Notas iniciais
POV's Frank:

—— O que foi?

—— Nada!

—— Então o que tanto você olha? O que diabos têm ali? – ele tornou. Preocupado. E cuidadoso.

*Sun* *Shine*! *Sun* *Shine*!

*Hurting*,

*Inside* *My* *Mind*!

(...)

Meus olhos se acenderam naquele mesmo instante. O ardor de um final de tarde e a luminescência de um início de noite atuando loucamente na mais perfeita sincronia, queimando os meus neurônios -ou o que restou deles-, desde que comecei a acreditar que tudo aquilo certamente não era apenas um sonho, um simples lampejo, uma visão, ainda que minha razão gritasse sê-lo nada mais que isso.

Era real demais para ser um pedaço de realidade presa em uma mentira completa.

Entrentanto, não era como se pudesse ser um pesadelo. Eu simplesmente não acredito em pesadelos com Gerard neles.

Mas como poderia ser real?!

Eu não me lembro de ter ido ou mesmo ter estado no parque, brincando nos balanços com Gerard ao final do período escolar. Assim como eu também não me lembro de ter ido ou ter estado dormindo.

Ou estava?

Quem sabe eu estivesse no chamado entressonho?!

Exatamente isso, “entressonho”, o mesmo que entressono, o prólogo do estar dormindo e o epílogo do estar acordado, só que sonhando, meio dormindo e meio acordado, sabem? Quando não estamos nem do lado de cá e nem do lado de lá. Quando estamos bem no meio de tudo iss. No meio da grande ponte de madeira que nos separa da realidade real e da realidade sonhada?!

Então, no meu entressonho, eu estive com meu o melhor amigo, Gerard, de um modo que eu nunca poderia estar quando na realidade real: Sozinhos, falando sobre coisas do coração. Mas então aconteceu uma coisa muito esquisita e tudo ficou escuro subitamente. E depois daquele pôr do sol fodidamente brilhante e forçado, encontrei-me bem aqui, no meio do meu quarto bagunçado, meu corpo pendurado sobre a cama de um modo não convencional: Minha cabeça declinada, visão embaralhada, sendo que todas as imagens foram tragicamente reconfiguradas, e invertidas, em um completo oposto de tudo que é real e de tudo que deveria ser real.

Tudo no avesso!

O piso que deveria estar no chão está no teto e o lustre que deveria estar no teto está no chão. E eu não estou no meio de tudo isso, como realmente deveria estar. Estou entre tudo o que isso possa e/ou queira significar!

Mas, embora tudo isso pareça um verdadeiro incômodo para alguns, especialmente quando você escutou de seus pais que ficar muito tempo de cabeça para baixo não faz muito bem à saúde, o sangue percorrendo o cérebro, sufocando os pensamentos; Continuei do jeito que estava, observando minha janela com atenção: Ela estava deliberadamente aberta, quase como se tivesse sido arrombada, e aquilo não era natural, afinal de contas, eu me lembrava de tê-la fechado antes de me deitar, assim que entrei no meu quarto, com disposição para cochilar um pouquinho, enquanto aguardava minha mãe servir o jantar.

Meus olhos se fixaram naquele vestígio de lua que nascia ali, luminescente, esquadrinhando alguma explicação para o inexplicável. Contudo, apenas consegui me sentir iluminado também. OH MEU DEUS, O QUANTO AQUILO PARECIA SER BOM?! Senti como se eu pudesse eternizar na companhia do silêncio, refletindo, deixando o sangue circular livremente ao redor do cérebro, mesmo que aquilo pudesse me matar. Até o desconforto em si era sinceramente agradável. Muito mais agradável que muitas outras coisas agradáveis do mundo, diga-se.

Somente quando me cansei de todo aquele desconforto deleitoso e iluminado, foi que puxei o edredom e me cobri totalmente, minha cabeça mergulhando na escuridão, minha respiração calma e paciente. Não sou claustrofóbico, nunca fui. Entretanto, por mais relaxado que eu pudesse estar, confesso que ainda assim senti um terror repentino, não comensurável, abalando meu coração: Tu-Dum. Tu-Dum.

