Fucking Harry
7 O presente
Notas iniciais
Tudo a sua volta está em puro e em um terrível silêncio. Harry estava largado no chão em uma imensa poça de sangue, com todas as partes de seu corpo dolorido. Será que seria esse o seu fim, de fato? Desejar tanto algo e ser terrivelmente violentado a tal ponto apenas por ser diferente? Este seria o fim de pessoas como ele? Ludibriados e depois violentados e largados ao relente de sua própria morte? Sim. Este era o seu fim. Este era o fim do que ele queria não ser, mas se tornou. Um simples dejeto humano largado para que abutres se deliciassem com sua carne.
– Faça-me um ultimo favor Harry? Tente suicídio e desta vez não fracasse.
Ah! Como ele queria ter focas para fazer. Forças para desistir. Mas tinha medo, mesmo sabendo que seria o melhor e mais rápido. Ninguém entraria ali, e se caso acontecesse, o veriam e logo sumiriam, pois se trata de Harry, não outro qualquer. Ele forçou seus pulmões o mais forte que pode e jogou seu braço à frente, e com muita dor se arrastou até a sua última esperança. O estilete jogado por Hanton.
Era pura dor o que lhe consumia. Cada poro de sua pele, cada centímetro de seu corpo. E ele precisava não ter medo a menos essa vez, pelo menos desta vez. Ele chegou com muita dificuldade até o estilete, e embora dois de seus dedos da mão direita estivessem quebrados, ele respirou uma ultima vez e aguentou a dor, puxou o gatilho do estilete e o levou a sua garganta e apenas pensou na felicidade que todos sentiriam com aquilo. Desta vez ele não falharia. Desta vez ele não fracassaria novamente.
– Harry! – ele ouviu uma voz feminina ao longe.
Ele não soube identificar quem era, as pelo cheiro de um sublime perfume que ele conhecia, soube que se tratava de Melanie.
– Meu pequeno bebê, que bom que está bem! – disse sua mãe, lhe fazendo carinho em seu cabelo crespo.
Harry abriu os olhos lentamente e a viu, chorosa ao lado de seu pai e de seu irmão que estava sentado no sofá do quarto do hospital jogando algo em seu notebook. A mão de sua mãe o reconfortou por alguns instantes, pois logo ele ouviu murmúrios do lado de fora. Era a policia que deseja a todo custo saber o que tinha acontecido com ele. Seu pai foi até lá e houve uma grande discussão, e os policiais foram embora, sem saber de absolutamente nada. Ali naquele quarto Harry passou quatro dias, completamente mudo silenciado por sua tristeza de ainda estar vivo. Nem mesmo Melanie foi visita-lo durante esse período, mas não por que ela não queria, e sim por ordens médicas e muita insistência de seus pais.
Logo ele já conseguia ficar de pé e até mesmo se alimentar sozinho. Ainda tinha as mãos tremulas e os hematomas pareciam ter ficado piores. Embora ainda sentisse muita dor, nada era pior do que a certeza de que teria que voltar para a escola.
– É lógico que ele vai voltar para lá. – dizia seu pai a sua mãe — Pagamos muito caro naquela escola para desistirmos agora, com toda certeza irão descobrir o que houve e irão punir os responsáveis, mas nosso filho não saíra de lá...
– Temo pela segurança de nosso filho, não pela punição dos responsáveis. Seja sensato, estamos falando de nosso filho... – dizia sua mãe.
– Você se tornou alguém famoso, saiu até nos jornais. A escola está em total desespero pra saber o que houve e quem fez isso com você. – disse o irmão de Harry quase que sussurrando em seu ouvido — Acho que já esta mais do que na hora de você falar alguns nomes, todos estão esperando por isso, e ficar quieto não o ajudara.
Mas Harry não abria sua boca para nada. Ficou apenas pensando no que tinha passado e como seria seu retorno. Será que os meninos iriam ameaça-lo de morte? Não. Mas ele já estava morto, ao menos por dentro, seria um favor que eles poderiam fazer; terminar o serviço.
Ora Hanton. Porque entre tantos, justo você?
Já era o oitavo dia que Harry estava no hospital, e hoje ele ganharia alta. Colocou sua roupa com extrema dificuldade, por conta dos inchaços de seu corpo, e saiu do quarto numa cadeira de rodas, no corredor para fora do hospital Harry pensou o que seria de sua vida. Mais uma tentativa. Mais um fracasso.
