Futuro Negro
3 Capítulo 2: Em paz. Em meio à tormenta.
--E então? -- Disse a motociclista. -- Não vai dizer nada?
Eu estava paralisado de medo.
--Melhor assim, então. -- Ela puxou de um bolso do macacão um revólver, e apontou para o meu coração. --Nem mesmo algumas últimas palavras?
Impassível. Um homem mais corajoso correria. Um homem um pouco mais corajoso entraria no café. Mas eu era um verdadeiro rato.
--Ora, por favor. Que garoto irritante.
Ela me deu uma coronhada com o revólver no rosto, e eu caí a três metros de onde estava. Ela ligou a motocicleta e foi embora.
Por alguns longos minutos, fiquei caído no chão. Resolvi levantar, e voltar para a pensão... a pé. Tentei correr. Realmente, eu devia ser um vampiro. Não me senti cansado dez segundos depois de começar a correr, como normalmente acontecia.
Abri as portas da pensão e fui diretamente ao meu quarto. Não havia uma viva alma nos corredores. Já devia ser muito tarde, ou quase manhã.
"Pelo menos eu tenho a sorte de estar sozinho no quarto."
Me arrastei pelo quarto até chegar na cama. E logo que caí nela, adormeci.
Acordei me sentindo leve como uma pluma. Podia ver todo meu quarto, apesar de estar escuro... Escuro? Corri para abrir a janela. Era noite.
--Quê!? -- Exclamei. --Não! Eu... perdi minhas aulas. Como assim, eu dormi o dia todo...?
Saí do meu quarto e fui até o banheiro coletivo. Logo que entrei, me vi no espelho. Eu achei que estava horrível, mas me lembrei que aquela era minha aparência normal.
Eu era muito magro. Braços finos, não muito alto, cabelo curto preto e olhos... amarelos. E eu estava imundo da noite anterior. Peguei uma muda de roupa; uma calça jeans, uma camiseta e uma jaqueta leve; e tomei um banho. Tinha que sair e encontrar alguém com quem conversar.Saí pelas ruas. Nos bolsos, apenas minha carteira, e cinco dólares, que era o que eu podia gastar pela próxima semana inteira.
"Que inferno... se eu sou um vampiro, não posso sair de dia. Vou perder a minha bolsa de estudos e o meu emprego."
Eu saí vagando pela cidade. Não me lembrava meu nome, nem o que eu estudava ou no que trabalhava antes. Cheguei no café da noite anterior. Ainda era cedo, e eles estavam com bastante movimento. Entrei, e me sentei perto do balcão.
Um rapaz da minha idade veio me atender. Eu pedi uma água. O rapaz fez uma careta de desgosto, mas me atendeu.
Eu fiquei olhando para o copo de água, parado à minha frente. Como eu diria a alguém, "olá, eu sou um vampiro. Você pode me ajudar?". Eu mal conseguia falar com estranhos, quanto mais dizer algo tão absurdo.
Senti um toque em meu ombro. Me virei para ver, era um homem velho, devia ter uns cinquenta anos, pra mais. Seria um professor? Ele me disse para sentar com ele. Obedeci.
O velho estava sentado a um canto, sem uma mesa. Ele colocou uma cadeira para mim ao seu lado, esperou que eu sentasse e começou a falar.
--Já falaste com alguém?
--So-sobre o quê?
--Sobre tua maldição, jovem.
Eu me emudeci. O velho continuou.
--Onde está seu progenitor, garoto?
--Quem?
--Quem lhe transformou.
--Não... sei. Nem me lembro como aconteceu.
--És um desgarrado? Pobre garoto.
Eu não conseguia entender o que o velho dizia. E ele falava estranhamente... ele devia ser um estrangeiro.
--Sou Eric de Leon. Qual seu nome, neonato?
--Eu... não sei.
--Noto nos jovens de hoje o hábito de portar papéis com informações. Você não carrega um?
--O quê? Ah, claro! Eu sou um idiota.
Procurei em minha carteira pela minha identidade. Meu nome é Matthew Williams. "Bom, isso já é um começo."
--Sou Matthew, senhor.
--Pois façamos um trato, Mattheo. -- Ele pronunciou o nome com clara dificuldade. --Vou guiá-lo nesta nova sociedade. Ensiná-lo nossas regras, e como sobreviver.
"Sabia... nada é de graça."
--E em troca...
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