Fullgás.
18 Atitude.
Notas iniciais

Já era terça de manhã e Jungkook quase não pregou os olhos, ansioso demais por esse dia. Havia chamado Jimin para conversar e desde aquelas mensagens trocadas não haviam se falado mais. O moreno porque não sabia como fazer e o outro porque ainda estava irritado e era orgulhoso demais.
Kookie estava nervoso porque simplesmente queria “discutir a relação” dos dois. Ok, boa idéia. Se ele soubesse o que dizer. O que fez nada mais era que desesperadamente tentar uma ação para reaproximar do ruivo, mas quando essa dera certo simplesmente não sabia como dar continuidade ao plano.
Quer dizer, como simplesmente chegaria ao ruivo e diria que não queria em momento algum se afastar dele, ou qualquer coisa do tipo que o mesmo achava ser. Devia ser simples, dizer algo como “eu não quero ficar longe de você”, mas ao mesmo tempo sua boca nem conseguia pronunciar isso.
E ela realmente não conseguia pronunciar. Já estava parado em frente ao espelho fazia quase uma hora, daria seis da manhã daqui alguns minutos, e o moreno continuava se fitando com uma cara extremamente boba no rosto. Suspirou. Era hora de tentar de novo.
— Jimin... — por que até na hora de chamá-lo parecia tudo tão robótico? Jungkook fez uma careta estranha, pensando nas coisas que deveria dizer. Talvez devesse pedir ajuda a Taehyung, mas provavelmente o amigo lhe diria coisas que com certeza não sairiam por nada de sua boca. — Ok, eu consigo. Eu só tenho que dizer... Algo.
O que seria esse maldito “algo”? Nem isso conseguia saber, apenas ficava se encarando e tentando relembrar o que havia feito de tão ruim. Em sua memória só vinha:
“— Yah! Jungkookie! — Park abraçou o moreno por trás, enquanto o mesmo se fitava no espelho após ter praticamente arrancado a sola de seu sapato com mais uns dos passos mirabolantes de dança de Hoseok.
Estava extremamente calor, então acabou empurrando o ruivo de leve e logo depois puxou sua própria camisa branca – essa que já estava transparente em seu corpo por conta do suor –, balançando a mesma a fim de ver se isso fazia algum vento e esfriava seu corpo.
Todavia o mesmo esquentou por inteiro já que Jimin lhe fitou de cima a baixo com um olhar quase predatório, o que lhe fez retrair um pouco o corpo e corar de forma tímida. Virou-se de costa para o mesmo, tentando não mostrar seu rosto vermelho. Que piorou já que escutou a risada do outro atrás de si.
Sentiu dedos pararam em sua cintura e uma quentura atrás de si – dessa vez vindo do externo – e quase deu um pulo com o susto. Jimin tentava lhe abraçar outra vez. Uma quentura ainda pior se fez em seu rosto e parecia que iria derreter o mesmo. Park estava tão próximo... Quando notou o ruivo estava tão perto que mais um pouco poderia lhe beijar e, por instinto, o empurrou um pouco para longe. Não estava acostumado a esse tipo de carinho, ainda mais estando em uma sala cheia de gente.
— O quê? — perguntou normalmente, embora a sua voz estivesse um pouco mais grave. Obviamente fora por conta da garganta seca, o que lhe fez lembrar que estava com sede e parar pra pensar por alguns segundos. O que foi tempo suficiente para o ruivo mandar uma enxurrada de falas para cima de si.
Claro, não conseguiu prestar atenção em nenhuma. E quando notou o mais velho lhe fitava irritado, cruzando os braços e balançando a perna. Franziu o cenho e o fitou de forma confusa, esperando que ele continuasse.
— Dá pra você me ouvir enquanto eu falo? — Jeon deveria sentir que a partir daquele momento as coisas ficariam um pouco feias, contudo o moreno nunca foi de ter muito tato e sensibilidade com as coisas.
— Eu estava pensando que estou com sede. — ditou baixo. Park suspirou e relaxou a postura. Jungkook sempre foi alguém meio avoado realmente.
— Bem, semana passada você não podia sair por causa do dever de História, e nem na retrasada porque tinha que chegar cedo em casa, ou antes dessa... — o desanimo foi lhe consumindo, mas não se deixou abater. — Mas olha, abriu uma sorveteria muito legal e lá vende sabor pistache! — ditou de forma divertida, erguendo os braços. O mais novo riu internamente, achando Jimin fofo. — Podemos ir, que tal? Você mata sua sede.
— Mas tem água aqui. — respondeu. E era verdade, porque comprar uma garrafa de água quando na própria aula o professor oferecia de graça? Não tinha porque ir a um local apenas para fazer isso. Entretanto Jimin parecia discordar de sua ideia, tendo em vista como ficou irritado.