Na porta do hospital havia muitos jornalistas que o esperavam ansiosamente em busca de detalhes sobre ocorrido, mas seu pai foi muito mais rápido o colocando dentro do carro e saindo em disparada para a escola. Harry adormeceu e acordou em seu quarto, apenas com Melanie o observando.
– Que bom que acordou. – disse ela segurando sua mão – Eu fiquei preocupada.
– Foi você que me encontrou? Como? – disse ele ainda com a voz fraca.
– Não vamos entrar nesta questão, eu passava por ali e não o vi e imaginei que estivesse dentro do banheiro, eu apenas entrei e... Quem foi que fez isso com você Harry? Você precisa dizer, a diretoria está louca. Encontraram garrafas e cocaína no banheiro, o zelador, assim que você saiu, foi até lá e limpou tudo o que pudesse incriminar alguém, mas a policia mesmo assim quer saber de nomes. Você precisa falar, e seus pais disseram que você não comenta nada sobre isso e...
– Melanie, não tem nenhum cara que queira enfiar o pau em você? – disse ele rispidamente.
– Harry, eu estou tentando te ajudar. Não há necessidade de falar assim comigo. — Melanie se levantou e saiu do quarto, e Harry apenas olhou pela janela e naquela posição ficou até tarde da noite.
Na madrugada, Harry sentiu um forte desejo de ir ao banheiro, e rapidamente foi. Após lavar suas mãos sentiu uma enorme fome e resolveu ir até o pátio central pegar algo para comer. Abriu a porta de seu quarto e olhou para Melanie que já estava dormindo há muito tempo. Olhou diversas vezes pelo corredor e na certeza de que não tinha ninguém resolveu sair, indo diretamente para o pátio. Engraçado. Algo havia acontecido com ele, pois nesse momento o medo das escadas não se fizeram presentes.
Ele chegou a maquina de doces e salgados, colocou alguns trocados e fez sua escolha. O silencio ainda era grande em seus ouvidos, era como se nada existisse, somente ele e sua total insignificância. Foi então que sentiu uma presença próxima a ele e ligeiramente ele virou a cabeça e viu quase que no escuro uma figura com uma silhueta já conhecida. Era Hanton, que segurava um pedaço de pau e o ameaça de longe batendo em sua mão, criando a ilusão de bater em Harry. Era as ameaças que se estenderam durante duas semanas ou mais.
Por acaso eu algum momento eu mencionei que desde o que houve no banheiro, ele não havia se masturbado nenhuma vez? E que embora ainda comesse sempre alguma coisa, ele não comia bem há dias? Nem água estava tomando, devidos aos cortes na boca que teimavam em não cicatrizar. As aulas eram árduas e o tempo parecia não passar. Seu contato com Melanie se reduziu a um simples bom dia e nada mais. Tudo na escola estava diferente, embora Harry não percebesse que as pessoas estavam o isolando mais do que normal. O motivo? Quem sabe.
Houve um final de semana, que Harry ficou sozinho em toda a zona leste, era algum feriado local, mas como seus pais não estavam em casa devido aos torneis de natação de seu irmão mais velho, ele resolveu ficar. No entanto a solidão nem fazia mais cócegas nas plantas de seus pés, de tão acostumado que ele já estava. Harry então foi até a janela de seu quarto e observou a macieira ao longe, e decidiu ir até ela. Ele foi sem medo algum, pois sabia que quase não teriam alunos na escola, então não demorou até ele chegar à macieira e deitar-se, onde deslumbrava uma linda noite cheia de estrelas.
– Harry... – ele ouviu um zumbido em seu ouvido, mas não deu atenção.
– Harry... – ele ouviu de novo e desta vez se colocou de pé.
– Quem é? – perguntou ele já aflito.
– Harry... – continuou a voz que parecia flutuar com vento – Harry, porque nos teme tanto?
– E eu não deveria? É uma voz na escuridão.
– Não Harry, não deve nos temer, estamos aqui para te ajudar! Ajudar a ser o que você realmente quer ser. Veja o que fizeram ao pobre Harry!
Ele não conseguia definir se era uma ou mais pessoas que falavam com ele, ou se estavam ali, ou se eram homens ou mulheres. O que ele sabia era que aquilo era assustador e então foi tomado por um desejo súbito de ir para seu quarto. Saiu correndo como pode, devido ainda sentir muitas dores e antes de entrar pelo portão que daria acesso ao pátio, e assim a ala leste ele ouviu novamente a voz.
– Harry, pegue isso Harry!
