Furta-cor
1 Furta-cor | day 11 angst
Notas iniciais
Então escrevi um pouco aí do meu drama.
A muralha de gelo cresceu imponente, rasgando o céu e deixando para trás lascas cintilantes e nuvens de ar condensado. Os desavisados poderiam confundir com a mais bela escultura, que em tons de furta-cor encantava como um belo arco-íris.
Da base, tons alaranjados irradiaram como raízes, desfazendo a sólida barreira em pequenos resquícios, agraciando o ar gélido com falsos cristais que rodopiaram na mesma dança das folhas das árvores, até descansarem no formato de gotículas sobre o asfalto.
O artificial evento climático, poderia ser facilmente classificado como o mais bonito da cidade de Kamino, se não fosse pelos dois homens caídos no meio daquela bagunça de peculiaridades.
Shouto estava de olhos fechados, concentrado nas batidas do próprio coração e nas mãos que tremiam sobre lascas de gelo e chamas. Ele demorou alguns segundos para encarar o cenário, já que as fagulhas estavam acumuladas sobre os cílios.
O vilão estava caído alguns metros, com metade do corpo em combustão, e se sobrevivesse, acabaria atrás das grades. O plano havia dado certo, mas algo estava estranho nas queimaduras do inimigo, elas ardiam lentas e ascendiam como fumaça de cigarro.
Oh, não!
Ele conhecia muito bem aqueles rastros de destruição, Bakugou era o único que queimava daquela forma, através de belas explosões que poderiam ser comparadas com fogos de artifícios.
Brilhavam cegando a mais bela íris e desapareciam numa despedida lenta no céu noturno.
O terceiro elemento estava ao lado, deitado de bruços e de expressão serena. Shouto perdeu o ritmo dos movimentos ao observar a figura que brilhava com as lasquinhas de gelo, transformando o tecido negro no céu estrelado.
— Bakugou? — O bicolor quase engasgou, tossindo um pouco da fuligem que havia respirado durante o ataque.
Sem movimentos ou caretas, o loiro permaneceu deitado e desta vez quem zangou-se foi Shouto.
— Katsuki Bakugou? — disse sem rodeios, apoiando as mãos sobre as costas do herói para acordá-lo, mas a única coisa que conseguiu foi afastar um pouco daquelas estrelas de gelo.
Poucas situações deslocavam Shouto do eixo, aquela piada o desconcertou como peças soltas de quebra-cabeça. O mais triste de tudo aquilo, era que Katsuki não brincava em serviço.
Mas ele estava brincando, não é mesmo?
— Katsuki! — Ele apertou com força o tecido e o vermelho preencheu as palmas das mãos, escapando entre os dedos. O oxigênio deixou de existir naquele segundo. — Não somos amigos, então porque está aqui?
O herói não percebeu que estava quase gritando e balançando com fúria o corpo adormecido, lutando para reanimá-lo. O mesclado fez aquilo tantas vezes, mas quem precisava de ajuda era ele naquele lento momento em que tudo brilhava, inclusive o reflexo das lágrimas acumuladas nos olhos.
A imagem distorcida de Katsuki apenas o deixou mais zonzo, talvez estivesse machucado também, já que o gosto de sangue circulava por toda a boca.
Os sons das sirenes indicavam que o resgate estava a caminho, eles saberiam o que fazer com toda aquela bagunça. Shouto era um ótimo herói, mas péssimo com sentimentos, estava rendido sobre a força que o puxava para baixo, deixando-o colado ao corpo de Bakugou.
— Eu disse que poderíamos ser parceiros, lembra? — A mão tocou os cabelos loiros, e como imaginava, eram macios mesmo que os fios estivessem salpicados de gelo. Mesmo que fosse falso, eles cintilavam como raios de sol. — Você riu da minha cara e disse que era para continuar tentando.
Todoroki riu da própria frase, saboreando o gosto salgado do próprio choro.
— Faz anos e eu não desisti, sabia? — Ele inclinou-se para perto do corpo e sentiu-se cada vez mais fraco, amortecido por não observar nenhuma respiração do outro. — Fuyumi e Natsuo sempre perguntam de você. Se você nos acompanharia para jantar Mapo Tofu ou se já somos oficialmente amigos… — Shouto apenas apoiou a testa sobre a cabeça de Katsuki e mais nada saiu de sua boca, o foco estava apenas nos cílios loiro que já estavam brancos como gotas de orvalho sobre as flores ao amanhecer.
O mundo ficou em silêncio, e por mais que não escutasse as sirenes, o resgate chegaria naquele triste campo holográfico de tons furta-cor.
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