Era algo realmente estranho, mas não um fato realmente curioso; Aquela foi a primeira e com total certeza não seria a última vez que eu sentiria o tamanho desespero, uma sensação realmente capaz de tencionar os músculos de qualquer um, que nem ao menos merecia real importância. Porque o importante era me lembrar de que toda sensação ruim precede sua inseparável cena medonha, e que o medo é apenas uma amostra de tudo que há de pior e que está por acontecer.

Sabendo de tudo isso, apertei meus dedos ao redor do edredom que me cobria e, basicamente por instinto, senti uma extrema vontade de espiar o lado de fora daquele esconderijo infantil. Mas o meu medo era tão maior que a minha vontade de olhar, que acabei apenas enterrando ainda mais minha cabeça nos travesseiros, arremessando meu corpo contra o colchão, na ilusão de que aquilo tudo fosse resolvido pelo meu mais novo ar de aporrinhação; Mas isso não resultou em coisa alguma. Tudo continuou do mesmo jeito. Uma realidade sobreposta a outra. Um momento de pura e total agonia.

Os minutos transcorreram dolorosamente, e quando comecei a me acostumar com a posição, senti algo tocar os meus pés por cima do edredom: Aquilo que ousou contra meu corpo, não usou de amabilidade alguma; Fui rudemente atingido, de modo que meus pés forçosamente se aferraram ao colchão, completamente imobilizados.

O medo foi tomando conta de mim, gritando por toda pele, minha pulsação mais e mais acelerada, parecendo como um real pesadelo. Mas eu não estava dormindo.

Ou estava?

Nenhum louco que eu conheça reflete sobre estar ou ainda sobre ser louco. Acontece que eu também não conheço nenhum louco.

Conheço?

Quem sabe minha mãe tinha alguma razão ao dizer que o sangue subir a cabeça fizesse mal?! Quem sabe?!

Eu não tenho escolha alguma agora. Ou melhor, tenho apenas uma: Não importa o que aconteça, não contarei isso a ninguém. Jamais. E ponto final.

Então, como se tivesse a capacidade de adivinhar meus pensamentos tumultuados, aquilo que me apanhou, encerrou contato comigo, aparentemente, me deixando de lado. Mas eu tinha a ligeira desconfiança de que aquilo pudesse ser algum tipo de truque ou algo do gênero, que aquela coisa supostamente estivesse subestimando a minha intelectualidade no assunto.

Já assistiu O massacre da serra elétrica? Então.

Por isso mesmo consenti que meu interior se enchesse de coragem e descobri minha cabeça rapidamente, buscando com os olhos por todo o meu quarto: A porta fechada, a janela aberta, a poltrona completamente rabiscada, o guarda-roupa vomitando roupas, a Pansy sobre a mesinha de computador sem computador, meus sapatos espalhados por todo o piso, isso, aquilo, etc. Mas nada parecia estar realmente fora do lugar. Ou melhor, dizendo, tudo estava à mesma bagunça de sempre.

Nada de errado?

É mesmo?!

Arqueei uma de minhas sobrancelhas em desconfiança.

Não havia motivos para me preocupar, era o que os fatos claramente diziam. No entanto, o que as entrelinhas diziam? O entressonho? O entrepesadelo?

Novamente corri meus olhos pelo quarto, e nada. Nenhuma mudança significativa desde a primeira análise. Joguei o edredom para o alto e me levantei, partindo direta e apressadamente em direção a porta. E foi neste momento, nesse trágico momento, quando colocava um passo em frente ao outro, que um tenebroso arrepio subiu pelos meus calcanhares em direção a minha espinha, tomando conta de todas as minhas sensações, fossem essas as piores.

Aquilo tinha apenas um significado: Realmente havia alguma coisa atrás de mim.

Eu quase podia senti-lo no meu encalço, sua respiração quente e pesada no verso do meu pescoço. Fosse o diabo ou o que quer que fosse, segurei a maçaneta decididamente em meus dedos, querendo sair daquele quarto antes mesmo que pudesse descobrir. Com certeza eu me lembraria de fechar a porta atrás de mim, trancafiando aquela coisa odiosa que estivera me perseguindo desde que recobrei minha consciência.

Pois recobrei, não recobrei?