— Certo, contigo tem que ser direto, eu esqueci. — o ruivo suspirou. — Abriu uma sorveteria aqui perto. Vendem sorvete. Vendem sorvete de pistache e nós poderíamos ir lá e... Tomar sorvete. — ditou calmo e pausadamente, a fim de fazer com que o moreno entendesse o que insinuava.
Jungkook arqueou uma das sobrancelhas, não entendendo porque o mais baixo estava falando daquela forma tão estranha. Era como se conversasse com alguém de cinco anos e, bem, Jeon não tinha cinco anos. E se o ruivo queria lhe levar para tomar sorvete era apenas dizer isso, certo?
Mas tinha um problema. Já estava tarde, será que estaria aberto? Aliás, talvez se demorasse muito seus pais acabariam brigando consigo. Suspirou. Aquele não era um bom dia. Será que seria ruim deixar para o dia seguinte?
— Ah... Eu não gosto de pistache, desculpa. — respondeu por fim, mexendo os ombros em descaso. No dia seguinte iria com o ruivo e tomariam um sorvete de chocolate, era melhor ir cedo, assim nada os incomodaria.
Mas no dia seguinte não aconteceu nada, aliás, nem o próprio ruivo havia se manifestado. Já Jeon sentiu que ele não queria ir e apenas ficou quieto sobre isso. Não se achava boa companhia para um sorvete e parecia que Jimin também não.”
Arregalou os olhos. Será que era por isso mesmo que Jimin estava irritado? Ou seria por outra coisa? Mas era só um sorvete! E fora realmente sincero quando havia dito que não gostava daquele sabor. Parecia tão pouco para irritar o seu hyung... Droga, nem isso Jeon conseguia saber ao certo. A única coisa que via era uma tocha de fogo acesa enraivecida caminhando para lá e para cá todo dia lhe fulminando. Engoliu em seco.
O que estava pensando quando decidiu falar com o ruivo? Jungkook sabia que nunca fora alguém de saber se expressar ou entender direito o que as pessoas sentiam, então era como ir vendado no meio de um tiroteio. Com certeza ele acabaria fazendo alguma coisa errada e, bom, o resto sabemos.
— Jimin. — ergueu o rosto. — Não fica bravo porque não gosto de pistache, a gente pode beber água na sorveteria se quiser. — não havia ficado tão ruim. O problema era o seu rosto que sequer piscou ou a sua voz de defunto ambulante.
Não. O pior mesmo foi toda a sua frase que não havia feito sentido algum. O que o ruivo entenderia se lhe dissesse “pois então, não fique bravo porque não gosto de pistache”, seria patético! Bagunçou os cabelos totalmente desesperado. Não tinha o que fazer e nem falar!
Suspirou outra vez, ficando extremamente desanimado em pensar naquilo. Levantou-se da cama e decidiu se arrumar apropriadamente para ir aos seus estudos. Pelo menos eles pareciam extremamente fáceis perto disso.
{...}
Quando foi para a escola estava em pânico, era como se a realidade tivesse dado alguns tapas em seu rosto. Jimin não ficaria bravo consigo por causa de um sorvete, certo? Então deveria ser outra coisa, e essa outra coisa Jeon – mesmo vasculhando toda a sua mente – parecia não encontrar o motivo.
Ótimo.
Nunca fora bom com palavras então como explicaria tudo para Park? Aliás, explicar o quê? Nem ele mesmo sabia o que havia feito, já que para explicar algo se precisa de uma razão e o moreno estava queimando sua cabeça de tanto procurar. Pensou um pouco melhor e chegou a conclusão de que talvez o mais velho achasse que Jeon não o queria mais. E só isso foi o suficiente para lhe fazer entrar em pânico.
Se de noite estava ansioso para que terça chegasse logo, de manhã, agora no dia citado, implorava para que voltasse ao dia anterior só para planejar tudo. Ou melhor, voltasse há algumas horas atrás e conversasse com seu espelho agora tento uma ideia fixa e certa sobre o que acontecia.
Mas agora era tarde e, do jeito idiota que sempre foi, só sabia suspirar e bater sua mão na testa desde que adentrara a escola. Realmente sabia como ser estúpido e burro, porque só conseguiu pensar isso quando já estava na linha do tiroteio.
O moreno passou todas as aulas sem nem mesmo abrir sua mochila. Sentado na última carteira e com a cabeça entre os braços, ficou ensaiando – outra vez – o que deveria conversar com Jimin. E se ele estivesse muito bravo e Jungkook falasse algo errado? Pioraria tudo.
