Full Moon
47 Pleonasmo
Notas iniciais

Dizer que as coisas estavam de cabeça para baixo na reserva era pleonasmo. Em meio a uma guerra iminente com os Cullen, minha quase morte e a quase morte de Seth, Jacob havia — de alguma forma — criado seu próprio bando, enquanto tentava vingar minha já mencionada (quase) morte. Para ajudar, não muito tempo depois, quando eu estava prestes a pedir mais detalhes sobre tudo o que havia ocorrido no tempo em que estive “fora”, Sam trouxe a notícia de que um garoto chamado Collin havia acabado de se transformar.
De todos os lobos, Paul era o que estava mais próximo do garoto, no momento, tendo ele, Leah e Jared sido os únicos que ficaram para assegurar que Edward não entrasse em La Push.
Paul era quem tentava acalmá-lo no momento e, para a — não — surpresa de todos, não era muito bom naquilo. Antes de eu acordar, aparentemente, Quil e Embry tentavam convencer Jacob a juntar-se a eles para verificar o motivo de tantos uivos vindos da floresta, mas ele se recusava a deixar a casa.
Por esta razão, agora Sam se encontrava na porta da casa dos Black, pedindo ajuda.
“Aonde ele está?” Perguntei para Sam, interrompendo-o bem no meio de sua fala. Ele não parecia propenso a me contar, e deixou isso claro ao hesitar por um segundo, então apenas abanei a minha mão. “Na verdade, não precisa falar. Eu já sei.”
Passando por ele a passos largos, segui porta afora decidida que, se alguém iria ajudar Collin, seria eu. Não demorou muito para que todos os presentes viessem atrás de mim.
“Bells, onde pensa que está indo?! Você acabou de acordar, não pode sair andando assim!” Exclamou Jacob, todo preocupado. “Não sabemos se está totalmente curada.”
“Eu estou bem.” Afirmei.
“Estava morta há menos de uma hora, e agora já vai sair correndo por aí?” Exclamou Embry, parecendo tão indignado com a situação quanto Jacob.
“Como eu disse, estou me sentindo bem. Ótima, na verdade.” Insisti, enquanto passava pela orla da floresta e seguia andando na direção que sentia ser a certa. Como eu sabia para onde ir era um mistério, mas poderia jurar pela minha vida que aquele era o caminho até Collin. Era quase como se eu conseguisse sentir sua angústia em meu âmago, implorando por ajuda.
Eu não havia dado meia dúzia de passos floresta adentro quando Jacob segurou o meu pulso, me virando para encará-lo.
“Bella, poderia esperar, só um minutos?!” Implorou, parecendo desesperado. Eu podia ver as olheiras começando a aparecer embaixo de seus olhos, e ele passou a mão pelos cabelos, claramente tentando se acalmar. “Estou falando sério! Você estava morta. Não pode simplesmente sair andando assim pela floresta. Tem noção da loucura que é isso? Você morreu! Nem sabemos se você devia mesmo estar se movendo, quanto mais saindo para uma caminhada.”
Sam que estava a alguns passos atrás, também concordou.
“Mesmo que tivesse adquirido — de alguma forma — a cura rápida que os lobos tem, você não estaria de pé tão cedo. Nem Seth está completamente curado, ainda, e ele estava menos machucado que você.” Ele balançou a cabeça, como se tentasse tirar uma imagem que surgiu na sua mente. “Mesmo que se sinta bem, precisa ir devagar. Quil ou Embry podem vir ajudar com Collin e o sanguessuga.”
Jacob não pareceu concordar com aquela última parte, mas não disse nada.
Tirei a sua mão que ainda segurava meu pulso, e desviei o olhar entre os quatro homens que me encaravam como se tivesse criado mais duas cabeças. Todos exibiam níveis diferentes de cansaço em seus olhos, claramente estavam com os nervos à flor da pele; era possível até mesmo ver a estática preenchendo o ar entre Jacob e Sam, mesmo quando não prestavam atenção um ao outro.
“Você… e você!” Apontei para Sam e depois para Jacob. ”São Alfas de seus respectivos bandos, e podem até mandar em todos os lobos como bem entenderem, mas não podem mandar em mim.” Assegurei, olhando os dois diretamente nos olhos. “Se eu disse que estou bem e que irei ajudar Colin, isso é exatamente o que eu vou fazer. Está claro?”
