Frozen Heart
9 Treason
Notas iniciais
– Está ficando cada vez mais frio, não acha? – comentou Kise observando por cima da cabeça de Aomine a forte nevasca do outro lado das janelas.
– O clima daqui é estranho – bufou o moreno, apoiando o braço no peitoril da janela.
Já era de seu costume levantar cedo todas as manhãs e se sentar naquele mesmo local para observar como estava o tempo. Antigamente não via mudanças, estava a mesma de quando chegara em Arendelle, mas os pequenos flocos de neve começaram a cair discretamente pouco tempo depois de Kuroko se trancar no castelo de Akashi.
– Não costuma ser assim, não estamos na época de inverno. Deve ser alguma influência de Akashicchi.
Então tudo que acontecia no reino era culpa de Akashi, presumiu Aomine. E ele já parecia acostumado, na verdade. Desde que começara a se hospedar na casa de Kise, os dois rapazes saíam para as ruas de Arendelle no final da manhã para ouvir qualquer reclamação que a população tivesse sobre o rei e buscar acalmar a ansiedade de muitos diante dos últimos acontecimentos. Era o mesmo serviço que fazia em Corona, mas agora contava com uma companhia animada e tagarela em suas horas de trabalho.
Passava os dias em Arendelle sempre assim. Não havia muitas outras formas de diversão; ou saía para proteger o estúpido rei que estava confinado com seu amigo de infância, ou passava o dia inteiro sentado em frente à janela observando a neve cair. E ele sempre detestara ficar parado.
Pelo menos esperava que os dias de Kuroko estivessem melhores. E era uma pena perder as conversas de final de trabalho que sempre costumavam ter em Corona. Não era a mesma coisa tentar isso com Kise, uma vez que o loiro era bem mais chegado em falar do que em ouvir.
– Desculpe te arrastar para esses trabalhos todos os dias, Aominecchi – comentou Kise enquanto andavam pelas ruas cobertas de gelo em um típico horário de final de tarde.
– Não é como se eu tivesse algo melhor pra fazer – suspirou moreno. – E já estou acostumado com isso.
– Mas mesmo assim sinto que deveria te recompensar – o loiro ficou em silêncio por um tempo enquanto pensava. Até que finalmente propôs: – Ah, vamos comer na loja de Murasakibaracchi por minha conta!
Aomine concordou, mesmo que não conhecesse aquele tal Murasakibaracchi. Mas seu estômago já começava a roncar e não seria ruim comer em um lugar diferente depois do dia de trabalho. Seguiu Kise enquanto este andava animadamente na frente até o local. Pela fachada Aomine percebeu se tratar de uma loja de doces.
Assim que voltou o olhar para a frente da loja viu Midorima e Takao emergindo da porta. Seus olhos foram automaticamente atraídos para as mãos dos rapazes que estavam juntas e com seus dedos entrelaçados. Mas apenas pôde ver por um segundo, pois Midorima logo se desvencilhou da mão de Takao como se nunca a houvesse segurado inicialmente.
– Midorimacchi! – Kise o chamou animadamente. Ao contrario dele, pareceu não perceber o momento que estavam atrapalhando. – O que estava fazendo aqui com Takao?
– Viemos descansar um pouco depois do trabalho – respondeu Midorima, virando o rosto para tentar evitar que seu rosto claramente corado fosse visto. – Mas não foi de muita ajuda.
– O que está acontecendo? –perguntou Kise.
– É bom que vejam por vocês mesmos – o garoto de óculos replicou ao começar a deixar o local na frente de Takao. O menor se despediu rapidamente de Kise e Aomine antes de segui-lo.
Aomine não tinha ideia do que poderia estar acontecendo. Do lado de fora tudo parecia normal e pacato. Mas mudou de ideia quando Kise abriu a porta da loja e os dois entraram no local.
Seus olhos avistaram imediatamente uma multidão. Estavam concentrados em apenas uma parte da loja de onde ecoava uma voz alta e forte. Provavelmente alguém estava falando algo importante para eles, mas não podiam ver quem era em razão do aglomerado de pessoas.
Kise se dirigiu ao balcão onde um rapaz de mais de dois metros de altura e longo cabelo lilás encontrava-se com uma expressão cansada e entediada.