Quando o sinal bateu, o moreno quis pegar suas coisas, correr para casa e inventar que estava doente demais para poder fazer qualquer coisa aquele dia. Ele realmente pensava em fazer isso, se não tivesse dado de cara com o ruivo lhe observando de longe e depois seguir seu caminho com Hoseok. Sua roupa estava diferente, ele vestia quase um terno, mas lembrava mais um... Garçom?
Suspirou derrotado. Se tivesse que ir enfrentaria o fogo do inferno como um homem. Bom, era o que sua mente lhe dizia, mas seu corpo discordava já que no primeiro passo sua perna cambaleou. Legal, quando havia chegado à sala parecia uma lacraia de tanto que tremia. Havia poucas pessoas ali por ainda ser muito cedo e não conseguiu encontrar Jimin, apenas Hope.
Esse quando lhe viu acenou animadamente e correu para lhe dar um abraço apertado. Timidamente o mais novo retribuiu passando de leve um braço pela cintura do outro que sorriu largo com reciprocidade, mas logo o menino se afastou quando sentiu o olhar de ódio de um ruivo do outro lado da sala. Ele havia trocado de roupa.
— Jiminnieeeee! – Hoseok chamou dando pulinhos enquanto ia até o amigo e puxando para perto de Jeon, que começou a suar frio. – Hoje o nosso Kookie chegou mais cedo. – falou parando o mais baixo perto do moreno, que em um reflexo virou o rosto para o lado evitando contado, o que enfureceu mais ainda Park.
Não era culpa de Jungkook, ele só estava envergonhado, mas isso parecia outra coisa na mente de Jimin – que já estava borbulhando de raiva outra vez.
— O-oi... – o moreno gaguejou e como resposta levou apenas um resmungo mal humorado. Hoseok sentiu o clima que se instalou entre os dois e decidiu que era melhor sair dali, antes que fosse pego no bombardeio. Os dois ficaram parados no lugar por algum momento, Jimin irritado e Jungkook constrangido demais para se pronunciar.
Como ainda estavam na entrada alguns alunos chegavam depois deles e os cumprimentava quebrando um pouco o foco dos dois. Park levou seu olhar até o garoto a sua frente e começou a observá-lo. Ele parecia extremamente nervoso e não parava de contorcer os dedos, suas bochechas estavam coradas e ele suava mesmo estando um dia fresco. Que sensação boa, pelo menos ele ainda reagia a sua presença.
— Então... – o ruivo limpou a garganta. – O que você queria falar? – sua expressão era bem séria.
— Han? – o mais novo levantou a cabeça assustado. Ele abriu a boca algumas vezes, mas não falou. – Eu... – Park revirou os olhos.
— Se não tem nada importante pra falar, então não vou gastar o tempo da minha aula contigo. – falou rude e se virou começando a ir em direção a Hoseok, mas uma mão segurou seu pulso e o puxou de leve. Seus olhos surpresos se encontraram com o de Jeon que parecia desesperado.
Não sabia o que havia dado em si, mas só em pensar no ruivo ir descontar suas mágoas em Hoseok – mesmo que fossem apenas dois amigos – lhe deixou apreensivo, sem dizer que odiava estar sentindo toda aquela fúria do mais velho por si. Não era de tomar muita atitude, mas quando assunto era Park Jimin não conseguia se controlar.
— Não! – o moreno falou alto demais e algumas pessoas o olharam. Envergonhado ele soltou o pulso do mais baixo. – Eu... Vamos para outro lugar? Eu não quero falar aqui. – murmurou olhando para os lados com a cabeça baixa. De relance pode ver o outro suspirar e se dirigir novamente até Hope – o que lhe irritou um pouco, já que achou que o mais velho lhe abandonaria –, falar algo com o mesmo e depois voltar saindo da sala. O moreno logo tratou de seguir.
Como já haviam terminado as aulas normais do colégio, não havia mais ninguém nas salas e por isso Jimin não teve receio algum de entrar em uma delas e sentar na primeira mesinha que viu. Não queria arrastar nenhuma cadeira e chamar atenção. Ficou de braços cruzados esperando o mais velho parar em sua frente depois de fechar a porta.
Jimin não podia negar que estava surpreso. Não era sempre que Jungkook acabava ficando um pouco mais afobado com as coisas, principalmente lhe chamar para conversar dessa forma ou até mesmo agir de forma impulsiva, como momentos atrás.
E só de pensar que isso era por sua causa, mesmo estando bravo, isso lhe alegrou. Porque aquelas atitudes significavam que Jeon não havia realmente parado de gostar de si como achava e, bem, isso aliviava só um pouco a barra do moreno. Park ainda tinha seu orgulho.
— Fala.