“Mas, Bells…”
“Sem mas, Jacob.” Declarei, com um olhar duro em sua direção. Eu quase pude ver suas orelhas de lobo murchando ao redor de seu rosto enquanto era repreendido, mesmo em forma humana.
“Agora, porque ao invés de gastar seu tempo tentando me convencer do contrário, não vão resolver o problema com os Cullen, que é de maior urgência, enquanto eu lido com o Colin e depois vou ver se Seth está bem?”
Apenas dei as costas a todos eles, pronta para ignorar seja lá qual fosse o próximo argumento que inventariam para tentar fazer-me desistir, e marchando rapidamente pela floresta.
Os meninos ficaram brevemente para trás, enquanto discutiam mais um pouco sobre o que fazer; Embry chegou até mesmo a sugerir que deveriam me “apagar”, mas claro que Jacob vetou a ideia no mesmo instante. Deixei que achassem que tinham alguma palavra naquela decisão enquanto caminhava, até que, por fim, Sam se foi, preocupado por ficar tanto tempo sem notícias da fronteira de La Push, e levando com ele Embry, para ajudar caso fosse necessário.
Jacob sugeriu a Quil que fosse dar uma olhada em Seth, e pedir para que Sue distraísse Charlie caso ligasse. Ainda havia bastante tempo antes que começasse a achar que estive fora de casa por tempo demais, mas ainda assim seria bom ter alguém para inventar uma desculpa para a demora. De qualquer forma, apenas saber que eu estava na reserva, e não com os Cullen, o deixaria de bom humor.
“Tem certeza de que não precisa de ajuda por aqui?” Questionou Quil, tentando falar baixo o suficiente para que eu não ouvisse, e falhando miseravelmente. “Ela não parece muito bem da cabeça depois que voltou a vida. Você já assistiu aquele filme Cemitério Maldito? A criança volta à vida e começa a matar todo mundo e…”
“Está tudo bem, Quil.” garantiu. “Vamos só ajudar Collin a se acalmar, e logo estaremos de volta. Paul deve estar assustando o menino ainda mais.”
Virei para trás brevemente, vendo-o virar e correr na direção contrária, antes de seguir meu caminho.
Eu estava tão focada em chegar a Colin o quanto antes, que mal havia notado a facilidade com que andava pela floresta. Galhos e raízes que antes enrolavam em meus pés a cada passo, pareciam simplesmente me evitar quando eu me aproximava. Era como se eu fosse um dos lobos; andava pela floresta como se pertencesse ali. Eu não me sentia tão cansada, mesmo depois de caminhar em um ritmo acelerado por vários minutos e acredite quando eu digo que a superfície era tudo, menos plana.
Uma caminhada daquele devia ter me deixado exausta já nos primeiros minutos, mas eu não me sentia nem um pouco cansada. Pelo contrário, me sentia ainda melhor após entrar na floresta, como se estivesse absorvendo a energia do lugar.
Jacob não precisou se esforçar muito para ficar ao meu lado, e, apesar de ainda estar frustrada com nossa pequena discussão de alguns minutos antes, não pude evitar segurar a sua mão, enquanto continuava caminhando. Eu sabia que ele só tentava me proteger, e entendia que ele havia acabado de me perder, e ainda não compreendia como me tinha de volta, mas havia coisas importantes naquele momento que precisavam ser resolvidas.
Haveria tempo para nos abraçarmos e descansarmos depois que La Push não estivesse mais em meio a um pandemônio.
“Eu sei que está decidida a fazer isso, e não há nada que eu possa dizer que vá fazê-la mudar de ideia, mas preciso te avisar, Bells: não vai ser bonito.” Disse Jacob, quando começamos a chegar perto de onde Colin havia se transformado. Seus ganidos de dor se faziam audíveis na floresta silenciosa. “Ainda não sei como você consegue se curar, e nem se você vai continuar conseguindo fazer isso daqui pra frente, mas precisa ter cuidado. Ele vai estar no estado mais volátil de toda a sua vida.”
