Era um lugar escuro e lhe parecia familiar por causa da relva e dos túmulos ao seu redor. Mas não havia tempo para admirar a paisagem, pois se esforçava ao máximo para se livrar dos canos amarrados a seu corpo.

A sua frente estava a figura surreal que o amarrou ali. Ele era de corpo negro, alto, tinha uma barriga grande, olhos por todo o corpo e um sorriso nostálgico para Hohenheim.

A figura monstruosa deu alguns passos na direção dele e disse: — O que foi? Está com medo... Velho amigo?- E soltou uma risada que se ouvia além das montanhas daquele vale um tanto familiar para Hohenheim. – Hahahahahah!

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Hohenheim abriu os olhos. Sua cabeça estava doendo, e demorou um pouco para lembrar onde estava. Deu uma olhada no ambiente cheio de capim por todos os lados e com cheiro de estrume. Coçou a barriga e tentou se levantar. Logo tomou consciência de que estava num celeiro de uma fazenda nas montanhas de Rushvaley, a cidade dos automails.

Passou duas semanas viajando desde a última vez que uma família o acolheu. Estava com muita dor de cabeça no dia anterior então parou ali para descansar um pouco. O dono da fazenda o acomodou ali com muito pouco prazer, só foi gentil porque sua mulher insistiu que Hohenheim descansasse ali, pois tinha ajudado ela com as rodas de sua velha carroça que estava quebrada no dia anterior. Na verdade dormir no meio da floresta e fazer uma fogueira não era um problema para Hohenheim. Já era acostumado, mas às vezes sentia falta de um lugar aconchegante para dormir. O que não era o caso daquele celeiro é claro.

Ultimamente Hohenheim estava tendo pesadelos estranhos.

Rapidamente se levantou e limpou os fiapos de capim em sua roupa.

- BLAMP! Alguém abriu a porta. Hohenheim olhou na direção da porta e era o dono da fazenda.

- Bom dia! Disse Hohenheim com um sorriso simpático.

O homem não respondeu e estava com uma cara fechada. Parecia estar incomodado com a presença de Hohenheim. Um homem um tanto quanto misterioso que já passou por várias cidades, regiões e países. Nada diferente de outros viajantes, a não ser o motivo que o fazia viajar.

- Você tem que ir embora. Foi a única coisa que o homem disse jogando um olhar torto para Hohenheim. Em seguida bateu a porteira e saiu.

A roda da carroça da esposa do fazendeiro havia sido consertada com alquimia. “Deve ser um daqueles caras que desconhecem a alquimia.” Pensou ele. Esse era um sinal de que deveria ir embora para não arranjar maiores confusões.

O sol já estava alto quando Hohenheim decidiu descer a colina. O filho mais novo do casal de fazendeiros abanava a mão para Hohenheim num movimento de despedida junto a sua mãe.

Ele parou em um ponto alto da montanha que avistava a cidade inteira e transmutou um daqueles bancos de praça e ficou observando a cidade. O vento estava calmo e tudo parecia tranquilo naquela tarde.

Perto dali, um jovem carpinteiro se aproximava de onde Hohenheim estava. Carregava um machado e alguns tocos de árvore nos ombros, parecia não ter mais do que vinte anos. Seu olhar estava cansado por causa das árvores que passara a manhã inteira cortando para levar a seu pai que também era carpinteiro. Chegando num ponto mais alto da colina se deparou com algo estranho.

- Eu sei. Acalma-se, por favor! Eu só quero te pedir uma coisa... – O jovem se depara com um homem de óculos e com cabelo de rabo de cavalo falando sozinho num banco de praça que não estava ali antes ou pelo menos nunca notou que estava ali. Ele parou e ficou olhando aquela cena por alguns instantes. – O que aconteceu lá também foi minha culpa. Ele me usou e...

- Ei, senhor! Tudo bem aí? – gritou o jovem interrompendo a “conversa particular” de Hohenheim.

- Ah, olá! Como vai? — Perguntou Hohenheim um pouco envergonhado. Já haviam pegado ele fazendo isso algumas vezes em outros lugares, por isso tinha cuidado para que ninguém o visse fazendo isso, mas desta vez foi distraído. Talvez seus pesadelos nas últimas noites tenham o deixado um pouco preocupado.

- Este banco já estava aí antes? Não me lembro de tê-lo visto antes. Perguntou o jovem.

- Ah... Não quer se sentar um pouco? Parece cansado. Hohenheim queria desviar o assunto.

O jovem seguiu a dica de Hohenheim. Deixou suas coisas no pé de uma linda árvore ali na colina e se sentou ao lado dele.

- Eu sempre venho aqui para pensar, esfriar a cabeça, sabe? Não esperava ver alguém aqui no meu lugar de repouso. Ainda mais alguém sentado num banco de praça. Disse o jovem, brincando.