— Eu – inspirou profundamente a fim de se acalmar. – Eu queria saber uma coisa. – sussurrou sem levantar a cabeça.
— O quê? – seus pés começaram a tremer indicando sua irritação.
— Queria saber por que... Você tá bravo comigo... – falou baixo, mirando o mais velho. Esse levantou uma sobrancelha e cruzou os braços. Sério que Jeon havia feito aquela pergunta? Não estava bravo, só um pouco desgostoso com algumas coisas.
— Eu não estou bravo. – respondeu. Seus pés se moviam de forma rápida, batucando o chão e mostrando exatamente o contrário do que suas palavras ditavam.
— Não? – Jeon falou e uma vontade de rir apareceu, mas ele tentou segurar com todas as suas forças já que o ruivo poderia levantar aquele pé chacoalhado e chutar suas partes intimidas.
Queria rir porque, mesmo sendo ruim com as coisas, era realmente notório a irritação alheia, e para que Jeon se desse conta o mais velho deveria estar esfregando aquela raiva por onde passava. Suspirou baixo e tentou relaxar o corpo.
— Não. – o mais velho mais rugiu do que falou. – Por que acha isso? – sorriu irônico. Certo, não era o forte de Jimin mentir sobre as coisas, principalmente quando envolviam os seus próprios sentimentos.
— Não, é só que... – endireitou a postura e comprimiu os lábios tentando não rir. Era errado pensar que Park ficava bonitinho irritado? Deveria estar com medo de ter aquela conversa com ele, mas aquela pose toda emburrada lhe fazia querer sorrir. Jimin em si lhe fazia sempre querer sorrir, mesmo que não fosse o costume de Jeon.
— Você meio que não fala mais comigo... — o moreno completou. O mais baixo arregalou os olhos e se engasgou de leve, realmente não acreditando no que havia escutado. Se não estava irritado, agora ficaria.
— Como é que é? — ditou incrédulo, fulminando o outro com o olhar. Jungkook recuou um passo, agora realmente com medo daquele pé que tremia encontrar suas duas amigas entre suas pernas.
— Não, é que... Sei lá, parece que você está me ignorando. – o ruivo abriu a boca em indignação.
Como Jungkook tinha a audácia de lhe dizer aquelas coisas? Quantas vezes não fora atrás do mesmo, apenas para lhe chamar para tomar um sorvete ou então, por deus, o chamou para beber uma água e foi negado! E ele ainda dizia que fora Park que o ignorou?
— Eu?! – soltou uma risada, completamente pasmado com aquilo. Saltou da mesa. – Eu?! Eu to te ignorando? Ah, por favor!
— Mas você nem vem mais falar direito comigo... – Jeon ditou de forma meio assustada indo para trás. Por alguns momentos cogitou a ideia de sair correndo e se xingar o restante da noite em seu banheiro.
Sabia que falaria alguma coisa errada, como sempre fazia.
— Talvez porque quem evita quem aqui é você! – gritou apontando o dedo com força contra o peito do moreno que soltou um “au” silencioso. – Seu... Filho da mãe! – deu as costas.
Maldito Jeon Jungkook, maldito! O desgraçado realmente tinha a coragem de tentar inverter o jogo e dizer que era Jimin quem o ignorava quando até a droga de uma água foi negada! Uma água! Quem nega água?!
Respirou profundamente, soltando o ar com tanta força que chegou a grunhir. Sua vontade era de pegar aquela cabeça cheia de fios pretos e chacoalhar até ver se o moreno caía em si, ou fizesse algum sentido, porque realmente estava complicado para Park entender tudo aquilo.
— E depois diz que não está nervoso. – murmurou.
— Como é?! – o ruivo se virou quase explodindo. Já não estava com um ânimo, o mais alto ainda queria fazer piadinha com o seu humor. Certo, sempre fora alguém extremamente carinhoso com Jeon e, mesmo irritado, ainda queria abraçá-lo e beijá-lo por inteiro, mas o mesmo não ajudava.
A cada frase a porcentagem de fúria de Jimin subia.
— Nada! – o moreno respondeu enquanto seu corpo travava. Agora era hora de tentar dizer algo com sentido e não piorar tudo como sempre fazia com seu jeito estranho e robótico. – Escuta... – suspirou. – Eu só quero saber o que houve.
— O que houve? – aquilo ao invés de acalmar Jimin, parecia tê-lo deixado mais irritado. – Você sequer faz idéia, né? Claro, não me deu atenção nenhum esses dias!
— Claro que dei! – retrucou. Como assim não havia dado atenção? Era óbvio que havia, até mesmo ficou ao lado de Jimin em todas as danças. E o respondia quando ele lhe chamava e até mesmo puxava assunto algumas vezes! Isso era injusto!
