Futuro, Volume I - Futuro Esquecido
6 Amnésia - Tobias
Levanto da minha cama e vou em direção ao que era a janela do meu quarto. O vento frio bate em meus braços e pernas que não estão totalmente cobertas e me deparo com a visão de Jeanine correndo, saindo do parque em frente a sede da Erudição e de volta para a própria sede. Levanto minhas suspeitas a respeito dela, será que ela perdeu mesmo a memória? Acho que ela não me engana mais, mas com todas essas evidências caindo sobre ela, não acho que ela fez o incidente do avião. Ela não faria uma coisa dessa com a sede da facção que um dia qualquer ela planeja reassumir o comando. Chego mais para a beira do buraco e percebo que agora é oficial: perdi o meu medo de altura. Meu quarto fica no segundo andar, exatamente naquele lugar onde a fumaça esverdeada saiu no momento em que as janelas foram quebradas. Suspeito.
Saio da beira do buraco e fico pensando quando eles vão tomar a iniciativa de consertar a sede. Vou em direção a porta, eu descalço e o chão frio. Pego na maçaneta gélida. Vou para o banheiro coletivo – queria pelo menos que todos os quartos tivessem uma suíte, banheiros coletivos são muito ruins – e tomo meu banho. Apesar de estar de noite, estava me sentindo meio sujo, e acho que as pessoas já estavam percebendo isso. Escovo meus dentes, volto para meu quarto para guardar minha toalha e as coisas e vou para frente do elevador chamando-o com o aperto no botão.
Decido descobrir sozinho se Jeanine está ou não com amnésia, e se não estiver no que ela pode estar envolvida, porque todos temos certeza de que ela está envolvida em algo. Ela ama uma confusão.
Chego no saguão. Muito movimento apesar de ser tarde da noite. Não encontro ninguém da minha turma. Mas não importa, vou me virar sozinho, pelo menos hoje. Desço por um corredor o qual antes era totalmente revestido de vidro, menos o chão, ou seja, virou praticamente uma ponte, não tem mais nada, somente cacos por todos os lados – onde será que estão as pessoas que cuidam da limpeza? – e viro a direita em um corredor cheio de portas. Totalmente branco, chegando a ser agoniante de ver. Sigo reto e entro na última porta do corredor. Abro a porta fazendo muito barulho.
– Olá – digo – Evelyn.
– Oi, filho. – responde ela com os pés em cima da sua mesa. –Sabe de uma coisa, gostaria que você me chamasse de mãe as vezes. Seria bom.
– Acho que já está na hora de mudar seu escritório de lugar não acha? Esta muito ruim passar por aquela “ponte”.
– Já pensei nisso. Mas estou esperando as reformas que precisão ser feitas. Já mandei a licitação.
Aleluia, eu penso.
– Já estava na hora. Está muito ruim dormir no frio. – digo, na honestidade.
– É filho mas vamos direto ao assunto, porque sei que você não veio aqui pra tratar sobre as reformas da sede. – diz ela meio com grosseria – E além de que desde que você voltou lá da Margem você não veio aqui no meu escritório.
Ela me olha com atenção e faz um sinal pedindo para me explicar.
– Tá bom então… só quero saber uma coisa: o que você está sabendo a respeito sobre Jeanine Matthews?
Ela não demonstra nenhuma reação. Deve ser porque já sabia que eu viria aqui para saber a respeito disso.
– hum... – diz ela. Acho que ela não vai me falar nada.
– E aí? Vai em falar algo?
– Vou – ótimo – sente-se, por favor.
Sento-me em uma cadeira de couro bem em frente a mesa dela. Ela tira os pés de cima da mesa e me fita com seus olhos castanhos. Da cor dos meus.
– Vou tentar ser bem direta.
Ok.
– Jeanine Matthews – e ela faz uma pausa curta para respirar bem fundo, como se estivesse pra dar uma má notícia – não perdeu a memória coisa nenhuma.
E o pior é que era uma má notícia. Aquilo me chocou muito. Ela estava fingindo muito bem.
– Então quer dizer que foi ela quem mandou tripular o avião nessa direção!
– Não.
– Não?
– Não. – ela finaliza.
– Como você tem tanta certeza sobre isso? – questiono.
– Ela veio hoje mesmo dizer que eu tenho uma tamanha cara-de-pau para mandar tripular um avião por cima da nossa sede.
– Entendi – Jeanine Matthews e Evelyn, cortadas a lista.
– Veio dizendo que sabia que era eu quem tinha feito isso.
– Mas – fico sem reação – e todas aquelas pessoas mortas lá na entrada?
– Fizemos a autópsia de todos eles, e todos foram por envenenamento nas vias respiratórias.
Penso que todos eles que morreram foram porque estavam logo abaixo da janela do meu quarto.
– Meu deus...
– E tem mais – acrescenta Evelyn
Ai caramba, e ainda tem mais.
– Todos os que morreram era Divergentes geneticamente perfeitos.
E eu pensando que essa história já tinha acabado.
