios experimentar mais uma vez o gosto da pele macia – Nós podemos dispensá-lo por enquanto – terminou a frase terminando com a privacidade da kunoichi que já era mínima naquele momento. – E aí faremos o piquenique bem aqui, mas sem a parte do lençol e do piquenique.
Muito longe daquele tempo, a mesma morena sentada em uma pedra na beira do rio, tirou os pés de dentro da água para abraçar as duas pernas em frente ao tronco, enterrou a cabeça ali e chorou. Deixou os altos soluços invadirem sem permissão alguma seus pulmões, roubando-lhe o ar que havia ali enquanto seu pranto complementava o ruído dos animas noturnos que andavam por ali.
Ser rejeitada não era o que a molestava. O que parecia espremer seu coração mortalmente era aquela sensação de ser completamente usada e enganada, ser mantida presa em uma ilusão tão fria por conta de um sentimento tão puro e forte como era seu amor por Neji. Ver-se não apenas abandonada, mas sem poder recorrer às suas amigas para algum suporte, não tinha coragem nem mesmo de olhar nos olhos de Hinata depois de tudo. Não ter mais os braços dos pais para recorrer quando a vida parecia novamente tão distante de si.
— Nossa, o coelho estava tão ruim assim? – o novo companheiro de time de Naruto sentou-se ao seu lado, fazendo-a se sobressaltar.
— Sai? Nã..não, não é nada disso eu.. – ela passou as mãos no rosto para tirar o excesso das lágrimas – Meu Deus eu nunca permiti que alguém me visse desse jeito. – admitiu levando as mãos até a água em forma de concha e jogando a água em seu rosto para tirar o inchaço causado pelo choro, não iria adiantar negar ou inventar histórias àquela altura.
— Eu sei, você é durona. Quase tão durona quanto a Godaime, então não deve ter acontecido pouca coisa para você estar tão estranha.
— Eu me espelho muito nela. – disse a fim de guiar a conversa para outro foco.
— Sei disso também. – falou com seu jeito, mais como se estivesse informando um dado ao final de uma missão, ainda assim, a informação em si a fez parar e olhar fixamente para ele em busca de alguma resposta. – Você é uma kunoichi de família estrangeira, acha mesmo que não há um arquivo seu perfilado pela Raiz? – respondeu.
— Sobre minha família? Perguntou temendo que neste momento poderia haver alguém em Konoha sabendo que ela não tinha mais uma família e, por isso, mentindo.
— Ah, não se preocupe, são apenas dados sobre você e seus registros desde que você veio para cá. Nada demais, mas tem coisas como a sua admiração pela Godaime. – justificou, satisfeito por ver o medo abandonar aos poucos os olhos dela.
Não era anormal. Todos temiam a Raiz e ele certamente não poderia sair por aí alertando as pessoas que a divisão mantinha arquivos perfilados de alguns dos moradores da vila. Mas no fim pareceu não haver problema, afinal o selo não havia o impedido, e impediria se ousasse revelar alguma informação que a Raiz não quisesse revelada.
— Pelo visto ainda estou longe de ser tão forte quanto Tsunade se deixo de comer pra ficar chorando escondida. Não se preocupe comigo apenas... não conte aos outros.
— Olha, eu posso afirmar para você que já vi a Godaime chorar, se o seu medo é de que pessoas fortes não choram. Eu fui excessivamente treinado para não ter sentimentos, então simplesmente não consigo entender porque deveria ficar preocupado com você. Naruto chora, Sakura passa boa parte do tempo chorando e, eu sei lágrimas podem ser boas ou ruins, mas não sei diferenciar elas. – ele a olhou diretamente mais uma vez, fazendo os olhos castanhos claros dela penetrarem fundo na escuridão dos seus – Algumas pessoas ficam muito feias chorando, outras choram de um jeito que eu acho artístico. É estranho que as suas lágrimas sejam bonitas, mas ao mesmo tempo eu penso que você não deveria chorar. – levou uma das mãos ao rosto dela e com os dedos, terminou de remover as lágrimas mais insistentes que ainda estavam ali.
— Sai...
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