— Claro que não! – o ruivo queria esganar o menino a sua frente. – Você mal falou comigo esses dias todos, sequer se aproximou. Apenas pra mandar uma mensagenzinha e depois mais nada.
— Mas eu chamei não chamei? Você nem estava olhando pra mim! – falou também meio irritado e o menor só faltou esganá-lo.
— Claro, você me afastava toda vez que eu ia até você! – gritou. Jeon ficou confuso.
— Como assim? – o mais baixo respirou fundo e esfregou a mão no rosto.
— Por exemplo, eu fui conversar com você e não me deu atenção; fui te chamar para sair, não conseguiu achar um dia pra poder fazer isso. O pior disso foi que eu te chamei para tomar um sorvete e você negou, aliás, eu te chamei até pra beber água! — ditou revoltado, levantando as mãos. Sua voz soou alta por toda a sala escura, já que nenhum dos dois havia feito o favor de ligar a luz e a única claridade vinha da janela. — Você se negou a beber água comigo! Água!
Jungkook ficou calado por alguns instantes, pensando em tudo que havia feito, sobre as coisas que havia dito para o espelho ainda mais cedo. Então realmente era por isso? Jimin estava bravo consigo porque não havia bebido água com ele? Água era tão importante?
— Entendi... — ditou de forma calma, olhando para os lados enquanto pensava que aquele motivo era algo um tanto... Ridículo.
Não, tudo bem, respeitava o que o ruivo estava sentindo, mas ficar bravo consigo porque não havia ido tomar água com o mesmo em uma sorveteria era realmente estranho e bem... Bem patético.
— Eu só não quis comprar uma garrafinha de água quando o Hobi nos dá de graça. — respondeu de forma coerente. Todavia a única coisa que recebeu em troca foi um olhar de choque e uma risada incrédula. — Mas a gente pode sair pra beber água se você quiser. — ditou rápido antes que piorasse tudo. Entre ficar de mal com Jimin e comprar uma garrafinha de água, e pelo menos nisso o moreno não era burro, escolhia seu hyung.
— Não! — o mais baixo ditou quase desesperado e bagunçou o seu cabelo, deixando todo para o alto. Já estava quase arrancando os fios ruivos.
— Você não quer mais beber água então?
— Não, pelo amor de deus, não é isso! — podia chorar por alguns instantes? Por que havia ido procurar alguém tão incrivelmente ruim em entender as emoções alheias? Nem o básico o garoto parecia ter! Respirou fundo e controlou sua vontade de se jogar da janela.
— Então o que foi? — Jungkook também estava se irritando um pouco, mas nem era apenas com o ruivo, e sim consigo mesmo que não conseguia captar o que o outro tentava lhe dizer.
— Jungkook, quando eu... Quando – Park se calou e suspirou irritado, cruzando os braços. Sua respiração ficou mais pesada e irritou-se mais ainda quando suas bochechas coraram já que uma vergonha se apossou do seu corpo antes que terminasse a frase. Odiava ter que ditar as coisas em voz alta, o que era um problema porque Jeon nunca entendia se não fosse dessa forma. – Eu fui te beijar... – mordeu os lábios e fitou a janela, que por acaso ficava do lado oposto onde o moreno estava. – Você me afastou...
— Oh! – Jungkook pronunciou arregalando os olhos. Era isso. Finalmente o mundo pareceu voltar a rodar. Jimin estava chateado porque ele queria lhe beijar e não havia conseguido ainda. Aquele dia o moreno estava tão envergonhado que não soube como reagir e o outro acabou por entender que havia sido rejeitado. Coisa que jamais passou pela cabeça do mais novo.
De súbito uma enorme vontade de rir veio e dessa vez o menino não conseguiu segurar e soltou uma risadinha. Ele estava feliz demais para conseguir controlar. Park estava lindo daquele jeito e toda a tristeza que sentia por ser ignorado deu lugar a uma alegria enorme. Aquilo acabou se tornando lindo na visão do moreno, significava que o mais velho estava assim por sua causa, por querer-lhe.
Finalmente havia entendido.
O mais baixo ao escutar a risada sentiu-se patético e isso o irritou profundamente, mais ainda. Era por essa razão que odiava falar as coisas que pensava em voz alta. Um bico enorme se formou em seus lábios e deu as costas para o moreno se amaldiçoando por ter a boca grande demais.
— Então... Você quer me beijar de novo? – perguntou baixinho e o tom de voz gentil arrepiou o ruivo que deu uma pequena travada com o corpo. Esse engoliu em seco.
Jungkook estava se sentindo nas nuvens, como se estivesse completamente entorpecido por elas e pulasse nas mesmas. Essa sensação era tão gostosa que lhe fazia dizer qualquer coisa que vinha em sua mente. E até mesmo sorrir de uma forma boba.