– Se isso não é obra de Jeanine, então de quem poderia ser? – questiono
– Pergunta equivocada meu querido filho. – diz ela
Fico sem entender.
– Como assim?
– Nunca disse para você que ela não quer continuar matando os Divergentes. Só disse que ela não tem nada a ver com o avião.
E isso esclarece tudo.
– Obrigado mãe. – digo mãe para ela ficar mais feliz, quero ver o bem dela, apesar de tudo – tenha uma boa noite
– Tchau filho. Tenha uma ótima noite.
E quando eu já estava pra sair ela diz:
– Ei.
Olho para ela
– Te amo filho. – diz ela
– Também te amo mãe. – respondo
Vou correndo de volta para o saguão. Continua cheio de gente. Essa sede está lotada, acho que deveriam migrar algumas pessoas para outras sedes. Mas acho que criaria rejeição. Continuo meu rumo até o elevador, uma fila enorme de espera para subir. Decido ir de escada, afinal, só era 2 lances. Subo os degraus de dois em dois, para ir o mais rápido que posso. Tem um pequeno movimento por aqui também, mas nem se compara com o elevador.
Chego ao nosso corredor com os dormitórios passo por Jeanine Matthews, que está indo em direção ao seu quarto, ela olha pra mim e dá um sorriso, retribuo. Bato na porta do quarto de Tris.
– Pode entrar.
Abro a porta e entro no quarto dela.
– Ah, oi Tobias!
– Olá!- digo
Ela dá uma risada de leve.
– O que foi? – pergunto
– Nada, é só que você mais animado que o normal.
– É porque você não sabe o que descobri.
– Tobias, já falei que não gosto de fofoca.
– Não, não é fofoca!
– Então tá, conte – e ela se ajeita em cima da cama. Sento em uma cadeira perto do buraco do quarto dela, e me aproximo de sua cama para poder ficar mais próximo.
– Jeanine – faço uma pausa pra criar um suspense – não perdeu a memória!
Acabo de lembrar que ela estava no corredor e que ela poderia ouvir qualquer coisa que eu falasse se ela estivesse ali do outro lado.
– Como assim Tobias? – diz ela – você pirou de vez? – ela diz isso batendo na minha testa como se estivesse batendo em uma porta.
Conto a ela tudo que minha mãe disse. A história do avião, da fumaça ver e até a dos divergentes mortos. Conto tudo. Não deixo escapar nada. Enquanto conto ela faz cara de espanto e de assustada. Acho que ela está acreditando.
– … não sei se tem nada a ver mas hoje mais cedo a vi correndo desesperada do bosque aqui em frente para a sede. – finalizo
– Meu deus. – diz ela bem lento – esse tempo todo. Como eu não desconfiava. Por isso que quando fui ver se ela estava na cozinha naquele dia, depois de ter entrado la com um cara que tem cara de cientista ela tinha sumido. Deve ser a nova paixão dela.
– Falando nisso – digo, tentando fazer com que o assunto não acabasse – você soube daquela notícia da chuva forte que teve naquela noite que destruiu parte da sede, e que essa parte seria a Área Dos Laboratórios, não lembra?
– Lembro sim. O Facção News todo dia tem uma fofoca diferente.
– Pois bem, tudo era mentira! Fui escondido essa semana pelos corredores do subsolo e todos os laboratórios estavam lá. Intactos.
Tris faz cara de espanto mas não fala nada.
– Exatamente – respondo, como se quisesse responder o olhar dela.
– Será que aquilo que estava saindo do seu quarto foi produzido no laboratório?
– Bem capaz. Mas está tarde demais para descobrir isso. Vou indo pro meu quarto.
Vou dar um beijo de despedida na sua bochecha, mas quando chego perto ela vira o resto e sem querer damos um pequeno beijo. Fico pasmo, ela também
– É… boa noite… Tobias – diz ela gaguejando
– Boa noite, Tris.
Saio de seu quarto e vou para o meu.
Ouvimos um aviso na caixa de som:
Atenção todos, hoje de madrugada, mais especificamente às quatro horas da manhã, vamos fazer a reforma da sede, e todos os vidros serão trocados. Então se ouvirem barulhos a noite não se preocupem, somos nós fazendo o melhor para todos vocês.
Era a voz de David. De novo. Porque minha mãe nunca dá esses avisos?
Quando entro no meu quarto, procuro o que poderia ter sido a fonte de saída daquela substância. Reviro o totalmente o quarto e não encontro nada. Decido me deitar, tiro a camisa e deito. Meu braço fica para fora da cama e sinto uma coisa diferente no chão. Pego essa coisa e vejo que era um tubo de ensaio, um pouco maior do que o normal. Isso sim deveria ter sido a fonte da fumaça. Analiso e vejo que não tem nada para que se aproveitar dele, e jogo pelo buraco da parede e minha futura janela.
– Os cientistas estão fabricando isso.
Depois da esperada conclusão, me deito e vou dormir.
Fale com o autor