– Murasakibaracchi, o que está acontecendo?
Então aquele rapaz era o tal Murasakibaracchi. Conhecendo os apelidos de Kise ele provavelmente se chamava Murasakibara. Aomine lançou-lhe um olhar quando se aproximaram que foi devolvido pelo maior, mas sem muita curiosidade.
– Kagachin resolveu passar por aqui e parece estar falando algo importante.
– Kagamicchi? – a testa do loiro se enrugou ao ouvir o nome. – Mas o que ele está fazendo aqui?
– Não sei, fale com ele.
O moreno queria perguntar quem era aquele rapaz e o que a presença dele ali significava, mas Kise seguiu até o canto onde a multidão se aglomerava sem se preocupar em esperá-lo. Precisou abrir caminho entre as pessoas para segui-lo e encontrar-se de frente para um rapaz de sua altura e um porte físico não muito diferente do seu parecido, porém era ruivo.
– Quanto tempo, Kise – o maior chamou, porém sem se mostram muito afetuoso com o reencontro. – E esse com você...
– Aomine Daiki – o moreno respondeu imediatamente com a voz seca. A primeira impressão que tinha daquele rapaz não era muito boa.
– Por que voltou para Arendelle, Kagamicchi? – perguntou Kise antes que qualquer outro assunto fosse puxado.
O ruivo passou os dedos pelos fios desarrumados.
– Bom, ouvi dizer de algumas insatisfações com o rei de Arendelle e resolvi dar uma olhada.
– Apenas dar uma olhada?
Aomine percebia a tensão na voz do loiro ao seu lado. Não conhecia aquele rapaz, então não sabia a razão de todo aquele ar pesado que reinava no estabelecimento.
– Bem... – respondeu lentamente. – Isso depende das informações que me derem.
A multidão apresentava expressões ansiosas, como se estivessem esperando aquela discussão enfadonha terminar para poderem ouvir algo do tal Kagami. Mas a forma como o outro respondera a pergunta parecia deixar no ar que ele planejava fazer algo.
– Não se meta onde não é chamado – o moreno grunhiu asperamente dando um passo à frente. – O rei fez um tratado com a população para que não houvesse levantes, não precisamos de você aqui.
– Você que não deveria se meter onde não é chamado – Kagami retrucou com os olhos rubros brilhando ardentemente.
A intensidade daquele olhar fez Aomine perder a fala por um momento. Não era como se estivesse com medo, apenas não estava acostumado a ser rebatido daquela forma. Por muito tempo ele havia sido um dos garotos mais temidos de seu reino, não havia nenhum concorrente com a coragem de confrontá-lo.
– E por quanto tempo você acha essa paz pode durar? – o ruivo continuou com as sobrancelhas franzidas, aproveitando o silêncio. – É apenas questão de tempo até os súditos se cansarem de serem invisíveis para o rei e organizarem um levante. Estou apenas adiando as coisas.
– Se você fizer alguma coisa com o Tetsu...
– Então tem alguém importante para você lá? – o ruivo ignorou a ameaça sem se mostrar intimidado. – Que coincidência, ouvi falar que um velho conhecido estava sendo mantido refém pelo um rei louco e achei que ele poderia ficar agradecido de receber uma ajuda para se libertar.
– Refém?! Você nem sabe da história, não fale best-
Aomine parou ao sentir a mão grande e pesada em seu ombro. Pelo canto do olho percebeu o rapaz de cabelos lilás parado ao seu lado. Não se lembrava de tê-lo visto se aproximando.
– Kagachin, é melhor deixar para resolver essas coisas do lado de fora da minha loja.
Não havia imaginado que o tal Murasakibara poderia ser tão intimidador daquela forma. Incrivelmente era mais alto que ele e Kagami, o que já contribuía para dar-lhe um aspecto diferente. Mas a expressão de cansaço e o tom preguiçoso davam lugar para uma voz dura e um olhar intenso naquele momento. Os pelos do corpo de Aomine se eriçaram e sentiu um arrepio estranho em sua coluna. Tinha certeza de que Kagami também sentia aquela estranha sensação impossível de ser ignorada.
– Tudo bem, tudo bem. Não me importo do local desde que possa transmitir minhas ideias.