— Eu não disse isso! – falou se virando para Jungkook que arqueou uma sobrancelha. – Bom, eu queria. Não quero mais.
— Oh, entendi... – respondeu soltando um pequeno risinho. Olhou para baixo e emaranhou seus dedos, nervoso com toda aquela felicidade que estava sentindo. Jimin estava mais vermelho que seu cabelo.
— Eu to falando sério. – ralhou. Mas seu coração falhou uma batida quando a luz iluminou o rosto feliz de Jeon e mostrou o quão bobinho apaixonado ele parecia. – De qualquer forma, porque eu iria querer? Quem está apaixonado aqui é você, e não eu. – deu falsamente de ombros. Certo, não havia era a melhor resposta que tinha em sua língua, mas sentiu-se completamente fraco quando notou que estava da mesma forma que Jungkook.
O mais alto levantou a cabeça, deixando com que a expressão boba fosse embora de seu rosto e restasse apenas a mesma de sempre: indiferença. Não que sentisse isso, mas havia ficado um tanto confuso pela fala do outro. Porém, por sorte, não notou o tom rude na mesma e achou que fora apenas um comentário.
— Isso é verdade. – concordou. — Eu sei disso, eu disse pra você faz alguns meses. — ditou normalmente, embora uma pontada de ironia estivesse ali já que estava achando graça daquilo tudo.
— Pois é... — o ruivo ficou por alguns instantes sem fala já que não esperava aquela resposta, contudo voltou à pose superior de antes. — Eu até te entendo, eu sou muito bonito. E a gente só ficou uma vez para que seja algo importante.
— Entretanto quem está dando chilique aqui é você. – respondeu segurando o riso e Park o fuzilou com o olhar. Jungkook podia ser uma pessoa realmente ruim se expressando, mas sua língua era muito bem afiada.
— Não é como se a gente gostasse de ser rejeitado. – retrucou se irritando novamente.
— Mas eu não fiz isso. – respondeu inocentemente.
— Ah, não? Tá. – e lá estava o pé batucando no chão novamente. – Me empurrar não é rejeitar, né? Ok, eu sei que não temos nada e que você nunca havia beijado ninguém antes, mas se tu curte ser rejeitado problema seu. Isso feriu um pouco meu orgulho, sabe? – bufou.
Se era para cuspir, faria isso então. Era verdade, seu orgulho estava ferido, mas não apenas isso. Poxa, parecia tudo tão bem desde o aniversário do garoto e agora estavam assim. Jungkook parecia simplesmente mentir sobre seus sentimentos e até iludir um pouco Jimin.
— Tecnicamente, eu seria 'BV' se eu não tivesse feito isso com ninguém antes de você. – começou a falar e quis rir assim que os olhos pequenos de Park se comprimiram mais enquanto lhe fitava. – Mas eu beijei o Taehyung na festa primeiro, então... – um silêncio tomou o local e era possível escutar até o vento que passava por ali.
Quando terminou a frase tivera certeza de que havia falado merda quando encontrou o olhar quase psicótico do ruivo para si. Ele parecia que iria pular em seu pescoço a qualquer momento e nunca mais o deixaria acordar no dia seguinte. Tinha que começar a pensar mais nas coisas em que dizia, embora aquilo não fosse uma mentira, não pensou se isso pioraria as coisas entre si e o ruivo.
— Quer dizer... – limpou a garganta.
— Enfim... – o ruivo rosnou e Jeon engoliu em seco. – O que eu quero dizer... – o mais velho tentou se acalmar contando até dez, mas isso parecia piorar a situação já que só o que conseguia escutar eram as palavras do moreno em sua mente. – Eu não gostei de quando você me rejeitou e simplesmente me ignorou quase completamente depois disso. – terminou por fim fitando seriamente Jungkook.
— Eu já disse que não te ignorei. – respondeu relaxando a postura. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios e aquilo fraquejou o ruivo. – Eu só... Fiquei envergonhado.
— Isso não é motivo.
— Pra você. – o ruivo fechou a boca. Jeon se aproximou vagarosamente para não afastar o outro. – Eu não sabia como reagir depois daquilo. – fitou o chão mordendo os lábios. – Eu estava tão feliz que só de lembrar me fazia esquecer tudo. Então eu... – deu uma pausa para tentar relaxar depois do nervoso que se instalou quando proferiu aquilo. – Ainda não sei... Lidar com tudo isso. – falou envergonhado. Jungkook não conseguia ver muito bem, mas podia jurar que o ruivo havia corado.
