Fuga Divina
1 Monologo
Notas iniciais
Bom dia. Meu nome é John Smith, e minha atual ocupação é, bem, Deus. Não naquele clássico sentido de “Criador e guardião de todas as coisas vivas”, mas no de “Ser omnipotente e onisciente que pode foder com a sua vida se quiser”. Então, antes de qualquer coisa, que fique o aviso: Não encha o meu saco.
Eu não deveria estar aqui. Ok, todos aqui devem dizer a mesma coisa, mas eu realmente não deveria estar aqui! Eu tenho um universo pra cuidar. Vocês tem alguma ideia de quanto tempo eu tenho gastar pra consertar todas as merdas que todos os seres conscientes de uma única galáxia fazem por ano? Três anos. Quando me ofereceram esse emprego, me disseram que ia ser só sombra e água fresca. “Controlar um universo de pequena escala é fácil”, disseram eles. Nunca me contaram que é minha responsabilidade impedir que raças “inteligentes” entrem em extinção. Filhos de uma...
Sim, eu sei que eu desviei do assunto. Qual parte do não encha o meu saco você não entendeu? Se eu quiser xingar aqueles desgraçados, eu vou. Como assim, por que eu não simplesmente mato eles? Você tem alguma ideia da porrada de burocracia que eu tenho que cuidar toda vez que um ser celestial morre? Da última vez, a papelada colapsou em um buraco negro. Que eles fiquem vivos.
Voltando ao assunto, eu não deveria estar aqui. EU SOU INOCENTE! Fodam-se as evidencias. Eu nunca faria aquilo. Eu nem ao menos conseguiria fazer aquilo. Eu mal consigo impedir que uma raça use armas nucleares em si mesma, você acha que eu teria capacidade de montar um plano pra destruir a realidade? E ainda convencer outros a me ajudar? Eu não consigo me demitir do meu maldito emprego porque eles me convencem toda vez que eu sou perfeito pro emprego. Minhas habilidades sociais são negativas.
Escuta, eu preciso sair daqui. Se eles me acusaram de tentar destruir a realidade, e eu não sou culpado, alguém é. E eu, particularmente, gosto da realidade. Vou ficar realmente triste se meu Universo deixar de existir porque algum idiota prendeu o cara errado. E vou ficar ainda mais triste se eu desaparecer junto. Eu gosto de existir, sabe. Como eu poderia reclamar do meu trabalho sem existir?
Então, vocês podem, por favor, me ajudar a escapar? Sim, escapar. Sabe, fugir. Sumir. Sair desse lugar. O mais rápido possível, de preferência. E sem matar ninguém, chega de papelada pelos próximos milênios.
Ok, OK, EU ENTENDI. Ilegal, imoral, contra a vontade do Superior, saquei. Mas eu não posso deixar uma falha momentânea acabar com o que eu fiz em toda a minha existência. Desculpa se isso te incomoda, Gaspar. Mas se você puder, por favor...
Como assim, incompetente demais? Qual parte do não me encha o saco você não entendeu, Gaspar? Eu não estou perguntando a sua opinião no assunto, sua Besta. SIM, EU SEI QUE É SEU TRABALHO ME ANTAGONIZAR, mas se você não percebeu, nós meio que não estamos trabalhando agora, cacete. Eu juro, se alguém do meu universo me visse agora...
Gaspar, vai ali pro canto. Cinco minutos de castigo. ANDA, VAI. EU SOU SEU SENHOR TODO PODEROSO, E ASSIM O ORDENO, CRIATURA IMUNDA. Heh, tirei isso de uma espécie de primeira geração lá do meu universo. Criaturas divertidas, aqueles humanos. Acredita que eles criaram uma coisa chamada “religião”, onde eles ficam o dia inteiro falando como eu sou ótimo? Melhor coisa pra ouvir depois de um século estressante de trabalho. Pena que são tão burros.
Cala a boca, Gaspar. Mais uma piadinha sobre minha inteligência e eu jogo você no Inferno. A prisão do meu universo, seu imbecil. Você ia adorar lá. Danação eterna e a temperatura de uma supernova, mas sem a parte legal de...
SHH. Guarda. Calem a boca.
Boa tarde, meu caro cavalheiro. Ou cavaleiro. Isso é um unicórnio? Enfim, você poderia me dar um segundo de sua atenção? Tenho certeza que o senhor não se arrependerá. Sua existência corre um grande risco, e tudo que o senhor tem como importante pode ser perdido se você não virar pra cá logo e ouvir o que eu to dizendo, maldito.
Bem, é isso. Estamos todos mortos. Ou algo assim.
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