Fuga

1 Je Ne Taime Plus


Notas iniciais
Introdução apenas.

O som macio da chuva inundou meus ouvidos, boca, olhos, tomou minha mente e eu respirei o alívio, boca aberta, sentindo as gotas de água que se misturavam à minha saliva grossa de quem dormira muito.

Era um banho sagrado em águas sagradas, a pouca sujeira de meu corpo se juntava à muita sujeira de minha alma, se alma alguma havia, e descia para as entranhas da terra.

Confusão.

Talvez por ter acabado de acordar de um longo sono, povoado de sonhos misteriosos como há muito não tivera.

Tateei meu corpo, como se buscasse quem eu era. Minha identidade, meu sexo, meu rosto, algo deveria dar uma pista de quem eu era.

E, de repente, eu não sabia mais se era homem ou mulher, alto ou baixa, feio ou bela, nada sabia.

E que doce alegria que era não saber!

Não saber de nada, ser como se não fosse, existir como se não existisse...

Esquecer todo o ódio que vinha consumindo meu corpo, naquela torrente de água morna, era como quebrar correntes que atavam meus pés e pulsos, como correr livremente em um campo bucólico e primaveril, desses que só existem no mundo da poesia.

Sorri, sinceramente, enquanto me olhava no espelho.

Seria ironia do destino, que justo a água me despertasse daquele meio-sono, para notar que não era chuva, era água saindo de um velho chuveiro elétrico, que dava choque às vezes, para cair não numa terra macia, e sim em ladrilhos esverdeados de limo, e escorrer por um cano sujo até cair num esgoto ainda mais imundo?

Que fosse, não era uma ironia que me atingia. Que importa se era chuva limpa ou a água enferrujada que me relaxava?

Aparência, essência, tudo isso é simplesmente absurdo.

O que existe, existe em nossa cabeça. Que sentido há, se não há quem dê sentido?

Sorri com minha conclusão genial, enquanto terminava de vestir minha roupa preferida.

Hoje, não senti ódio. Hoje, não retesei meu corpo com desgosto do mundo.

Por que hoje, eu ia acabar com ele.

Hoje, eu destruiria tudo, e seria finalmente...

Que palavra?

Ainda sorria enquanto olhava a cidade decadente abaixo de mim, na cobertura do prédio.

Que palavra?

As luzes não pareciam me dizer nada.

Finalmente...

Livre.

E saltei.

Notas finais
Review, pelo amor do papai noel!