Ah, Jeon sentia-se tão péssimo com as palavras, parecia tão insuficiente para o outro... Talvez ele merecesse mais, quem sabe um outro alguém melhor nessa questão de gostar de alguém. Mas não o queria com outro alguém, ficaria tão mal que sequer conseguia pensar nesse assunto sem sentir uma pontada em seu peito.
Aquelas palavras pegaram Park de surpresa e ele simplesmente não soube como reagir. O rosto do mais novo parecia tão sereno, mas tão sério ao mesmo tempo. Ele era sempre tão calado e suas demonstrações emocionais eram sempre as piores, mas quando queria fazia o ruivo quase perder o chão. Um calor gostoso o envolveu e um frio se instalou em sua barriga. Qualquer raiva havia deixado de existir e só tinha vontade de tocar o menino a sua frente.
Jungkook notou com aquela pequena discussão, e com seus pensamentos um tanto depressivos, que não adiantava apenas o ruivo fazer algo. Mesmo que fosse alguém tão travado e sequer notasse que fazia as coisas, isso chateava o mais velho. Não que quisesse mudar por ele, mas deveria aprender a ser melhor em algumas coisas... Mesmo que não soubesse exatamente como ou o quê, só...
Só deveria deixar a vergonha de lado e tomar mais atitudes por Jimin...
— Eu vou te beijar agora... – Jungkook falou baixinho e apertou as mãos em um punho. Se o mais velho estava chateado porque o havia rejeitado, então mostraria que não era isso. Aproveitaria que uma onda de coragem – bem pequena, mas o suficiente – havia lhe tomado e faria o que deveria ter feito antes.
Aproximou-se do mais velho que prendeu a respiração. Seus corpos queimavam e suas mãos formigavam pelo contato um do outro. E, mesmo que Jimin tentasse negar por conta de seu orgulho que rugia irritado, ficou tão ansioso ao ouvir aquelas palavras e só pensou que, se o moreno realmente o beijasse, não o deixaria sair daquela sala até o dia seguinte.
Afinal, desde quando Jeon tinha tanta audácia? Chegava até mesmo a assustar o mais baixo, era a primeira vez que via aquilo. Aliás, segunda, já que conheceu aquele lado quando viu o moreno bêbado pela primeira vez. Mordeu o lábio inferior de forma nervosa, se Jungkook fosse da mesma maneira quando bêbado, droga, cederia mais do que facilmente.
— Eu não quero... – Jimin respondeu em um fio de voz e abaixou a cabeça, envergonhado. Ofegou quando sentiu os dedos finos do moreno segurarem sua cintura e apertarem a camisa de leve, aproximando seu corpo ao do mais velho.
— Eu não me importo. — e era uma verdade, porque se começasse a se importar naquele momento, acabaria estragando toda a coragem que estava tendo em fazer aquilo. E não queria isso, a única coisa que almejava era os lábios carnudos e macios de Jimin nos seus.
— Eu disse que não quero. – tentou soar rude, mas falhou. – Você me rejeitou antes, e já que você gosta tanto disso, é sua ve– o ruivo continuaria se os lábios macios de Jeon não tivessem encontrado os seus. Ainda murmurou sua frase contra a boca do outro, mas não surtira diferença alguma, nem mesmo para si.
Afinal, de que adiantaria mentir que não queria aquilo, quando seus braços já envolviam os ombros de Jeon, puxando o mais alto com força contra si e mordendo aquela boca de maneira afoita e necessitada. Não tinha jeito, quando a saudade batia – e essa veio forte –, Jimin esqueceu qualquer orgulho que sentia.
A mão em sua cintura apertou forte o local e puxou-o para mais perto, colando os corpos. Park estava entre a mesa e o moreno, e mesmo que pudesse não fugiria dali. O ósculo era calmo e as bocas se envolviam uma na outra em uma dança lenta e gostosa. Os sons do beijo, das respirações e dos corações acelerados era a única coisa que se podia escutar naquela sala vazia e escura.
O coração de Jungkook batia fortemente. Ele nunca havia feito aquilo antes, nunca havia puxado alguém e beijado. Nunca havia matado aula para discutir e no final dizer as coisas que sentia. Nunca havia feito nada disso e agora estava ali, agindo de todas essas maneiras com Jimin. Eram tantas as sensações que fazia sua cabeça rodar e seu corpo procurar apoio em Park, que se agarrava fielmente em si.
Com o aquilo Jimin sentiu suas pernas fraquejarem e sentou na borda da mesa, ficando mais baixo do que já era – não que fosse muito, apenas um pouco menos que Jeon –, o que obrigou Jungkook a se abaixar para não quebrar o beijo. O mesmo apoiou as mãos na madeira gelada e aproximou mais o corpo do outro. Lentamente pediu passagem com a língua até ser consentida e encontrar a do ruivo dançando gostosamente uma com a outra.