- Há! Há! É um ótimo lugar pra repouso mesmo. O sol aqui é radiante à tarde. – Disse Hohenheim meio sem graça. – Você trabalha como carpinteiro, meu jovem?

- Sim. Trabalho lá na cidade, mas venho aqui uma vez por semana para cortar alguns tocos para meu pai e eu trabalharmos. E o senhor, o que faz aqui?

Hohenheim hesitou um pouco. Era um pouco complicado para ele falar sobre o assunto. Levantar todas as manhãs em um lugar diferente e ver que realmente fez a escolha de abandonar seus entes queridos. Mas sabia que estava fazendo aquilo para protegê-los e não podia voltar mais atrás. “Meus filhos nunca mais vão me perdoar” pensava ele.

- Desculpe. Estou sendo desagradável?- Perguntou o jovem notando a mudança de expressão no rosto de Hohenheim.

- Ah, não é nada! Estava distraído só isso. Estou de viagem. Preciso chegar a um lugar e tenho muita pressa, nem sei o que estou fazendo aqui parado. – Disse Hohenheim. – Às vezes fazemos coisas idiotas no passado e somos obrigados a consertá-las. É por isso que eu viajo. Completou.

- O senhor parece ser um homem muito sábio Senhor... Desculpe eu não sei o seu nome.

Quando Hohenheim olhou na direção do jovem se deparou com um homem idêntico a ele olhando para os dois a poucos metros do banco. O homem estava exatamente com a mesma roupa que ele, parado ali como se estivesse observando os dois a muito tempo. Ele ficou perplexo na mesma hora. Hohenheim levantou-se do banco desacreditado. O jovem carpinteiro olhou na mesmo direção que Hohenheim para ver com o que ele havia se assustado e não viu nada. Hohenheim abriu bem os olhos novamente e não havia nada ali. Pensou que estava ficando louco.

Hohenheim olhou para o jovem que o observava com expressão de desentendimento.

- Vo- Você viu aquilo?! Perguntou Hohenheim com olhar confuso.

- Hã? Viu o quê? Não tem nada ali.

Em seguida o rapaz, que não sabia o que estava acontecendo, deu uma desculpa de que havia outro compromisso e foi embora.

Hohenheim desabou no banco e começou a esfregar a mão na cabeça, se perguntando por que estava tendo essas visões perturbadoras. Começou a achar que a importância de sua missão estava o deixando louco.

Olhou ao redor, pegou sua mala, respirou fundo e seguiu seu caminho.

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Agora Hohenheim já estava um pouco mais longe das redondezas Rushvaley, passando por uma região pastosa onde havia poucas casas. Aquela região lembrava um pouco Risenburg, de onde deixou filhos e esposa para seguir sua jornada solitária, mas lhe dava dor no coração lembrar-se de casa.

- AARGH! Hohenheim sentiu uma forte pontada na cabeça e logo começou a esfregar. Uma voz veio à sua mente que o fez cambalear de tanta dor, mas antes de cair desmaiado pôde ver uma pessoa olhando para ele em frente a uma casa .

“Eu estava a sua frente, e ele olhava profundamente em meus olhos. Tive a sensação de que ele estava lendo os meus pensamentos com aqueles olhos penetrantes e sem sentimentos. Era como estar de frente ao espelho, a única diferença era seu cabelo que era solto e suas roupas brancas que o faziam parecer um deus. Depois de um tempo calado ele finalmente me disse: — O que você vai fazer quando me encontrar? Vai me matar Hohenheim? — Eu fiquei calado com medo de responder e tentava desviar o olhar com vergonha de mim mesmo. – Vai tentar me destruir? Você sabe que a culpa da morte daquelas pessoas também é sua não sabe? Disse ele tentando me provocar. Minhas mãos tremiam só de ouvir aquelas palavras saindo de sua boca. A boca do MEU sangue.O homem se virou e só então me dei conta de onde estávamos: Não era bem um lugar, havia uma grande porta cheia de símbolos atrás dele e o resto... Era nada. Tudo branco. Ele parecia que ia entrar pela porta. Antes de fazer isso tentou me dizer algo que não consegui entender nem lendo seus lábios e então...”

Hohenheim abriu os olhos. Levantou-se e sentou na cama, e observou o lugar em volta. Era uma casinha minúscula caindo aos pedaços. Ouviu barulhos que vinham da cozinha e havia algo cheirando muito bom. De repente uma velhinha colocou a cabeça pra fora da cozinha e espiou Hohenheim.

- Olá! Que bom que acordou! Disse a simpática velhinha. Ela era provavelmente a pessoa que Hohenheim viu antes de desmaiar. E parecia estar cuidando dele.

- He! He! Olá. Cumprimentou Hohenheim meio sem graça.

Em cima do criado-mudo havia um pano úmido e uma tigela de água que ela colocou para que ele colocasse na cabeça. Hohenhem ainda tinha fortes dores de cabeça.

