Fuga
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
As escadas voaram sob meus pés até o quarto. Corpo quente, mãos trêmulas carregando o que incriminava.
Corpo quente.
Aquele estirado agora na sala.
O dele sobre o meu na tarde de verão.
“Só sinta, se permita...” Dissera entre minhas pernas, prestes a chocar-me pondo a boca onde ele desbravaria em pouco. “Você vai gostar. Prometo.” E beijava e sorria e eu gostava. Amava.
Foi o primeiro de muitos.
No fundo, eu sabia que jamais haveria de dar pé para nós dois. Era minha sina.
“Faz aquilo…?” Eu pedia bis, sempre.
“O quê?” Aproximava-se, a mão percorrendo meu corpo. “Aquilo o quê? Fala no meu ouvido?” Sua mão encontrava meu sexo. Olhos fixos nos meus, eu era hipnotizada a dizer, sem fechá-los.
Edward gostava de me ver corar, me fazer contorcer. Gostava de me ver livre.
Todas as tardes do bendito verão secreto. Prazer interminável e proibido. Culpa que excitava.
O choro não vinha agora, preso em algum lugar. Apesar do choque, tive rapidez.
Desfiz minha mala. Sonhos e desejos, minhas esperanças. Tudo de volta ao lugar de origem, casa vazia e arruinada. Em breve, tudo mudaria, e dessa vez não sabia para onde correr.
Escondi minha herança na caixinha. Eles estavam chegando. Custei a respirar. Eu queria chorar. Por quê não conseguia chorar?
Como filme defeituoso, o passado recente repetia-se, tentando distrair o presente pesado demais.
O primeiro olhar, friíssimo na barriga.
Seu beijo e a música que compôs para mim.
Umbigos colados, pelos arrepiados na sua cama de viúva, a vitrolinha tocando Sinatra. Ele me arrancava gemidos e inibições.
Sabia dos meus segredos e dores. Eu, os dele. Tínhamos alguns em comum.
A fuga.
Estava feito. Não dava para apagar, nem esquecer, como as cicatrizes na minha pele. Como os gritos de um casamento triste e o cheiro da bebida.
Memórias embaralhadas que serviam de impulso para agir no agora. Serviam de escape.
Mas haveria escape?
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