Mas fracassei vergonhosamente: Quando eu estava prestes a rodopiar aquele círculo dourado cravado por uma chave ao centro, fui impetuosamente agarrado pelo pescoço, de um modo que não pude sequer girar o tronco e espiar, tão logo capturado, tão logo imobilizado. Mas pude ver claramente o espectro que me envolvia com suas garras, ele refletia no espelho da mesinha de computador na qual a Pansy descansara por meses e meses.

Espantei-me com tamanha estranheza, nunca tinha visto ou mesmo imaginado uma face tão horrenda: Um ser horroroso que não se parecia com nenhuma outra criatura, nem mesmo parecia ser algo real, sendo apenas um vulto em espécie, olhos avermelhados, pele escura e rochosa, garras longas e afiadas, chifres pontiagudos e uma bocarra repleta de dentes afiadíssimos. Chupacabra? Vampiro? Fred Gruguer? O Diabo em pessoa? Eu sei lá o que aquilo deveria ser!

Eu sabia que não poderia tentar nada contra aquela criatura dos infernos, qualquer ação seria insana e completamente em vão.

E traumática.

E irreversível.

E um fracasso total.

O meu corpo tremia convulsivamente em apenas imaginar que aquele momento poderia significar o fim da linha. Mas o que eu poderia fazer? Aguardar meu pescoço ser espremido dentre as garras daquele suposto animal?! Não! Não! Devia ter alguma coisa que eu ainda pudesse fazer! Qualquer coisa! Assim como sempre há um modo diferente de terminar um game de horror, teria que haver alguma outra chance!

Eu realmente tinha alguma ideia de como lidar com a situação, com a coisa que deseja meu sangue, que deseja minha alma, com essa alucinação medonha: Minha mão ficou no ar, deixando de tocar a maçaneta, fechei meus olhos e coloquei toda a minha concentração em jogo. Não pretendia muito, tenho de dizer. Tudo o que eu queria era esquecer. Então usei os poderes da minha mente para negligenciar toda e qualquer dor que a agressão insistia em pronunciar.

Na minha mente apenas existia o vazio, o nada, um buraco negro pessoal, onde eu poderia simplesmente não existir também. E inventando que tudo o que agisse sobre mim não tivesse nenhum tipo de efeito, sendo positivo ou negativo, eu não sentiria nada. Porque eu não queria sentir.

Confesso que usei esse truque sempre que precisei; Esquecer a realidade alternativa e a própria realidade em si quando necessário, quando sobreviver é doloroso o suficiente. Logo eu não me lembraria de absolutamente nada. E se eu não me lembrasse, e se tudo desaparecesse, eu também desapareceria, o monstro também desapareceria e tudo seria apenas escuridão, completamente sem funcionalidade. O tudo seria nada, e assim foi.

Quando retornei de meu devaneio ocasionado, não senti mais nenhum tipo de sensação, nem medo, nem arrepios, nem meu pescoço sendo pressionado com violência. As garras haviam desaparecido do reflexo no espelho, assim como o monstro por inteiro. Pude suspirar e sorrir orgulhoso, acreditando cegamente ter vencido o meu pesadelo real. Mas quando levei meus dedos tatuados de encontro com a maçaneta, olhei por cima do ombro e senti tanta raiva, mais tanta raiva ao ver algo realmente desprezível, que apertei meus olhos, fechei meus pulsos e abri minha boca no intuito de desferir os dizeres mais asquerosos que apreendi nesses meus dezesseis anos.

—— FRANKIE? – mamãe me chamou do primeiro piso, interrompendo meu suposto ataque.

—— ESTOU DESCENDO, PORRA! – gritei em resposta, puxando o moletom que encontrei ao lado da Pansy. Mas antes de sair, olhei uma última para aquilo que me causou tanta ira: Nada mais nada menos que a figura de um animal horrendo que outrora tentara me estrangular. Ele estava perto da janela, quem sabe quisesse ir embora. Era apenas um monstro como qualquer outro, mais uma criatura presa nos meus pesadelos reais e nas minhas realidades sonhadas.

(...)

Depois do jantar, quando estava subindo as escadas, imaginando se aquela coisa tinha ou não encontrado o caminho do inferno, o telefone tocou e eu corri para atendê-lo: Era Gerard. Ele me convidou para ir ao parque, queria falar comigo sobre algo muito importante.

Eu aceitei e desliguei o telefone, indo diretamente ao seu encontro.