Eu concordei, não querendo fazer muito barulho enquanto nos aproximávamos ainda mais. Jacob tomou a frente, mantendo-me atrás de si enquanto me guiava, dando a volta para não aparecermos por trás de Colin e acabarmos assustando-o ainda mais.
“Ah, finalmente alguém veio ajudar! Eu já não sei mais o que dizer para esse moleque.” Exclamou Paul, jogando os braços para o alto, frustrado. Até que ele me viu atrás de Jacob. “Mas que merda elaestá fazendo aqui? Não estava morta cinco minutos atrás? Para que a trouxe a tiracolo, Black”
“Queria ver você tentar impedi-la.” Jacob rosnou para ele.
“Bom vê-lo também, Paul.” resmunguei de volta, focada demais na figura massiva de pelos que gania e tremia enquanto se espremia entre duas árvores gigantes, como se tentasse esconder-se entre elas.
Ele estava aterrorizado. Seus olhos gigantes passavam de mim para Jacob sem parar, como se tentassem definir se iríamos feri-lo, ou não. Colin tentou falar alguma coisa, mas tudo que saiu de sua boca foram mais ganidos, e aquilo apenas o fez entrar ainda mais em pânico.
“Você bateu no garoto com um pau ou algo assim?” Questionou Jacob, claramente tirando uma com a cara de Paul
“Eu passei os últimos trinta minutos tentando fazê-lo calar a boca e me escutar, antes que alguém viesse atrás de nós com uma espingarda, e no final ele se encolheu todo aí nesse canto, resmungando como um filhotinho tirado da mãe.”
“Se compararmos o seu tato com o de uma pedra, ela claramente teria alguma vantagem.”
Enquanto os dois discutiam atrás de mim, foquei no lobo assustado em minha frente, que parecia ainda mais perturbado com a gritaria. Tentei passar o máximo possível de confiança com o olhar, para que entendesse que não estava ali para machucá-lo, mas ainda assim, ele rosnou para mim com os dentes de fora, como se eu fosse o inimigo.
Paul e Jacob imediatamente se calaram.
“Bella, você está perto demais.” Avisou Jacob as minhas costas.
Os pelos da nuca de Colin começaram a arrepiar, como se estivesse pronto para me atacar caso chegasse um centímetro mais perto dele. Seus olhos estavam completamente cheios de terror, e eu tinha a impressão de que, não importa o que disséssemos, ele não ouviria.
Ele se remexeu, tentando enfiar-se ainda mais em meio às duas árvores, como se quisesse fundir-se a elas. Seus ossos estalaram audivelmente e ele soltou um ganido alto de dor.
“Viu? É isso que você ganha. Se me deixasse ajudar, não estaria sentindo dor, agora.” Disse. Colin me olhou ressentido, e voltou a resmungar alguma coisa em lobo que era impossível de entender.
“Eu vou me transformar e tentar conversar com ele.” Disse Jacob.
“Só vai conseguir é uma dor de cabeça, com o chilique dele.” respondeu Paul. “Ele fica apenas repetindo: ‘Sai da minha cabeça, seu demônio!’ ou então ‘Por que eu acreditaria em uma voz sem educação que nem você?’”
“Você poderia tentar ser mais gentil.”
“Sabe quem vai conseguir acalmar ele? Sam.” anunciou Paul. “Que aliás, deveria estar aqui há muito tempo.”
“Sam só vai assustá-lo ainda mais com aquela carranca dele.” retruquei. “Quer saber? Por que vocês dois não vão embora, e me deixem cuidar disso sozinha?”
Paul pareceu extremamente ofendido.
“Até parece que vou seguir ordens de morta-viva.”
“Nem pensar que vou te deixar sozinha aqui.”
Eu suspirei. “Então poderiam, pelo menos, ficar quietos? Ele já está nervoso o suficiente.”
O silêncio que recebi de volta foi resposta suficiente para mim.
Eu me agachei em frente ao lobo, tentando ficar na mesma altura que seus olhos. Ele havia colocado a cabeça entre as patas, mas não havia nada de amistoso em sua figura. Collin era como uma cobra encurralada, esperando a primeira oportunidade para fugir, ou atacar. Estava claro que ele ainda estava com dor, arrepios passavam pelo seu corpo, movendo os seus pelos. Além de tudo, ele continuava a murmurar e a ganir, quase como se implorasse para que aquilo parasse; para que de alguma forma acabasse.
