Fuckin' Perfect
11 Anjos ao fim
Notas iniciais
Era impagável ver a felicidade das crianças, e eu amei ainda mais Jenn por ter tido a ideia de irmos lá, embora eu sentisse uma tristeza enorme ao olhar para as crianças.
As crianças riram timidamente.
–- Tem Rapunzel aí? -- perguntou uma garotinha de enormes olhos escuros.
–- Sim, Rapunzel, Cinderela, Alice no país das maravilhas -- respondeu Jenn, apontando para os livros ditos.
–- Maneiro! -- respondeu ela. -- Já pode começar a ler?
–- É claro. Mané, a câmera -- provocou Jenn, pegando o livro da Rapunzel.
Revirei os olhos. Jenn era o tipo de pessoa que nunca perdoava e que nunca perdia o deboche.
Ajustei a filmadora da Canon, focando no rosto de Jenn, distraída procurando o livro. Seus cabelos ruivos pareciam em destaque na lente.
–- Aqui, achei -- sussurrou baixinho, para si mesmo.
Ela percorreu os olhos por cada rostinho que nos olhava com tanta expectativa, acabando liberando um sorriso de canto, parecendo fascinada, e depois desviou a atenção para mim. Aumentei o Zoom da filmadora, focando em seus olhos verdes jade. Por que tão lindos?!
–- Logs! -- exclamou ela, colocando uma mecha dos fios atrás da orelha. -- Eu não sou o ponto aqui.
Continuei filmando, sem esconder uma risada.
–- Pra mim é -- mirei a câmera em seu sorriso, diminuindo o Zoom aos poucos, agora mostrando todo o seu semblante.
Jenn riu, mostrando os dentes, e eu capitei, é claro.
–- Idiota! -- falou só movendo os lábios, mas sem sair som algum.
–- Eu tento ser -- sussurrei e então dei uma trégua. Desviei a filmadora dela, agora mirando nas crianças que conversavam baixinho, outras ainda nos fitavam e outras apenas estavam deitadas no tapete, esperando.
Jenn sentou no chão de pernas cruzadas e eu filmei. Não conseguia evitar sorrir da forma natural com que ela lidava com aquilo e a forma em que simplesmente parecia fazer parte dela ser tão atenciosa.
Começou a ler, e eu continuei filmando, intercalando nela e nas crianças. Mudou de livros várias vezes e conforme ia terminando de ler, presenteava as crianças com ele
–- Logs, sua vez -- falou, colocando seu exemplar ao lado.
As crianças me encararam e bateram palmas, fazendo coro em torcida com meu nome.
Eu ri, sem graça.
–- Não, valeu. Você está indo muito bem -- rejeitei, ainda com a filmadora.
–- Vai logo, babaca cagão. Agora passe a filmadora para cá -- Mandou. Jenn andou na minha direção, pegando a filmadora da minha mão.
–- Estou com medo -- sussurrei, desesperado
–- Olhe para esses rostinhos. Logan, é perfeito -- ela murmurou, sorrindo. -- É sério, é só ler, qualquer coisa a janela está aí para você se jogar.
–- Muito convincente -- resmunguei, mas cedendo.
Sentei no chão, com um livro nas mãos.
–- Hã... esse é... que livro é esse? -- fechei ele, encarando o título. -- Contos de uma... baleia.
Franzi o cenho. Que nome engraçado.
Comecei a ler, e realmente era simples. As crianças riam de vez em quando, e eu pensava no quanto a história era bestinha e o quanto era o suficiente para aqueles pacientes. Me perguntei como era estar ali, sabe, sem ser por motivos como o meu, mas por motivos sérios, questões de vida ou morte. Deveria ser muito deprimente.
Terminei de ler o livro Contos de uma baleia e comecei a ler outro, e depois outro e outro (O caso de Brandon, o rouxinol; Danny, O relógio Tique Taque, e uns aí)
Jenn filmava ao meu lado, com um sorrisinho de lado e quando nossos olhos se cruzavam ela abria um maior, como se pensasse "Nada de se jogar da janela até agora."
E eu não estava mesmo com vontade de me jogar da janela. Nem um pouquinho mesmo.
~~~ // ~~~
–- Não vai comer não, ô, princesa? -- debochei, tomando meu suquinho de uva no canudinho.
–- Estou sem fome -- murmurou Jenn encarando a mesa enquanto tamborilava as unhas de acrílico no batente.
Eita, geralmente ela costumava ficar puta de raiva quando eu a chamava de "princesa", "gata", "gatinha", "pequena", porque achava que isso soava como coisa de demente, mas naquele instante pareceu nem notar.
–- Tá tudo bem? -- perguntei com sutileza.
Ela ergueu os olhos.
–- É claro que sim! Por que não estaria bem?! Vamos tirar um 10, guarde minhas palavras!
Até cinco segundos atrás estava tão desanimada.
Fitei-a, confuso.
–- Tá bem, ainda estou tentando me acostumar com suas Jennyces -- joguei a caixinha de suco ridícula para o lado e peguei um cigarro. Jenn tomou de mim em dois segundos.