O ruivo fez um aceno com a mão e dirigiu um rápido olhar para o moreno ao passar ao seu lado antes de se encaminhar para a saída da loja, sendo seguido por toda a multidão que os rodeava momentos atrás. Sentia o local completamente vazio agora, com exceção da presença de Murasakibara e Kise. Mesmo com a partida de Kagami o ar ainda parecia pesado entre os três rapazes.
– Obrigado, Murasakibaracchi – o loiro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Não fiz nada de mais – respondeu o maior com o ar despreocupado e preguiçoso de sempre. – Estava cansado de tanta gente sem comprar nada por aqui. Mas é bom avisarem Kurochin e Akachin disso
Kise sorriu levemente, mas ainda parecendo distraído. Aomine o observou pelo canto do olho por um momento, mas preferiu deixar de se preocupar assim que o outro se sentou à mesa para pedir seu lanche.
Não era muito tarde quando voltaram para casa. Kise se manteve em silêncio durante todo o percurso – o que o moreno podia considerar muito estranho vindo do loiro. – e apenas dirigiu à palavra ao maior para perguntar-lhe se queria um chocolate quente que foi aceito imediatamente.
Aomine perguntava a si mesmo enquanto esperava a bebida ficar pronta o que poderia ter gerado aquela mudança em Kise. Ele estava normal durante a manhã e no trabalho. Lembrava-se de tê-lo visto mudar apenas depois de visitarem a loja de Murasakibara... Então talvez fosse aquilo.
O loiro sentou-se à mesa ao seu lado e empurrou-lhe o copo de chocolate enquanto bebericava o seu. Aomine lançava-lhe olhares sorrateiros quando levava o copo até os lábios, mas não sabia como trazer à tona aquele assunto. Kise parecia distraído o bastante para se dizer que sua mente se encontrava em outro local. Pela primeira vez desde que se vira hóspede daquele rapaz, Aomine não sabia como lhe chamar para uma conversa.
Mas acabou que não precisou se preocupar muito com esse assunto.
– Aominecchi – Kise o chamou ao colocar seu copo vazio sobre a mesa. – Sinto muito por não ter sido de muita ajuda hoje.
– Você está falando sobre a discussão com o Kagami? – sobre o que mais estaria?
Ele assentiu com a cabeça, ainda sem levantar o olhar para o outro.
– Eu pensei que conseguiria enfrentar Kagamicchi, mas meus músculos congelaram na hora e não consegui dizer uma palavra sequer depois de você entrar na discussão. Akashicchi e Kurokocchi ficariam decepcionados comigo.
Aomine suspirou pesadamente, fazendo os olhos dourados finalmente se voltarem para ele.
– Não acredito que está tão preocupado com algo assim. – Kise estreitou os olhos, certamente surpreso por não receber uma repreensão diferente. – Qual o problema de você não ter conseguido enfrentá-lo? Eu consegui e não foi muito efetivo.
Uma nova pausa para um novo suspiro ao se lembrar da cena e daquele idiota de cabelos avermelhados que lhe dava nos nervos.
– E Akashi e Tetsu não ficariam decepcionados porque não são assim, eles provavelmente entenderiam. Então pare de se preocupar.
Aquelas orbes douradas ainda não haviam se desviado de sua direção há um bom tempo. Na verdade Aomine chegava a pensar que Kise havia congelado em seu lugar, pois não mostrava nenhuma expressão diferente e nem parecia capaz de sair da posição na qual estava. Bom, ele esperaria durante alguns minutos aquele transe passar.
Mas não precisou esperar muito, pois logo foi pego de surpresa pelo corpo do loiro junto ao seu e com os braços do outro envolvendo seu pescoço em um abraço. Kise agradeceu em seu tom animado de sempre antes de soltá-lo, mas Aomine não encontrou as palavras para lhe dirigir por ainda se encontrar muito atônito diante daquele ato.
Kise anunciou com um sorriso no rosto que iria se deita e agradeceu mais uma vez antes de sair do cômodo para se dirigir ao seu quarto, deixando para trás um embaraçado Aomine tentando controlar as batidas irregulares de seu coração e esconder o rubor de suas bochechas.
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