Collin seguiu meus movimentos com os olhos enquanto eu, lentamente, estendia a minha mão em sua direção, sem deixar de encará-lo em nenhum momento. Era quase como se eu fisicamente pudesse sentir o que ele sentia: o terror, o medo do que estava acontecendo, a dor. E tudo o que eu queria era fazer com que ela parasse.
Ele começou a rosnar. Um rosnado que começou bem baixinho, saindo do seu peito, e que a cada centímetro mais perto que minha mão chegava, mais alto se tornava. Eu ignorei.
“Eu não vou te machucar, Colin.” Sussurrei, continuando a avançar. “Sei que não me conhece, sei que está com medo, mas você precisa se acalmar, para que eu possa ajudá-lo a voltar. Só queremos te ajudar.”
O lobo mostrou os dentes, claramente não gostando nada daquilo. Eu pude sentir que Jacob estava começando a ficar nervoso com aquela situação.
“Collin… Confie em mim. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.” Eu disse, sem piscar nenhuma vez. Minha voz nunca esteve tão confiante. Nunca me senti tão certa de que podia fazer alguma coisa, como me sentia naquele momento. Tinha certeza de que conseguiria ajudá-lo.
Quando dei mais um passo para frente, acidentalmente pisei em um graveto que se partiu, fazendo com que o pequeno lobo se assustasse. O susto foi o suficiente para tirá-lo do eixo, e ele imediatamente se jogou sobre mim, me derrubando de costas no chão.
Jacob estava em quatro patas menos de um segundo depois, rosnando para Collin, que estava dividido entre fugir da presença do alfa, ou rosnar de volta.
Aproveitando sua distração, levantei a mão e coloquei-a em sua perna. Talvez se visse que eu não estava tentando machucá-lo, ele se acalmasse. Pensei em tudo o que me ajudava a me acalmar, e tentei, de alguma forma, passar para ele naquele gesto, querendo que soubesse que, apesar de tudo estar confuso, e de estar com dor e com medo, tudo ficaria bem.
O resultado foi muito mais rápido do que pensei que seria.
Imediatamente seu olhar baixou para o meu. Suas orelhas se achataram contra seu crânio, e ele soltou um suspiro tão profundo, que não poderia significar nada além de alívio. Colin se deitou ao meu lado, se encolhendo em uma bola, e colocou a cabeça em meu colo. Acariciei os seus pelos devagar, sentindo um alívio gigante me tomar. Ele não estava mais com medo.
“Mas que porra você fez com o moleque?!” Exclamou Paul, completamente chocado.
“Se acalme, Paul.” Revirei os olhos para ele. “Eu só não fui uma idiota com ele, como certas pessoas.”
“Não acho que seja isso, não.” insistiu, balançando a cabeça. “Recém transformados não simplesmente param de tremer e deitam no colinho, como cachorrinhos.”
“Talvez seja porque todos os recém transformados até agora tenham tido você por lá para acalmá-los, e não uma pessoa com o mínimo de empatia.”
“Não, não. Acho que o problema é com você. Voltou dos mortos cheia de poderes especiais. Admite, você virou uma bruxa, não foi? Essa é a única explicação.”
Jacob ganiu, chamando nossa atenção, e eu olhei em sua direção, confusa. Por que ele ainda estava em forma de lobo?
“Ih, acho melhor você ir buscar umas roupas para vocês dois, Jacob. Logo, logo ele vai estar peladão no colo da Bella.” Comentou Paul, e eu poderia jurar que Jacob estava prestes a arrancar sua cabeça, porém, deu meia volta e sumiu pela floresta.
Colin pareceu apenas ignorar agora as bobagens que Paul falava, se aconchegando mais em meu colo, como um filhotinho de lobo. Quase como se eu fosse a sua mãe.
Eu não tinha certeza de como eu o havia acalmado, apenas senti que havia nascido para fazer aquilo. Aquele era meu lugar. Talvez Paul não estivesse tão errado; eu havia voltado a vida com algo diferente, ou apenas sempre tive algo diferente dentro de mim, que despertou completamente depois da morte. Talvez eu fosse mesmo a peça que os lobos precisavam.
Sua Luna.
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