From The Edge Of The Deep Green Sea
1 That today I belong right here with you.
Notas iniciais
Enjoy!
Eu acordo gritando.
Meus pulmões ardem procurando ar, e meu corpo inteiro não para de tremer por um segundo. Minhas roupas grudam ao meu corpo, e suor escorre por minha testa, enquanto eu fito o meu quarto. Quando percebo que finalmente acordei – era só mais um dos meus pesadelos- procuro me acalmar. O que torna-se impossível, depois de reparar que o lado da minha cama está vazia.
Ouço passos vindos do corredor, rápidos e barulhentos. Penso, por segundos, que está tudo bem – Ele está aqui. Ele me ouviu gritar. Assim como no trem, ele vai me abraçar e dizer “sempre”. Quando minha mãe chega em quarto, os pequenos traços de esperança se foram. Meu peito volta a se contrair, desesperado, e eu tento manter o controle enquanto consigo. Minha mãe me olha em angustia. Quero dizer à ela que estou bem, que foi só um sonho. E por alguns minutos, quero dizer à ela alguma coisa, qualquer coisa. Quero rebater aquele olhar preocupado dela com alguma palavra de conformo. Entretanto, quando consigo fazer com que palavras saiam de minha boca, a única coisa que pergunto é por ele. Peeta.
— Mãe, onde está ele?
Ela não responde. Minha mãe senta na beira da minha cama, pegando minha mão, e procurando maneiras de não olhar nos meus olhos. Novamente, quero falar. Quero gritar com ela, perguntar porque não me responde, e o que tem de errado. Quero saber onde está Peeta, porque ele não está me abraçando e me protegendo dos pesadelos. Então eu percebo.
Acabou o Massacre Quaternário. Eu sou a vitoriosa dos vitoriosos. Peeta me salvou.
Peeta está em um cemitério no Distrito Doze, enterrado. Morto. Sem vida alguma.
Um agito quase incontrolável se estala em mim, e minha mãe percebe, porque ela chega cada vez mais perto e procura tentar me acalmar. Minha mãe quer falar alguma coisa. E quando o faz, eu não ouço o que diz. Eu estou perdida na minha cabeça, ouvindo coisas que não são reais, e querendo fugir para um mundo onde a voz de Peeta se mantém viva, onde suas mãos percorrem meu rosto, onde seus lábios estão aqui, do meu lado, formando um sorriso e logo depois me beijando, seja qual for o motivo. Seja por encenação. Seja por me amar. Seja por que, quem sabe, eu o amo.
Eu o amo.
Então, minha mãe segura com força minha mão, quando meus olhos se focalizam nos seus. Ela não diz mais nada, nem eu tento o mesmo. Percebo que nunca mais quero pronunciar palavra alguma ou sair da minha cama, já que não faz sentido porque. Eu estou tão presa na minha poça de tristeza que não procuro motivos para reagir. Minha mãe, por sua vez, ainda segura minha mão. Então, eu a enxergo, pela primeira vez.
Eu vejo que estou exatamente como minha mãe quando perdeu meu pai. Presa no próprio oceano de tristeza, sem qualquer razão aparente para se levantar e viver. Vejo também que ela segura minha mão, porque se não o fizer, ela volta para seu oceano, e me deixa morrer no meu. Então, ficamos assim: Duas mulheres fora de controle mental, distantes de um mundo que ainda está vivo. Diferente do meu pai, e diferente de Peeta. E, pela primeira vez em vida, eu percebo o quão verdadeiramente a compreendo. Assim como nossas mãos, estamos entrelaçadas num oceano de tristezas tão irremediavelmente forte que pode puxar a nós ao mesmo tempo. Minha tristeza junta-se a dela quando ela torna-se grande o bastante para suportar sozinha.
Passo alguns segundos tentando me acalmar. Demora muito mais tempo para tal ato com minha mãe do que com Peeta. Com ele, era quase instantâneo: Eu sabia que uma hora acabaria por estar imóvel, procurando me concentrar nas batidas do seu coração enquanto encostava minha cabeça no seu peito. Com minha mãe, no entanto, tenho que tentar esquecer o motivo pelo qual ela está ali me confortando: Porque não há mais quem o faça.
Tento procurar ao meu redor pontos de consolação, mas nada me ajuda: Minha mãe e sua tristeza só me lembra meu pai. As paredes brancas desse quarto não lembram em nada minha antiga casa. Não há nada para segurar caso a minha tristeza me puxe para baixo. Penso, subitamente, que eu estaria pior.
Se não fosse pelo bebê.
Agarro meu ventre com força, abraçando-o, esperando que tenha um pedaço de Peeta aqui comigo, apenas uma mínima parte do que foi o garoto do pão. Eu sei que eu o tenho. Peeta me disse. Eu posso senti-lo aqui, do meu lado, me dizendo que nossa menina é perfeita. Minha mãe percebe toda minha movimentação, e eu tento lhe dizer com o olhar tudo aquilo que não posso dizer em palavras. “Veja! Eu tenho ele comigo!” quero dizer. “A filha de Peeta está comigo! Eu ainda tenho um pedaço do garoto do pão!”. Quero ao menos dizer em voz alta que sei que é uma garota, que eu sinto isso, que eu posso vê-la. Então minha mãe agarra minha mão com mais força, e olha no fundo dos meus olhos, fazendo um gesto em negativa quase imperceptível, porém que me destrói com tudo o que tem.
