Froot
1 Capítulo Único
Ela parou e olhou o mundo a sua volta. Tudo vazio, apesar de estar cheio. As pessoas não tinham faces ou roupas; somente sombras, silhuetas, bonecos de pano sem cor ou expressão. Ela queria desenhar algo ali, um sorriso ou até mesmo um rosto. Mas ela não podia, ela não tinha canetinhas.
Ela sabia seu destino. Sua vida foi cruel emocionalmente falando. Não tinha amor e nunca teria na vida. Estava condenada a ser ignorada, do lado de fora de algo chamado vida. Estava acostumada com isso, não tinha mais vergonha ou medo. Aceitava tudo o que era e o que isso acarretava. Havia tido inveja dos bonecos sem vida que estavam ao seu redor. Não mais.
Havia sido libertada pela última gota naquele oceano infinito de lágrimas. Não choraria mais por ninguém, nem mesmo pelo seu destino cruel. Sua vida era a de uma boneca fria, mas pelo menos ela tinha cor. Ela deslumbrante como dourado, atraente e perigosa como o vermelho, fascinante como o preto, divina como a prata. Brilhava, cintilava em meio aos bonecos sem cor. E por isso era odiada e invejada.
Mas eles não sabiam de sua história ou o que passava por sua mente. Não sabiam que era como uma fruta, que só teria uma chance, uma vida, um propósito que quando finalmente alcançado, causaria sua morte. E que ela aceitava isso.
Havia perdido sua única amiga e se sentia vazia. Ao se recuperar, viu que era necessário o que ocorreu. Se sentia livre e presa ao mesmo tempo. Tudo era um teatro e ela era a única que podia ver as cordas que moviam os bonecos. Podia ver suas próprias cordas, mas não podia cortá-las. Se ao menos pudesse alcançar aquela tesoura...
“Good things come to those who wait but I ain’t in a patient phase.”
Livin’ la doce vida
Ela parou e olhou a si mesma. Ela estava decadente. Uma estrela caindo do céu. Pelo menos iria com estilo. Era podre por dentro, como uma fruta. Havia guardado seus verões para alguém, mas não sabia para quem. E morreria com eles. Apesar de estar madura, ninguém havia a escolhido. Era odiada por suas ações e o que ela amava não a amava o suficiente. Se sentia no fundo do desespero. Observava os bonecos a sua volta; tão cheios de vida, tão felizes. Ela era a única sem rosto. A defeituosa. A que foi jogada fora. A que foi um erro de fabricação. Odiava que tudo que experimentava e via era falso. Era falsa. Amizades falsas, vidas falsas, nomes falsos, personalidades falsas. Pode escolher um, ela tem todos. Coloque uma máscara e interprete um papel. Simples assim. Mas não era isso que queria. Queria se livrar da máscara.
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