“Perde-se a vida, ganha-se a batalha”
Pág. 89 de “Dom Casmurro” –
- Machado de Assis

Meti o pé na parede e pulei para o outro lado do muro e continuei correndo o máximo que podia. Cada vez que eles chegavam muito perto – perto o bastante para sentir seu ódio me envolvendo – eu arranjava alguma força e conseguia ficar um pouco distante deles, por um tempo. Vi que meu maço de cigarros estava quase caindo do meu bolso e, num gesto rápido e eficiente, empurrei-o para dentro.

Corria o mais rápido possível, meus cabelos batendo na cara, grudando no suor impregnado dos lados do meu rosto. Então percebi que meu amigo havia ficado para trás. Será que eles o pegaram? Espero que não. Odeio quando alguém paga pelos meus erros. Corrigindo, o que a sociedade convencionou como erro.

Em um movimento perigoso, olhei para trás e vi os dois insanos que corriam atrás de mim, mas nada do meu amigo. Onde ele estaria? Teria conseguido nos despistar? Espero que sim.

Olhei para frente bem a tempo de desviar de uma cabine telefônica. Seria um grande impacto… E o meu fim.

Continuei correndo. Entrei em um beco à minha esquerda, dei a volta nas lojas dali, entrei em uma rua adjacente e, por fim, entrei em um beco sem saída. Rezei para que aquilo os tivesse confundido um pouco. E confundiu. Vi eles seguirem por uma rua que ia para bem longe de onde eu estava. Ótimo.

Sentei-me no concreto quente e recostei minha cabeça no muro. Tentei olhar para cima, mas o sol estava muito forte. Fechei meus olhos e, então, ouvi meu nome ser pronunciado por aquela voz tão amiga:

- Giulie?

Abri meus olhos e me permiti um sincero sorriso ofegante. Era ele, meu anjo, meu amigo que tinha se safado bem antes de mim. Respondi:

- Hei, Ed! Pelo visto você corre mais que eu. – Fiz troça.

- Giulie, não brinque com isso. Eu realmente levei um susto.

- Com o quê? Com dois babacas que se deixam confundir por umas voltinhas no quarteirão? Ah, Ed, me poupe.

- Mas você tá bem?

- Sempre estou. Só um pouco cansada por causa da corrida.

- Percebi. Eu trouxe o que pediu. – Ele estendeu uma garrafa de vodka.

- Muito obrigada, achei que a tinha esquecido na corrida. – Abri a garrafa e bebi direto do gargalo, claro.

- Claro que não. – Ele respirou fundo e perguntou, meio preocupado – Por que eles estavam atrás de você?

- Nossa, Ed, uma rivalidade antiga demais...

- Por que motivo?

- Não me lembro mais. Só sei que o meu grupo de amigos e o deles eram – e são – inimigos de morte, como você mesmo viu. Eu estava na minha, conversando com você, e então eles começaram a correr e a gente também. Me desculpe por ter te envolvido nisso.

- Tudo bem, pelo menos hoje eu sei que não aconteceu nada com você.

Fechei novamente meus olhos e senti que ele se sentou do meu lado e que estava mexendo em meus cabelos. Eu pensava nele como um grande amigo, mas eu sabia que era muito mais que isso.

Era com ele que eu dividia todas as minhas dores e felicidades.
Mas também era ele que me salvava de alguns perigos.

Era com ele que eu fazia amor bem tarde da noite e, depois, ficávamos conversando como amigos de longa data.
Mas também era ele que, quando eu chegava em casa de porre, me dava banho frio, me trocava e me colocava pra dormir.

Realmente, ele era muito mais que um amigo. Sem dúvidas.

Não tínhamos nada oficializado, mas era como se tivéssemos. Corrigindo, não tínhamos nada que a sociedade considerava como oficial. Tudo babaquice da grande. Nossas palavras e afeto valem muito mais do que uma assinatura em um papel que pode ser rasgado, jogado fora e esquecido.

Eu tenho dezessete anos e ele, vinte e cinco. Eu não tenho pai nem mãe, ele só tem uma mãe muito velha que quase não visita mais.

Eu tenho meus vícios, ele tem os dele.

Ele odeia minha vida desregrada e desorganizada, o que posso fazer?

Abri meus olhos. O sol forte ainda brilhava e queimava acima da minha cabeça, eu ainda estava sentada naquele chão fervente e Ed ainda mexia em meu cabelo. Destampei novamente a garrafa e tomei mais um grande gole. E mais outro. Mais muitos outros até Ed confiscar a garrafa e fechá-la, alegando que “já chega por hoje”.

Nos levantamos, olhei em volta para ver se a área estava limpa e fomos andando para casa.

Chegamos rápido. Tomamos um banho juntos, colocamos nossas roupas mais confortáveis e nos jogamos na cama, cansados do nosso dia, literalmente, corrido.

Ed se colocou em cima de mim e mordeu meu pescoço, fazendo uma sensação maravilhosa percorrer meu corpo. Trocamos alguns beijos e ele se deitou ao meu lado. Eu me ajeitei em seu tórax. Era delicioso e inexplicável descansar ouvindo e sentindo o coração dele bater. Ele disse em um sussurro:

- Giulie…

- Sim, Ed?

- Prometa se manter a salvo.

- Eu sempre estou a salvo, Ed.

- Não, Lie, você nunca está.

Ed ia continuar protestando, então lhe dei um beijo e ele se calou.

Apesar do preconceito com idades que as pessoas têm, nossos oito anos de diferença não atrapalham em nada. Nos entendíamos como se fôssemos vozes falando em uníssono. Conversamos até o dia se transformar em noite, então sugeri que dormíssemos. Ele nos cobriu com o lençol e então dormimos abraçados.

Dormi um sono sem sonhos e, quando acordei, o sol já havia nascido há, pelo menos, três horas. Ed ainda dormia pesadamente.

Levantei e me troque. Acendi um cigarro. Bebi um gole da vodka. Saí. Fui dar uma volta.

Eles estavam lá, de novo. Não iam sossegar enquanto não me pegassem. E eu não me canso nunca de correr. Aliás, até estou ficando boa nisso.

Joguei o cigarro no chão e comecei a correr. Não parei para olhar pra trás, mas sabia que eu tinha uma grande vantagem.

Meti o pé na parede, pulei paro o outro lado do muro e continuei correndo o máximo que podia.

Notas finais
Espero que tenham gostado <3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!