No parque, sentamo-nos nos balanços, um ao lado do outro, a brisa gostosa esvoaçando nossos cabelos, e apesar de Gerard ter me dito que queria falar, ele não dissera nada, então ficamos silenciosos por algum tempo.

Fiquei olhando o perfil de Gerard por um tempo, admirado, a medida que ele assistia o luar. Mas algo detrás dos arbustos chamou minha atenção: Era algo grande, de olhos vermelhos, de pele escura e rochosa... FILHO DA PUTA DE MONSTRO! ME SEGUIU, NÉ, VIADINHO?!

Acho que fiquei aparentemente tão irritado, que Gerard não conseguiu reprimir sua curiosidade:

—— O que foi? – ele me perguntou.

—— Nada!

—— Então o que tanto você olha? O que diabos têm ali? – ele tornou. Preocupado. E cuidadoso, mencionando se virar, na direção dos arbustos; Eu entrei em pânico! E se Gerard pudesse ver aquela coisa odiosa? O que ele faria? PORRA DE MONSTRO! TINHA QUE APARECER JUSTO NESSE MOMENTO CRUCIAL? Eu realmente queria conversar com Gerard, falar sobre o sonho/pesadelo que tive com ele, sobre abrirmos nossos corações e... Confessarmos o nosso amor?! O QUÊ?!

*Sun* *Shine*! *Sun* *Shine*!

*Hurting*,

*Inside* *My* *Mind*! – Quase podia escutar o monstro cantarolar dentro da minha cabeça.

Ou ele realmente estava cantarolando?

—— GERARD! – gritei desesperadamente, atraindo toda sua atenção, antes que ele visse o que não era preciso.

—— Hm?

Foi então que percebi o que aquilo tudo queria dizer: O monstro era a personificação do medo que eu sentia em demonstrar meus verdadeiros sentimentos em relação a Gerard. Ele iria me aterrorizar até que eu finalmente me tornasse corajoso para enfrentá-lo, não havia dúvida alguma. Mas o que eu podia fazer?

—— Eu amo você.

As palavras saltaram da minha boca e o monstro começou a desaparecer.

—— O que foi que disse, Fran?

Por um momento, cogitei a possibilidade de negar o que disse, fazer Gerard acreditar ter escutado errado, enganar a ele e a mim mesmo. Mas aquele monstro sorria cinicamente, como se dissesse que ia me comer se eu desse para trás quando havia chegado tão longe. E também havia aquele brilho nos olhos quase verdes de Gerard; Não consegui ser covarde, não consegui fingir não sentir nada, usando os poderes da negação. Então o beijei, calma e profundamente, o surpreendendo, antes que ele me perguntasse qualquer coisa. Por mais fantástico que possa parecer, ele me correspondeu, sinceramente, como eu nunca poderia imaginar.

—— Foi como no meu sonho! – ele roubou as palavras da minha boca, quando nos separamos, pela carência do oxigênio.

—— É? – cocei a cabeça, completamente envergonhado; Não sabia exatamente o que dizer.

—— Sim. – ele sorriu largamente. – Mas, no meu sonho, depois do beijo, fomos pra minha casa.

Demorei consideravelmente para entender o que ele quis dizer com “fomos pra minha casa”, recebendo um soco no braço por causa disso.

—— Não precisa bater, okay?

—— E dar mais beijinho também não precisa?

Gargalhamos.

—— Vamos pra sua casa então, Gee?

—— Vamos?

—— Aham. – levantei-me e o puxei para que ele se levantasse junto comigo, ele me abraçou. – O que foi?

—— Não sei o que faria se algo ruim acontecesse a você.

—— Nada de ruim vai acontecer. Eu prometo. – assegurei bastante confiante.

No tempo em que ficamos abraçados, às costas de Gerard, nos arbustos, o monstro nos assistia; Sorri para ele e dei um tchauzinho. Ele retribuiu e desapareceu completamente.

Eu não contaria nada que fizesse Gerard ter medo, isso com certeza. Não havia necessidade dele saber, que, naquela porra de sexta-feira treze, uma coisa odiosa que mais tarde se tornou uma coisa amiga, cumpriu seu papel como cupido, nos unindo, nos tornando um só.

Acho que uma noite de azar pode significar uma noite de sorte para alguns.

Keep the Faith!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!