Eu jamais tive um bebê de Peeta, e não me sobrou nada dele para estar comigo.
Esse é o momento de desabar com todas as forças e não voltar a levantar. O momento de me lembrar que 23 tributos morreram dessa vez. Todos com famílias, amigos, fãs. Momento de me lembrar que Peeta foi um dos últimos, saltando sobre Brutus para me manter aqui hoje. Momento de lembrar que jamais soube como Finnick Odair e Johanna Mason tiveram seus corpos enviados para seus respectivos distritos num caixão.
Eu perdi a pérola, Peeta. Eu sinto muito.
Minha respiração tornou-se mais rápida a cada choque de realidade que me invadia, quando olhei pela janela e o vi. Um pássaro negro, que me mirava tão intensamente que poderia muito bem estar planejando como me matar, ou pior, me enlouquecer mais. Ele já o fez uma vez, na arena dos últimos jogos, e sei que o fará novamente. Não como um mockingjay, pássaro que Cinna me transformou nos últimos Games, mas um Jabberjay, me espionando como se eu fosse uma rebelde, e levando informações para...
Presidente Snow.
O quarto branco onde estou, a casa onde não reconheço comodo algum. A cada enorme e macia que não me ajuda em uma noite de sono, e o fato de todos os tributos estarem mortos. O fato de Peeta estar morto, como se fosse planejado especialmente para me quebrar. Aos poucos, vou tomando consciência de tudo ao meu redor:
Eu venci o 3° Massacre Quaternário, da 75° Edição Anual dos Jogos Vorazes. Como reconhecimento a minha vitória, presidente Snow faz questão de me presentear com o Palácio do Vitorioso, construído especialmente para o Vencedor dos Vencedores, localizado na Capitol, ao lado da Mansão do Presidente Snow.
Lugar onde ele pode manter o olho em mim.
Agora, eu sou tão importante para essas pessoas quanto um líder. Quanto um presidente.Entretanto, tudo o que eu quero, agora, é um tumulo no distrito doze, onde Jabberjays não vão me espionar, onde meu corpo vai apodrecer em paz, onde Peeta estará ao meu lado..
Acordo.
Pela primeira vez em anos, acordo de um pesadelo sem emitir sons ou gritos, de maneira da qual Peeta ainda está ao meu lado, dormindo em paz. Assim como Peeta, me mantive paralisada de medo enquanto tinha sonhos horríveis. Dessa vez, nada de crianças perdidas, pessoas mutiladas, bestantes assustadores, mortes e sangue. Assim como Peeta, meus pesadelos foram sobre perdê-lo. Mesmo com o movimento de seu peito, indicado sua respiração, e mesmo com todo o ar tranquilo e sereno de Peeta, sinto me obrigada a acordá-lo. Não posso ficar aqui, olhando-o imóvel e de olhos fechados.
— Peeta. Peeta! Acorde. Preciso ver seus olhos. — Digo.
E mesmo com minha total loucura e confusão, Peeta acorda. Abre seus olhos azuis maravilhosos e foca-os em mim. E mais do que a visão daqueles olhos azuis, como se aquilo não já fosse o suficiente para queeu me levante e viva, Peeta me dá um sorriso. Um beijo. E, mesmo que não tenha dito, pude ouvir um “sempre” na minha mente. Ele está alí. Ele está vivo. Ele está me abraçando, seu coração bate, e ele está me encarando como se soubesse dos meus sonhos. Peeta está ali. Eu o amo.
— Sonhos ruins? — Ele pergunta.
Confirmo com um gesto de cabeça. Ao ter a visão de Peeta ali, inteiro, respirando, pergunto sobre ela. Quero saber se ela é real. Se está viva.
— Onde ela está? — Pergunto.
— Dormindo.
Mal o deixo completar a frase, ou expressar sua confusão, e saio em desespero do quarto. Preciso encontrá-la. Penso que, em meu pesadelo quase real, Prim não esteve presente em nenhuma parte dele. Penso que tinha consciencia disso. Preciso encontrar minha irmã. Preciso ir em seu quarto, ver se ela dorme bem, e chamá-la de Patinho.
Eu só me lembrei da morte da minha irmãzinha quando entrei no quarto ao lado e tive uma visão tão preciosa quanto minha Prim.
Minha filha dormia num berço, de barriga para cima, quase como se soubesse que receberia visitas durante a noite. Linda, de uma maneira da qual não posso expressar. Minha pequena garota — Mais importante, o bebê de Peeta — dormia tranquilamente, num mundo onde eu sei que não haveria fome para desesperá-la. Jabberjays para espioná-la. Jogos para matá-la.
Peeta então surge no quarto, pondo suas mãos em meu ombro e beijando meu pescoço. Ele a olha com tanto amor que sei que não poderia esperar mais para tê-la, fazendo me arrepender por tanto tempo de medo da maternidade. Peeta vela por nossa filha, como aquele velho Buttercup velava por Prim nas noites. Peeta está ali, segurando minha mão, vendo a respiração acelerada da nossa bebêzinha e esperando passar por seus olhos momento em que nossa filha vai estar grande o suficiente para andar sozinha.
E não há mais o que abominar, uma vez que eu sei, que Peeta jamais vai soltar da minha mão.
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