–- Você é cego?! "Proibido fumar neste local" diz a placa -- Jenn apontou para a placa.
Soltei o ar com força.
–- Ah é, tá bom -- falei, entediado. Peguei meu sanduíche de peru e dei uma mordida. -- Hm...então, agora vamos visitar os pacientes mais sérios. Puta merda, estou tentando me preparar psicologicamente e emocionalmente para isso, mas sabe, tá difícil.
Ela suspirou.
–- Eu sei, isso acaba comigo.
–- É. Olha, depois que sairmos daqui, quero imediatamente assistir Bob Esponja ou algo felizinho do tipo.
Jenn sorriu.
–- Combinados -- ela tossiu duas vezes, sôfrega. Depois pestanejou. -- Podemos ir.
~~~ // ~~~
–- Olá -- falou Jenn, doce. Entramos na sala em que uma garotinha estava deitada, encarando o teto com tédio. Seu braço estava ligado a vários tubos e sondas. Ao seu lado, um rádio tocava a música "Little Star" e a garota sussurrava: "Shine, shine, fuckin star"
–- Eita, vai com calma aí -- sussurrei.
Ela nos fitou sem muito interesse. Seus olhos azuis pareciam apagados com as olheiras em volta e eu me senti imediatamente mal.
–- São vocês os tais que estão lendo historinhas para boi-dormir por aí? -- indagou.
–- É, acho que sim -- falou Jenn. -- Qual seu nome?
–- Lorena.
–- Oi, Lorena, sou Jenny e esse é o Logie. Não gosta de histórias para boi dormir?
–- Não -- respondeu, com seus grandes olhos fixos em nós.
–- Por quê? -- perguntei, me sentando em uma poltrona perto da cama dela e ajeitando a filmadora.
Lorena apertou os olhos, como se a resposta estivesse estampada na cara dela e eu tivesse cara de jumento por ter perguntado.
–- Estou morrendo, cara.
Jenn se sentou ao meu lado.
–- Anjos são eternos -- sussurrou.
A menina piscou, encarando o lençol branco.
Droga de sentimento de pena!
–- Acha mesmo? -- murmurou.
Então era isso. Ela apenas tentava se agarrar a qualquer possibilidade de consolo para não chorar.
–- Sim. Não quer mesmo ouvir uma história? Eu sei que você acha que são idiotas, mas são anestesiantes, confie em mim. É como se por alguns instantes, o seu próprio sofrimento parasse de existir.
Lorena não disse nada, era tão pequena e tão frágil que achei que no máximo deveria ter 8 anos, mas falava como a rebeldia de uma de 16.
–- E é como se estivesse em um mundo paralelo mais legal -- arrematei.
Jenn assentiu com a cabeça e pegou um livro.
–- Acho que você conhece a história do Peter Pan, não? -- falou ela.
–- É, conheço -- respondeu baixinho.
–- Bem, é a minha história infantil favorita. Papai lia ela para mim todos os dias e se eu fizer muito esforço, consigo quase ter a certeza que mamãe também lia -- Jenn suspirou. -- Eu não sei, mas ela sempre me cativou e espero que você entenda o porquê.
–- Tá bom, Jenny. Você é legal e bonita e me chamou de anjo.
Fiquei um pouco confuso, mas não falei nada, apenas continuei filmando. Jenn lia com calma, praticamente interpretando as vozes dos personagens e mais uma vez lá estava eu, admirado.
Quando Jenn terminou, Lorena chorava baixinho. Era tão frágil e tão pequena que eu senti um nó se formar na minha garganta, e fiz um grande esforço para não começar a chorar ali, também.
Em pequenos intervalos de tempo, ela soluçava. Ao olhar para Jenn, vi que ela enxugava as lágrimas.
–- Peter Pan não queria crescer porque significava fazer coisas de adulto, ter responsabilidades e... sofrer. Crescer significa sofrer e você é um anjo porque...
Antes que Jenn continuasse, Lorena a interrompeu, com a voz rouca e as lágrimas teimando em descer por sua face.
–- Olhe só para mim! Eu nunca vou crescer, nunca vou poder sair daquela porta para a rua e poder sorrir de felicidade! Nunca! Porque meus dias estão acabando, porque falta pouco para eu partir e eu nunca vou crescer, como ele. -- Ela soluçou, esfregando os olhos. -- Peter não queria crescer porque iria sofrer, mas e eu, Jenny? E eu? Não cresci e estou sofrendo mais do que a maioria dos adultos.
–- E-Eu não sei -- Jenn respondeu baixinho.
Jenn deitou a cabeça na cama dela, escondendo o rosto nos lençóis e chorou, e chorou, e elas choraram. E eu também chorei.
Porque o mundo era injusto, era cruel, a vida era cruel e eu me perguntei se não era uma especie de diversão de seja lá qual for a força maior do universo, que talvez fosse totalmente sádico e seu passatempo predileto fosse rir do sofrimento alheio. Do sofrimento de pequenos anjos que em pouco tempo não estariam mais entre nós.
E diante disso tudo, eu chorei.
Inevitável.
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