Ao olhar para trás ele deslumbrou uma sombra ganhando forma, ainda não sabia se era de um homem ou de uma mulher, mas reparou que na mão da silhueta sombria algo brilhava tão intenso como as luzes das estrelas e então a sombra sumiu e aquele objeto caiu no chão. Harry olhou para os lados e temendo que pudesse ser alguma armadilha dos meninos que lhe causaram tanta dor respirou fundo e se virou para entrar novamente, mas ao se virar se deparou com sua imagem destorcida no vidro da porta e se assustou, caindo no chão.
– Ora Harry, você sabe que é feio, mas não precisa se assustar consigo mesmo. – disse ele.
– Pegue Harry. É o nosso presente a você! – disse a voz e com uma risada irônica sumiu pelo grande jardim da escola.
Ele não se conteve com tal situação e mesmo com medo foi até onde o objeto ainda estava no chão. Tratava-se de uma pequena caixinha de chumbo sem nada escrito ou desenho, era completamente lisa. Ele então olhou para os lados e abriu a caixa e lá dentro um pequeno papiro dobrado. Ele desembrulhou o pedacinho de papel e leu:
“Sentimos muito pelo o acontecido, mas chegou a hora de ganhar a sua chance.
Somos responsáveis pelo o que fazemos, e de nossos atos temos consequências, você está disposto a encara-los?
Se sim, preste muita atenção no que deve fazer, e faça exatamente o que se é pedido.
Harry coloque este papiro na caixa, e se desejar o presente que temos a te oferecer.
Feche a caixa e gire-a três vezes, e depois abra de novo e leia o que está escrito.”.
Só poderia ser uma brincadeira de muito mau gosto, mas o que ele tinha a perder? Colocou o pequeno papiro dentro da caixa, e a girou três vezes e abriu, recolhendo o pedaço de papel e lendo-o novamente.
“Muito bem Harry, você se saiu muito bem.
Mas como já dissemos as suas escolhas trarão consequências. Está preparado para isso?
Se sim, preste muito atenção, pois o que vamos dar a você mudará sua vida.
Uma chance de mudança, uma chance de uma vida nova.
O que você mais deseja?
Coloque o papiro novamente na caixa e vire-a seis vezes.
No interior da caixa terá um comprimido, você deve subir ao seu quarto, pegar um copo bem grande de água e antes de tomá-lo fazer três pedidos em seus pensamentos e então deverá aguardar.
E o que será Harry?
Está pronto?”
Realmente uma brincadeira de péssimo gosto, pensou ele novamente. Mas estava achando divertido. Colocou o papiro na caixa, e a virou por seis vezes, e já sabem o que tinha dentro da caixa quando ele abriu. Tratava-se de um pequeno comprimido vermelho em forma de estrela. O medo de Harry, por algum motivo, se esvaiu de seu corpo no mesmo momento, e seus olhos brilharam como o de crianças ao ganhar um presente muito desejado. Ele só poderia estar sonhado, com toda certeza estaria. Correu o mais depressa que pode até seu quarto, pegou água da torneira do banheiro e pensou no que queria desejar. Oras, se ele estava com medo? Realmente era muito estranha uma voz lhe dar um presente e um pedaço de papiro falar com você, mas Harry não teve medo, queria ver onde poderia chegar com aquilo. Então pensou em seus três pedidos e tomou o mais rápido que pode o comprimido em forma de estrela. Olhou para o copo agora vazio, e correu até o espelho onde se frustrou, pois nada havia de fato acontecido com ele.
Sua angustia só aumentou neste momento, pois achou realmente que fosse a brincadeira de alguém, mas rapidamente sua ideia foi levada de seus pensamentos, pois ele começou a sentir um forte enjoo e caiu de joelhos no chão.
Uma forte pontada em seu peito e com o estomago embrulhado, Harry pediu por socorro, pois achou que estava envenenado. Mas não. Ele desejou algo, e agora ganhara a realização de seus desejos. Ele vomitou. Vomitou mais do que um ser humano poderia vomitar em toda a sua vida. Sua vista ficou embaçada e sua boca começou a sangrar. Harry percebeu que seu aparelho estava esfarelando de seus dentes. Sentiu sua roupa ficar mais larga, sentiu cada centímetro do seu corpo se enrijecer e então um forte soco em seu peito. Seu corpo, sem o seu comando, começou a tremer compulsivamente enquanto sentia náuseas e ainda vomitava. Harry não soube se de fato deu certo, pois depois de terríveis momentos agonizantes, ele acabou desmaiando, mas seria no dia seguinte, que tudo mudaria na sua vida.
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