A velhinha resolveu se aproximar. Tinha aproximadamente 1,60 de altura, cabelos grisalhos e tinha por volta dos 70 anos de idade.

– Eu te vi jogado na rua e corri pra te socorrer

Hohenheim novamente esfregou a testa. Olhou para a velha senhora e deu um meio sorriso. E depois disse com uma voz fraca: — Muito obrigado, senhora. Acho que eu estava com muita dor de cabeça. Depois deu aquela risada meio sem graça de sempre.

Depois disso os dois conversaram bastante enquanto tomavam chá. Durante a conversa Hohenheim lembrou-se de uma velha amiga de bar com quem também gostava de conversar, Pinako Rockbell. E então a velha começou a falar sobre sua família.

-... E eu tenho uma filha que acabou de se casar e foi morar na Cidade Central. Seu nome é Shara, é uma garota muito linda.

Enquanto Ariel (esse era o nome da velha senhora) falava sobre sua filha o coração de Hohenheim começou a apertar, pois sua infeliz missão era evitar uma catástrofe na Cidade Central. Ficou tão angustiado que teve que se levantar e disse: — Minha senhora... Ligue para sua filha imediatamente e diga a ela para sair de Amestris e, por favor, me prometa que a senhora nunca irá para lá!

Ariel levava o chá em direção a sua boca e parou por causa da perplexidade da conversa. Hohenheim continuou falando: — Uma guerra está prestes a acontecer naquela cidade, e quando isso acontecer nenhum ser humano deve estar em Amestris!

Ariel ficou mais confusa ainda, mas tinha confiança no viajante então confirmou gaguejando: — S- Sim, eu prometo.

A vontade de Hoheheim era de sair imediatamente dali e seguir o seu caminho, mas já estava tarde e seu corpo ainda estava muito fraco então Ariel insistiu que ele ficasse ali até amanhã de manhã para que descansasse melhor. E assim foi.

Naquela noite Hohenheim estava preocupado em dormir por causa dos pesadelos que tinha. Ele se perdia em seus pensamentos enquanto olhava para o teto com reboque inacabado, mas ele sabia que acabaria pegando no sono. E foi o que aconteceu.

“Dessa vez era um campo florido onde eu me sentara para observar o horizonte. O vento passava sobre meu rosto como um tecido macio. Fechei os olhos e não pensei em mais nada (apesar de isso ser impossível em um sonho). Senti alguém me abraçando por trás, era a minha esposa, Trisha. Olhei para ela e vi como continuava linda depois de tantos anos, ainda mais que estava vestindo um vestido brando enfeitado com bordas de flores cor-de-rosa que destacava sua simplicidade como mulher.

Logo atrás dela estavam meus dois filhos. Edward, o mais velho e Alphonse, o mais novo correndo e brincando entre as flores.

Olhei tudo o que estava acontecendo em volta e me entristeci, pois sabia que nada daquilo era real. Eu sabia que havia abandonado minha família, fui fraco, fiquei com medo de me explicar e fugi.

Uma luz forte luz branca tomou as montanhas, as nuvens e meus olhos...”

Hohenheim deu um passo para fora da casa de Ariel.

- Pah!

Tudo ao redor do jardim da velha Ariel que estava descuidado e morto criou vida em um toque de Hohenheim para fora da casa. As árvores, as plantas, as ervas medicinas e as flores se levantaram como se todo esse tempo estivessem dormindo e acabassem de acordar.

- Você acordou alegre hoje, não? Elogiou a velhinha se despedindo de Hohenheim.

Hohenheim ficou surpreso pela velha não ter se assustado com a transmutação que fez em seu jardim.

- Bem, eu já vou indo então. Disse ele.

Ariel se despedia da porta de sua casa enquanto Hohenheim seguia seu caminho solitário.

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Agora Hohenheim caminhava em direção a estação de trem. Uma das vozes que estavam dentro dele o chamou a atenção:

“Hohenheim, você acha que vai chover hoje?”

A estação estava vazia naquela manhã com neblina. Havia duas ou três pessoas sentadas nos bancos e algumas corriam para lá e para cá de olho no relógio. Aquele clima de sempre nas manhãs de todas as cidades. O trem iria atrasar naquela manhã, então Hohenheim resolveu seguir na direção dos trilhos.

- Hum... Pensou Hohenheim por um breve segundo. – Não, nenhuma gota. Disse ele confiante olhando para o alto distraído andando pela estação com as mãos para o alto num gesto um pouco infantil. Ele fechou os olhos e deu um sorriso. As primeiras gotas caíram sobre o seu braço. Ele abriu os olhos e começou a gargalhar sozinho.

“Você já foi melhor Hohenheim. Você é muito distraído mesmo!”

- Há!Há! Desse jeito vou achar que você não confia mais em mim. Brincou ele.

E assim foi até ele e suas almas sumirem na neblina em direção a sua grande jornada.

FIM

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