Desde quando o moreno beijava tão bem? Era a única coisa que Park conseguia pensar. A última vez em que havia feito isso ele parecia um tanto inexperiente, batendo os dentes algumas vezes. Agora fazia com tanta maestria que era melhor que si e, droga, era tão incrivelmente gostoso que apagava qualquer coisa de sua mente em dois segundos.
O beijo era tão bom, não conseguia sequer pensar em uma pessoa que já tivesse lhe causado todos aqueles efeitos, na verdade, não conseguia pensar em nada que não fosse Jeon. Apertou os braços no pescoço do mais alto e aprofundou mais ainda o ósculo, perdendo a noção do tempo naquilo que poderia ser considerado um paraíso. Era maravilhoso, poderiam ficar assim para sempre. Mas precisavam de ar e por isso tiveram que se afastar.
— Melhor? – o mais novo perguntou rindo de leve. Estava simplesmente tão contente e incrédulo que havia conseguido fazer aquilo. Era como se tivesse evoluído, como um Pokémon que tinha sido capturado a pouco e agora é um dos mais fortes. Sentia-se incrível!
Talvez até um adulto.
— Cala boca... – o ruivo respondeu baixo, escondendo seu rosto no peito do outro, esse que riu de leve e abraçou mais Jimin, apertando-o contra si. O moreno levou uma das mãos às mechas ruivas e fez um pequeno afago. Uou, sentia até que os papéis havia invertido, como se, na verdade, quem era “Jungkook” agora fosse o Jimin.
Ficaram ali por algum momento, cada um sentindo o calor do outro, o toque, relaxando juntos. Jimin sentia como se sua fera interior tivesse recebido tanto carinho que agora fosse um gatinho manhoso e Jeon parecia nem estar naquele lugar de tão desnorteado. Estava tão bem que o sorriso enorme que tinha em seu rosto não sumia por nada e provavelmente nem iria.
Mas Jeon não seria Jeon se não pensasse em coisas demais, principalmente que não tinham nada a ver com o momento. Como sempre, colocava para fora sem pensar, e pensava coisas que não devia em momentos errados.
— Devíamos voltar para a aula... – o moreno falou quebrando o momento. Não era sua culpa se acabava se preocupando com as coisas, estudo era importante, mesmo que fosse só dança. Park suspirou. E lá vinha Jungkook quebrando o clima na hora errada de novo.
— Não. – fez um bico emburrado. Mas nem morto Jimin deixaria Jeon parar com aquilo. Depois da briga, dos sentimentos de chateação e até cenas patéticas como “você estava irritado por causa de uma água”, Park não deixaria passar o momento onde Jungkook havia finalmente tido coragem e tomado a iniciativa consigo. – Vamos matar...
— Mas– o mais novo ia retrucar até ser calado por outro beijo, dessa vez mais urgente e sensual. O ruivo ergueu o rosto de forma irritada e enfiou a mão nos fios pretos, apertando-os e puxando o rosto alheio para baixo.
No minuto seguinte a boca do mais alto estava sendo sugada levemente, para então ser mordida. A língua de Park passou suavemente pelo lábio inferior do moreno, que suspirou baixinho e se forçou para frente, tomando a boca alheia para si, invadindo a mesma com rapidez.
Se Jimin queria distrair o moreno, conseguiu. E muito bem já que esse esqueceu tudo a sua volta, apenas se focando em sentir o outro. Não precisou de muito para mostrar ao baixinho que concordava com seu desejo, apenas se enfiar entre suas pernas e o beijar mais afoitamente.
O mais velho rodeou a língua alheia e ofegou de leve, puxando o outro para ficar ainda mais em cima de si – já que ainda estava sentado sobre a mesa –. Sua mão se ocupava em bagunçar o cabelo do mais novo e até mesmo puxar os fios na nuca do mesmo, tudo isso para que ele não desgrudasse jamais os lábios dos seus.
Droga, aquilo era tão maravilhoso...
Apoiava-se na mesa e colocava todo o seu peso sobre Park, esse que não dava à mínima e até ria de vez em quando, brincando em meio ao ósculo com algumas mordidas ou comentários de como Jungkook era extremamente fofo até lhe beijando. Um coelhinho tímido e beijoqueiro.
Ah... Não havia nada naquele mundo que pudesse superar o que aqueles beijos causavam em ambos, simplesmente nada. Principalmente porque pela primeira vez o clima romântico não fora quebrado entre eles.
Até porque, naquele momento, o mundo se resumia apenas aos dois e, por eles, continuariam assim para sempre.
Principalmente para Jungkook...
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